Entre todos os lugares do Meio nos quais alguém poderia escolher passar uma tarde, os Picos Estilhaçados eram, por consenso geral de cartógrafos, estrategistas e qualquer pessoa com coluna vertebral saudável, os menos recomendáveis.
Não havia estradas. Não havia abrigo. Não havia nada além de granito, vento cortante e a convicção geológica inabalável de que o mundo era um lugar vertical e que quem não gostasse disso estava livre para viver no vale como todo o resto. As agulhas de rocha erguiam-se do chão como dedos quebrados apontando acusatoriamente para a Luz — uma blasfêmia em pedra, talvez, ou simplesmente a natureza sendo dramática, como costumava ser nas altitudes.
Valerius Bolt adorava este lugar.
Não por masoquismo, mas porque os Picos Estilhaçados eram o único lugar no Meio onde ela podia treinar seus poderes sem que nada explodisse acidentalmente, sem que ninguém ficasse levemente eletrocutado, e sem documentos burocrátiocos exigindo explicações por escrito em três vias.
A montanha não preenchia formulários. A montanha simplesmente absorvia o raio, rangia um pouco, e continuava sendo montanha.
Era uma relação de respeito mútuo.

Ela estava no terceiro nível do treinamento — o que internamente chamava de "falar com a tempestade", e que externamente parecia, para qualquer observador, uma mulher de pé numa saliência com os braços abertos sendo atingida por descargas elétricas com expressão de satisfação moderada — quando os dois demônios apareceram.
Valerius os ouviu antes de os ver. Demônios menores, descobrira ela, tinham a tendência irritante de não conseguirem voar em silêncio — as asas produziam um som específico, entre o couro e o vento, que a montanha amplificava como uma concha do mar amplifica o oceano, só que com menos romantismo e mais enxofre.
Ela abaixou os braços. As faíscas nos seus dedos diminuíram, contrariadas.
Os dois exploradores pousaram a dez metros dela com a cautela específica de criaturas que haviam sido enviadas para mapear o terreno e estavam claramente arrependidas da escolha de carreira. Eram baixos para os padrões demoníacos, com asas membranosas dobradas às costas e a expressão de quem esperava encontrar cabras e encontrou um problema consideravelmente maior.
Houve um silêncio.
— Humana — disse o primeiro, finalmente, com o tom oficial de quem recita um roteiro. — Em nome das Legiões do Abismo, este território está sob—
— Valquíria — corrigiu ela.

Outro silêncio.
— Valquíria — recomeçou o demônio, com menos convicção. — Em nome das Legiões do Abismo, este território está sob domínio das forças demoníacas e você deve—
— Quantos de vocês estão do outro lado do portal? — perguntou ela, com o tom educado de quem pergunta a previsão do tempo.
Os dois demônios trocaram um olhar.
— Não... podemos revelar informações estratégicas — disse o segundo, que até então não havia falado e parecia preferir manter essa política.
— Claro que não. — Ela pegou a lança, que estava encostada na rocha ao seu lado. — Era só curiosidade.
— Você não pode lutar contra as Legiões — disse o primeiro, recuperando alguma dignidade. — Somos incontáveis. Somos a escuridão que consome a luz, o fogo que—
— Vocês dois têm nomes?
Os demônios pararam.
— Perdão?
— Nomes. — Ela fez um gesto vago com a lança. — Parecem o tipo de demônio que tem nomes. Os maiores preferem títulos, mas vocês dois têm cara de nomes.
— Eu sou... Gorzak — disse o primeiro, visivelmente sem saber por que estava respondendo.
— Frix — disse o segundo, ainda mais sem saber.
— Gorzak e Frix. — Ela considerou isso com seriedade aparente. — Bem. É uma pena.
— O quê é uma pena? — perguntou Gorzak.
— Isso.
A lança descreveu dois arcos. O resultado foi rápido, profissional, e não particularmente dramático — o que Valerius considerava, em questões de combate, o maior elogio possível. Gorzak não chegou a terminar a expressão de surpresa, partiu-se ao meio. Frix foi mais rápido na compreensão do que no reflexo, o que não o ajudou.
