
No imenso e gélido salão do Imperador, Lilith corria livremente. Ela atravessou a impenetrável barreira vermelha com a facilidade de quem cruza a porta de casa e saltou em direção à escuridão. Mãos sombrias e colossais a ampararam no ar, acomodando-a com uma delicadeza que contrastava com sua aparência aterrorizante. O rosto da entidade permanecia oculto nas trevas.
— Papai, senti tanta saudade! — exclamou Lilith, aninhando-se. — Você não sabe como é solitário lá fora.
A voz que respondeu era imponente, grossa e ecoava pelas paredes de pedra, mas carregava um tom inegavelmente afetuoso enquanto as mãos sombrias faziam um cafuné lento nos cabelos azuis da garota.
— É mesmo, minha filha?
— Sim, sim! Mas conheci um homem que eu adorei. Ele vai ser meu novo melhor amigo! O nome dele é Alexandre, é o cara que todos falaram que virou comandante.
A sombra interrompeu o cafuné por uma fração de segundo, mas logo abriu um sorriso invisível nas trevas.
— Entendo. De fato, esse homem deve ser bem especial, não é?
— Sim! Apesar de ele não se comparar nem de longe à perfeição que o senhor é, papai, ele consegue ser aceitável. Acha que devo confiar nele?
As mãos gigantes voltaram a acariciar a garota, embalando-a num passeio suave pela penumbra da sala.
— Se ele é digno da sua confiança, quem deve decidir isso é você. Filha, sei que a eduquei sob minhas asas por muito tempo, mas está na hora de crescer um pouco, não acha?
Lilith ergueu o rosto, os olhos brilhando.
— Sério, pai? Acha que estou pronta?
— Sim. E também percebi que você desativou sua barreira pessoal ao se aproximar de mim, como de costume.
A mão sombria a colocou no chão com extremo cuidado.
— Claro, papai! Com você eu me sinto super segura. Afinal, você cuidou de mim depois de tudo, me ensinou o que sei e me deu liberdade. O mínimo que posso fazer é te ajudar com sua causa. Acho muito injusto você ter que ficar preso aqui.
— Paciência, minha querida. O papai está resolvendo alguns assuntos importantes. Enquanto isso, seja uma boa menina lá fora.
— Sim, papai! Eu serei, só para poder te ver de novo bem rápido!
Enquanto isso, nas ruas de paralelepípedos do castelo, Alexandre caminhava lado a lado com Sanstone. Sua mente, no entanto, estava a quilômetros dali.
“Onde eu vou encontrar essa pessoa? Ela está praticamente foragida agora”, pensava ele.
Subitamente, uma ideia brilhou em sua mente. Alexandre parou e virou-se para a Vice-Comandante.
— Sans, preciso que você cuide de algumas coisas no quartel, estarei fora por um tempo.
Sanstone nem sequer diminuiu o passo. Lançou-lhe um olhar de soslaio, cortante como gelo.
— Deixe-me adivinhar: vai resolver as "coisinhas" daquela Primeira-Ministra? Sei, sei. Saia da minha frente, vou continuar o treinamento das tropas.
Ela apertou o passo, deixando-o para trás. Alexandre suspirou, mudando de direção.
“Me desculpe, Sans, mas preciso fazer isso para descobrir a verdade.”
Ele marchou em direção às docas do castelo. O local estava um caos organizado: bestas de todas as formas empurravam-se para embarcar nos navios, enquanto guardas humanos formavam um perímetro para afastar os civis curiosos. Usando sua autoridade como Comandante, Alexandre cruzou o bloqueio sem ser questionado.
Perto do maior navio, Jacó supervisionava o embarque. Ao notar a aproximação, ele virou lentamente.
— Veio me dar adeus antes do nosso próximo encontro, Comandante? Fico lisonjeado.
— Na verdade, não — Alexandre foi direto ao ponto. — Gostaria de saber se Las Platas está com vocês.
Jacó fechou os olhos por um instante, a expressão indiferente.
— Ela não está mais conosco. A falha dela teve... um preço.
— Vocês a mataram? — A mão de Alexandre instintivamente fechou.
— Não. Ela mesma cobrou esse preço e fugiu. Sendo sincero, o que o Leônidas fez a matou por dentro.
— Sabe onde ela está?
— Não. Mas a única pista que você encontrará está na segunda ala médica do coliseu. O sangue dela ainda deve estar fresco. Eu até poderia rastreá-la, mas ela não é mais da minha conta.
