
Enquanto os oficiais discutiam calorosamente na sala de comando, Las Platas repousava na cela, o corpo dolorido protestando a cada movimento.
—"Maldita Sanstone, me fez de gato e sapato... Aposto que ela está fazendo a cabeça do Alexandre para me matar agora mesmo, mas..."
Por um instante, o rosto de Valentina ficou vermelho. Ela puxou o cobertor até o queixo, escondendo um sorriso bobo enquanto abraçava os próprios ombros.
—"Ele foi tão incrível me protegendo! Aposto que minha prima está morrendo de inveja e usando o cargo só de birra, hihi."
Enquanto se vangloriava mentalmente, um detalhe crucial atingiu sua mente.
—"Espere... essa é a roupa do Alexandre. Ele estava vestindo isso..."
O rosto de Las Platas atingiu um tom escarlate de vergonha ainda maior que antes. Ao deslizar a mão pelos bolsos da farda na tentativa de se acalmar, seus dedos esbarraram em um pedaço de papel dobrado junto a um objeto metálico. Usando o cobertor para camuflar seus movimentos dos guardas, ela puxou os itens. Era uma chave pesada e um pergaminho.
Com os olhos semicerrados na penumbra, ela leu o conteúdo:
“Eu li o pergaminho. Ele contém informações sobre as baixas da Batalha da Ponte. Lendo de forma mais aprofundada, encontrei registros de que o Imperador, antes do duelo contra o Rei Leonardo I, precisou sacrificar o clã Las Platas, pois Leônidas estava ocupado defendendo outro perímetro. O documento prova que o próprio Imperador ordenou que o Líder do Clã Las Platas (seu pai) fosse para lá, o pai apenas exigindo que a filha fosse poupada. O Imperador concedeu a você, Valentina, o Perdão Imperial e a dispensa oficial do exército. Você sabe o que fazer.”
Ao terminar de ler, Valentina sentiu um nó na garganta, mas um sorriso astuto logo chegou em seus lábios. Ela apertou a chave mestra das jaulas contra o peito.
—"Nossa, Alexandre... Você é bem malvado com a minha prima."
Enquanto isso, na sala do Comandante, Alexandre abriu um sorriso enigmático para Sanstone.
A Vice-Comandante ergueu uma sobrancelha, o olhar gélido fixo nele.
— O que é tão engraçado? A loucura finalmente bateu em você, Alexandre?
Ele balançou a cabeça devagar, o sorriso se alargando.
— Não, Sans. Mas eu acho que tive um pouco de sorte dessa vez.
Sanstone estreitou os olhos, enquanto Laura e Marcos se entreolhavam no sofá, completamente perdidos na conversa. Alexandre levantou-se e continuou seu raciocínio com uma calma inabalável.
— Bem, digamos apenas que Valentina é inocente de todos os crimes que cometeu. Seja hoje, seja no passado.
A expressão de Sanstone endureceu. Ela apoiou as mãos na cintura, exalando frieza.
— Alexandre, pare de falar bobeiras. A única forma de ela ter essa inocência é se a própria Lilith tiver concedido um perdão. E todos sabemos que isso é impossível. A Primeira-Ministra assumiu o reinado há pouco tempo, e o crime de deserção da Valentina já prescreveu. Até o meu pai confirmou isso.
Alexandre caminhou até a porta.
— Bem, apenas a Lilith poderá nos dizer a verdade sobre isso. Claro, se ela realmente souber desse caso à parte.
A desconfiança transbordava nos olhos vermelhos de Sanstone.
— Por que está tão confiante? Conhecendo você, imagino que saiba de algo que eu não sei.
Ele girou a maçaneta, olhando por cima do ombro com uma convicção que silenciou a sala.
— Porque eu sei. E é exatamente por isso que eu fiquei tão bravo com o que vocês fizeram.
Enquanto Alexandre saía pelo corredor, Sanstone não hesitou e foi atrás dele, deixando Laura e Marcos sozinhos no escritório. Quando estavam prestes a sair do QG em direção aos aposentos da Primeira-Ministra, a Vice-Comandante segurou o braço dele, forçando-o a parar.