O que ajudou Frix, pelo menos parcialmente, foi o último meio segundo de existência que ele usou não para gritar, não para contra-atacar, mas para abrir a palma da mão esquerda.
Uma chama negra e pequena subiu dela. Ignorou o vento. Ignorou a altitude. Atravessou o ar em direção ao portal do Abismo com a determinação implacável de uma mensagem que não tem interesse em ser interceptada.
Valerius a observou a chama entrar no portal.
Ficou olhando por um momento.
— Bem — disse ela, para a montanha, que estava acostumada com esse tipo de conversa. — Qual é a probabilidade de eles mandarem reforços?
Do outro lado do portal, a mensagem chegou.
O Comandante da Fossa não era uma criatura de paciência — era uma criatura de precedência, o que é diferente. Paciência implica esperar. Precedência implica que tudo acontece na ordem que você determina, e qualquer coisa que interrompa essa ordem é um insulto pessoal.
A chama negra de Frix era, portanto, duplamente irritante: primeiro por existir, segundo por implicar que Frix havia morrido, o que significava que Gorzak provavelmente também havia morrido, o que significava que havia algo nos Picos Estilhaçados que matava exploradores com eficiência desconcertante.
O Comandante contou seus soldados disponíveis.
Quarenta.
Considerou o número. Considerou os Picos Estilhaçados, que nunca havia visitado pessoalmente por razões que tinham a ver com dignidade e uma preferência pelo plano terreno.
Considerou, por uma fração de segundo, enviar apenas vinte.
E descartou a ideia. Qualquer coisa que matava exploradores merecia, no mínimo, quarenta soldados e um Comandante pessoalmente ofendido.
— Movam-se! — disse ele.
O portal vomitou a horda nos Picos Estilhaçados como o Abismo expelindo um mal que já não podia mais conter.
Valerius os contou quando apareceram no horizonte.
— Quarenta — murmurou. E então, após uma pausa de consideração matemática: — Quarenta e um, com o Comandante.

Ela girou a lança. As faíscas responderam entre seus dedos, estalando com o entusiasmo de quem havia sido interrompido no meio do treino e queria que isso ficasse registrado.
— Desvantagem deles — decidiu ela.
E começou a trabalhar.
O que se seguiu, os poucos pássaros que habitavam aquelas altitudes testemunhariam por gerações — ou testemunhariam, se pássaros de montanha não tivessem a sabedoria de voar para longe quando o granito começa a explodir.
Valerius conhecia a montanha. E a montanha, a esta altura de um relacionamento construído em anos de treinamento solitário e descargas elétricas compartilhadas, sabia que ela estava chegando.
O primeiro corredor estreito eliminou oito — demônios em formação de voo não viraram durante a manobra, e a pedra não perdoou a física. Uma ponte natural, cuidadosamente carregada com energia elétrica nos dez minutos anteriores à batalha enquanto ela fingia simplesmente estar parada no pico a observá-los, foi o fim de mais doze. O granito rachou para dentro com um som que não era explosão mas decisão — como se a montanha tivesse estado esperando uma razão suficientemente boa.
Não lute na montanha. Deixe a montanha lutar. Havia lido isso numa revista em quadrinhos na biblioteca mais antiga do Meio.
Restavam vinte. E o Comandante.
O Comandante era o problema real.
Quatro braços. Pele como armadura forjada. E a paciência irritante de coisa imortal que havia visto muitas batalhas e aprendera a não se impressionar com nenhuma delas. Ficou parado no ar, a dez metros acima da saliência, os quatro braços cruzados com a simetria específica de quem praticou a pose — ou praticou no equivalente infernal de um espelho, que Valerius preferia não imaginar.
Ele observou seus soldados caindo um por um com a expressão de alguém que lê um relatório desagradável mas esperado.
Então olhou para ela.
— Valquíria — disse ele. A voz era o tipo que ressoa em pedra sem precisar de esforço, feita para ecoar em cavernas e salões de julgamento. — Você luta bem para uma criatura que vai morrer.