Um lobo de armadura aproximou-se, prestando continência.
— Já embarcaram todos, chefia.
Jacó bateu duas vezes no casco do navio para sinalizar a partida, restando apenas uma balsa menor ancorada.
— Podem ir, eu vou com o Rei. Bem, senhor Comandante, foi um imenso prazer conhecê-lo. Espero que, no futuro, nos encontremos em situações mais... "convenientes".
Jacó apertou a mão de Alexandre e caminhou até o barco. Enquanto a embarcação zarpava, o crocodilo tocou o livro em seu bolso e pensou, com um sorriso cínico:
“Esse garoto quer desenterrar um dos maiores segredos do reino para derrubar o sistema com uma revolução. Quero estar vivo para ver isso.”
Alexandre não perdeu tempo e correu até a ala médica do Coliseu. O local estava silencioso. No chão de pedra, gotas de sangue formavam uma trilha irregular. Ao observar as manchas, a mente tática de Alexandre decifrou a cena:
Ela teve dificuldade para levantar, provavelmente caiu pela perda excessiva de sangue, e se arrastou.
Ele seguiu o rastro pelos corredores internos e escuros do anfiteatro. Móveis tombados indicavam que alguem havia fugido às pressas de outra pessoa, mas não era ela. A trilha terminava perto das arquibancadas que haviam sido ocupadas pelos mortos-vivos.
Ao notar um pequeno buraco na estrutura de pedra, Alexandre aproximou o rosto para espiar.
Uma longa lâmina Dourada disparou da escuridão, passando a milímetros de seu olho. Antes que pudesse recuar, uma mão o agarrou pelo colarinho e o puxou com violência para dentro da arquibancada. Os dois rolaram até o centro do corredor escuro.
Alexandre ergueu os olhos e viu Las Platas, vestindo apenas sua cota de malha manchada de sangue, apontando a espada longa diretamente para sua garganta.
— O que você quer, escravo do sistema? — rosnou ela, arfando.
Alexandre ergueu as mãos em sinal de rendição, notando os ferimentos dela.
— Seu nome é Las Platas, correto? Me chamo Alexandre e…
— Não ligo para quem você é. Por que veio atrás de mim? Versão curta.
Alexandre suspirou, impressionado com o quão parecida com Sanstone ela conseguia ser sob pressão.
— Sanstone.
A resposta desarmou Las Platas. Ela abriu a boca, levemente surpresa, e abaixou a espada com um clique seco ao guardá-la na bainha.
— Está querendo saber sobre ela, não é?
— Em partes. Mas meu foco principal é entender o clã.
Las Platas olhou ao redor, os sentidos em alerta.
— Aqui não é seguro. Vamos para um lugar menos movimentado.
Ela fez um selo com os dedos em formato de "I". No instante seguinte, seu corpo dissolveu-se no ar. Alexandre arregalou os olhos, perplexo.
— Só estou invisível — a voz dela ecoou ao lado dele. — Me encontre na casa abandonada.
Observando a poeira no chão se levantar levemente com os passos invisíveis dela, Alexandre pensou, intrigado:
“Ela domina magia de ocultação... Quem sabe eu não consiga aprender alguns truques com ela.”
Chegando à casa abandonada, Alexandre ordenou que seus soldados fizessem a guarda externa, garantindo que ninguém se aproximasse ele não queria ser incomodado. Ao entrar na sala empoeirada e fechar a porta, o feitiço de invisibilidade se desfez, revelando Las Platas escorada na parede.
— Atrasado.
Alexandre puxou uma velha cadeira de madeira e sentou-se, relaxando os ombros.
— Faz parte. Estava me certificando de que ninguém vai nos espionar dessa vez.
— Não são esses peões lá fora que vão impedir isso. Enfim, o que quer saber? Só aceitei essa conversa porque te conheço.
— Me conhece? — Alexandre inclinou-se para frente. — Agora estou mais curioso. De onde?
Las Platas soltou um suspiro exausto e sentou-se na cadeira à frente dele, colocando a mão sobre um dos ferimentos nas costelas.
— Há muito tempo, os Stones já monitoravam seu pai. O próprio Leônidas reconhecia o absurdo da habilidade dele em combate. No entanto, preso às amarras da hierarquia do exército, Leônidas não podia promovê-lo ao topo porque já havia alguém nesse cargo, então o colocou no cargo mais alto possível para um soldado sem nome: a Elite, logo abaixo dos Longinus.
