CAPÍTULO 1: O Silêncio de Seis Bilhões
O cursor na tela OLED de quarenta e duas polegadas piscava em uma cadência irritantemente perfeita, como um metrônomo marcando o ritmo de um silêncio que parecia não ter fim. O apartamento inteiro permanecia mergulhado em uma quietude quase artificial, interrompida apenas pelo leve zumbido do ar-condicionado e pelo ocasional estalar da estrutura de concreto da cobertura. Escrever era a única ambição que me restava após a destruição que causei no passado.
— Aproveite, sortudo... — murmurei para o reflexo na tela escura, sentindo o gosto amargo da ironia.
Vender metade da holding de engenharia construída pelos meus pais por seis bilhões de reais não me trouxe paz, mas me deu o maior luxo de todos: o privilégio de desaparecer. Eu planejava passar os próximos setenta anos trancado naquela cobertura blindada, cercado por concreto reforçado, vidro à prova de balas e os melhores sistemas de segurança que o dinheiro podia comprar. Habitaria páginas virtuais para nunca mais precisar habitar a realidade. Eu não precisava de amigos, de reconhecimento ou do resto do mundo; meu silêncio e minha fortuna eram mais do que suficientes.
Ou era o que eu tentava repetir para convencer a mim mesmo.
Após a morte dos meus pais, corri desesperadamente atrás de qualquer coisa que preenchesse o vazio. Trabalhei até a exaustão, multipliquei empresas e fechei contratos bilionários, acreditando que manter-me em movimento me manteria longe do luto. Estava errado. Quando finalmente parei, descobri que o vazio corre de terno e gravata bem ao nosso lado. Agora, eu fazia apenas o mínimo para manter a engrenagem funcionando, deixando o resto para administradores e executivos muito bem pagos. Eu não tinha mais interesse em preservar impérios, muito menos em construir outros.
Levei a xícara de café até os lábios, mas o líquido não se moveu. Franzi a testa, inclinando a cerâmica um pouco mais, mas a superfície escura da bebida continuava perfeitamente estática.
Congelada.
Meu reflexo me encarava de volta sem a menor oscilação, ignorando o tremor sutil dos meus dedos. Era como olhar para uma fotografia estática colada sobre a cafeína.
Um arrepio frio percorreu minha espinha bem no momento em que o zumbido constante do ar-condicionado simplesmente morreu. Não houve falha ou oscilação elétrica; o som apenas cessou, dando lugar a um silêncio denso e pesado, como se o próprio ar estivesse adquirindo massa física e comprimindo meus tímpanos.
Instintivamente, tentei digitar um ponto final para salvar o progresso da noite, mas as teclas mecânicas afundaram sob meus dedos sem emitir um único clique. Nenhum som, física ou eletronicamente possível, saiu dali. Na tela de quarenta e duas polegadas, o texto começou a se deformar. As palavras estremeceram antes que as letras se descolassem da linha horizontal e começassem a escorrer monitor abaixo como tinta fresca, formando rios de caracteres derretidos que desapareciam na moldura de plástico.
Fiquei imóvel, com os dedos ainda parados sobre o teclado sem voz. Pela primeira vez em muitos anos, senti algo que nenhuma holding ou conta bancária seria capaz de controlar.
Medo.
— Ah... não seja tão patético, Alexander. Viver de forma tão deprimida assim serve para chamar a atenção de quem, afinal?
O calafrio subiu pela minha espinha. A voz não veio de fora; ela ressoou de dentro das caixas de som desligadas e, ao mesmo tempo, ecoou diretamente no fundo do meu crânio.
— Quem está aí? — perguntei, levantando-me da cadeira de uma vez.
— Acalme-se, seu esqueleto pálido. Eu estou em todo lugar ao seu redor.
Em um piscar de olhos, a cobertura foi engolida por um breu absoluto. O chão sob meus pés, antes o mogno sólido do escritório, tornou-se macio e ligeiramente úmido, com uma textura quente que lembrava pele humana. O pânico subiu como bile pela minha garganta.
— O que está acontecendo?!
— Ainda não percebeu? Eu, o Deus Todo-Poderoso, dei-me ao trabalho de descer até este plano medíocre apenas para falar com você.