— Você não está falando sério, está? — indagou ela. — Se você for confrontar a Primeira-Ministra sobre esse caso, ela vai te destruir. Acha mesmo que essa teoria que você criou do nada é verdadeira?
Alexandre ergueu o dedo indicador, a postura inabalável.
— Eu não acho que seja uma teoria, Sans. Eu sei que é a verdade. E sei exatamente quem foi a pessoa que deixou a prova lá.
Sem esperar resposta, ele retomou a marcha. Ao chegarem ao escritório de Lilith, os guardas reais, intimidados pela aura pesada do Comandante, apenas engoliram em seco e abriram as portas.
Lá dentro, Lilith conversava animadamente com Leônidas, que bebia uma xícara de café. A invasão repentina fez a garota bater o pé no chão.
— Não sabe bater, seu animal?! — gritou Lilith.
Alexandre puxou uma cadeira, sentou-se com naturalidade e ignorou o chilique da garota.
— Bom dia, Senhor Leônidas. Tudo bem?
O gigante de cabelos prateados deu um gole no café e acenou.
— O-olá. O que faz aqui, Comandante?
Lilith, fervendo de indignação por ter sido ignorada, voou até a mesa.
— Ei! Você está me ouvindo?! Eu perguntei se você não sabe bater!
Alexandre cruzou os braços, sustentando o olhar da garota mais poderosa do reino.
— Eu exijo respeito. Também sou um oficial.
— O quê?! — A voz de Lilith subiu. — Você sabe com quem está falando, seu oficialzinho imbecil?
— Claro. Estou falando com a Primeira-Ministra Lilith. E gostaria de mostrar algo muito interessante que, talvez, o seu pai gostaria que você tomasse conta.
A curiosidade venceu a birra. Num piscar de olhos, Lilith se teletransportou, sentando-se com as pernas balançando sobre a mesa, bem na frente do rosto de Alexandre.
— Mesmo? O que é, Alê?
Alexandre sorriu, enquanto Sanstone revirava os olhos, escorando-se na parede próxima à porta.
— Bem, Lilith, eu queria saber sobre o caso de Las Platas. Ela é ou não uma criminosa procurada?
Lilith suspirou, entediada com o assunto.
— Claro que ela é! Aquela criminosa está sentenciada à morte.
— É mesmo? — rebateu Alexandre, inclinando-se para frente. — E se eu disser que ela tem o "Perdão do próprio Imperador"?
A Primeira-Ministra arregalou os olhos e apontou o dedo direto para o nariz dele.
— Meu pai assinou apenas dois contratos em toda a sua vida, e eu sei muito bem quais são eles. Não tem como existir um contrato ou perdão que eu não saiba!
Sanstone, já cansada do que considerava um blefe, cruzou os braços.
— Está vendo, Alexandre? Foi perda de tempo você vir dizer o óbvi—
— É mesmo? — Alexandre cortou Sanstone sem piedade, voltando sua atenção para Lilith. — E se eu disser que tenho um documento oficial com a assinatura do General Leônidas na sua época de glória, lado a lado com a do Imperador? O que você me diria sobre isso?
O silêncio engoliu a sala. O copo de café quase escorregou da mão de Leônidas.
O ar ficou repentinamente pesado. Num estalo, Lilith materializou uma caixa de energia mágica vermelha que selou a sala inteira. Mãos escarlates brotaram do chão e da cadeira, prendendo os braços e pernas de Alexandre.
Sanstone descruzou os braços, pronta para intervir, mas a voz grave de Leônidas a parou:
— Filha, baixe sua bola. Não quero ser forçado a disciplinar você na frente da Primeira-Ministra.
Preso e desconfortável, Alexandre tentou se mover.
— O que houve? Me solta!
O rosto de Lilith havia perdido qualquer traço infantil. Sua voz agora era um sussurro letal.
— Você disse que tem um documento assinado por essas duas pessoas? Me mostre. Quero ter certeza se é a assinatura do meu pai ou de um impostor. E se for um impostor, eu juro que te faço em pedaços!
— V-você não ousar—
— Quer apostar?! — rosnou ela. — Ninguém brinca com o papai!
As mãos mágicas afrouxaram apenas o suficiente para Alexandre acessar o bolso. Ele puxou o pergaminho e o estendeu. Lilith o arrancou da mão dele.