A revelação atingiu Alexandre como um soco.
— Por que meu pai nunca me contou isso? Nas cartas, ele sempre foi tão humilde... parecia apenas mais um na infantaria.
— Como eu ia dizendo — continuou ela, ignorando a interrupção —, seu pai reinventou o combate de linha de frente. Poucos ousaram adotar a técnica dele de usar uma espada curta e mão livre. Era letal, arriscado e complicada. O clã Stone me incumbiu de ficar de olho no filho dele. Sim, meu trabalho, desde criança, era espionar você. E cuidar da Sans.
— Espere, você me espionava o tempo todo? Quer dizer que... eu e a Sans estávamos destinados desde pequenos?
Las Platas riu, um som seco e decepcionado. Ela apoiou a cabeça na mão.
— Você e ela? Nem nos seus melhores sonhos. Você era monitorado para ser, no máximo, um guarda-costas leal para ela ou um cão de caça da realeza. Nem era para você ter virado Comandante. Só conseguiu o posto porque a Sans estava psicologicamente destruída no dia do teste.
— Destruída? O que abalou a Sans a ponto de afetar o desempenho dela?
— Eu não sei ao certo, isso não é de hoje. Sanstone carrega o peso do mundo. O nome Stone nas costas... e a sombra do pai esmagando os ombros dela.
Alexandre recostou-se, juntando as peças.
— É verdade. Mas ainda não entendo o motivo de ela ter gritado para o pai que ele nunca foi amoroso.
Las Platas ergueu os olhos, a curiosidade despertando.
— Espera, o que exatamente a Sans disse?
— Que o pai nunca teve amor pela mãe dela. Por quê?
— Estranho. Durante a infância, eu sempre achei que Leônidas fosse um homem bom... Até descobrir a verdadeira face dele. O dia em que ele deixou minha família inteira ser massacrada naquela ponte.
— Sua família morreu lá?
— Sim — a voz de Las Platas tremeu, mas seus olhos endureceram. — Na Grande Guerra, teve uma batalha que foi a pior de todas, chamada a batalha da ponte, meu clã inteiro foi obliterado. Pais, irmãos, todos. Não me sobrou nada e ninguém me acolheu, nem no dia do enterro deles. Na noite em que busquei abrigo com a Sanstone, nós lutamos. Ela me derrotou e me chutou para fora de casa com um olhar vazio. Ela era outra pessoa. Não sei que lavagem cerebral ela sofreu, mas aquela não era ela.
Alexandre levou a mão ao queixo, a mente trabalhando rápido.
— Eu tenho uma suspeita. E se a Sanstone for mantida refém emocional pelo próprio pai? Obrigada a ser a filha perfeita e implacável para o cargo?
— Uma boneca de porcelana — concluiu Las Platas.
— Exatamente. Mas por que o clã Stone é tão intocável? Fico incrédulo que o Imperador nunca tenha investigado as atitudes deles.
Las Platas relaxou um pouco na cadeira, o olhar amaciando ao ver a frustração genuína no rapaz.
— Você e eu somos órfãos de guerra, Alexandre. Quando soube da história da sua família, fiquei surpresa por você ter sobrevivido sozinho, assim como eu. E mais: você derrotou a Sans no exame. Sim, ela estava se contendo e debilitada emocionalmente, mas…
— Ei, não tira o meu mérito! — Alexandre sorriu de canto. — Mas, Valentina... por que você não volta para o império? Me ajude a corrigir essas injustiças por dentro.
Ele estendeu a mão para ela. Las Platas olhou para a mão estendida com ceticismo.
— O que eu ganho ajudando você? Eu sei muito bem como a podridão deste império funciona.
— Meu compromisso é com o povo, Valentina, não contra ele. Se eu fosse apenas um cão do governo, já teria te capturado agora mesmo. Além disso, sei que suas intenções não são ruins.
Valentina o encarou por um longo tempo antes de soltar uma gargalhada genuína.
— Hahaha! Você? Me capturar? Que piada! Você mal deu conta da Sanstone debilitada, imagina lutar comigo num combate real. Até parece!
Alexandre percebeu a brecha no ego dela.