— Deus? — Minha voz falhou, o ar sumindo dos pulmões. — Eu morri? Eu estava apenas escrevendo e... não, isso é mentira. É uma alucinação. Virei a noite em claro diante do monitor; meu cérebro finalmente fritou.
— Para um mortal, a verdade sempre parece um delírio de exaustão, não é? — A voz ecoava de lugar nenhum e, simultaneamente, de todos os cantos da escuridão. — Alexander Norte Varteco... filho de engenheiros brilhantes que tiveram um fim tão trágico. Quais eram as probabilidades estatísticas daquele acidente de avião, afinal? Hahaha!
O sangue subiu quente à minha cabeça.
Ele estava tirando sarro da morte dos meus pais?
— Chega de conversa — cortou a voz, subitamente entediada. — Não espero que você me entenda. O que eu quero é simples: crie um mundo do zero e me represente.
— O quê? Do que você está falando?
— Vou lhe dar a autoridade de um criador primordial desse sistema simplório, não, para ser mais específico, a de um reles técnico de informática limitado a olhar telas — continua a fala de forma cansada — Desenvolva um mundo como bem entender. Depois, selecione os heróis mais fortes dessa sua criação e apresente-os na Arena. Se eles sobreviverem, serão meus arautos para humilhar aqueles falsos deuses. Em suma... este é o seu novo emprego.
— Mas... por quê? — forcei as palavras a saírem. — Se você é Deus, por que não cria algo que atenda às suas expectativas sozinho?
— Porque dá trabalho. E o meu antigo "faz-tudo" cometeu suicídio de forma bastante inconveniente.
— Deus se cansa?
— Criar nesse sistema é cansativo. Além disso, fiz uma aposta com uma divindade de outro plano, e preciso que o meu mundo fique em uma classificação decente no ranking da Arena para não sofrer as consequências dessa aposta. Mas não tenho qualquer interesse em “criar” de novo. Portanto, você vai trabalhar sob as minhas ordens.
O absurdo da situação era tão colossal que a lógica cedeu espaço a um riso soprado, que logo se transformou em uma gargalhada histérica. Um Deus havia me sequestrado para brincar de ser Deus.
Mas que porra de piada é essa...?!
— Oh, você está enlouquecendo. Que tedioso. Vou confiscar isso de você.
Um estalo ecoou na escuridão.
No mesmo milésimo de segundo, a histeria evaporou. A sensação foi estranha, como se uma lâmina invisível tivesse extirpado uma parte específica da minha mente.
O pânico e a angústia que ameaçavam quebrar minha sanidade simplesmente desapareceram, deixando em seu lugar uma clareza mental afiada e bizarramente calma.
Eu ainda sentia a raiva latente pelo insulto aos meus pais e a adrenalina correndo nas veias, mas as amarras do medo haviam sido cortadas.
— Ótimo, agora que você está utilizável... Saia daqui, comece logo e escolha bem o seu assistente.
E, sem qualquer aviso, o chão sob meus pés simplesmente desapareceu.
Eu estava caindo no vácuo. A escuridão era total, mas meu coração batia em um ritmo normal. Sem o desespero nublando meu julgamento, a queda livre não era um pesadelo, mas mais uma coisa para confirmar essa situação.
Havia algo naquele cenário totalmente ilógico que me fascinava: eu seria um criador.
Mas o que eu faço agora?
Como se respondesse ao meu pensamento, uma tela translúcida brilhou diante dos meus olhos no meio do abismo.
[Escolha seu Assistente Pessoal (Obrigatório)]
Opções definidas por Deus — Não editáveis
[ ] Assumir o oposto absoluto
[ ] Criação aleatória
[ ] Criar do zero
Eu não preciso de assistentes, mas, se é obrigatório, prefiro ter o controle total, pensei, tocando na terceira opção.
[Opção escolhida. Use sua imaginação para conceber sua criatura.]
Sempre fui péssimo com pessoas. Empregados me deixavam desconfortável e mulheres eram um enigma que eu nunca tivera paciência para decifrar. Um homem? Não, eu não quero olhar para a cara de um homem por um tempo indefinido. No fundo, eu queria apenas uma presença acolhedora de aparência bonita. Alguém que me lembrasse o conforto e a segurança que perdi há muito tempo.