Inicialmente, ela lia com desdém, mas a cada linha que seus olhos percorriam, sua expressão se transformava num choque genuíno. Lentamente, ela baixou o pergaminho e bateu a palma na mesa, exalando uma aura assassina.
— Onde você conseguiu isso?
Recuperando a postura, Alexandre ajeitou a farda e respondeu com audácia:
— Isso não lhe diz respeito. Eu fiz a pergunta primeiro.
— Quem manda nesse reino sou eu, e quem faz as perguntas sou eu! — explodiu Lilith. — Se você responder, eu te dou todas as respostas que quiser!
Intimidado por dentro, mas mantendo a fachada de aço, Alexandre revelou:
— Achei jogado nas docas, quando investigava o local.
Lentamente, Lilith virou o rosto para Leônidas, os olhos brilhando de raiva.
— Você fez isso de propósito, não foi?
Leônidas tomou mais um gole de café, a imagem da tranquilidade.
— Eu? Como eu posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, Majestade? Só você conseguiria tal feito.
Os olhos de Lilith se estreitaram.
— Você está me chamando de mentirosa, carrasco?
— Não disse nada disso, Senhorita Primeira-Ministra. Estou apenas citando os fatos sobre os seus poderes. Em nenhum momento acusei você.
Lilith bufou, mas a magia vermelha que prendia Alexandre se dissipou. Apenas as paredes da sala continuavam cobertas pela redoma escarlate.
Alexandre ajeitou os ombros, desconfortável.
— Precisa manter essas paredes com essa decoração? Elas me deixam bem tenso, se é que me entende.
Lilith se teletransportou para sua cadeira e cruzou as mãos sobre a mesa.
— Acostume-se. Faremos mais disso de agora em diante. Isso é uma bolha antirruído. A minha magia impede que qualquer coisa entre ou saia, até mesmo o som. Eu posso materializar a barreira em qualquer lugar que eu possa ver ou memorizar. Como conheço esta sala há um bom tempo, para mim ela—
— Lilith — cortou Alexandre. — Você disse que iria me contar tudo. Estou esperando.
Ela fez uma careta, mas a seriedade logo retornou ao seu rosto.
— Tá bem. Por isso gosto de você, vai direto ao ponto. Me pergunte o que quer saber.
— Toda a história. Para mim e para a Sans. Precisamos saber o que houve, ela merece saber a verdade sobre a prima.
Lilith revirou os olhos, mas abriu um sorriso dominador.
— Bem, tudo começou há muito tempo, quando o Clã Stone era dominante. O Imperador daquela época era um ser de poderes grandiosos. Eu nem era nascida, mas Leônidas estava em seu auge. Ele fundou o Clã Stone junto com o 'Antigo Imperador'.
— "Antigo Imperador"? — indagou Alexandre.
O sorriso de Lilith se alargou.
— Claro. O antigo imperador deste reino era o meu Avô.
Sanstone e Alexandre arregalaram os olhos, chocados.
— Que caras são essas? — zombou Lilith. — Por acaso vocês não eram gênios da academia? Achavam que um humano viveria tanto tempo assim?
— M-mas como? — balbuciou Alexandre. — Todo esse tempo acreditamos que o Imperador sempre foi a mesma pessoa! Quer dizer que ele morreu no grande duelo contra o Rei Leonardo I?
Lilith suspirou, adotando um tom de professora contando a historia.
— O 'Imperador' era o título do meu Avô. Já o 'Líder Supremo' é o título do atual rei do nosso império: meu pai. O motivo de termos feito isso é para que os seres humanos não percam a esperança, e para que o Reino das Bestas não volte a nos atacar. Nenhum deles sabe sobre a morte do antigo imperador. Apenas eu, meu pai e o Leônidas sabíamos disso. Claro, agora vocês também sabem. Então, tratem de manter esse segredo para sempre, tá bom?
Sanstone deu um passo à frente, atônita.
— Mas se o antigo imperador morreu, nós não temos mais proteção mágica?
Lilith ergueu o dedo indicador, balançando-o levemente.