— Já sei. O que acha de uma aposta? Se você me vencer, me torno sua espada, colocando toda a minha influência militar a seu favor. Mas, se eu ganhar, você se torna minha subordinada direta e fará exatamente o que eu mandar. O que acha?
A mente tática de Valentina girou.
“Se eu derrotar ele em um combate corpo a corpo, terei um Comandante fantoche. Poderei me vingar do sistema e dos Stones. É o plano perfeito... Além disso, — ela o avaliou de cima a baixo — ele é certinho. Não vai tentar me passar a perna, e seria um bom partido para restaurar a linhagem do meu clã no futuro. Ele não tem a menor chance de me vencer no mano a mano.”
Confiante, Las Platas levantou-se e repousou a mão no cabo da espada.
— Eu aceito os termos do duelo, Senhor Alexandre. Mas quero que seja um combate físico no Coliseu. Amanhã à noite.
Alexandre sorriu, calmo e inabalável.
— Fechado.
Com o mesmo selo de dedos, Las Platas desapareceu no ar.
Alexandre saiu da casa, dispensando os guardas — que o olharam com desconfiança, mas obedeceram. Enquanto caminhava de volta ao quartel, o peso da situação começou a cair sobre seus ombros. Ao virar um corredor, avistou Sanstone vindo em sua direção, a expressão carregada de uma tempestade iminente.
O pânico o atingiu. Alexandre deu meia-volta rapidamente, dobrando outra esquina.
“O que eu estou fazendo? Parece até que cometi um crime para estar fugindo dela assim!”
Ele deu uma volta enorme apenas para chegar à própria sala sem ser visto. Trancou a porta, jogou-se na cadeira e soltou um longo suspiro.
“Paz, finalmente. Certo, vejamos: Las Platas vai lutar comigo amanhã. Eu só a vi lutar uma vez no Coliseu, e foi um massacre, então a informação é inútil. Mas ela está sem armadura...”
Seus pensamentos foram interrompidos quando a porta se abriu de supetão. Marcos e Laura entraram.
Alexandre, ainda com a cabeça nas nuvens, disparou:
— Sans, me desculpe!
Marcos e Laura congelaram na porta. Alexandre também travou, percebendo o que acabara de gritar.
— O-o que vocês estão fazendo aqui? É tarde.
Marcos abriu um sorriso convencido e apontou para o amigo.
— Não mude de assunto. Nós aceitamos as suas desculpas, mas, por favor, não me confunda com a carrancuda da sua namorada.
Laura cobriu a boca, rindo, e sentou-se no sofá do escritório.
— Poxa, Comandante. Foi mal invadir, mas sabia que sair sorrateiramente à noite é super suspeito? Isso pode te dar uma dor de cabeça enorme.
Alexandre colocou os pés sobre a mesa e inclinou a cadeira para trás, tentando recuperar a pose de chefe.
— Estava fazendo uma investigação, afinal, a Sargenta responsável por proteger a base não conseguiu fazer o próprio trabalho. Mas, digam logo: agora que paramos com as farpas, o que querem?
Laura murchou no sofá, ressentida por ter perdido no argumento, enquanto Marcos tomava a palavra com naturalidade:
— Hoje a Sans ouviu de um soldado que você estava rondando a casa abandonada. Então, ela ordenou que as tropas ficassem de vigia em você. Isso inclui a gente.
Alexandre quase caiu da cadeira.
— Se a Sanstone ordenou isso, por que diabos você está me contando?!
Marcos sentou-se ao lado de Laura.
— Porque eu sou seu amigo, Alê. E seu guarda-costas. Minha função é te proteger. Eu sei quem você é e sei que, seja lá o que estava fazendo, é por uma boa causa.
Alexandre sentiu um nó na garganta, genuinamente comovido pela lealdade bruta do amigo.
— Muito obrigado, Marcos. Nem sei como retribuir isso.
Marcos abriu um sorriso.
— Fácil! Poderia dar permissão oficial para eu e a Laura darmos uns amassos de novo? O que acha?
Alexandre piscou, confuso.
— Por quê? Vocês foram proibidos?
Laura virou o rosto, a voz carregada de uma tristeza cômica.
— É que, por causa do estresse de hoje, a Sans não me perdoou pelo incidente no Coliseu. Ela estendeu minha punição. Disse que eu e o Marcos não podíamos mais fazer aquilo, e que, se ela nos pegasse, ia arrancar o "brinquedo" dele.