— Quero uma mulher — ditei para o vazio. — Cinquenta anos. Da minha altura. Cabelos negros. Que não seja humana, mas que possua traços que lembrem uma.
[Espécie aleatória sugerida pelo sistema com base em traços anatômicos: Girn. Confirma?]
Girn? Nunca ouvi falar de tal espécie, sim confirma.
Minha dúvida sequer teve tempo de se formular; uma luz ofuscante explodiu no meio do vácuo.
Quando minha visão finalmente voltou, deparei-me com uma mulher de pele azul-celeste brilhante e cabelos pretos cacheados. Ela possuía um rosto de uma perfeição sobrenatural e caía bem ao meu lado desacordada e completamente nua.
Antes que eu conseguisse desviar o olhar.
[Defina a Personalidade]
— Que seja amorosa como minha mãe — apressei-me em ditar, tentando desviar os olhos. — Carinhosa e inteligente como as melhores mentoras que tive na vida. E que tenha sensibilidade absoluta ao ambiente e aos meus sentimentos.
A luz de configuração se apagou. No segundo seguinte, senti braços fortes me envolvendo em um abraço protetor e quente no meio daquela queda sem lógica.
— Obrigada por me criar, meu amor! — A voz dela era profunda, aveludada e carregada de um afeto quase maternal. — Por favor, dê-me um nome.
A proximidade física brusca me causou um curto-circuito mental. Minha mente tentou processar a situação através de todos os filtros de "figura mentora inteligente" que eu havia programado nela, mas o resultado prático foi totalmente diferente do esperando.
— Pode... pode me soltar, por favor? — gaguejei, sentindo meu rosto arder.
— Ah! Por quê? Não gosta de mim? Eu fiz algo errado? — Ela se afastou o suficiente para me encarar, parecendo sintonizar instantaneamente com o meu desconforto. — Eu sinto que você está com vergonha... Eu posso melhorar, eu prometo!
— Chega! Eu só te dou um nome se você me soltar de vez!
Ela me liberou com uma óbvia relutância. Respirei fundo, tentando recuperar a dignidade enquanto continuávamos despencando naquele vácuo sem fim. Olhei para a pele azulada dela, que emitia uma luminescência suave no escuro, e a primeira coisa que me veio à mente foi o brilho de uma estrela.
— Seu nome será Spic. Como a estrela mais brilhante da constelação de Virgem.
— Spic... — Ela sorriu, e o brilho da sua pele pareceu se intensificar, iluminando a escuridão ao redor. — É curto, mas eu gosto.
Ótimo. Eu nem comecei a criar o maldito mundo e já estou sendo julgado pela minha própria assistente.
Espera um segundo... Parando para pensar, aquele Deus poderia ter criado um assistente e ter colocado ele no meu lugar. Só consigo imaginar uma coisa.
Ele é só um preguiçoso desgraçando.
— Algum problema, meu amor? Precisa de algo? — Spic sussurrou bem perto, com uma ternura que ainda me deixava profundamente desconfortável. — Posso ser muito útil, sabe? Tenho tudo o que você imaginar guardado bem aqui dentro.
Ela apontou para a própria cabeça, com um sorriso brincalhão.
— Quê? Ahahaha... Então, como saímos desse breu, Spic? Não pretendo passar o resto da minha existência caindo.
— Ah, isso é simples! Para onde você quer ir?
— Eu posso simplesmente escolher qualquer lugar?
— Não exatamente para onde você quiser. Você não pode voltar para a Terra, mas pode projetar qualquer outro cenário. Basta verbalizar ou focar na imagem mental que eu a crio usando como base o seu próprio conhecimento, meu lindo.
Suspirei. Decidi ignorar o "meu lindo" e foquei em mentalizar algo que não me causasse uma vertigem eterna. Um lugar que servisse de porto seguro. O meu paraíso particular.
— Um campo de flores infinito, com uma árvore gigante bem no centro — ditei, fechando os olhos para projetar a imagem. — De dia, o clima é perfeito e ensolarado. De noite, as flores se abrem a partir do miolo, brilhando em um azul-escuro suave que conforta e ilumina tudo ao redor.
— Desejo atendido.