— E você acha que o meu avô não deixou herdeiros? Ele passou sua técnica suprema para seus sucessores ou melhor sucessor. A técnica que destruiu o Rei Leonardo I é essa mesma que está ao redor de vocês agora.
Alexandre engoliu em seco.
— Como os dois reis morreram de fato?
Lilith entrelaçou os dedos, os olhos ganhando um brilho nostálgico e cruel.
— Veja bem, a magia do imperador pode ser criada em qualquer lugar que o olho humano consiga ver e a memória materializar, correto? O que meu avô fez para derrotar o antigo líder das bestas foi pedir ao Clã Las Platas que matasse vários tipos de feras e trouxesse seus corpos decepados. Ele os abriu para examinar o interior de cada um. Vendo cada órgão, ele escreveu todos os livros de Biologia e de técnicas marciais que vocês usam hoje na academia.
Ela fez uma pausa para garantir que os dois absorviam a informação.
— Quando chegou o dia de enfrentar o grande exército das bestas, meu avô ofereceu um duelo mano a mano. Com seu orgulho colossal, Leonardo I aceitou. Mas, no meio da luta, meu avô descobriu que o corpo do Rei das Bestas era diferente da anatomia dos outros monstros. Ele não conseguia criar as barreiras dentro dele apenas olhando. Então, ele foi para o tudo ou nada.
Os dois colidiram. Meu avô usou a técnica de esmagamento dentro do corpo de Leonardo I através de um ferimento aberto, enquanto a Fera usou seu trunfo: o Corte X. Ambos saíram com feridas incuráveis e bateram em retirada. Leonardo II assumiu o comando e fez um trato de cessar-fogo com Leônidas. E esse contrato informal vale até hoje porque tanto o rei das feras quanto meu pai assinaram isso para ter uma extensão.
— Certo — pressionou Alexandre —, mas onde Las Platas entra nisso e o que isso tem a ver com o perdão?
— Cale-se, verme! — gritou Lilith, batendo na mesa. — Eu estou tentando te explicar a história do nosso reino e você fica de mimimi?! Bem, onde eu estava... Ah, sim. Após esse contrato, meu avô ficou doente e acamado. Minha mãe foi executada pelo meu pai e—
— O quê?! — Alexandre quase levantou da cadeira. — Sua mãe foi executada? Como assim?!
Lilith deu de ombros.
— Como eu ia dizendo, minha mãe foi executada pelo meu pai porque tentou me levar embora do reino, abandonando-o. Então ele resolveu o problema. Enfim, meu avô sentia sua vida se esvaindo. Meu pai percebeu que aquele golpe de Leonardo mantinha as reservas de mana do meu avô sempre em vazamento. E, como vocês sabem, quando a mana acaba…
— A força vital se torna o combustível — completou Sanstone, a voz sombria.
— Sim — assentiu Lilith. — Sabendo que ia morrer, meu avô passou a técnica para o meu pai em seu último suspiro. Para não sofrer esse mesmo destino, meu pai me treinou desde pequena para me defender. Ele disse que eu tinha um dom natural, apesar dele ainda ser mais poderoso.
Alexandre olhou para Leônidas, que finalmente se levantou, a presença dele preenchendo a sala com gravidade.
— Sobre o contrato de Las Platas — iniciou Leônidas, a voz pesada. — Um dia antes da Batalha da Ponte, o antigo imperador foi falar com o líder do Clã Las Platas. Ele disse que precisava do sacrifício deles para segurar uma ponte que chamamos de "Esperança". Mal sabíamos que era uma isca do inimigo. Quando acabei de defender meu posto, corri até onde eles estavam. Mas quando descobri a carnificina que as bestas fizeram... não perdoamos nenhum deles.
— Perdoou, sim. — cortou Lilith, um sorriso sádico. — Carrasco, foi você quem matou todos os inimigos naquele dia e deixou um fugir.
— Espera, pai. Você matou todos e poupou o Jacó?! Por que ocultou isso? — exigiu ela, cerrando os punhos.
Leônidas sustentou o olhar furioso da filha.
— Eu precisava manter o exército inimigo longe. Se eu apenas repelisse o ataque, eles com toda certeza voltariam para aquela posição. Então eu fiz o maior massacre possível, mas deixei apenas um vivo: Jacó, o vice-comandante das tropas inimigas. Eu o libertei apenas para ele voltar e dizer ao Leonardo I que não estávamos para brincadeira.
