Mesmo ouvindo seu pai, Lilith mantém a postura.
— Papai, eu vou fazer então os preparativos para a execução do prisioneiro.
O Imperador, uma massa de sombras impenetrável sentado em seu trono, apenas assentiu com uma voz grossa.
— Sim, vá minha filha. E faça a vontade de seu pai.
Lilith recuou e desapareceu nas sombras e materializou-se no interior da prisão. Ofegante, abriu as grades da cela de Alexandre, que continuava deitado na cama de pedra, encarando o teto.
— Rápido, você precisa sair daqui! — disse Lilith, agarrando o braço dele. — Vamos fingir que você me desacordou e fugiu!
Alexandre sem se mover.
— Eu não vou a lugar nenhum. Se meu destino for esse, que assim seja.
A garota bateu o pé de frustração misturado com desespero.
— Saia daí! Eu preciso que você fuja! Meu pai vai acabar com você.
— Se nem a própria filha do Imperador conseguiu, então meu destino já está traçado — retrucou Alexandre, com calma.
Lilith puxou a farda dele com mais força. Os olhos azuis com lágrimas não derramadas.
— Bobagens! Vem logo, me bata! Me nocauteie!
Alexandre sentou-se na beirada da cama, observando Lilith.
— Por que você quer tanto que eu faça isso? — Ele suspirou, a voz suave. — Eu não sou apenas um brinquedo para você, como todo o resto? Trate de parar de ser uma criança mimada e faça o que seu pai mandou.
— Eu não quero! — Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha.
Surpreso com a dor da garota, Alexandre cedeu. Ele a puxou para um abraço.
— Pronto, pronto... vai ficar tudo bem.
— Não vai... — ela soluçou contra o peito dele, agarrando mais forte. — Você vai morrer…
Alexandre soltou uma risada cômica diante da justificativa, mas afastou-a gentilmente, segurando seus ombros e olhando no fundo de seus olhos.
— Calma. Você vai se tornar uma grande governante. Acredito que é isso que seu pai quer de você. Por isso, tente ser alguém diferente dele. Tente manter o futuro da raça humana sendo uma líder generosa.
Ela esfregou os olhos com as mãos, fungando.
— E-eu vou ser a melhor Alê, você vai ver...
— Sim, eu sei que vai. Não vai decepcionar ninguém.
Após um último e longo abraço, o som de botas metálicas ecoou pelo corredor. Lilith desapareceu no ar um segundo antes de a porta do bloco de celas se abrir. Sanstone marchou para dentro, rodeada por Laura, Marcos e um esquadrão de Valquírias e parou em frente à grade. Seus olhos vermelhos estavam fixos no chão, recusando-se a encarar ele.
— Pelos crimes cometidos contra este império... sua condenação será a execução, Alexandre — a voz de Sanstone soou mecânica. — Por favor, nos acompanhe.
Alexandre levantou-se, alisando a roupa.
— Nossa, foi bem rápido. Pelo jeito o Imperador me quer morto o quanto antes.
Marcos abriu um sorriso.
— Bem, Alê, pelo jeito você é bem popular. Desde que assumiu o posto de Comandante, sempre esteve nos holofotes.
— Exatamente — riu Laura. — Você tem muito carisma. Hoje em dia você é o assunto mais falado pelas Valquírias e os soldados.
Alexandre estendeu os pulsos para ser algemado, erguendo uma sobrancelha.
— Ah, é? E quais apelidos carinhosos elas dão para mim agora?
— Você vai ver quando chegar a hora — murmurou Laura, empurrando-o gentilmente para fora da cela.
A caminhada até a superfície foi silenciosa. Sanstone caminhava à frente, a postura rígida, sem lançar um único olhar para trás. Alexandre notava a tensão nos ombros dela; claramente não estava feliz.
Ao chegarem à arena do Coliseu, o clima era diferente. As arquibancadas não estavam lotadas de civis ou membros de outras nações, apenas as tropas do próprio exército humano assistiam em absoluto silêncio.
Marcos olhou ao redor.
— Nossa, quem diria que o destino nos traria de volta para cá. Parece até coisa de livro.
— Sim — sorriu Laura. — Nunca imaginaria que terminaríamos na mesma sala onde tudo começou.
Alexandre parou e olhou para os amigos.
— Bom, para vocês ainda tem muito chão. A dica que dou é: façam apenas o que lhes foi dito. Tentem ajudar os outros com o que puderem, mas não sejam loucos como eu que toquei num vespeiro.
O som de pedra rachando interrompeu o discurso. Sanstone havia cravado a bota de aço no chão, abrindo um pequeno buraco. Ela finalmente falou, ainda de costas para ele:
— Não foi você quem fez isso. Eu deveria estar no seu lugar.
— Você é minha Vice-Comandante — cortou Alexandre com a voz firme. — Eu não podia deixar nada acontecer com você. Estava disposto a fazer qualquer coisa para te proteger.
A respiração de Sanstone engatou. Ela virou-se lentamente, a habitual máscara de frieza lutando para não desmoronar. Ela estendeu a mão na direção dele.
— Você ainda pode mudar isso. Troque de lugar comigo.
Quando os dedos dela tocaram o metal para destrancar as algemas, Alexandre segurou a mão dela com firmeza. Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido:
— Sans, faça valer a pena essa chance. Mude o que seu pai não conseguiu fazer.
Ela arregalou os olhos, paralisada pelo peso daquelas palavras. Antes que pudesse argumentar, dois guardas da Elite do Imperador se aproximaram.
— Está na hora.