Alexandre arregalou os olhos, escandalizado.
— Como assim?! Isso é um absurdo, abuso de poder! Eu vou falar com ela agora mesmo.
Laura tentou segurá-lo, mas Marcos a impediu, deixando o Comandante sair marchando pelo corredor.
“Ela está descontrolada! Descontando a raiva nos outros!”, pensava Alexandre, fervendo de indignação.
Ele abriu a porta do escritório da Vice-Comandante sem bater. Sanstone estava sentada à mesa, o rosto apoiado nas mãos, imersa em pensamentos sombrios.
— Ainda bem que chegou — disse ela, sem erguer os olhos. — Meus informantes são ótimos.
Alexandre fechou a porta com força e jogou-se no sofá luxuoso.
— Não pense que vai se safar fazendo aquilo com a Laura. Você está descontando a sua raiva nos nossos subordinados!
Sanstone manteve a pose fria, a voz gélida.
— E por que você está tão nervoso? Ela é minha subordinada direta, não sua.
Alexandre inclinou-se para frente.
— Sendo sua subordinada ou não, ela merece respeito. isso é tortura…
— Você sabe muito bem por que a puni — interrompeu Sanstone. — Não fiz por capricho. Ela abandonou o posto durante uma crise e quase causou um incidente diplomático com a Primeira-Ministra!
— Você está realmente preocupada com o julgamento da Primeira-Ministra? — rebateu Alexandre. — Esqueceu o que o seu pai disse? A Lilith estava contente, e a Laura foi perdoada!
Sanstone revirou os olhos com escárnio.
— Que interessante. Mas o perdão daquela garotinha mimada não apaga o fato de que eu não a perdoei. A disciplina militar exige consequências, e se me lembro bem, você tambem precisa disciplinar aqueles brutamontes.
Alexandre levantou-se, apoiou as duas mãos sobre a mesa e inclinou-se até o rosto ficar a centímetros do dela. A voz dele caiu para um sussurro firme:
— Você está realmente fazendo isso pela disciplina? Ou é por ciúmes? Seja sincera, Sans.
Os olhos de Sanstone não vacilaram, mas a temperatura da sala pareceu cair.
— Você não sabe nada sobre mim, Alexandre. Eu deveria te desafiar e tomar o seu lugar. Começo a achar que o resultado daquele teste foi forjado.
O peso daquelas palavras quebrou a postura de Alexandre. Ele recuou, a decepção estampada no rosto. Caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.
— Pelo jeito, você está se tornando exatamente o que o seu pai quer que você seja. Continue assim, está indo muito bem.
A porta se fechou. Sozinha na sala, a máscara de Sanstone trincou. Ela apoiou a testa nas mãos e sussurrou, a voz embargada:
— Idiota…
No corredor, Alexandre massageava as têmporas, a mente num turbilhão.
“Ela perdeu o controle. Como eu resolvo isso? Se eu vencer a Valentina amanhã, ela vai vir morar no quartel como minha lacaia. A Sans vai surtar de vez, achando que estou de caso com a prima dela! Espera... é só pedir para a Valentina ser minha lacaia fora do castelo.”
Mais calmo, ele tomou uma decisão.
“Vou treinar a noite inteira. Preciso derrotar a Valentina com um golpe tão cirúrgico que ela nunca mais ouse me subestimar. Tenho que ganhar o respeito dela, igual o Leônidas fez.”
Ele marchou para o pátio de treinamento. Ignorando os olhares curiosos de algumas Valquírias que faziam a guarda noturna, Alexandre pegou sua espada e parou diante de um boneco de palha.
“Ela é muito rápida. O oposto da Sans. Vai focar na ofensiva total. Preciso contra-atacar no tempo perfeito.”
Ele desferiu um golpe veloz, parando a lâmina de madeira a um milímetro do "pescoço" do boneco.
“Mas e se ela não desistir mesmo após ser desarmada?”
Ele ficou minutos encarando o alvo, imóvel como uma estátua, o olhar afiado calculando dezenas de cenários. Os soldados observavam, abismados com a concentração absoluta do Comandante. Subitamente, Alexandre guardou a espada na bainha, virou as costas e voltou para seus aposentos sem dizer uma palavra.
Os recrutas se entreolharam, confusos. Quando um deles se aproximou para arrumar o boneco de treino, o alvo de palha que estava amarrado ao centro simplesmente escorregou e caiu no chão. As cordas haviam sido cortadas com uma precisão cirúrgica em um único movimento imperceptível.
