
Após ler o conteúdo do pergaminho, Alexandre pegou algumas folhas em branco e debruçou-se sobre a mesa, começando a passar a limpo as informações cruciais. Enquanto ele trabalhava em silêncio, do lado de fora da casa, Sanstone caminhava a passos lentos e calculados. Assim que ela fechou a porta da frente, um dos soldados da patrulha se aproximou rapidamente e bateu continência.
— Vice-Comandante, relatório sobre o ocorrido: não encontramos ninguém, mesmo cobrindo todo o perímetro.
Sanstone fechou levemente os olhos, suspirando de forma quase inaudível, e murmurou:
— Las Platas.
Ela caminhou até o local onde estava o corte de espada e tocou no chão, sondando o ambiente. O som de passos apressados ecoou pela rua; Laura e Marcos vinham correndo.
— Nós viemos assim que pudemos, Sans! — anunciou Laura, ofegante.
Marcos olhou de Sanstone para o chão rachado e perguntou, com os olhos semicerrados:
— Você bateu no Alê de novo?
Ao ouvir isso, Laura deu uma cotovelada nas costelas de Marcos para que ele diminuísse o tom. Sanstone apenas ignorou a provocação e declarou de forma fria:
— Não. Apenas sei que minha prima está por aqui e tentou assassinar Alexandre. Laura, verifique rastros de magia. Tenho quase certeza de que Las Platas estava usando um feitiço de invisibilidade.
Os olhos de Laura brilharam com um tom esverdeado enquanto ela rastreava as assinaturas arcanas na cena.
— Você está treinando sua afinidade mágica, Sans? Porque identificar magia assim, sem usar os olhos apurados, é algo surpreendente.
Ainda de braços cruzados, a Sanstone retrucou:
— Eu estou apenas me certificando de ficar mais forte. Aquela luta no coliseu, mexeu comigo.
Laura apontou para um beco escuro e começou a caminhar naquela direção. Sanstone fez menção de segui-la, mas parou e virou-se para Marcos:
— Espere Laura. Marcos, fique aqui e seja o guarda-costas de Alexandre. Impeça que ele morra. E lembre-se: se encontrar Las Platas, não lute sozinho! Ela é uma duelista nata, tem muita experiência em combates mano a mano. Fique perto do Alexandre; ela terá muita dificuldade em atacar vocês dois juntos.
Marcos fez uma careta emburrada, mas logo assentiu, caminhando até a casa de Alexandre para assumir seu posto dentro da casa. Com a retaguarda garantida, Sanstone correu junto com Laura seguindo o rastro.
Enquanto isso, Las Platas, que corria exausta pela cidade, finalmente alcançou o coliseu. Desativando sua invisibilidade e esgueirou-se para dentro de uma das celas vazias, aproveitando o breu da madrugada. Deixou-se cair sobre uma velha cadeira de madeira, respirando pesadamente.
— Nossa, foi por pouco... — sussurrou para si mesma. — Estou esgotada. Ser furtiva gasta muita energia.
De repente, os instintos de Valentina apitaram. Ela sentiu uma presença no escuro.
— Veio me matar, querida?
Las Platas sacou sua espada longa rapidamente e apontou para as sombras e tentou atacar a parede. Jade emergiu da escuridão, esquivando-se do golpe facilmente e desferindo um chute rasteiro que empurrou Valentina para trás.
— Realmente, você está bem frágil — zombou Jade —, mas não vim aqui para matar você.
Las Platas, com uma das mãos pressionando as costelas doloridas e a outra empunhando a espada de forma desengonçada, tentou se manter em guarda.
— P-por que eu deveria confiar em você?
Jade começou a andar de um lado para o outro, a voz pingando cinismo:
— Por quê? Porque você não tem para onde ir, queridinha. Será presa e torturada. Deserção dá pena de morte, sabia?
Apoiando-se na determinação, Valentina engoliu a dor no estômago e rebateu:
— E o que você sabe de mim, víbora? Se era só isso que tinha pra dizer, pode ir. — Ela cuspiu no chão com nojo. — Volta pro seu irmão. Você beija tanto a sombra dele... e avisa que eu ainda vou matá-lo.
