PRÓLOGO: O Valor de um Orc
— Cento e dez Ouros Divinos. Dou-lhe uma...
O som do pregão não vinha de um martelo de madeira batendo em uma mesa de mogno, mas de um pulso eletromagnético que fazia os sensores da minha interface vibrarem, ecoando diretamente na base do meu crânio.
Meu corpo físico descansava na varanda daquela casa, na ilha flutuante. Dali, eu via as nuvens se moverem devagar, indiferentes a tudo o que acontecia dentro da minha cabeça.
Porque, na minha mente, eu estava em outro lugar. Eu estava sendo o anfitrião do leilão 00AXR. Eu havia pedido ao sistema que gerasse a ilusão que projetei, e o sistema obedeceu prontamente: um palco de ópera suspenso no vazio, cortinas de luz sólida e uma plateia disposta em camarotes que pareciam esculpidos por alguém que só entendia de grandiosidade. Aquela já era a segunda vez que eu abria o leilão, e a ilusão começava a ganhar o peso sufocante da rotina.
E eu odeio rotina.
Ali dentro, eu era o Big Que?. Meu avatar era uma silhueta humanoide feita de fumaça cinza-estelar, que eu controlava apenas com o pensamento enquanto meu corpo real permanecia no piloto automático, lá na varanda.
— Cento e trinta! — Uma voz sibilante e úmida cortou o anfiteatro. Vinha de uma divindade do submundo identificada pelo nickname AasuraDoOceanoVerdejado. No mesmo instante, o painel digital flutuante acima do palco atualizou o lance.
— Cento e trinta Ouros Divinos pelo lote 03! — anunciei. Mantive a voz calma, fria e perfeitamente controlada, exatamente como fazia nas antigas reuniões de conselho na Terra.
Do alto, as vinte e três silhuetas colossais observavam o palco central. Eu havia projetado aquele cenário pensando justamente nelas: essas "entidades" adoravam aquela pompa, como se a grandiosidade artificial lhes conferisse algum tipo de legitimidade. No centro do palco, sob um feixe de luz azul-neon, repousava o meu ativo biológico mais valioso do momento.
— Um preço modesto por um Orc Rank SR- que estreou com vitória! — continuei, gesticulando com os braços de fumaça do avatar. — Olhem para essa máquina: quase três metros de altura, 160 de Constituição e músculos expandidos pelo título lendário de "Primeiro Lorde Demônio". Mas o verdadeiro tesouro está na sua Mente de nível 75. Ele é um líder de clãs, um médico e domina piromancia de quarto estágio. Senhores, vocês não estão comprando um simples gladiador... Estão investindo em um trunfo com potencial para ultrapassar o rank SR- e em uma garantia absoluta para se manter no topo.
Eu já havia lidado com fusões, aquisições e leilões judiciais quando gerenciava a holding de engenharia dos meus pais — por mais que detestasse a burocracia da gerência. Não aprendi aquilo em salas de aula, mas sabia exatamente como inflacionar um produto e criar urgência no mercado. E embora o guerreiro Varto representasse pura sorte da minha parte, ele sem dúvida seria meu passe livre para escapar da miséria imposta por aquela moeda tosca.
— Duzentos ouros e o desbloqueio do quinto círculo! — rugiu o LordeDasForjasDeFerro do camarote norte, sua silhueta de chamas quase transbordando os limites da luz sólida.
Um murmúrio correu pelo anfiteatro. O desbloqueio do quinto círculo valia uma verdadeira fortuna no sistema da arena. O desespero daquelas entidades por campeões prontos para o combate era quase palpável — e delicioso de assistir. Afinal, o grande torneio começaria em breve.
— Dou-lhe uma! Dou-lhe duas!... Vendido ao Lorde das Forjas por duzentos ouros e o desbloqueio do quinto círculo!
Na varanda real, meus dedos físicos tamborilaram no braço da poltrona de vime. Na ilusão, as mãos de fumaça do meu avatar confirmaram a transação na interface digital. O efeito prático foi instantâneo.
[Transação Concluída: +200 Ouros Divinos]
[Item Recebido: Documento de Desbloqueio de Círculo]
[Lote 03 transferido para o inventário do comprador]
O Orc no palco desintegrou-se em partículas de dados dourados, sendo transferido diretamente para o armazém dimensional de seu novo dono. Suspirei, observando o brilho do meu saldo atualizado no topo da interface.
Eu era, oficialmente, o humano mais rico entre os deuses — ocupando, especificamente, a 120ª posição entre um milhão de competidores. Ainda que o nome registrado no ranking não fosse o meu, mas sim o daquele Deus. Não que aquelas criaturas dessem a mínima para o ranking, de qualquer forma. Muito menos para a arena.
— Excelente negócio, meu amor! — A voz doce de Spic sussurrou bem perto do meu ouvido físico.
— Como você consegue ver as vendas? — perguntei, genuinamente confuso, enquanto desfazia a ilusão do palco de ópera na minha mente.
— Mesmo que só uma pessoa possa entrar na ilusão, eu consigo ver o saldo e o armazém. Não lembra que você me deu permissão, amor? Você é realmente desligado, kekeke!
— Ah... claro. Então guarde trinta por cento para o fundo de contingência, Spic — mudei de assunto rapidamente, massageando as têmporas para aliviar o desgaste mental. — O Deus Preguiçoso vai querer cobrar a comissão dele mais cedo ou mais tarde. E a Arena não perdoa quem fica sem liquidez para ressuscitar os próprios guerreiros.
Olhei com meus próprios olhos para a imensidão das nuvens reais abaixo da minha varanda. Em breve, os portões da Arena da Divindade Primordial se abririam. Mundos inteiros colidiriam, e os campeões que eu escolhesse para representar aquele Deus indolente teriam de enfrentar monstros de ranks muito mais altos.
— Esse sistema da arena e desbalanceado demais... Merda.