Spic apenas ergueu a mão e fez um movimento sutil com os dedos azuis.
No mesmo instante, o tecido da escuridão se rasgou. O impacto da aterrissagem foi incrivelmente suave, como se caíssemos sobre um colchão. O aroma doce de pólen e terra fresca invadiu minhas narinas de imediato. Acima de nós, o céu brilhava em um azul-claro impossível, decorado por nuvens que pareciam feitas de algodão.
E bem no centro do campo, erguia-se a árvore: um monumento colossal de tronco retorcido, cujas folhas cintilavam como esmeraldas sob a luz do sol.
— Essa é a sua visão de paraíso, meu amor? — Spic perguntou, os braços estendidos enquanto admirava o horizonte infinito do campo. — É realmente linda.
Fiquei observando-a em silêncio por alguns segundos. Ela parecia expressiva e humana demais para ser apenas um amontoado de dados com um único propósito.
— Spic... o que você é, exatamente? Uma máquina? Uma alma?
— Sou da espécie Girn — ela explicou, virando-se para mim sem qualquer hesitação ou vergonha da própria nudez. — Biologicamente, somos muito parecidos com os humanos, mas com pele azul, uma alta resistência elétrica e um processo de envelhecimento duas vezes mais lento. Mas, claro, eu tenho certos diferenciais, já que sou uma criação do sistema.
— Que tipo de diferenciais?
— Como fui moldada pela sua mente, herdei todo o seu conhecimento técnico relacionado à criação. Basicamente, eu tenho a sua inteligência lógica em mim, mas apenas a parte "chata" e puramente arquitetônica. É por isso que todo o resto parece tão novo para mim, embora eu saiba exatamente a composição atômica de cada folha de grama deste lugar.
Bizarro. Ela possuía a aparência física de uma mulher madura e o intelecto analítico de uma engenheira de ponta, mas o brilho em seus olhos azuis era o de uma criança que acabara de ganhar vida.
Pensando bem... como ela conseguira projetar essa dimensão se eu mesmo não fazia ideia de como criar física quântica do zero? O sistema devia ter preenchido as lacunas.
— Certo. E agora, Spic? Qual é o primeiro passo?
— Agora? — Ela sorriu de canto, dando um passo lento em minha direção. — Bom, agora a gente namora, meu amor.
Travei no lugar.
— ... O quê?
— Você não sabe namorar? Eu estou completamente nua na sua frente, Alexander. Achei que o convite de boas-vindas estivesse bem claro.
O choque foi como um balde de água gelada na minha espinha. Dei dois passos rápidos para trás, gesticulando freneticamente.
— Mas que porra é essa?! Eu não vou transar com a minha própria assistente que criei! Spic, se isso for uma piada, eu juro que vou perder a paciência. Trate de se vestir agora!
Ao ouvir meu tom de voz ríspido, ela murchou instantaneamente. Com os olhos marejados, ela tentou dar um passo à frente para me abraçar e pedir desculpas, o que só piorou o meu desespero, já que ela continuava sem roupas e eu estava tentando de tudo para não olhar.
Entre soluços dramáticos e tentativas insistentes de aproximação, ela finalmente conseguiu me explicar que a espécie Girn possuía uma libido absurdamente alta — uma característica biológica padrão que eu, por pura desatenção ao ignorar a confirmação da espécie, poderia ter trocado de espécie ou procurado saber os efeitos negativos dela.
— Já se acalmou? — perguntei, minutos depois, quando ela finalmente usou a interface para materializar um vestido branco com um decote generoso e, por capricho, algumas joias de ouro que contrastavam com sua pele azulada.
— Sim... — ela respondeu baixinho, com a postura de um cachorro que acabou de ser enxotado, embora seus olhos ainda brilhassem com uma ponta de malícia.
— Você ficou bem nesse vestido, Spic. Sério — comentei, tentando amenizar o clima tenso.
— Quer ver o que tem embaixo dele, meu amor?
— Não! Foco, sua tarada! — bufei, totalmente envergonhado. — Como eu começo a criar o mundo de verdade?
Ela soltou um suspiro frustrado, mas seus ombros se endireitaram quando ela alternou para o modo profissional.