Sanstone, apenas puxou Alexandre pelo braço em direção ao centro da arena. Observando as arquibancadas ocupadas apenas por militares, o Comandante comentou:
— O Imperador deixou a festa privativa. Interessante.
No centro da arena uma plataforma de madeira reforçada com a forca pronta. Ao lado da alavanca, Lilith aguardava acompanhada de um homem incrivelmente alto, envolto em um manto pesado. Logo atrás deles, Leônidas assistia a tudo com os braços cruzados.
Alexandre parou na base da escada, analisando o homem misterioso.
— Eu não esperava que o Imperador fosse assim.
O homem sorriu, mas a voz que saiu de seus lábios não lhe pertencia.
— Na verdade, essa não é minha forma real. É apenas mais um dos meus subordinados. Espero que não se desaponte, criminoso.
Alexandre começou a subir os degraus de madeira.
— Não. Eu esperava que o Imperador continuasse na torre. Afinal, não podemos perder nossa liderança.
Marcos e Laura o posicionaram no alçapão e ajustaram a corda em seu pescoço. Após terminarem, ambos ficaram de guarda na base da plataforma.
O Imperador virou-se para a filha.
— Filhinha, por favor, anuncie os crimes pelos quais ele foi condenado.
Lilith engoliu seco, desdobrando um pergaminho com as mãos trêmulas. Ela forçou um sorriso, gaguejando as palavras:
— C-claro, papai... Alexandre, você está sendo sentenciado à morte pelos crimes de chicotear um inocente, prisão de uma portadora de perdão imperial, afronta direta ao império e suspeita de conspiração.
— Bom trabalho, querida — elogiou o Imperador. — Agora, vá até lá e puxe a alavanca. Lembre-se, esta será sua primeira execução em nome da lei. Me deixe orgulhoso.
Lilith caminhou a passos lentos até a engrenagem. Ela olhou para Alexandre.
— Últimas palavras?
Ele ergueu o queixo, encarando o céu.
— Minhas ações dizem quem eu sou. Não minha boca.
Lilith colocou as mãos na alavanca. E então, com um movimento explosivo de magia, ela destruiu a madeira e o metal do mecanismo, estilhaçando-o.
Ao mesmo tempo, o som de aço ecoou pela arena. Marcos sacou sua lança, Laura estalou seu chicote, Sanstone ergueu seu gigantesco escudo. Em um piscar de olhos, os três oficiais formaram uma barricada humana diante da plataforma, protegendo Alexandre, atônito perguntou.
— Mas o que vocês estão fazendo?! São loucos?!
Marcos girou a lança, rindo nervoso.
— Eu sei, mas não me culpe! Eu não podia deixar meu melhor amigo morrer aqui.
Laura ajeitou a postura.
— Foi ideia da Lilith. Ela disse que precisávamos ir contra o Imperador, porque ele enlouqueceu.
Sanstone manteve o escudo erguido, os olhos cravados no próprio pai.
— Como você mesmo disse, Alexandre: suas ações falam por si. Não podemos deixar um inocente morrer aqui.
Nas arquibancadas, o silêncio foi quebrado por um rugido uníssono. As Valquírias e os soldados brandiram suas armas para o alto.
— ESTAMOS COM VOCÊ, ALEXANDRE! VOCÊ NÃO VAI MORRER AQUI!
O rosto do Imperador não se alterou.
— Filha, o que isso significa?
Lilith, tremendo da cabeça aos pés, teletransportou-se para longe do pai e encarando ele.
— Eu não posso deixar você matar alguém inocente! Eu estou liderando essa insurreição contra você, papai!
O Imperador começou a bater palmas lentas e rítmicas.
— Soldados da corte, cuidem do exército rebelde. Leônidas... trate de acabar com os oficiais. Eu cuido da minha filha levada.
Leônidas descruzou os braços, a voz monótona de sempre.
— Tem certeza, meu senhor? Você está usando apenas uma projeção e esta apenas com uma parte de seu poder.
— Tenho. Eu preciso falar com ela de pai para filha.
O imperador estalou os dedos e todos que estavam na arquibancada desapareceram e foram parar ao redor do lado do coliseu, os soldados da corte ficaram do lado de fora enquanto uma barreira translúcida foi formada ao redor do coliseu impedindo qualquer fuga.
Marcos, Laura e Sanstone avançaram lentamente, cercando Leônidas em um triângulo tático.
Sanstone cravou o olhar.
— Pai, eu vou derrotar você aqui e agora! Farei você pagar pelo sofrimento que causou a mim e a todos da família!
Laura estalou o chicote com deboche.
— Não é nada pessoal, Senhor Stone. Estou apenas seguindo as ordens de cuidar da sua filha.
Marcos bateu a ponta da lança na terra, sorrindo.
— Não se preocupe, coroa. Nós não iremos matá-lo, mas vai doer um pouquinho, sabe?
Leônidas observou os três com calma.
— Podem vir.
Do outro lado, Lilith e o Imperador se encaravam.
— Filha, você está cometendo um grande erro — a voz do Imperador engrossou. — Se continuar assim, será a garota malvada que o papai terá que punir.
Ele ergueu a mão com um olhar vazio. Apavorada, Lilith conjurou uma colossal bola de fogo e a lançou contra ele.
— De jeito nenhum! Eu não perderei!
Quando o inferno flamejante estava prestes a engolir ele, o Imperador apenas balançou a mão esquerda, como se espantasse uma mosca. O fogo dissipou-se no vento.
— Vamos ver o quanto você melhorou, garota malvada.