Jade deu uma risada sádica e disparou contra a garota com uma agilidade impressionante.
— Você não tem chance contra mim.
A camaleoa surgiu no ponto cego de Valentina, desferindo um soco brutal direto em seu rosto que a arremessou contra a parede de pedra. Las Platas escorou-se nos tijolos frios, sentindo a visão turvar e o sangue escorrer pela testa.
— "Bosta, eu tô morrendo e estou esgotada, mas eu..."
Por um instante, ao olhar ao redor, Valentina percebeu que aquela era a mesma sala onde havia conversado com Alexandre horas antes. As lembranças das provocações e do trato que fizeram aqueceram seu peito.
— "Esse homem foi quem coloriu minha vida novamente. Não quero morrer aqui. Eu quero viver com ele."
Quando Jade avançou para o golpe final, surpreendeu-se ao ver Las Platas mudar a postura, empunhando a espada firmemente com as duas mãos e fechando os olhos.
— O quê? Por que está de olhos fechados?! — questionou a espiã.
— Eu não vou morrer aqui para uma piranha como você — declarou Valentina. — Eu tenho muitas coisas para fazer... e alguém para proteger.
Las Platas investiu com tudo. Jade esquivou facilmente, notando que o golpe passou reto e abriu uma fenda funda no chão. Com seus reflexos , a camaleoa acertou outro soco no rosto de Valentina, quebrando seu equilíbrio.
Quando Jade se preparou para finalizar, Las Platas fincou seu salto de aço no chão e impulsionou o corpo para frente, desferindo um soco desesperado que acertou no queixo de Jade, lançando-a contra a parede oposta.
Com os braços trêmulos e o rosto banhado em sangue, Valentina rosnou:
— Você não vai me derrotar facilmente, vagabunda.
Jade levantou-se num salto, limpando o sangue do próprio lábio. O sorriso dela agora era puramente maligno.
— Eu estava pensando em apenas espancar esse rostinho bonito, mas acho que minha paciência com você chegou ao fim.
Jade sacou uma adaga e murmurou um feitiço rápido. A lâmina assumiu um brilho esverdeado e um fedor nauseante tomou conta da cela. Las Platas cobriu o nariz com uma das mãos, mantendo a espada erguida com a outra.
— Mas que cheiro é esse? Parece fezes!
Jade adotou uma postura de combate agressiva e respondeu com orgulho doentio:
— É porque são. Eu repliquei a mesma toxina que meu irmão usou para matar o nosso pai.
Valentina arregalou os olhos.
— O quê?!
— Exatamente! Meu irmãozão foi tão incrível que conseguiu bolar o plano perfeito para matá-lo!
— E vocês ainda se orgulham de assassinar os próprios familiares? — cuspiu Las Platas. — Não é à toa que, para ele, matar os meus pais não significou nada!
Movida pela fúria, Valentina avançou. Mas quando tentou desferir o corte, Jade fez a palma da mão brilhar e repeliu a lâmina desviando o ataque. Valentina arregalou os olhos; era a mesma técnica de aparar que Alexandre usou contra ela.
Aproveitando a brecha, Jade zombou:
— Oh, não, queridinha. Na verdade, meu irmão foi o nosso salvador.
Jade acertou um chute em cheio no estômago de Valentina, que desabou no chão, deixando sua espada deslizar para longe.
— C-como um desgraçado desses pode ser um salv... — tentou questionar Valentina, tossindo.
Jade interrompeu a fala com um chute no rosto da dela.
— Nosso pai era uma fera louca! Ele matou a nossa mãe batendo a cabeça dela incontáveis vezes na parede! A guerra o enlouqueceu, o Rei o enlouqueceu. É isso que a guerra faz, mas nós não íamos aceitar ser vítimas dela!
Jade pisou no estômago de Las Platas, forçando-a a cuspir mais sangue.