Porém... a sua prima viu quando eu soltei o assassino dos pais dela, e levou isso para o lado pessoal. Eu sabia que o sangue da família dela estava nas mãos do Jacó, mas, militarmente, não pude fazer nada. Naquele dia, a inocente Valentina morreu, e nasceu a Las Platas.
A revelação foi demais para Sanstone. A raiva que guardou por anos eclodiu.
— Seu maníaco maldito! — gritou ela, saltando em direção ao pai com o punho armado.
Mas, antes que o golpe conectasse, uma barreira vermelha surgiu, envolvendo o pulso de Sanstone e travando-a no ar.
— Controle-se, Vice-Comandante — advertiu Lilith, entediada. — Sei que está nervosinha por conta da sua prima, mas isso foi uma necessidade da guerra.
— Necessidade?! — rugiu Sanstone, lutando contra a magia. — Este homem podia ter acabado com o assassino e…
Com um giro de pulso, Lilith manipulou a barreira, torcendo violentamente o braço de Sanstone, forçando-a a cair de joelhos de dor antes de desfazer a magia.
— Era guerra, Vice-Comandante! — disparou Lilith, autoritária. — Ele fez isso porque, se não o fizesse, milhares passariam fome e nosso exército seria aniquilado. Leônidas é apenas um, não um exército de milhares!
Sanstone segurou o pulso latejante, arfando. Alexandre interveio, mantendo a voz firme:
— Continue a história, Leônidas.
— Após aquele dia — prosseguiu o gigante —, Valentina se viu como uma órfã de guerra. Sem ninguém. Até mesmo a própria prima a abandonou.
Alexandre virou o rosto lentamente para Sanstone. A garota desviou o olhar, engolindo a seco, o rosto pálido de vergonha.
Lilith soltou uma risadinha diabólica.
— Ah, sim. A hipocrisia! Sanstone abandonou a própria prima aos corvos. Quando a pobrezinha foi buscar consolo, a Sans apenas lutou contra ela e a expulsou de casa à força. Foi tão trágico... boo-hoo.
Alexandre encarou Sanstone, a decepção irradiando de seus olhos.
— Isso é sério, Sans?
A dor no coração de Sanstone era visível. Ela olhou para o chão, a voz embargada.
— S-sim... Eu chutei a Valentina para fora de casa. Eu achei que ela estava…
— Você a viu no dia passado! — explodiu Alexandre, a voz ecoando pela sala. — Ela foi no enterro da família inteira e, mesmo assim, você descontou sua raiva nela?! Isso é o fim da picada, Sanstone. Não é à toa que ela ficou desolada e desertou!
Lilith estalou a língua, balançando o dedo.
— Oh, não, Alexandre. Isso é só o começo da ironia. Como você deve saber, Valentina é inocente de tudo o que aconteceu na época. Afinal, meu avô assinou um contrato garantindo que, se a Ponte fosse mantida até a morte, os Las Platas teriam o Perdão Imperial por qualquer crime, além de dispensa imediata do serviço militar. Na teoria, ela nunca foi uma desertora.
Sanstone ergueu a cabeça, os olhos arregalados de choque. Alexandre, no entanto, manteve o rosto gélido.
— Exatamente. — Ele olhou fundo nos olhos de Sanstone. — Significa que você e a Laura prenderam e espancaram um civil inocente. Além de causarem danos desumanos ao corpo dela. Como eu te avisei, você deveria ter me consultado antes.
Lilith riu, batendo palminhas.
— Nossa, que engraçado! Sabe qual é a punição para um oficial do exército que causa danos e tortura a um civil com Perdão Imperial? É crime de alta traição humanitária!
Sanstone abaixou a cabeça, o peso de suas ações finalmente quebrando seu orgulho.
— Não precisa me dizer... Eu sei.
O silêncio reinou até que o som de metal batendo na mesa sobressaltou a todos. Alexandre desabotoou o cinto e colocou sua própria espada de Comandante sobre a mesa de Lilith.