No centro da arena, Leônidas estalou os nós dos dedos. Alexandre, ainda de pé na forca, analisou a situação.
— "Eles estão tentando cobrir todos os pontos cegos dele, mas acredito que não seja sufic—"
Um arrepio subiu pela nuca de Alexandre. Uma presença surgiu exatamente atrás de si. A voz sussurrou, carregada de malícia:
— Sentiu minha falta?
Alexandre virou-se, corando levemente. Valentina piscava, desfazendo seu feitiço de invisibilidade.
— P-por que você está aqui? Vá viver sua vi...
— Já estou fazendo isso — interrompeu ela. Com um corte de sua espada, ela cortou as cordas e as algemas dele com facilidade. Em seguida, entregou-lhe a espada curta. — Bom, hora do show, gatão.
Alexandre abriu um sorriso confiante. Juntos, saltaram da plataforma e pararam ao lado de Sanstone. Alexandre apontou a lâmina para Leonidas de longe.
— Você pode ser absurdamente forte, Leônidas. Mas contra todos nós, não tem chance.
Leônidas baixou os braços.
— Veremos.
O gigante desapareceu. Em uma fração de segundo, ele surgiu na frente de Laura, desferindo um soco. Porém, ao ser atingida, a imagem de Laura explodiu em uma névoa densa e tóxica. O veneno cobriu o corpo do gigante.
A verdadeira Laura emergiu do chão, materializando-se como gotas de toxina ao lado de Marcos.
— Clone de veneno. Uau, você é bem desastrado, não é? — debochou ela.
Aproveitando a distração, Marcos abaixou a lança e investiu.
— Aqui vou eu, coroa!
Leônidas pisou forte no chão, abrindo uma fenda sísmica na direção do Capitão. porem, com reflexos aguçados, ele usou a ponta de sua própria lança como vara de salto enquanto a segurava na mão. Ele voou sobre a fenda, impulsionando os dois pés num chute voador duplo.
— Toma essa!
Leônidas ergueu os antebraços para bloquear o chute de Marcos. Mas, ao fazer isso, expôs seu flanco. Sanstone com punho carregado de fúria mirou diretamente nas costelas do pai.
O impacto do soco de Sanstone e o chute de Marcos nas mãos dele — criou um vácuo de vento que varreu a poeira da arena. Marcos usou o próprio corpo do gigante para pegar impulso, recuando num mortal para trás até cair longe da rachadura. Pelas laterais, Valentina e Alexandre correram em sincronia, saltando com as lâminas apontadas para os ombros e o peito de Leônidas. As espadas acertaram o metal da armadura, causando arranhões fundos.
Apesar do bombardeio, Leônidas não moveu um músculo do rosto.
— Ótimo. Vocês evoluíram — elogiou ele, a voz fria. — Acho que posso parar de brincar.
Sanstone gritou, abrindo os olhos.
— SAIAM DE PERTO!
Alexandre e Valentina pularam para trás no exato momento, Sanstone gerou uma onda inflamatória que serviu como escudo propulsor para afastá-la e atingindo Leonidas. No mesmo segundo, ele liberou sua energia.
Uma explosão massiva de chamas e vento varreu a arena. A detonação assumiu a forma de um cogumelo de fogo, três vezes maior que a de Sanstone.
Do outro lado do campo de batalha, Lilith e o Imperador pararam seu duelo. Ambos conjuraram escudos esféricos. O Imperador aguardou de braços cruzados, o fogo lambendo sua barreira sem causar um arranhão.
Lilith forçou as mãos para frente, expandindo sua redoma para engolir e proteger Alexandre, Marcos, Laura, Sanstone e Valentina. as pontas do cabelo de Lilith começaram a desbotar para um tom cinza.
— "Que estranho... por que o carrasco está tão poderoso?" — pensou Lilith, rangendo os dentes.
Quando a poeira baixou, a terra da arena estava vitrificada. Leônidas olhou para a filha através da fumaça.
— Vamos começar.
Sanstone fincou o escudo no chão e, num gesto idêntico ao do pai, estalou as mãos.
— Pensei que nunca ia dizer isso.
Enquanto o quarteto avançava novamente contra o gigante, Alexandre recuou um passo, focado no duelo de magia monstruoso que ocorria aos céus.
Lilith disparava relâmpagos contínuos das palmas das mãos, concentrando voltagem gigantes e grossas. O Imperador, flutuando, ergueu uma única mão. Os raios atingiram sua palma e começaram a ser comprimidos. Ele fechou os dedos, esmagando a magia, fazendo-a desaparecer.
— Muito que aprender você ainda deve, minha pequena garota levada.
Com as pernas tremendo, Lilith forçou um sorriso arrogante.
— Isso é apenas o começo! — Ela ergueu as mãos para os céus. As nuvens escureceram, fechando o tempo sobre a arena. — Me perdoe, pai.
Com um puxão violento, um pilar de raio e gelo absoluto despencou dos céus, congelando o Imperador num iceberg maciço. Ofegante, com o cabelo quase branco, Lilith invocou suas paredes translúcidas, fechando-as ao redor do bloco de gelo como uma prensa hidráulica, tentando esmagá-lo.
O gelo estilhaçou em uma névoa espessa. Quando a fumaça dissipou, o Imperador continuava intacto, protegido por sua própria barreira.
— Estou bem desapontado com você querida. Você pode fazer melhor — ele suspirou, assistindo Lilith tentar fechar a prensa inútil. — Você é muito Teimosa.
Enquanto isso, a dança mortal contra Leônidas continuava. Valentina e Alexandre atacavam em sincronia, mas o gigante desviava com movimentos rapidos.