— Primeiro, você precisa abrir a interface de [Mundos] apenas focando no pensamento. A partir dali, você poderá escolher o planeta inicial e gerenciar o seu Investimento Divino.
— Espera aí. Investimento? Dinheiro? Por que diabos um Deus precisaria de capital ou moeda para criar coisas do nada?
— Eu também não sei, vida — ela deu de ombros, usando o apelido que me fez suspirar de derrota. — É simplesmente a regra imposta pela Arena. Meu conhecimento sobre esses assuntos dos deuses e mínimo.
Eu acho que tem muita coisa oculta nesse sistema, mas eu lidaria com isso um passo de cada vez. Foquei minha mente na palavra de comando.
Abrir Mundos.
No mesmo instante em que mentalizei, Spic moveu a mão em um arco suave, não sei o porquê. Diante de nós, no canto superior do nosso campo de visão, um ícone dourado chamou minha atenção:
[Saldo Atual: 10,00 Ouros Divinos]
— Dez? Não me diga que isso é todo dinheiro que temos? — perguntei, forçando-me a manter a calma enquanto encarava a tela flutuante. — Como eu vou criar um mundo inteiro com apenas dez moedas, Spic? Isso não deve ser suficiente para comprar absolutamente nada, afinal, estamos comprando mundos.
— Não subestime o poder de um bom começo — ela respondeu, aproximando-se a ponto de eu sentir seu calor, olhando por cima do meu ombro. — Apenas abra o menu e escolha a categoria de Mercado de Planetas. O resto nós resolvemos... com o tempo.
Com certeza não deve ser tão caro, calculei mentalmente, tentando adivinhar a taxa de inflação do mercado divino. Talvez uns três ouros no máximo por um planeta básico, e isso já seria estranho a Spic tá calma então esse ouro deve ser muito forte nesse sistema.
[Interface: Mundos]
[Acessando Categoria: Mercado de Planetas]
— Olá! Meu nome é Zé, seu assistente pessoal de compras. Estou aqui para lubrificar as engrenagens das suas transações. Então, o que o mestre deseja adquirir hoje?
Uma criatura materializou-se no ar assim que selecionei a opção. Era um ser verde, de aparência opaca e escamosa, com o corpo longo de uma serpente-dragão. Por algum motivo incompreensível, ele usava óculos de leitura equilibrados na ponta do focinho, vestia um terno verde impecável e segurava um tablet metálico em uma das garras.
— Meu amor, este senhor é uma Entidade Fiscal e comerciante contratado pelo sistema— Spic explicou, fazendo uma reverência respeitosa. — Ele é onipresente em qualquer transação que envolva gastar dinheiro ou adquirir propriedades divinas. Basta chamá-lo pelo sistema.
— Certo... Zé — respondi, engolindo em seco e tentando não encarar demais as escamas brilhantes dele. — Mostre-me as opções mais baratas onde seres humanos consigam sobreviver.
— Ótima escolha! O setor de "Habitáveis Econômicos" está em alta nesta temporada — Zé sibilou, satisfeito. — Mas, para filtrar melhor os resultados, qual seria o seu saldo atual, nobre cliente?
Eu não era bobo. Anos lidando com negociações na Terra me ensinaram a nunca revelar todo o meu capital de giro para um vendedor, mesmo que o vendedor fosse um dragão de óculos e terno.
— Tenho exatamente três ouros, senhor Zé.
Na verdade, eu não fazia ideia de quanto aquele dinheiro realmente valia no mercado cósmico, mas era um blefe necessário.
— Compreendo... — Zé ajeitou os óculos com a garra. — Para orçamentos mais... modestos... sugiro estas cinco opções.
Um novo layout flutuou diante de nós, exibindo cinco esferas holográficas giratórias. Duas delas eram quase idênticas à Terra: aquele azul profundo mesclado com manchas verdes e espirais brancas que me despertou uma nostalgia incômoda.
— Esses dois aqui — apontei para os planetas gêmeos.
— Escolhas clássicas! — Zé comemorou, dando um leve sibilo. — São parecidos em quase tudo: gravidade, densidade atmosférica, composição mineral. Vai levar o par para criar um sistema binário?
— Não, apenas um — respondi, ignorando o papo de sistema binário.