— Seu clã passou por isso, nós passamos por isso, você não é a unica a ser especial queridinha, Até os mortos passaram por isso! Nem mesmo a morte é um descanso nessa porcaria de mundo. Se o imperador de vocês tivesse ficado quieto…
Apesar da dor, Valentina segurou a perna de Jade com as duas mãos e sorriu, os dentes manchados de sangue.
— É por isso que fizemos a mesma coisa que vocês, seus imbecis, sobreviver!
Jade percebeu tarde demais. A garota apertou sua perna com tanta força bruta que os ossos estalaram, causando uma dor agonizante. Jade foi derrubada violentamente, soltando a adaga envenenada no processo. A Camaleoa rolou para longe, segurando a perna ferida.
— Sua vagabunda! Minha perna!
Valentina tentou se arrastar até sua espada, mas o corpo não obedecia ela tentou se levantar. Percebendo isso, Jade mancou até a adaga caída. Num movimento rápido, a réptil arremessou a lâmina venenosa, cravando-a profundamente nas costas de Valentina que tinha pegado a espada enquanto estava de costas.
Las Platas gritou de dor, mas forçou o corpo a virar.
— Você não vai escapar, sua maldita!
Ela conseguiu agarrar o cabo da espada e tentou um corte desesperado. Jade rolou, escapando por pouco. Ofegante e apoiada em quatro patas riu.
— Haha! Você está acabada. Meu veneno vai matá-la aos poucos. Eu adoraria ficar para ver o espetáculo, mas preciso ir. Aproveite a sua nova casa, embaixo da lama que você merece.
Com sua camuflagem, Jade fundiu-se com a textura da parede e desapareceu. Valentina ainda tentou golpear o ar ao redor, mas as forças a abandonaram. Caindo de joelhos, gritando em agonia ao arrancar a adaga das próprias costas.
Ela jogou a arma envenenada no chão. O som metálico ecoou, e a adaga parou ironicamente bem na frente de um par de botas de aço com salto alto.
Las Platas ergueu a cabeça, o ódio transbordando no coração. Lá estava sua prima, Sanstone, com uma patrulha de valquírias com tochas atrás dela.
— Então você veio?
Sanstone ergueu a mão, ordenando que a patrulha se dispersasse e formasse um cerco do lado de fora do coliseu. Quando ficaram a sós, a Vice-Comandante olhou para a prima ferida.
— Faz um bom tempo, Valentina. Ou devo dizer Las Platas? Você está presa.
Sangrando por diversos lugares e trêmula, Valentina forçou-se a ficar de pé. Ela ergueu a espada com as duas mãos, uma postura que fez a sobrancelha de Sanstone subir levemente.
— E-eu não vou desistir... Você precisará me matar para isso.
Sanstone suspirou.
— Eu já te derrotei antes. Nessas condições, você não conseguirá fazer um arranhão em mim.
— Pode até ser... — arfou Valentina —, mas eu já te venci em outra batalha, e eu tenho certeza disso apenas olhando nos seus olhos.
Las Platas avançou numa investida final, mas seus golpes lentos e desengonçados foram facilmente esquivados por Sanstone.
— Pelo jeito você enlouqueceu com o que houve com sua família — murmurou Sans enquanto desviava. — Agora entendo por que ele te poupou no coliseu, e seu amigo réptil a deixou para morrer aqui.
Valentina investiu com o resto de suas forças, berrando com a espada indo em direção a sanstone:
— Não chame aquele réptil asqueroso de meu amigo!
Ela segurou a lâmina da espada de Las Platas com apenas uma das mãos enluvadas, parando o ataque como se não fosse nada.
— Você não sabe nada sobre mim, enquanto eu sei tudo de você! — gritou Valentina, a sua voz falhava tossindo. — Eu dediquei minha vida inteira a te ajudar… e o que você fez comigo?!...
Sanstone manteve o olhar frio, mas havia uma sombra de tristeza em sua voz:
— Eu apenas a salvei. Manter você presa àquela família só iria acabar com você.
Las Platas soltou uma risada fraca e amarga.
— Salvar?... Você?... Até parece... Foi graças ao que você fez que eu fiquei assim... Mas pelo menos uma pessoa me deu… uma chama de esperança…
Os joelhos de Valentina cederam. Ela soltou o cabo da espada e caiu no chão.