— Boa postura. Velocidade na média. A força ainda está meio desengonçada — avaliava Leônidas, atuando como um instrutor.
De longe, Laura disparava chicotadas implacáveis. Leônidas se esquivava com facilidade.
— Meu Deus, ele parece um deus! Não consigo acertar nem um fio de cabelo dele! — reclamou Marcos, frustrado tambem tentando atacar ele.
— Coragem, querido, a gente precisa conseguir! — ofegava Laura.
Sanstone tentava flanquear, mas todos os seus socos encontravam apenas o ar.
— "Droga, ele é muito rápido. Mas... parece que ele está apenas se esquivando dessa vez."
Aproveitando a frustração de Sanstone, Leônidas desferiu um contra-ataque avassalador no estômago dela.
Alexandre, lendo o movimento, percebeu que o proximo golpe seria para o rosto. Quando Leônidas ajustou a trajetória, Alexandre se atirou na frente da Vice-Comandante, interpondo a espada e gritando a plenos pulmões:
— APARAR!
O punho colidiu contra a magia.
— Inútil — disse Leônidas.
O soco rompeu a magia de Aparar.
— Cuidado! — gritou Valentina, mergulhando e colocando sua própria espada sobre a de Alexandre para tentar absorver a força.
O impacto empurrou os três para trás com violência. A ventania gerada pela colisão jogou Valentina para o alto. Ela voou pelo campo, batendo contra a barreira nas arquibancadas e caindo desacordada longe de todos.
Alexandre e Sanstone foram arrastados. O Comandante bateu de costas contra o muro de pedra do coliseu agonizando.
— AAAAARGH! — O grito de Alexandre cortou a arena antes de ele despencar de cara no chão, imóvel.
Sanstone, atordoada, arrastou-se até ele e puxou seu corpo para o colo.
— Alexandre! Responde! — Mas o ele estava mole e inconsciente.
Leônidas ajeitou a postura, limpando a armadura.
— Dois a menos.
Sanstone deitou o corpo de Alexandre na terra com calma. e ergueu-se devagar. Num movimento grotesco, agarrou os próprios quadris e com um tranco, colocou a própria coluna de volta no lugar.
— Miserável! Você vai pagar por isso!
Marcos, estremeceu.
— Meu Deus, você só pode ser um monstro, Sans. Eu acredito no seu potencial.
— Somente você consegue derrotá-lo, Sans — completou Laura, cobrindo a retaguarda de Marcos. — Nossas armas não surtem efeito.
Sanstone assumiu exatamente a mesma pose de luta do pai.
— Isso é o que ele quer que vocês achem. Eu sei que minha força não chega aos pés da dele... mas eu não desistirei. Valentina mostrou isso: ela não tinha força, e mesmo assim nos protegeu. Não vou deixar que o sacrifício dela seja em vão!
Cuspindo o gosto de sangue, ela gritou: — VENHA!
Pai e filha investiram um contra o outro simultaneamente. Eles colidiram no centro. Seus punhos esmagaram o rosto um do outro. A onda de choque levantou um tornado de poeira que cobriu a arena.
Nos céus, o Imperador jogou o braço para o lado com um gesto de desdém. A magia de compressão de Lilith estilhaçou em purpurina. A garota segurou o próprio pulso, gritando de dor.
— Chega de brincadeiras — declarou o Imperador. Com outro aceno, ele simplesmente apagou a nuvem de poeira da arena lá embaixo, revelando o resultado brutal de Sanstone e Leônidas. — Você não está muito fraca, queridinha. Acho que preciso te mostrar as consequências das suas ações... com seus amiguinhos.
Ele apontou o dedo indicador para o corpo caído de Alexandre. Um feixe de chamas negras se formou no dedo, comprimido ao tamanho de uma lança ele disparou.
Lilith arregalou os olhos, ela se teleportou para o chão, abrindo os braços sobre o corpo do Comandante e erguendo uma muralha vermelha maciça. O raio chocou-se contra a barreira com a fúria do inferno, rachando-a, mas não quebrou.
Alexandre, despertando a visão embaçada focou em Sanstone e Leônidas, ainda travados no soco mútuo. De repente, as pernas de Sanstone falharam; ela tossiu uma poça de sangue e caiu de joelhos.
Alexandre tentou mover os braços, mas sua coluna estava paralisada.
— "Droga... não consigo fazer nada..."
Nas arquibancadas, Valentina acordou, ela arrastou-se até a grade, ergueu o rosto banhado de sangue para o céu e gritou com força:
— LEOOOONNIDDAAAAASS!
A fúria de Valentina ecoou. Ela sacou a espada dourada. A voz dela fez Sanstone erguer levemente a cabeça. Leônidas, por um momento demonstra surpresa.
— Nós vamos derrotar você, custe o que custar! — berrou Valentina, pulando da arquibancada com a espada em punho.
Marcos e Laura correram para dar suporte ao ataque aéreo. Ela descia como uma guilhotina. Leônidas, recuperando a compostura, esquivou do ataque, teleportando-se para o lado, o ataque deixou uma rachadura no chão.
Laura correu para amparar Sanstone.
— Você está bem, Sans?!
Sanstone, tonta, apontou o dedo trêmulo.
— Ele sentiu o soco…
Las Platas ergueu a lâmina para os céus.
— Vou mostrar o que aprendi. Esse feitiço é proibido... mas se for pra proteger o que amo, vou usar tudo que tenho!
Leônidas leu os lábios da garota, ele pisou no solo com força sísmica, desestabilizando Valentina e arremessando-a no ar e interrompendo o feitiço. Ele saltou para interceptá-la com um soco.