— Obrigada — disse ela, sem parar de se mover entre os soldados restantes. — É um elogio muito específico. Vou guardar.
Ele desceu dois metros. Apenas dois — o suficiente para que o tamanho dele ficasse mais evidente, para que a sombra dos quatro braços cruzasse a saliência como uma nuvem passando.
— Eu sou Malgorth, Comandante da Quarta Fossa do Abismo. Conquistei trinta e sete fronts. Dobrei os joelhos de reis, de arcanjos, de coisas mais antigas que a Luz. — Uma pausa calculada. — Você é uma mulher numa montanha.
Valerius despachou mais um soldado com um raio curto e olhou para cima.
— Malgorth — repetiu ela, testando o nome. — Trinta e sete fronts. Deve ter um mapa enorme em casa.
— Você não tem noção do que está diante de si.
— Tenho uma noção razoável. — Ela recuou um passo, posicionando-se. — Quatro braços, voa, gira para a esquerda quando desvia. Subestima oponentes menores. Se leva muito a sério. — Uma pausa. — Quer que eu continue?
O silêncio que se seguiu foi o tipo que antecede não a fala, mas a decisão.
Malgorth desdobrou os quatro braços. As correntes de obsidiana materializaram-se entre seus dedos como algo que havia estado esperando ser invocado — negras, densas, com o peso visual de coisas que partiram armaduras antes.
— Vou te dar uma morte honrosa — disse ele, e havia algo na voz que havia mudado. O teatro havia saído. O que ficou foi mais simples e, por isso, mais perigoso. — É mais do que a maioria recebe.
Valerius parou.
Não por medo — ou não apenas por medo, porque havia algo nas correntes de obsidiana que ela reconhecia, da mesma forma que se reconhece a profundidade de um abismo antes de olhar para baixo. Aquilo havia partido coisas. Muitas coisas. A confiança com que ele as segurava não era arrogância performática.
Era memória.
— Tudo bem — disse ela, mais baixo agora. O deboche havia ido para algum lugar atrás dos olhos, guardado para depois. O que ficou foi mais limpo. — Então vamos fazer isso direito.
O que se seguiu não foi uma batalha no sentido que bardos cantam — não havia nada de glorioso na geometria fria do que aconteceu. Era lógica em movimento, dois organismos tentando encontrar o ângulo que terminava o outro.
Malgorth recebeu alguns raios em sua armadura impenetrável, mas não se importou.
Valerius foi percebendo ao poucos que a distância era o que mais importava, mas naquele exato momento, ainda não entendia como derrota-lo.
Malgorth avançou. Ela recuou. As correntes cortaram o ar onde ela havia estado com um som que não era vento, mas ausência — o som de algo que remove o que toca.
— Você recua — observou ele, sem inflexão.
— Estou pensando — corrigiu ela, entre dentes.
— Para uma Valquíria, é a mesma coisa.
Ela disparou verticalmente mais uma vez — não para matar, para ler. O raio encontrou o peito dele e ele desviou para a esquerda, exatamente como havia desviado antes, exatamente como desviaria sempre porque séculos de combate gravam hábitos mais fundo que qualquer intenção.
Lá está.
— Você tem um padrão — disse ela.
— Tenho experiência — respondeu Malgorth. — São coisas diferentes.
— São — ela concordou. — A experiência te diz o que funcionou antes. O padrão te diz o que vai falhar agora.
Ele avançou com as correntes girando tão rápido que pareciam quatro foices — o golpe que havia encerrado batalhas, ela tinha certeza, o golpe que era o ponto final de cada um dos trinta e sete fronts. Rápido demais para desviar. Largo demais para escapar pelos lados.
Mas não largo o suficiente para distância zero.
Valerius foi direto para dentro do alcance.
As correntes machucaram, mas não foram suficientes para pará-la. Ela sentiu o deslocamento de ar, o frio de obsidiana passando a centímetros da nuca, e não olhou. Já havia olhado o suficiente. Sabia onde estava a fresta entre as placas da armadura forjada — havia identificado durante a dança inteira, cada troca um centímetro a mais de informação.