— E-eu não me arrependo... m-mas queria uma…
Antes que pudesse terminar a frase, seus olhos reviraram e ela desmaiou. Sanstone chamou as valquirias que aguardavam do lado de fora.
— Levem-na para a Laura! Ela foi atingida por um tipo de toxina que desconheço. O cheiro é horrível, mas ela ainda está viva.
— Sim, senhora! — respondeu uma das valquírias. — Garotas, rápido! Peguem o corpo e levem para a Sargenta Laura, agora!
Enquanto carregavam a prisioneira para o quartel, Sanstone se abaixou para recolher a adaga envenenada. Ela olhou para a lâmina da prima.
— Você estava diferente... Seus olhos estavam mais... humanos.
Na manhã seguinte, Alexandre despertou cedo. Ao descer as escadas de sua casa, deu de cara com Marcos roncando em uma das cadeiras da sala.
— Bom dia? O que você está fazendo na minha casa?
Marcos levou um susto e caiu da cadeira para trás. Ele levantou-se num pulo, assumindo uma pose cômica de sentido.
— Ah! Sim! Olá Alê, bom dia!, sua esposa me pediu para ficar de olhos abertos em você, dizendo que uma coisa muito ruim aconteceria.
Alexandre massageou a testa enquanto eles saíam da casa, caminhando lado a lado em direção ao quartel.
— Já disse para você que eu e a Sans não temos esse privilégio. Você e a Laura adoram espalhar esse rumor mentiroso pro quartel inteiro, é impressionante.
— Eu? E eu tenho cara de mulher pra ficar fazendo fofoca? — defendeu-se Marcos. — Quem mais fofoca nesse exército são as valquírias!
— Está querendo dizer que sua namorada perfeita também é fofoqueira? — provocou Alexandre.
— Claro! Ela é uma super fofoqueira, e eu não perdoo isso!
Eles entraram no quartel. Pelos corredores, várias valquírias lançavam olhares mortais e enojados para os dois oficiais, que simplesmente ignoravam a hostilidade.
— Você não devia dizer isso em tão alto e bom tom, Marcos. Está sendo muito corajoso — advertiu o Comandante.
— Eu não ligo. Elas me odeiam mesmo. Vão respeitar apenas a Laura e a Sans, mas não percebem que nós, homens, estamos dando nossas vidas há anos por elas.
Alexandre revirou os olhos com um sorriso cômico. Ao virarem um corredor, notaram um aglomerado de valquírias bloqueando o acesso à sala de interrogatórios. O sorriso de ambos sumiu.
— Tenho um mau pressentimento sobre aquilo. - Diz Alexandre.
Quando os dois tentaram passar, duas valquírias cruzaram as lanças, barrando a entrada. Uma delas abriu um sorriso zombeteiro:
— Lamentamos, senhores, mas essa parte está restrita. Haha.
O rosto de Alexandre fechou-se em uma máscara de gelo e furia.
— Desrespeito a um oficial. Quantos anos na cadeia militar você quer?
A valquíria com medo da pena, a raiva substituindo o deboche.
— T-tá bom. Pode passar.
Alexandre não relaxou. Ele pousou a mão no pomo de sua espada, com uma aura de autoridade irradiando por todo o corredor. Aproveitando a deixa, Marcos bateu a base da lança no chão de pedra enquanto o comandante dizia :
— Debandar! AGORA! Eu não quero ver ninguém neste corredor, exceto os quatro generais! Caso contrário, vou varrer todas vocês à força!
A presença dos dois homens foi esmagadora. As valquírias apavoradas desfazem o bloqueio em segundos.
— Sim, senhor! — gritaram, correndo para longe.
Enquanto caminhavam até a pesada porta de ferro, Marcos inflou o peito.
— Uau, você virou um verdadeiro Alpha dizendo aquilo, Alê.
— Não quero elogios por fazer uma ameaça. Só cansei de insolências desnecessárias.