Mas Marcos entrou na frente. O soco de Leônidas acertou em cheio as costelas dele.
— Aiiii... essa eu senti, coroa... — grunhiu Marcos, o sangue espirrando da boca.
— MARCOOOOOS! — berrou Laura.
Valentina caiu de pé, enquanto o Capitão caia no chão. Leônidas pousou do outro lado para atacar Laura, que estava com a guarda baixa pelo choque.
Mas Sanstone surgiu do nada, golpeando o punho do pai na lateral e desviando a trajetória.
— Por favor, não... não... — chorava Laura, correndo para o lado de Marcos.
Alexandre, assistindo sentiu o desespero apertar a garganta.
— "A situação é catastrófica. Todos vão morrer se continuarmos assim... seria melhor se eu..."
Ele olhou para cima. Lilith estava com as pernas trêmulas, o cabelo era branco pálido, mantendo a barreira sob o raio negro contínuo.
O Imperador encerrou o feixe de chamas.
— Saia daí.
— N-não... — arfou Lilith. — Eu não vou deixar…
O imperador usou a mão sombria para pegar o pesado grimório da cintura de Lilith e o levou até a mão dele.
— Certo. Então garotas levadas precisam aprender a ficar sem seus brinquedos.
Lilith com o rosto cheio de pânico.
— Não faz isso! Todos os feitiços que eu criei estão aí! Se eu perder isso, minha vida de aprendizado…
— Saia da frente e eu o devolvo, querida.
— NÃO SAIO!
Sem hesitar, o Imperador envolveu o grimório em chamas negras. As páginas viraram cinzas.
— NÃAAOOO! MEUS FEITIÇOS! — berrou Lilith, caindo de joelhos.
O Imperador deu um passo ameaçador em direção a ela e a Alexandre. Lilith abraçou Alexandre. Uma explosão de teletransporte puxou Sanstone, Laura, Marcos e Valentina para perto deles, fechando todos em uma redoma vermelha compacta.
Leônidas parou de atacar e caminhou, postando-se ao lado do Imperador.
Lilith, com o rosto cheio de lágrimas, ergueu o queixo e gritou:
— Se quiser matar meus amigos... você vai ter que me matar!
O Imperador tocou a superfície da barreira.
— Filha, pare com essa birra. Eu posso te ajudar a encontrar novos amigos. Saia daí. Vou dar uma morte rápida a esses traidores e pouparei o restante.
Lilith colocou Alexandre no colo de Sanstone, que havia se arrastado até ali. ela ficou de pé, abriu os braços e manteve a redoma firme.
— Vá em frente, pai! Me mate! Não vou abrir mão deles! Ninguém aqui é culpado. Afinal de contas, o senhor mesmo concedeu o perdão a Valentina. E se os seus crimes de sacrificar uma família inteira foram acobertados... então essas pessoas merecem uma segunda chance muito mais do que nós!
O Imperador olhou para a filha. Lentamente, ele baixou a mão negra, desfazendo sua própria magia. Para a surpresa de todos, o coliseu foi preenchido pelo som de palmas lentas.
— Bravo... Bravo.
Lilith piscou, ainda sustentando a barreira, o cérebro processando a mudança de clima.
— I-isso não é engraçado, pai!
— Não estou zombando, filha. — Ele cruzou as mãos atrás das costas. — Na verdade... você passou no teste.
O choque imobilizou o grupo. Marcos, tateando o próprio abdômen perfurado, tossiu e resmungou:
— T-teste...? Eu ia acordar no pós-vida a qualquer segundo...
— Teste?! — disse Lilith. — Como assim, papai?!
O Imperador olhou para os portões do coliseu. A barreira de isolamento desapareceu. Os milhares de soldados do exército regular, que travavam uma batalha falsa contra a Elite Real lá fora, invadiram a arena com as armas em punho.
Sanstone ergueu o braço, ordenando alto:
— ALTO! BAIXEM AS ARMAS!
A multidão estacionou.
— Eu conto os detalhes na torre — disse o Imperador, virando as costas.
Sanstone olhou ao redor e notou a assinatura de mana opressiva. Valentina sibilou, guardando a espada:
— É o jacaré asqueroso estava assistindo ao espetáculo de camarote.
O corpo de Alexandre, que vinha suportando a dor insuportável, cedeu. A consciência apagou.
Lilith, desfazendo a redoma, caiu de joelhos ao lado dele, as mãos brilhando em uma luz esverdeada.
— Cura... cura... cura... Droga, não funciona! Mas, pelo menos, ele não está morrendo.
Laura ajoelhou-se do outro lado, tateando a coluna do Comandante com cuidado.
— As costas dele estão fora do lugar. Não racharam completamente, mas estão deslocadas e comprimindo os nervos.
Sanstone ajeitou Alexandre no colo. Ela olhou para as duas.
— Primeira-Ministra, mantenha a magia de regeneração ativada e focada nos ossos dele. Laura, injeta seu veneno anestésico e paralisante na base da coluna dele.
Laura sorriu sacando o chicote. Ela tocou a ponta envenenada nas costas de Alexandre, injetando uma dose cavalar de anestesia. O rapaz gemeu levemente. Lilith tremia, mas mantinha a luz verde pulsando firme.
Até o Imperador ergueu uma sobrancelha, curioso.
Com uma precisão brutal, Sanstone encaixou as mãos ao redor da vértebra deslocada e aplicou um tranco. Um "crec" alto confirmou o ajuste.
