GOD'S WORLD 1 CAPÍTULO DO 1 VOLUME A SUBIDA á muitos e muitos anos, a entidade suprema conhecida apenas como Deus tomou uma decisão drástica. Ele baniu três criaturas colossais de poder inimaginável, sentenciando cada uma a um canto isolado do mundo. O Deus Azul foi confinado nas profundezas dos mares intransitáveis. O Deus Vermelho foi acorrentado no núcleo fervente da Terra. O Deus Verde foi condenado a vagar pela superfície terrestre.
Essas três divindades exiladas receberam uma única e eterna missão para sustentar a existência de Deus: capturar pessoas cujas vidas na Terra estivessem vazias, sem rumo ou objetivos, e arrastá-las diretamente para o "Mundo de Deus". Ali, querendo ou não, esses escolhidos seriam forçados a cumprir um propósito: cuidar e guiar criaturas sagradas criadas pelo próprio Criador — seres enigmáticos chamados Humans of God. Aqueles que aceitassem o fardo e conseguissem avançar até o fim da jornada receberiam a recompensa suprema: o direito de desejar absolutamente qualquer coisa.
A brisa marítima de Qytet Port cheirava a peixe fresco e preguiça. Sentado na beirada de seu barco de madeira, Babai bocejava enquanto ajeitava sua longa trança amarela sobre o ombro. Ele tinha apenas 1,60 de altura, íris amarelas muito expressivas e uma filosofia de vida bem simples: se dá trabalho, é melhor fazer amanhã. Ele estava ali pescando há três horas, e o balde continuava perfeitamente vazio.
— É, peixinhos... hoje vocês estão com mais preguiça que eu — Babai murmurou com seu tom de voz calmo e arrastado. — Tudo bem. Quem sou eu para julgar?
De repente, a vara de pesca quase voou de sua mão. A linha esticou tanto que fez um ruído agudo.
— Eita! Calma aí, amigão! O que é isso, um tubarão de terno? — Babai ironizou, tentando firmar os pés no barco.
O tranco seguinte foi violento. O barco balançou e Babai foi arrancado da embarcação, caindo direto nas águas profundas. O choque térmico tirou todo o ar de seus pulmões. Afundando rapidamente, ele abriu os olhos debaixo d'água e olhou para baixo para ver o que raios o havia fisgado.
Seu estômago gelou. No fundo do oceano, uma criatura gigantesca feita de pura sombra, ostentando imensos olhos brancos e brilhantes, encarava-o de volta. Um turbilhão começou a se formar ao redor do monstro, sugando o corpo de Babai para aquela escuridão abissal. Qualquer um entraria em pânico, mas Babai apenas soltou as últimas bolhas de ar e relaxou os braços.
"Bom... acho que minha cota de pescaria acabou por hoje. Que morte esquisita", pensou ele, fechando os olhos e aceitando o destino com sua típica passividade.
Ar.
Babai puxou o ar com tanta força que engasgou, tossindo e rolando na grama. Ele piscou os olhos várias vezes, sentindo o sol queimar seu rosto.
— Mas o quê...? Eu virei comida de peixe-sombra e o além é um campo de golfe? — ele se perguntou em voz alta, massageando o pescoço.
— Você foi escolhido — uma voz ecoou pelo espaço, fazendo a terra vibrar sob seu corpo. Era uma voz dura, temível e pesada: a voz do Deus Azul. — Será mandado para o Mundo de Deus para cumprir o objetivo. No final da jornada, poderá pedir qualquer coisa.
Babai, ainda sentado na grama, coçou a orelha e olhou para o céu com uma cara de tédio misturada com confusão.
— Escuta aqui, ô da voz grossa... Eu não pedi para ser escolhido para nada não, sabe? Eu estava bem de boa no meu barco. Aliás, eu morri? Como funciona o seguro de vida aqui?
— Fique em silêncio, humano insignificante! — trovejou o Deus Azul, sem paciência para a audácia do rapaz. — Sua jornada começa agora. Reclame com o vento.
Antes que Babai pudesse mandar a divindade catar coquinho, uma luz azul ofuscante engoliu sua visão.
Quando Babai abriu os olhos novamente, o cheiro de sal havia sumido por completo. Ele estava deitado no meio de um pasto verde que parecia não ter fim. Ao olhar para o céu, algo bizarro chamou sua atenção: flutuando entre as nuvens, um enorme cronômetro digital marcava o tempo insano de 100 anos, mas os números estavam completamente travados.