Alexandre empurrou a porta da sala de observação adjacente à câmara de tortura. O que ele viu fez seu sangue gelar. Através da parede de vidro ilusório — projetada para que os observadores não fossem vistos —, ele enxergou Las Platas, completamente nua e coberta de feridas, suspensa no centro da sala por correntes grossas presas aos pulsos. Laura estava lá dentro, brandindo seu chicote de ferro com um sorriso sádico, estalando o metal contra a pele já ensanguentada da prisioneira.
Sanstone estava em pé na sala de observação, os braços cruzados, assistindo a tudo com frieza.
Alexandre fechou os olhos imediatamente.
— Perdi alguma coisa? Oh, droga…
Sem desviar o olhar do vidro, Sanstone declarou:
— Pegamos sua assassina. Ela está sendo torturada para vermos se conseguimos alguma informação útil. Confiscamos tudo dela... e a Laura está se divertindo.
Marcos aproximou-se do vidro, arregalando os olhos e falando sem o menor filtro:
— Nossa, ela tá nua? Cara, sendo sincero, ela não é nada mal. Alê, se ela não fosse uma criminosa, você pegava?
Sanstone virou o pescoço lentamente para marcos, os olhos vermelhos prometendo morte violenta.
— Me diga, Capitão Marcos: você está querendo receber sua dose de surra diária hoje em tempo recorde?
A Vice-Comandante deu um passo ameaçador. Marcos começou a recuar de costas em direção à porta, as mãos erguidas em rendição.
— N-não! Eu jamais! Poxa, até parece, foi só uma piadinha entre amigos, não é, Alê?!
Alexandre, no entanto, não ouvia a brincadeira. Sua mente estava num turbilhão ético e emocional enquanto ele se mantinha de olhos fechados.
—"Droga, se eu pedir para pararem de fazer isso com a Valentina, vai soar estranho. Ela não devia estar sofrendo assim e muiot menos aqui. Não consigo sequer olhar para o rosto dela porque seria muito indecente, mas... ser chicoteada desse jeito?!"
Quando Sanstone levantou a mão para socar a cara de Marcos, a voz de Alexandre impediu o soco dela.
— Por que ela precisa ser chicoteada?
Sanstone abaixou o punho e virou-se para ele, com uma expressão dura e fria.
— Porque ela tentou te matar.
Aproveitando que Sanstone perdeu o foco nele, Marcos abriu a porta discretamente.
— Vou fazer a guarda lá fora! — fugindo do recinto.
Sozinhos na sala de observação, Alexandre abriu os olhos encarando Sanstone com reprovação e seriedade.
— Você devia ter me consultado antes, sabia?
Sanstone encurtou a distância entre eles, ficando na frente dele.
— Quando o Comandante está fora, o Vice é quem manda. Ou está querendo me repreender por fazer o meu trabalho? Ela é uma criminosa.
Alexandre apontou para o vidro temperado.
— Ela devia ter ficado presa numa cela normal como qualquer criminoso, não sendo chicoteada como um animal! Há quanto tempo ela está assim?
— A noite inteira.
O choque desestabilizou Alexandre. Sem pensar duas vezes, ele correu em direção à porta que dava acesso à câmara de tortura. Mas Sanstone foi mais rápida. Ela agarrou o braço dele com uma força de esmagar ossos.
— Você vai contra o meu julgamento?
— Me solta, Sans. Ela não merece isso.
— Não! Você fica aqui! — gritou ela.
Alexandre virou-se por cima dos ombros, os olhos fixos nos dela.
— Me solte, agora!
— Não solto.
O Comandante repousou a mão livre sobre a empunhadura de sua espada.
— Me solta logo, ou…
— Ou o quê? — Sanstone o desafiou, apertando ainda mais. — Vai me atacar? Sabe que eu consigo quebrar o seu braço agora mesmo.
Alexandre manteve a postura e determinação inabalável.
— Então quebre. Mesmo assim, nesta distância, eu consigo te acertar.
As palavras o atingiram. O lábio de Sanstone começou a tremer. A força monstruosa de seu aperto diminuiu, e ela abaixou o rosto, a voz embargada por uma vulnerabilidade rara.