— Isso deve resolver — disse ela.
Marcos e Laura trocaram olhares assombrados com a força da Vice-Comandante.
Lilith, tossiu uma golfada de sangue e caiu de costas.
— Graças aos deuses... — murmurou.
Mas antes que ela atingisse o solo, as mãos de trevas a pegaram.
— Primeira-Ministra! — exclamou Sanstone, assustada.
Leônidas parou na frente das mãos.
— Acalme-se. Ele não pretende machucar ninguém.
Sem pensar, ela armou o punho e cravou um soco monstruoso bem no centro do peitoral do gigante.
— Saia da minha frente, seu demônio!
O impacto empurrou Leônidas para trás, os calcanhares de aço rasgando a terra.
Sanstone estalou os dedos da mão dolorida, rosnando:
— Você não vai mais me control-
— Deixe, Sans... — Uma voz fraca veio do chão. Alexandre começava a sentar-se, apoiado por Valentina e Marcos. Ele olhou para o Imperador. — Você vai deixar eu ficar ao lado da Lilith, não é, senhor?
O Imperador estreitou os olhos brilhantes nas sombras do capuz, um resquício de admiração surgindo.
— Então você percebeu o teatro? Devo tirar o chapéu para a sua inteligência, Comandante. Bem, vão para o salão de banquetes na torre. Quero você, Sanstone e Valentina lá. Os outros estão dispensados do serviço por hoje.
A presença ancestral abandonou o fantoche. O soldado mascarado, agora de volta a si, apenas apontou a direção.
— Me acompanhem. Mostrarei o caminho.
Enquanto caminhavam, Alexandre levantou-se e deu os primeiros passos, testando as costas.
— "Como estou caminhando tão facilmente? Qualquer pessoa comum teria..."
— Marcos e Laura, cuidem das tropas por nós enquanto falamos com o Imperador — instruiu Sanstone.
Marcos esfregou a costela.
— Tem certeza?
Valentina passou o braço ao redor das costas de Alexandre para ampará-lo, lançando um olhar orgulhoso.
— Sim. Eu estarei com eles, então podem deixar que eu os protejo.
Ao bater no próprio peito com o polegar, Valentina fez uma careta, as costelas esmagadas protestando.
— Não força a barra, garota — disseram Sanstone e Laura em sincronia.
O soldado da guarda real os escoltou até o imenso salão de banquetes do castelo e fechou as pesadas portas.
— Logo serão atendidos. Por favor, sirvam-se.
A longa mesa estava forrada com os pratos mais exóticos do império. Alexandre olhava o banquete, a boca levemente seca. Sanstone aproximou-se, o olhar carregado de preocupação mal disfarçada.
— Alê... você está bem? Sente alguma dor?
Valentina inflou as bochechas. Num movimento possessivo e provocador, ela agarrou o braço livre de Alexandre e o puxou contra seus seios, abrindo um sorriso doce.
— Relaxa, querido. Eu vou te deixar bem mais calmo.
O rosto de Sanstone tingiu-se de fúria. Ela agarrou o outro braço dele, puxando-o de volta.
— Escuta bem aqui, queridinha: eu sou a Vice-Comandante! É o MEU trabalho cuidar do Comandante!
Valentina não afrouxou o aperto, rebatendo:
— É mesmo? Mas você é uma oficial e não pode ter relações românticas com ninguém. Além disso... nós dois estamos destinados a ficar juntos.
— Você sabe muito bem que ele também é um oficial! Isso é estritamente proibido! — rugiu Sanstone.
Valentina deu de ombros sorrindo.
— Ué, se o Leônidas pôde ter uma esposa civil durante a guerra, por que o Alê não pode? Afinal de contas, eu não pertenço mais ao exército, sou uma "civil" indefesa. Vem, Alê, eu faço o que você quiser…
Sanstone perdeu as estribeiras. As duas garotas começaram um cômico cabo de guerra, puxando o corpo debilitado de Alexandre de um lado para o outro.
— "Deuses... por que isso foi acontecer logo comigo?!" lamentou Alexandre mentalmente.
O estrondo das portas duplas interrompeu o cabo de guerra. Lilith entrou no salão, marchando.
— Parou com essa palhaçada agora mesmo!
As duas soltaram Alexandre no susto. A Primeira-Ministra, ignorando a etiqueta real, correu até alexandre e o envolveu num abraço apertado, tateando seus braços e ombros, genuinamente apavorada.
— Você está bem? Doendo em algum lugar?!
Alexandre sorriu, retribuindo o abraço com carinho.
— Estou inteiro, Lilith, não se preocupe. A Sanstone foi uma cirurgiã brilhante e você me curou, então devo a vida a vocês.
Valentina inflou as bochechas novamente.
— Ei! Eu também quero agradecimentos! Fui a mais corajosa naquele coliseu!
Alexandre fez um cafuné nos cabelos agora inteiramente brancos de Lilith e virou-se para Valentina.
— Também preciso agradecer a você, Valentina. Sua bravura e lealdade hoje foram as maiores que já vi.
A garota colocou as mãos nas bochechas coradas, suspirando de paixão, enquanto Sanstone apenas cruzava os braços e revirava os olhos.
— Fico tão feliz que suas feridas sumiram, Alê — disse Lilith, sorrindo abertamente.
— Falando nisso, Lilith... seu cabelo. Vai ficar branco pra sempre? O que foi aquilo?
A garota soltou o abraço e pegou uma mecha branca.
— Isso? Ah, é que estou meio fraquinha. Fiz um esforço colossal usando feitiços divinos em sequência e mantendo a barreira. Meu cabelo desbota quando esgoto minha mana. Acha feio?