De volta ao quarto, Alexandre estava deitado de pijama, exausto, quando ouviu batidas na porta. Eram Marcos e Laura.
— E aí, ela liberou? — perguntou a Sargenta, com os olhinhos brilhando de esperança.
Alexandre balançou a cabeça.
— Não. Ela está cega de raiva com a história da Primeira-Ministra. Colocou na cabeça que temos algo, e o Leônidas só jogou lenha na fogueira. Ela está tão nervosa que não escuta a razão.
Marcos cruzou os braços, indignado.
— Como assim ela não te ouve? Você é o Comandante! Cadê a sua dominância, Alexandre? Mostra quem manda!
— Não é assim que as coisas funcionam, Marcos — suspirou Alexandre. — A Vice-Comandante tem autoridade sobre as punições da tropa, desde que estejam dentro da lei. A Laura cometeu uma infração real. Ela só não foi jogada numa cela militar porque a Primeira-Ministra a perdoou.
Laura encolheu os ombros, o rosto vermelho de vergonha.
— Eu não podia deixar o Marcos morrer lá embaixo…
— E fez bem — Alexandre sorriu com empatia. — Mas, Laura, somos oficiais. As leis se aplicam a nós. Isso aqui não é um conto de fadas. Ainda nem acredito que a Lilith inventou aquele torneio só para dar um showzinho político e mentiu sobre nossos cargos estarem em jogo.
Marcos riu, relaxando.
— Verdade! Eu até fiquei surpreso por não ter sido demitido depois de apanhar daquela lagartixa. Aliás... fico me perguntando como ele está agora.
No Reino das Bestas, a umidade do porão de pedra era sufocante. Jacó estava pendurado pelas mãos, acorrentado ao teto. Sua expressão, no entanto, era de um tédio profundo.
O Rei Leonardo andava em círculos ao redor dele.
— Deixem-nos a sós. Quero conversar — ordenou o felino gigante.
O soldado lobo que havia terminado de prender as correntes sussurrou no ouvido de jaco antes de sair:
— Desculpe, Comandante.
— Fica frio, garoto — respondeu Jacó, sem alterar o tom.
Quando a pesada porta de ferro se fechou, Jacó olhou para o Rei.
— Então, vai fazer o que? Me punir por vencer?
— Vencer? — rosnou Leonardo. — Aquilo foi um empate humilhante! Você não o matou! Sua insolência nos fez de piada na frente daquela pirralha humana. Eu deveria te jogar para os crocodilos do poço!
Jacó bocejou.
— Jogue. Aposto que posso ensinar alguns truques novos a eles.
Leonardo soltou uma risada rascante, parando de andar.
— Não acredito que você seja tão insolente a ponto de zombar na minha cara enquanto está acorrentado. Você realmente não tem medo de morrer?
— Majestade, seu pai não era muito diferente de você. Eu me acostumei com o temperamento real — rebateu Jacó, o sarcasmo pingando de cada palavra. — Além disso, meu próprio pai era um Vice-Comandante. Ele me ensinou na marra o que é o verdadeiro medo, então o seu não me impressiona.
Leonardo voltou a andar pelas trevas do porão, mantendo distância do crocodilo iluminado apenas por uma tocha.
— Ah, sim. Seu pai. Um homem muito... complicado. Mas ele fazia o trabalho sujo de forma correta, diferente de você.
— Está duvidando da minha eficiência? — Jacó ergueu uma sobrancelha. — Se puxar os registros, verá que ultrapassei o número de execuções e missões de sucesso dele em menos da metade do tempo.
— Oh, não, Jacó. Eu te mantenho a sete chaves porque você é minha melhor lâmina. Mas acho que você poderia ter herdado do seu pai o lado mais... selvagem.
— Eu me recuso.
Leonardo parou.
— Calma. Você não quer que eu te dê uma recompensa por seus anos de serviço? Tenho algo muito mais valioso que ouro ou patentes.
— E o que seria?
O Rei sorriu, as presas brilhando na penumbra.
— E se eu disser que posso pedir a um "amigo" para reviver sua mãe e seus irmãos? Vocês poderiam ser uma família feliz de novo. Além disso, posso te dar um harém de fêmeas. Tem uma fila delas querendo o gene do Grande Jacó, sabia?