— Mas, antes, qual é o diâmetro exato dele? Quero algo próximo da minha antiga casa. Se bem me lembro, a Terra tinha cerca de 12.742 quilômetros de diâmetro...
— Gostaria de interromper para avisar que estes modelos vêm com um leve upgrade: possuem exatamente 12.978 quilômetros de diâmetro. Um pouco mais de espaço para seus futuros súditos se matarem por território.
Mais massa significava uma força gravitacional ligeiramente superior, o que afetaria a densidade da atmosfera e, consequentemente, a evolução biológica e a resistência física das espécies que eu colocasse lá. Seria um desafio desnecessário? Talvez, mas também poderia acelerar o desenvolvimento de guerreiros mais fortes para a Arena. Eu não tinha muita escolha.
— Perfeito. Qual o preço?
— 1,00 Ouro Divino.
[Transação Concluída: -1,00 Ouros Divinos]
A proporção daquele valor não fazia o menor sentido na minha cabeça — um planeta habitável inteiro pelo preço de uma única moeda de ouro? — mas decidi não questionar as regras daquele sistema absurdo. Confirmei o pagamento e, instantaneamente, senti um leve peso metafísico se instalar no meu peito, como se um fio invisível agora me conectasse àquela esfera.
[Instalação Automática do Planeta Iniciada...]
Um tremor suave e ritmado percorreu o gramado macio sob nossos pés. No horizonte do nosso campo de flores, rasgando o céu azul-claro, a enorme esfera azulada do meu planeta recém-adquirido surgiu majestosa, começando a girar lentamente no espaço da nossa dimensão pessoal.
— Ele é lindo... — murmurei, mas não havia leveza na minha voz. Havia algo mais profundo. Quase um pressentimento.
— E ele é inteiramente seu, meu amor.
— Obrigado pela preferência e bons negócios! — Zé despediu-se, desaparecendo em uma cortina de fumaça verde e perfumada.
A tela de compras se fechou. Olhei de soslaio para Spic, que me observava com aquele olhar intenso e brilhante de quem estava prestes a arruinar o momento com algum comentário inapropriado.
— Spic, e agora? O planeta está comprado. Como eu começo a colonização?
— Ah, eu já sei exatamente o que fazer agora, meu lindo... — Ela deu um sorriso travesso e começou a deslizar lentamente a alça do vestido branco pelo ombro azulado. — Vai levar tempo, mas eu aguento povoar esse planeta com você.
Minha paciência, que já estava no limite, evaporou. Ergui a mão e tentei dar um cascudo corretivo no topo da cabeça dela para ver se ela recuperava o juízo profissional.
Foi um erro terrível. A cabeça daquela mulher era mais dura que concreto armado.
— AI! — gritei, recolhendo a mão de imediato e massageando os dedos, sentindo os ossos latejarem de dor. Spic sequer tinha piscado com o golpe.
— Por que você me bateu, amor? — ela perguntou, inflando as bochechas e fazendo uma carinha de choro totalmente forçada e teatral.
— Pare de ser maluca! — bufei, chacoalhando a mão dolorida. — O que nós fazemos com o planeta agora? Foco no trabalho!
— Tá, tá... que mau humor — ela resmungou, ajeitando a alça do vestido com um biquinho frustrado. — Agora a gente começa a criar vida. Você precisa escolher as raças que vão inaugurar o mundo, xuxu. E, obviamente, vai ter que gastar mais dinheiro. É nessa parte que os deuses costumam ir à falência.
— Eu não tenho o luxo de ir à falência, Spic. E pare com os apelidos.
— Hum? Falou alguma coisa?
— Não. Esquece.
— Certo! Então abra o menu de [Criaturas] da mesma forma que abriu o outro.
Respirei fundo e mentalizei o comando. Mas, antes que a tela se materializasse, notei de novo.
— Spic.
— Sim, meu garanhão?
— Toda vez que eu mentalizo, é você quem abrir os menus?
— Sim! — ela sorriu, orgulhosa. — Eu sou a sua interface viva, esqueceu? Talvez você precise que alguém realmente explique verbalmente?
— ...
Bati mentalmente com a mão na minha própria testa. Eu realmente tenho limites mentais, mas dói admitir isso.
[Interface: Criaturas...]