— Na verdade, não — riu ele. — Te deu um estilo bem mais maduro.
Lilith deu uma risadinha vaidosa, mas logo assumiu o tom político.
— Bem, piadas para depois! Chamei vocês três porque preciso contar as atualizações. Meu papai me explicou o porquê daquele teatro todo. Ele confirmou que Alexandre se manterá no cargo de Comandante, todos os "crimes" recentes foram perdoados e o melhor: ninguém do exército morreu no confronto lá fora.
O alívio foi palpável. Sanstone, confusa, perguntou:
— Como assim ninguém morreu? E o que os guardas da corte ficaram fazendo com nossos soldados?
— Ah! — Lilith coçou a nuca. — Os soldados da Elite são monstruosamente fortes, mas meu pai mandou ordens telepáticas pra eles apenas desarmarem e imobilizarem a tropa. Basicamente, não mataram nem uma mosca, só brincaram com eles.
Valentina, com a experiência das linhas de frente, assentiu.
— Impressionante. Isso explica o fato de nenhum assassino conseguir infiltrar a torre.
— Sim, sim — Lilith foi até a ponta da mesa, a expressão pesando. — Bom, agora que as intrigas e as questões internas estão resolvidas, precisamos discutir o que faremos para impedir a guerra que está por vir.
Alexandre e Sanstone exclamaram em sincronia :
— Guerra?!
Valentina apenas suspirou, sentada na cadeira.
— Sim — continuou Lilith. — No ano passado, a rede de inteligência do Clã Poison interceptou mensagens. O Rei Leonardo II está impaciente. Ele acredita ter reunido força o suficiente para derrubar o papai de uma vez por todas.
A Primeira-Ministra interrompeu o discurso.
— A propósito... você não deveria estar aqui. Quem te deu autorização para subir à torre?
Uma sombra descolou-se da parede. Leônidas materializou-se de braços cruzados.
— Fui eu que pedi para o imperador chamar ela. Valentina tem um vasto conhecimento tático sobre o funcionamento das tropas no Reino das Bestas. Aposto que essa notícia não é novidade para ela.
Valentina estreitou os olhos com rancor, mas conteve o ódio e analisou a situação.
— Sim, eu já sabia que o "gatinho crescido" está ansioso para iniciar uma invasão em larga escala... e ele convenceu o Reino das Águas a lutar ao seu lado.
Leônidas cerrou os olhos.
— Então ele conseguiu trazer os anfíbios para a guerra? Eu sabia que pertenciam ao continente das bestas, mas sempre foram uma facção isolacionista e pacífica.
— Eram — corrigiu Valentina. — O problema é que não foi só isso. O Ceifador viajou diversas vezes até lá para negociar os termos. Tenho certeza absoluta de que eles estão tentando forjar a mesma sujeira de anos atrás.
Leônidas soltou um longo suspiro desdenhoso.
— O Contrato das Almas.
Alexandre, ligando os pontos, franziu a testa.
— O que é esse contrato?
O gigante se encostou no pilar de mármore e explicou:
— O Contrato das Almas foi o pior acordo militar já selado. O antigo Rei Leonardo I sabia que morreria em combate mais cedo ou mais tarde. Para garantir o apoio total do submundo, ele prometeu um suprimento constante de almas para o Rei Salocin, em troca de paz eterna no pós-vida. Salocin não recusou a oferta: almas grátis sem precisar levantar um dedo. Mas a aliança foi além... Salocin repassou conhecimentos de magia negra para Leonardo I, o que corrompeu e amplificou a habilidade assinatura dele: O "Corte X".
Lilith complementou :
— Uma técnica profana capaz de rasgar não apenas a carne, mas a alma da pessoa. Ela estilhaça o recipiente de mana, causando um vazamento contínuo. Foi essa a causa da morte do meu avô.
Valentina deu um pulo para trás, os olhos esbugalhados.
— O quê?! O Imperador Herói está morto?! Mas... eu acabei de vê-lo na arena!
— E lá vamos nós explicar de novo — murmurou Lilith. — O Imperador que vocês veneram é o meu pai. O "Herói" que você ouviu falar era meu avô. Ele definhou até a morte por causa desse feitiço das bestas. A técnica mais ofensiva de todas pertence a Leonardo, e a técnica mais defensiva, a Barreira Translúcida, pertence à minha linhagem. O detalhe importante... é que as duas técnicas não foram criadas. Elas foram presentes concedidos por seres muito além de nós: Os Espíritos.
Sanstone absorveu a lenda, conectando com seus estudos.
— Eu já li sobre esses seres em pergaminhos restritos da família. Nunca vi um, dizem que são feitos de energia ilimitada e não possuem forma física. Ninguém com olhos normais consegue vê-los.
Lilith ergueu um único dedo.
— Correto. Mas três indivíduos conseguiram vê-los e conversar com eles.
— O Antigo Imperador, Leonardo I e Salocin — revelou Leônidas, encerrando o suspense.
Lilith fez uma careta pela intromissão, mas assentiu.
— Sim, obrigado pela participação desnecessária, carrasco. Como Salocin é o Senhor do Submundo e domina o plano astral, ele tem a visão necessária para enxergá-los. Não sabemos exatamente o que Salocin está planejando no longo prazo, mas ele certamente cobiça a dimensão dos Espíritos.
O patriarca Stone desencostou do pilar, preparando-se para partir.
— A informação já está dada. Lilith, não desaponte seu pai. Faça o que precisa ser feito.