A expressão de Jacó não mudou. Seus olhos continuaram apáticos, o que causou um leve desconforto em Leonardo.
— O discurso das recompensas já acabou? Porque meu interesse continua zero.
Enfurecido pela rejeição, Leonardo sacou a espada e, com um movimento de pura força bruta, cortou as grossas correntes de ferro como se fossem papel. Jacó caiu de joelhos no chão de pedra, massageando os pulsos, mas não tentou se levantar.
— Por que você odeia tanto o seu pai, Jacó?! — rugiu Leonardo. — Por que não aceita nada do que eu ofereço?! Qual é o seu problema?! Serei forçado a descartar meu melhor Comandante porque ele é um quebrado que não sabe o que quer?!
Jacó ergueu a cabeça, mantendo-se ajoelhado numa reverência quase zombeteira.
— Ele foi a única pessoa cujo assassinato eu cometi por conta própria, e assumo com orgulho. Todas as outras vidas que tirei foram ordens. Nos olhos das bestas, meu pai era a glória encarnada. Mas dentro de casa, não passava de carcaça. Isso, claro, nas raras vezes em que voltava, afinal, o "grande herói" precisava espalhar seu gene por aí.
A voz de Jacó ficou mais fria, carregada de uma memória sombria.
— Mas traição não foi o suficiente para ele. Um dia, enquanto minha mãe preparava o jantar, ele teve um de seus acessos de raiva. Ele pegou a cabeça dela e a esmagou contra a parede de pedra, repetidas vezes, até a morte comigo assistindo no canto da sala.
Ele me ensinou naquele dia como abater uma presa sem chance de defesa. Eu gravei a lição. Então, naquela mesma noite, enquanto ele dormia…
— Você reuniu seus irmãos — completou Leonardo, conhecendo a lenda. — E o esfaqueou nas costas. Meu pai me contava essa história. Ele achava um golpe de gênio você ter sujado as lâminas nas próprias fezes para garantir que, caso ele fugisse, a infecção o mataria aos poucos.
— Eu queria ter certeza absoluta — murmurou Jacó. — Os médicos do rei levaram horas apenas para limpar a podridão do corpo dele antes do enterro. Porém, mesmo depois da minha vingança... o que sobrou pra mim? Nada. Matar meu pai não trouxe minha mãe de volta. E se trouxesse, ela não seria a mesma. Eu sei muito bem o que é necromancia majestade.
Jacó levantou-se lentamente, encarando o Rei de igual para igual.
— Aquela caveira está usando a sua raiva para os próprios fins. Você sabe que ele já possui o exército de todos que morreram na Grande Guerra. Reviver minha família só os tornaria fantoches dele para usar em momentos oportunos ou serem espiões.
Leonardo embainhou a espada, o tom caindo para uma confidência perigosa.
— Jacó, eu sei o quanto você desconfia dele. Eu também desconfio. Mas meu pai me revelou a fraqueza absoluta dos mortos-vivos.
Jacó estreitou os olhos.
— Fraqueza? Por que nunca me contou isso em todos esses anos de guerra?
— Porque, na época, não tínhamos como usar isso a nosso favor. Estávamos do lado "errado" do tabuleiro e meu pai assim como você estava cego pelo imperador. Os mortos podem ser obliterados por energia sagrada. Sabia disso?
Jacó suspirou, esfregando o rosto, decepcionado com o anticlímax.
— Você me trancou aqui para dizer o óbvio? Eu leio livros, Majestade. Eu sei sobre a l—
— E os Espíritos são as entidades imbuídas de energia pura! — interrompeu Leonardo, os olhos brilhando com uma ambição maníaca. — Meu pai queria a chave do Reino dos Espíritos para varrer o incômodo dos Demônios da face da terra. Ele sabia que o poder de Salocin estava crescendo fora de controle. Mas ele não podia atacar os mortos diretamente. Então, para ganhar tempo e mascarar seus movimentos, ele se aliou aos Demônios na grande guerra contra os humanos e forjou aquelas batalhas sangrentas contra eles.
Jacó travou. Flashbacks da infame Batalha da Ponte inundaram sua mente. O sangue. Os corpos da família de Las Platas. A luta desesperada contra Leônidas.
O crocodilo olhou para o seu Rei, a voz perdendo o tom cínico pela primeira vez.
— Então... aquela batalha... foi apenas... Isso muda tudo!