— Cem anos parados? Que recepção calorosa — Babai resmungou, levantando-se e batendo a poeira da calça. — Bom, já que o dono da voz me largou aqui sem um mapa ou um lanchinho, acho melhor eu andar para ver se acho alguma alma viva... ou morta.
Ele não precisou andar mais do que dez passos. Um choro agudo, estridente e desesperado cortou o silêncio do pasto.
— Ah, não. Fala sério... — Babai mudou a rota, correndo na direção do som até avistar uma cesta de vime abandonada no meio do mato alto. Ele se aproximou devagar e espiou lá dentro.
O que ele viu o fez dar um passo para trás. Era uma bebê, mas com traços totalmente fora da realidade. Ela tinha cabelos lilás, íris da mesma cor, um único chifre branco pela metade no lado esquerdo da cabeça e uma marca marrom bem abaixo do olho esquerdo.
— Cara... o que é você? Um chaveiro de grife? — Babai murmurou, agachando-se ao lado da cesta. A bebê continuava berrando, com o rosto todo vermelho. Ele começou a debater consigo mesmo em voz alta: — E agora? Esse bebê deve ser de alguém... mas pô, largar uma criança no meio do nada? Claramente não querem esse pacote. E eu? Eu mal consigo lembrar de escovar os dentes, como vou ter responsabilidade para cuidar de um bebê?!
Ele olhou bem para o chifre quebrado da menina.
— Além disso, sejamos francos, se eu te deixar aqui, ninguém nessa terra vai querer adotar um bebê que parece ter saído de um filme de monstrinhos. O povo é preconceituoso. É... parece que nós dois fomos chutados pro limbo. Vem cá, sua chorona.
Com um jeito meio desajeitado, Babai pegou a bebê no colo. Ela continuava gritando. O desespero começou a bater no jovem de cabelo amarelo.
— Calma, calma! Deixa eu puxar pela memória... Como é que a minha mãe fazia para eu calar a boca quando eu era pequeno? Pensa, Babai, pensa... Ah! Ela dizia que me levava para passear! — Ele começou a andar ritmadamente pelo pasto, balançando os braços. — Isso, olha o mato, que lindo o mato. Olha o céu com o relógio quebrado. Gostou?
Conforme ele andava e falava com aquele tom calmo, a bebê foi diminuindo o ritmo do choro, até parar totalmente e começar a puxar uma das mechas loiras da trança de Babai com os dedinhos.
— Opa! Santo remédio. Agora que você não tá mais tentando estourar os meus tímpanos, eu preciso te dar um nome — Babai disse, encarando as íris lilás da pequena. — Deixa eu ver... Você tem cabelo colorido, um chifre quebrado e eu nem sei se você é menino ou menina. Te achei no meio do mato... Já sei! Vou te chamar de Cavernícola. Tem estilo.
Para a surpresa de Babai, a bebê soltou uma risadinha banguela bem gostosa, soltando a trança dele e batendo palminhas.
— Viu? Você tem bom gosto para nomes exóticos, Cavernícola.
TUMP. TUMP.
O chão tremeu firme. O sorriso de Babai sumiu instantaneamente. Ao se virar devagar, ele sentiu o pescoço travar. Atrás dele estava um homem-lagarto roxo, extremamente bombado (puro shape), vestindo apenas uma calça de couro marrom e carregando um machado gigante nos ombros que parecia pesar uma tonelada. O bicho tinha fumaça saindo pelas ventas e uma cara de poucos amigos.
— Humano esquisito de cabelo de moça! — o lagarto rugiu, batendo o cabo do machado no chão com tanta força que rachou a terra. — O que deu nessa sua cabecinha de vento para achar que pode simplesmente ficar espionando a vila dos lagartos primais?! Quer morrer cedo?!
Babai deu um sorriso amarelo, sentindo uma gota de suor frio escorrer pela testa. "Tô incrivelmente lascado. Eu não quero ir para essa vila mas nem se me pagarem um milhão de moedas!"
— Opa, e aí, chefe? Tudo bom? — Babai tentou usar seu charme de gente boa, dando um passo para trás bem devagar. — Olha, houve um mal-entendido técnico. Eu só estava passando, mostrando a vista aqui para a patroa... Então, eu já estou saindo de fininho para não atrapalhar o seu treino de crossfit, beleza? Passar bem!
— Daqui você só sai em pedaços! — o lagarto deu um passo violento à frente, erguendo o machado gigante acima da cabeça. — Eu vou garantir que você nunca mais use esses olhos amarelos para vigiar nosso povo!