— Fique tranquilo, carrasco, eu não irei. — Lilith bateu palminhas. — Bem, agora que todos estão cientes do cataclismo global e as pendências internas estão perdoadas... Precisamos que você, Alexandre, reassuma oficialmente o cargo de Comandante Supremo.
Alexandre curvou-se levemente.
— Eu darei o meu melhor, Majestade.
Lilith apontou o dedo na cara dele, o tom infantil retornando com força:
— Bom mesmo! Você é nosso amigo e está terminantemente proibido de morrer ou de fugir do cargo de novo! Se você fizer isso, eu não vou ser a única que vai ficar muito triste!
Sanstone e Valentina se entreolharam, antes de olharem para Alexandre de braços cruzados.
— Se você morrer, como eu vou viver a minha vida? — provocou Valentina.
— E nem pense em abandonar o posto por ataques de chilique, mesmo que a culpa seja minha, foi um desrespeito à farda! — resmungou Sanstone.
Lilith sorriu satisfeita.
— Perfeito! O consenso é unânime. Podemos iniciar os preparativos para a guerra.
Ao deixarem o palácio, a noite estrelada acolheu os três oficias. Lilith e Valentina caminhavam logo à frente, cochichando animadamente, enquanto Alexandre e Sanstone seguiam um passo atrás.
Ele virou o rosto para a Vice-Comandante.
— Sans... obrigado por me salvar. Na arena e... por acreditar em mim de novo.
Ela virou o rosto na direção oposta, fingindo observar o jardim de braços cruzados.
— Eu estava com muito medo — confessou ele, rindo nervoso. — Achei que mesmo se eu morresse naquele momento, você faria meu sacrifício valer a pena para mudar aquele homem.
Sanstone parou de andar. Ela descruzou os braços rapidamente e agarrou a mão dele, entrelaçando os dedos sem olhar nos olhos.
— Só... não faça mais aquilo. A vida não tem a menor graça sem você batendo de frente comigo.
Os dois ficaram corados. Quando Lilith virou-se para chamá-los, eles soltaram as mãos tão rápido como se tivessem levado um choque.
— Sabe de uma coisa, Alê? — cantarolou Lilith, parando na frente deles com Valentina. — Conversei com a Val e decidimos seu presente. Meus parabéns! Você agora é dono da Valentina Platas!
O cérebro de Alexandre parou.
— Qu... Quê?!
Sanstone arregalou os olhos. Lilith pegou a mão de Valentina que sorria, e a colocou na mão de Alexandre, carimbando o trato.
— A partir de hoje, a Valentina será sua serva particular. Pode usá-la na Inteligência do Império, nas infiltrações no que você quiser! Vamos aproveitar os talentos furtivos dela!
Alexandre tentou puxar a mão, apavorado.
— M-Mas isso é um absurdo! Ela é uma pessoa livre! Eu não sou dono de vida nenhuma!
A aura de Sanstone explodiu em um acesso de raiva possessiva.
— ISSO MESMO! Não é justo! Quero dizer... não é ético! Ela precisa ser uma cidadã livre!
Lilith, com a inocência de quem brincava com bonecas, deu de ombros.
— Ué, a própria Valentina me implorou por isso. Ela disse que você a salvou da fogueira e que estava tão agradecida, que jurou lealdade eterna como sua serva!
Quando Alexandre tentou afastar a mão, notou um pequeno detalhe. Uma marca rúnica brilhante surgiu na pele de Valentina onde seus dedos haviam se tocado, apagando-se segundos depois como um selo arcano.
A Valentina piscou um olho.
— Espero que possamos nos dar muito bem daqui pra frente... Mestre. Hihi.
Sanstone colocou-se entre os dois, empurrando Valentina pelo ombro:
— Nem pense em olhar para ele com essa cara! Ele é um oficial comandante e precisa se concentrar! Nada de distrações!
Valentina fez uma careta zombeteira, virando o rosto para Lilith.
— Senhorita Primeira-Ministra, já que serei a guarda-costas pessoal secreta dele... isso significa que devo acompanhá-lo para TODOS os lugares, não é?
O rosto de Sanstone pareceu que ia entrar em combustão espontânea.
— O QUÊ?!
Lilith assentiu, super empolgada com a nova dinâmica.
— Mas é claro! Como ele atrai muitos inimigos, você precisa protegê-lo 24 horas por dia! Fico feliz que esteja tão animada com o novo emprego!
Valentina abraçou o braço do Comandante de novo, os olhos faiscando de malícia e paixão.
— Ah, eu estou extremamente ansiosa…
Alexandre suspirou, sentindo o peso de mil guerras políticas desabar sobre seus ombros, enquanto Sanstone com um olhar que prometia dor, sofrimento e muito treinamento intensivo no dia seguinte.
— "Pelos Deuses," suplicou Alexandre aos céus, "Por que as coisas mais bizarras só acontecem comigo?"
O silêncio da noite escondia os predadores. Muito além das muralhas da capital humana, no pico das montanhas geladas que dividiam os continentes, uma figura solitária guardava a luneta.
Ajeitou a gola do sobretudo, os olhos reptilianos refletindo a luz do luar.
— Terreno mapeado e o tabuleiro está montado, Alexandre... Estou louco para ver sua próxima jogada.
Comentários do Autor : A história “General Sans” não terminou aqui, o primeiro arco termina aqui, o Ebook será lançado com uma versão muito mais completa e com muitas curiosidades adicionais, fico feliz que todos tenham acompanhado minha jornada até aqui, não se esqueçam de me ajudar com o feedback de vocês que é super importante para mim.