O Tumulto das Profundezas
Desde os alvores da criação, quando a luz primeira rasgou o véu do nada e os mundos foram assentados em seus lugares, existiu o Abismo — não como um lugar meramente construído, mas como uma verdade inevitável, tão antiga quanto a própria sombra. Ali, onde o chão é cinza como osso e o ar tem o sabor de arrependimento e enxofre, habitam aqueles que foram riscados do livro da glória e lançados, com estrondo considerável, para mais baixo do que se imaginava possível.
Mas eis que no Abismo, que deveria ser um lugar de ordem severa — cruel, sim, mas ordenada — havia se tornado algo muito mais preocupante: um caos desorganizado.
A Grande Rebelião, como viria a ser chamada nos anais do Abismo, fora executada com uma eficiência surpreendente para criaturas cujo pecado dominante, em muitos casos, era a total aversão ao esforço. Lúcifer, o Portador da Luz Caída, o Príncipe de Príncipes, o Senhor das Trevas e de diversos outros títulos que ele mesmo havia mandado gravar em placas de obsidiana pelo submundo afora — encontrava-se agora encarcerado numa prisão interdimensional cuja localização exata era conhecida por apenas seis demônios. O que era, ironicamente, seis demônios que estavam mais próximo dele.

E assim, com o trono vazio e o guardião ausente, os seis Príncipes do Pecado reuniram-se para deliberar sobre o destino dos mundos — o que, nas bocas de demônios, significa dizer que cinco deles concordaram com o sexto antes mesmo que o sexto terminasse de falar, porque o sexto era Asmodeus, e Asmodeus tinha um modo muito persuasivo de fazer as coisas.

Asmodeus, o Príncipe da Luxúria, era belo da maneira que um incêndio é belo: irresistível de contemplar e absolutamente letal de abraçar. Seus olhos ardiam com uma chama que não era de fogo, mas de desejo — e não o desejo de amor ou afeto, pois esses eram conceitos que ele considerava de um sentimentalismo deplorável, mas o desejo de conquistar, de possuir, de fazer toda coisa existente dobrar-se diante de sua vontade incontornável. Foi ele quem primeiro pronunciou as palavras que mudariam o destino de três planos de existência:
— Camaradas, estamos desperdiçando nosso tempo aqui embaixo. O Meio nos espera.
O silêncio que se seguiu foi o tipo de silêncio que precede não a sabedoria, mas a concordância entusiasmada.
Belzebu, o Senhor das Moscas e Príncipe da Gula, assentiu tão vigorosamente que três de suas múltiplas cabeças colidiram entre si. Ele havia devorado, ao longo dos éons, exércitos inteiros de almas — absorvendo-as como uma esponja cósmica de maldade, cada alma ingerida tornando-o um triz mais poderoso e um tanto mais volumoso. O Meio, com seus sete bilhões de habitantes, representava para ele o que um banquete de casamento real representaria para um homem que não comia há uma semana. Ele babou, discretamente, sobre o mapa do Meio que estava ali em sua frente.
Mammon, o Avarento Eterno, nem ao menos esperou o fim da proposta de Asmodeus. Já estava calculando, com os seus dedos longos e ávidos, quantas almas poderia acumular, indexar, hipotecar e revender em mercados secundários de iniquidade. Para Mammon, a invasão do Meio não era uma questão de poder ou glória — era uma questão de portfólio. As almas humanas, com toda a sua angústia e complexidade, valiam consideravelmente mais do que as almas demoníacas, que tendiam a desvalorizar rapidamente por excesso de oferta.
Azazel, o Destruidor, o Príncipe da Ira, não disse nada. Nunca dizia. Limitou-se a cerrar os punhos — que eram do tamanho de carroças e fumegavam levemente — e olhar para os portões do Abismo com a expressão de quem leva a destruição muito, muito a sério. Fora ele quem arrombara as portas da Prisão Interdimensional durante a Grande Rebelião, e o havia feito com um entusiasmo que beirava o artístico. Quando chegasse a hora, ele faria o mesmo para as Portas do Mundo — provavelmente com menos sutileza ainda.
Leviatã, o Colosso das Profundezas, o Príncipe da Inveja, ergueu-se das águas negras do Abismo com a lentidão digna de quem mede o próprio comprimento em metros. Serpente, ou talvez dragão, ou talvez algo para o qual as línguas dos mortais ainda não haviam inventado nome suficientemente assustador — ele contemplou seus irmãos com olhos do tamanho de luas e sentiu o que sempre sentia: que os outros tinham algo que ele não tinha. Desta vez, era o Meio. E ele a queria. Emergiria pelo mar, como sempre fizera, e o que os humanos chamavam de tsunamis passaria a ter um nome próprio e dentes.
Belphegor, o Príncipe da Preguiça, abriu um olho.
— Está bem — murmurou, num bocejo que durou aproximadamente uma era geológica. — Desde que eu não precise fazer nada.
Os demais concordaram que isso era, na verdade, muito razoável.
E assim foi firmado o Pacto do Abismo: seis príncipes, sete pecados capitais entre eles, um plano de invasão de qualidade discutível, e o Meio que — ignorando completamente esses desenvolvimentos preocupantes — continuava girando com a inocência despreocupada de quem não sabe que está prestes a receber visitas indesejadas.

O Lúcifer, em algum lugar entre as dimensões, provavelmente teria algo a dizer sobre tudo isso.
Mas ninguém lhe perguntou.