— Eu me responsabilizo pelos crimes cometidos pela Vice-Comandante Sanstone.
Sanstone ergueu o rosto, o choque dando lugar ao desespero. Lilith e Leônidas o encararam.
— Primeira-Ministra Lilith — continuou Alexandre, a voz inabalável —, se for para punir alguém, puna a mim. Como sou o Comandante de Brigada, foi minha falha de liderança ter permitido que isso acontecesse sob o meu teto.
A reação de Lilith foi explosiva. Ela levantou da cadeira, vermelha de birra.
— Queee?! Você trate de parar com essa pose de mártir agora mesmo! Você não é um herói, é apenas um garoto que teve a sorte de derrotar a Sanstone num duelo! Eu sou a autoridade aqui e eu decido quem—
— Lilith. — A voz de Leônidas ressoou grave, cortando o chilique da garota. — Ele não vai voltar atrás. Pode esquecer.
Lilith virou-se para o gigante, indignada.
— Esquecer?! Mas por quê?! Precisamos dizer a ele que ficar fingindo que vai sair do exército toda hora não é a solução!
Alexandre arrumou a farda, agora sem o peso da espada, e deu as costas para a mesa.
— Eu estou cansado. Vocês fiquem com essas mentiras, teatros e problemas políticos. Eu tenho coisas melhores para fazer.
Ele começou a caminhar em direção à porta. Leônidas perguntou, sem alterar o tom:
— Aonde você pensa que vai? Está desistindo de tudo? Não queria honrar o nome e a técnica do seu pai?
Alexandre parou de frente para a porta trancada, esperando a barreira de Lilith se abrir.
— Eu não sou movido a vingança. Vou ficar com quem realmente me entende.
Uma pontada aguda perfurou o peito de Sanstone. Ela correu e agarrou a manga da farda dele.
— Por favor... não me deixe.
Lilith, com os braços cruzados, manteve a barreira firme na porta e sorriu com prepotência.
— Haha, até parece! Ele não é o seu melhor amigo, Comandante, é o meu melhor amigo. Então eu mesma ordeno: Alê, não deixe a gente! Todos nós precisamos de você!
Alexandre sequer virou o rosto.
— Não, vocês não precisam de um plebeu que ganhou o cargo por sorte. Vocês só precisam da garota prodígio e daquelas valquírias que abaixam a cabeça. Lilith, por favor, liberte a porta. E Leônidas... controle sua filha. Ela é a destinada ao comando, não é mesmo?
O patriarca Stone cruzou os braços e assentiu lentamente.
— Filha , solte-o. Deixe-o ir embora.
Lágrimas grossas finalmente escaparam dos olhos vermelhos de Sanstone.
— Não, não, não…
Irritada com a cena e a desobediência, Lilith estalou os dedos.
— Eu não queria fazer isso, mas que saco!
Uma rajada de magia de gelo atingiu os pés e braços de Sanstone, congelando-a no lugar e forçando-a a soltar a manga de Alexandre.
— Obrigado, Lilith — disse ele, ajeitando a roupa. — Se precisarem de mim, estarei indo às celas. Libertar a pessoa certa e prender a errada.
Assim que Alexandre cruzou a porta, Lilith desfez o feitiço de gelo. Sanstone tropeçou para frente, em pânico.
— Onde ele foi?! Cadê o Alê?!
Lilith lixava as unhas imaginárias, esbanjando desdém.
— O garoto foi libertar a "pessoa certa". Imagino que seja a prima que você fez questão de surrar.
Quando Sanstone tentou correr para o corredor, a porta se fechou num estrondo e a barreira vermelha voltou a selar a sala.
— Nananinanão! Você vai ficar bem aqui — ordenou Lilith. — Temos muita burocracia para preencher devido à passada de bastão do novo comando. Meus parabéns, Sanstone, você é a nova Ofici—
Sanstone desferiu um soco brutal contra a barreira mágica.
— Cale-se! Eu quero ir atrás dele! Por favor!
— Menina, você é colega dele e devia saber que ele precisa de um tempo! — ralhou Lilith, apontando o dedo. — Que droga, parece que não consegue viver sem ele! Ainda bem que sou muito mais madura que você a ponto de não precisar do meu "melhor amigo" 24 horas por dia!