— Ei, ei, ei! Peraí, ô do shape! Tenha piedade, pô! Olha para o meu colo, eu tô com um bebê aqui! — Babai exclamou, encolhendo o corpo e usando as próprias costas como escudo para cobrir a Cavernícola.
— É por isso mesmo que eu não vou te fatiar inteiro! Só metade já resolve! — o guerreiro gritou, descendo o machado com toda a sua força na direção da cabeça de Babai.
Babai apertou os olhos, esperando a dor. Mas o que se ouviu foi um som metálico ensurdecedor.
CRACK!
Babai abriu um dos olhos de leve. A lâmina do machado gigante havia sido parada no ar por uma mão esguia, cheia de escamas elegantes. Com um simples estalar de dedos daquela mão, o metal pesado do machado se despedaçou em dezenas de fragmentos que caíram na grama.
A dona da mão era uma mulher-lagarto imponente. Ela não tinha a boca projetada de réptil como o brutamontes; seu rosto tinha traços bem mais humanos e delicados, embora mantivesse a cauda forte e escamas laterais na pele. Seus cabelos eram brancos e longos, vestia um traje marrom ajustado e ostentava olhos assustadores: íris vermelhas como sangue e a esclera totalmente preta.
— Hacha — ela pronunciou o nome do guerreiro. A voz dela era tão fria e cortante que o ar ao redor pareceu congelar alguns graus. — O que você pensa que está fazendo no meu território com esse brinquedo?
O brutamontes, que segundos antes parecia o dono do mundo, engoliu em seco. O peito dele murchou um pouco, mas ele ainda tentou manter a postura dura, apontando um dedo trêmulo para Babai.
— Princesa Tierra Seca! Eu... eu estava apenas fazendo patrulha! Esse humano abusado estava espionando as nossas muralhas lá de baixo! Ele é perigoso!
A Princesa Tierra Seca cruzou os braços, encarando o guerreiro com um olhar que dava arrepios.
— E desde quando eu te dei permissão para sair das muralhas e brincar de carrasco, Hacha?
— Desde... nunca, senhora — o lagarto resmungou, abaixando os olhos, totalmente domado pela presença dela.
— Exatamente — Tierra Seca deu um passo à frente, a cauda chicoteando o ar com impaciência. — Então pegue os restos do seu ferro-velho, gire esses seus calcanhares escamosos e volte para a vila agora mesmo. Antes que eu decida testar a resistência do seu pescoço.
Hacha soltou um bufo de frustração. Ele deu meia-volta, resmungando palavrões em sua língua primal e chutando violentamente os tufos de grama enquanto subia a colina em direção à muralha de pedra.
Tierra Seca esperou o guerreiro sumir de vista. Lentamente, ela virou aquele olhar avermelhado e penetrante na direção de Babai, que ainda estava encolhido no chão.
— Agora, quanto a você, humano de trança... — ela estalou os dedos da mão escamosa. — Nós temos alguns assuntos bem sérios para resolver. Quem é você e o que faz no meu pasto?
Antes que Babai pudesse formular uma desculpa esfarrapada bem mansa, a pequena Cavernícola em seu colo ergueu as mãozinhas gordinhas. Num piscar de olhos, uma faísca roxa brilhou nos dedos da bebê, disparando uma pequena esfera de energia concentrada direto no peito da princesa.
Tierra Seca agiu por puro instinto de guerreira. Ela ergueu as costas da mão para desviar o golpe.
BOOM!
A pequena explosão jogou fumaça para os lados. Quando a fumaça dissipou, a pele escamosa da mão da princesa estava marcada por uma queimadura preta e chamuscada. A expressão de frieza da Tierra Seca quebrou por completo, sendo substituída por um choque absoluto. Ela olhou para a própria mão ferida e depois fixou os olhos arregalados, quase sem acreditar, na bebê sorridente.
— Esse poder... Essa assinatura de Shinsu... Isso é um Human of God?! — a voz de Tierra Seca falhou pela primeira vez, perdendo toda a postura real. Ela deu um passo à frente, quase intimidando Babai. — De onde você roubou essa criatura, humano?!
Babai deu dois passos para trás, abraçando a Cavernícola como se sua vida dependesse disso, e soltou com a cara mais lavada do mundo:
— Moça, pelo amor de tudo que é mais sagrado, eu acabei de cair de um peixe de sombras! Eu não faço a menor ideia do que é um "Human of God", eu só chamei ela de Cavernícola porque achei o chifre maneiro! Não me bate, por favor!
FIM DO 1 CAPITULO DO 1 VOLUME