— Não me faça fazer isso…
— Eu digo o mesmo. Me solta.
Sanstone soltou o braço dele. Alexandre girou a maçaneta e invadiu a sala de tortura. Valentina pendia das correntes, arfando, o corpo uma tela de cortes avermelhados e as costas estava um leve furo no centro.
Ao ouvir a porta, Laura virou-se, limpando o suor da testa com um sorriso ofegante.
— O-olá, Comandante! Quer fazer parte da festa? Eu estou tão —
— Suma daqui, Laura. — A voz de Alexandre era puro gelo e calma.
O sorriso sádico de Laura sumiu, voltando à postura militar hesitante.
— M-mas Comandante, ela é uma prisi—
— ISSO É UMA ORDEM, LAURA!
O grito de Alexandre ecoou pelas paredes de pedra com uma aura tão assassina que Laura deixou o chicote cair. Aterrorizada, ela correu para fora da câmara, buscando refúgio na sala de observação onde Sanstone estava.
— Sans, ele gritou comigo! Faça algu— Sans?
Sanstone estava paralisada diante do vidro, os olhos vermelhos agora marejados de lágrimas grossas que se recusava a deixar cair.
— Não enche o saco — sussurrou a Vice-Comandante, a voz quebrada.
Laura percebeu a dor da amiga e, esquecendo o próprio medo, abraçou-a de lado.
— Calma, Sans... vai ficar tudo bem.
Dentro da câmara, Alexandre parou de frente para Valentina. A garota ergueu o rosto machucado e cuspiu sangue :
— Se veio atrás de mim querendo perguntas, pode esquecer.
Alexandre varreu os olhos pelo corpo dela, garantindo que não houvesse ferimentos letais, e respondeu em tom baixo:
— Não vim por respostas. Vim aqui para ver o que aconteceu com você.
Las Platas cuspiu um pouco de sangue novamente para o lado e deu uma risada fraca.
— Ha, Pode-se dizer que eles salvaram a minha vida apenas para transformá-la num inferno. Aquela sádica tirou o veneno que sofri no ataque surpresa e depois me arrastaram pra cá. Quando me recuperei da toxina, continuaram com esse espetáculo de pintar a sala de vermelho, acho que deu um ar mais claro pra ela.
Alexandre sorriu levemente, admirando a resiliência dela.
— Pelo jeito, temos uma boba da corte aqui. Quer aplausos? Por que não bate palmas comigo? Ah, é verdade... você não pode.
Valentina com um sorriso cínico
— Sorte a sua, minhas palmas são tão fortes que poderiam te mostrar quem é que manda.
Sem perder mais tempo, Alexandre pegou a chave mestra e abriu o cadeado das correntes fazendo Valentina despencar.
— Venha para a prisão.
— S-sim... — murmurou ela, as pernas falhando e meio tonta.
Ao ver que ela não conseguia se manter de pé e ciente de sua nudez, Alexandre agiu retirando a própria farda e a calça militar, ficando apenas com suas roupas íntimas. Com cuidado, vestindo as roupas em Valentina. A garota arregalou os olhos, corando intensamente.
Em seguida, ele a pegou no colo e caminhou para fora da câmara. Passaram pelo corredor, chocando as valquírias que faziam a guarda, enquanto Sanstone, Laura e Marcos os seguiam em silêncio.
Alexandre depositou Valentina delicadamente sobre a cama de uma cela comum e limpa.
— Pode ficar com as minhas roupas. E não saia desta cela.
— T-tá b-bom... — respondeu Las Platas, ainda sem reação, puxando o cobertor contra o peito.
Ele trancou as grades de ferro e virou-se para a valquíria responsável pelo bloco.
— Fique de vigia nesta ala. Se qualquer coisa acontecer com ela, me avise imediatamente, se tivermos prisioneiros durante esse tempo coloque eles em outra cela longe dela, ficamos entendidos?
A Valquíria, impressionada com a autoridade dele, bateu continência vigorosamente.
— S-sim, Comandante Alexandre!