Antes que Sanstone pudesse bater novamente na barreira, Leônidas desferiu um golpe preciso na nuca dela. fazendo ela desabar nos braços do pai, desacordada.
— Peço perdão pelos problemas que minha filha causou, Majestade — disse Leônidas.
Lilith desfez a magia com um aceno de mão, voltando a sentar-se.
— Tanto faz. A culpa não é sua. Meu pai também me disse que dei trabalho pra ele quando era pequena. Enfim, eu tenho um plano perfeito para fazer o Alexandre voltar ao normal! Eu posso apagar a memória dele do dia de hoje e—
— Isso não vai resolver, Lilith — interrompeu Leônidas, carregando a filha no ombro enquanto caminhava para a saída. — A raiz do problema está no próprio Comandante.
— Como é?
— Ele ainda não aceitou o verdadeiro fardo do comando — explicou o gigante. — Ele ainda não entendeu que, quando você está nos holofotes, todos querem derrubá-lo. A inveja e a política é o que transforma as pessoas normais nas verdadeiras vilãs. Ele precisa aprender isso sozinho.
Leônidas desapareceu pelo corredor carregando Sanstone. Lilith ficou sozinha na sala, juntando as mãos sob o queixo enquanto um sorriso diabólico surgia em seu rosto.
— Eu não acredito que ele descobriu... Mas por que o Leônidas fez isso? Parece que ele queria que o garoto encontrasse aquele pergaminho de propósito. A menos que... Hihihi, você é diabólico, carrasco. Devo bater palmas.
Sozinha, a Primeira-Ministra começou a bater palmas lentas, rindo de forma sombria e cômica.
Enquanto isso, Alexandre chegou ao bloco de celas. As valquírias abriram caminho, admiradas. Ele parou de frente para a cela de Las Platas.
— Valentina, consegue me dar aquela chave?
Valentina olhou para ele. Suas bochechas estavam coradas de vergonha por ainda vestir as roupas dele. Ela evitou contato visual e jogou a chave de metal por entre as grades.
— C-claro…
Alexandre destrancou a cela, abriu a porta de ferro e virou-se para as guardas.
— Esta garota está livre de qualquer punição. Ela possui o Perdão Imperial e está dispensada de qualquer serviço militar pelo próprio Imperador. Deixem-na ir. Porém, devido aos crimes desumanos que a General Sans cometeu, eu assumo a culpa. Serei sentenciado à prisão, e espero que vocês cumpram seu dever e me tranquem aqui dentro.
Valentina arregalou os olhos. Ela tentou se levantar, mas a dor dos ferimentos a deixaram zonza. Quando estava prestes a cair, Alexandre a segurou pela cintura com firmeza e respeito.
— Está bem? — perguntou ele, o olhar cheio de empatia.
Nas mentes das valquírias e de Valentina, Alexandre parecia brilhar como o cavaleiro de armadura reluzente dos contos de fadas.
— E-eu estou bem... — murmurou ela, o coração acelerado.
Recuperando o equilíbrio, Valentina agarrou a farda dele.
— M-mas Alexandre, você não deve fazer isso! Você não tem culpa!
Alexandre a guiou com cuidado até as mãos de uma valquíria, encerrando o argumento com um sorriso.
— Eu devo sim. Eu entrei para essa carreira não para ser apenas um homem que se vangloria do cargo, mas para ser responsável por todas as vidas deste reino. Por isso fui atrás da sua inocência. Agora, vá e faça a sua liberdade valer a pena.
A grade se fechou com um estrondo de ferro. As valquírias, comovidas até às lágrimas pela honra e sacrifício do ex-Comandante, bateram continência em uníssono.
— Comandante Alexandre! Faremos sua vontade e o manteremos preso aqui, mesmo que seja contra a nossa vontade!
Alexandre ficou levemente surpreso com o drama das Valquirias, mas sorriu, caminhando até a cama da cela e deitando-se com as mãos atrás da cabeça.
— Obrigado, meninas. Só tentem não ser tão preconceituosas com os outros homens do batalhão. Eu lutei pelo direito de todos vocês porque quero o melhor para todos. Fiquem bem.
Do lado de fora, Valentina permaneceu de pé, os olhos cravados nele através das grades.
— Alexandre... Eu prometo, do fundo do meu coração, que vou conseguir o Perdão Imperial para você. Não irei descansar até o Imperador assinar a sua salvação.
— Valentina, aproveite sua vida. Por favor, vá fazer tudo o que a guerra roubou de você — respondeu ele, de olhos fechados.
Valentina levou a mão ao peito, a voz transbordando de coragem :
— Me chame de Valentina Platas. E a vida só vai valer a pena se eu puder vivê-la com você, querido Alexandre.
O silêncio reinou por um segundo antes do caos se instaurar.
— O QUÊ?! — gritou Alexandre, quase caindo da cama.
— QUEEE??!! — berraram as valquírias, os olhos brilhando.
O instinto fofoqueiro das Valquírias explodiu.
— Uauuu! O ex-comandante está sendo desejado pela garota mais linda do reino!
— Eles serão o melhor casal do império! Mal posso esperar para ver o clã que eles vão fundar!
— Todos os filhos serão inteligentes e duelistas perfeitos!
Encurralado pela Historia coletiva, Alexandre levantou as mãos, apavorado.
— C-calma, meninas! Vocês estão levando tudo muito rápido! E você, Valentina, pare de incentivar isso!
De repente, a gritaria foi sufocada por uma aura opressora que congelou até a respiração das Valquírias. Na entrada do bloco de celas, Lilith sorria com as mãos unidas atrás das costas.
— Ora, ora, ora... Parece que tudo já se resolveu por aqui.
Valentina virou-se, apontando o dedo acusatório para a Primeira-Ministra.
— Você...!
Antes que a primeira sílaba saísse, uma camada de gelo espesso cobriu a boca de Las Platas.
— Calada, sua tonta — cantarolou Lilith. — Eu vim aqui para falar com o meu melhor amigo.
Num "pop" sonoro, Lilith teletransportou-se para dentro da cela trancada. Ela parou na frente da cama de Alexandre, olhando para ele com as mãos na cintura.
— Alê, você está livre! Eu estou te dando o perdão ofic—
A expressão de Alexandre fechou-se instantaneamente, o olhar sério silenciando a garota.
— Lilith, a única pessoa que pode conceder o Perdão Imperial é o Grande Líder.
Lilith inchou as bochechas, cruzando os braços, indignada com a recusa.
— O quê?! Você está duvidando da minha palavra? Meu papai vai fazer o que eu quiser!
— Lilith, eu esperarei o julgamento do Grande Líder, e de mais ninguém. A lei é a lei.
A Primeira-Ministra bateu o pé, emburrada como uma criança.
— Tá bem! Eu já volto com o papel!
Com outro "pop", ela desapareceu. O gelo que cobria a boca de Valentina estilhaçou, deixando-a tremer de frio e ódio.
— E-essa tampinha... Ela é uma tirana! Eu irei acabar com ela!
Enquanto o drama romântico e prisional continuava, Lilith corria desesperada pelas escadarias espirais da torre intransponível. Ela invadiu o gigantesco salão escuro e gritou para o vazio:
— Papai! Eu quero dar o Perdão Imperial para o Alexandre! Você consegue dar a aprova—
A sombra colossal mexeu-se nas trevas. A voz que respondeu não tinha afeto ou paciência. Era a fúria e a autoridade absoluta do Imperador:
— NÃO!
Lilith parou abruptamente, o choque arregalando seus olhos.
O Imperador ergueu-se nas sombras, a voz ecoando pelas paredes :
— Alexandre será punido por sua insolência e por brincar com o meu exército. Serei misericordioso... darei a ele uma morte rápida.
O coração de Lilith falhou uma batida. Pela primeira vez na vida, o terror genuíno de perder alguém importante tomou conta dela. Ela abaixou a cabeça, trêmula.
— C-como quiser, papai...
Notas do Autor
Finalmente estamos no penultimo capitulo, estou bem triste que a jornada do nossa querida amiga esta chegando ao fim, mas eu gostaria de agradecer imensamente a todos os leitores que ficaram aqui, abraço, eu prometo lançar o ultimo logo logo, mas fiquem avisados ele vai o maior.