Ele marchou em direção à sua própria sala de comando. Atrás dele, o som inconfundível dos saltos de aço ecoava, marcando um compasso de pura fúria reprimida. Ao chegarem no escritório, Alexandre foi direto ao seu armário de reservas e começou a vestir um novo uniforme.
Sanstone sentou-se na cadeira de frente para a mesa. Laura e Marcos entraram logo depois, trancando a porta e acomodando-se no sofá.
A Vice-Comandante foi a primeira a falar encharcada de frieza:
— O que foi aquilo?
Alexandre terminou de abotoar a farda, sentou-se na cadeira de couro e respondeu com uma calma cortante:
— Aquilo o quê? Ah, sim. A crueldade que você e a Laura cometeram?
Laura encolheu-se no sofá, a culpa estampada no rosto. Marcos, que ainda estava juntando as peças, gesticulou confuso:
— O que diabos aconteceu, afinal?
— O nada apenas que Sanstone prendeu alguém e torturou a noite toda com chicotadas — explicou Alexandre, implacável. — Apenas isso. E deixou a LAURA fazer esse trabalho sujo a madrugada inteira.
Marcos arregalou os olhos, virando-se para a sargenta.
— O quê?! Pelo amor dos Deuses, vocês são loucas?!
Sanstone cruzou os braços, inabalável.
— Eu tive um bom motivo. Ela tentou me atacar e era uma criminosa procurada!
— Independente disso! — explodiu Marcos. — Criminosos devem ser colocados na prisão e julgados, não torturados! A tortura é para casos específicos de guerra ou para extrair segredos de espiões do governo! Nós não somos quem vai julgar o destino deles.
Laura começou a tremer, as mãos suando.
— E-eu só estava seguindo ordens…
Alexandre bateu com o punho fechado na mesa. O estrondo fez todos pularem.
— Ordens?! Você estava se divertindo Laura! Sabe qual é o crime para o que você fez? Não foi tortura oficial, aquilo beira crimes de desumanização! Ela não conseguia nem ficar de pé! Além disso, foi envenenada noite passada e vocês brincaram com a dor dela?!
As lágrimas começaram a cair do rosto de Laura.
— D-desculpa, Comandante... eu só estava..
.
Marcos olhou para ela com uma decepção profunda que doeu mais que qualquer soco.
— Nossa, Laura... você realmente fez isso... Que horrível. Você não sabe se controlar.
A Sargenta tentou segurar a mão dele para se desculpar, mas Marcos recuou sutilmente.
— Isso a gente conversa depois. Agora, ouve o Comandante.
Sanstone bateu na mesa, roubando a atenção de volta.
— Ela estava sob as minhas ordens! Se quiserem reclamar com alguém, falem comigo! Se eu fiz isso, eu tive um motivo!
Alexandre cravou os olhos nela.
— Ah, é? Me diga qual foi o excelente motivo para fazer isso com alguém como ela? Eu estou vivo. Não há nenhuma prova de que ela seja a minha assassina. Me diga, qual foi o crime?! ah sim claro e você não está ferida também, aposto que nem fez esforço para derrotar ela, afinal de contas alguém envenenado não consegue se mover.
A Vice-Comandante levantou-se, a sombra de sua linhagem tomando conta da sala.
— Eu estava apenas sendo boazinha com ela, Alexandre. Porque o crime que ela cometeu não tem volta: Deserção.
A mente de Alexandre girou rápido. O sangue fugiu de seu rosto quando ele lembrou do código militar que estudara tão arduamente.
-"Droga, deserção é um tipo de crime que gera..."
Sanstone, lendo a expressão dele, completou a frase com uma frieza mortal:
— E a punição para esse crime... é a morte.
Notas do Autor
Este Capitulo me sugou bastante, primeiro porque eu gosto do desenvolvimento de Las Platas, segundo porque gosto de escrever para vocês, mas o maior impecilio as vezes é minha qualidade financeira que esta passando por problemas bem pesados, mas eu amo escrever e não desistirei, eu ainda agradeço a todos que leem e comentem minha novel, muito obrigado por tudo.