Ela enfiou a lança na fresta do peito dele.

E despejou tudo.
Cada faísca guardada. Cada raio contido. Cada acúmulo de energia que havia sobrado dos soldados anteriores, concentrado num único ponto, sem reserva, sem cálculo, sem nada que se parecesse com prudência.
O relâmpago não foi azul.
Foi branco.
Malgorth, Comandante da Quarta Fossa do Abismo, conquistador de trinta e sete fronts, dobrador de joelhos de reis e arcanjos — saiu voando para trás atravessando dois dos seus próprios soldados como se fossem névoa, e encontrou a face da montanha com um impacto que ecoou de pico em pico até se perder no vale abaixo.
Pedras rolaram. Rachaduras espalharam-se pelo granito como veias encontrando caminho.
Ele escorregou lentamente pela face da rocha. Em seu último suspiro, Malgorth não usou a voz de comando que ecoava nas cavernas; usou um tom carregado de uma piedade ácida, o tipo de som que se dedica a alguém que se esforçou muito por uma causa perdida.
— Você lutou... como se a vitória fosse mudar o fim da história — ele soltou um riso seco, expelindo fumaça negra entre as placas partidas da armadura. — Aprenda isso antes do fim, Valquíria: eu vim para conquistar o pico, mas os Príncipes... eles vêm para apagar a montanha. Você não é um obstáculo para o que eles trazem. Você é apenas o entretenimento antes da carnificina.
E não se levantou.
Valerius ficou parada onde estava, respiração em frangalhos, não se importou com o aviso, a mão da lança tremendo com o tipo de tremor que não é fraqueza mas consequência.
— Trinta e oito — disse ela, para o demônio morto. — Atualiza o mapa.
Então percebeu que o mundo estava girando.
Quanto eu usei?
A resposta chegou como náusea imediata, como alguém puxando um tapete de baixo dos pés no décimo andar: tudo. Sem faísca. Sem reserva. Sem nada além de braços que queimavam e pernas que discordavam da ideia de continuar em pé.
Restavam dezoito demônios.
Avançando.
— Ah — disse ela, com a serenidade de quem já passou por isso antes e não havia gostado. — Claro.
Ela correu.
Não havia poesia nisso. Havia apenas a percepção brutal de que ficar parada era morrer, e que suas pernas ainda funcionavam mesmo que mais nada funcionasse. A lança ia na mão direita como bengala — uma indignidade que ela registrava mentalmente para processar depois, num momento em que tivesse o luxo de se indignar.
O pico mais alto ficava a quarenta metros acima. Uma agulha de granito nua, exposta em todos os ângulos, sem cobertura possível. A pior posição táctica concebível para qualquer guerreiro com recursos.
A única posição lógica para uma Valquíria sem nenhum.
Ela havia sentido a frente elétrica no sudoeste durante a fuga — uma tempestade natural se formando, densa, o tipo que nasce quando o ar quente dos vales encontra o frio das altitudes. Ela não tinha energia para chamá-la.
Mas no pico mais alto da montanha mais alta dos Picos Estilhaçados, não precisava chamar nada.
Precisava apenas ser o ponto mais alto. E confiar que a física era, como sempre havia sido, mais confiável do que a sorte.
A subida foi os piores dois minutos da sua vida recente — categoria com concorrência considerável. Granito cortando cada centímetro de pele exposto. Demônios nos calcanhares. Um a pegou pelo tornozelo; ela o mandou para o abismo com a lança e um grito que foi, honestidade obriga, parcialmente dela própria.
Quando alcançou o topo, havia quatro demônios em aproximação aérea.
Valerius enterrou a lança no granito do pico.
E esperou.
A tempestade chegou como uma resposta — não a um chamado, mas a uma pergunta física. Qual é o ponto mais alto? E a montanha respondia, como sempre respondia, apontando para a agulha de granito onde uma Valquíria exausta segurava uma lança com mãos que mal obedeciam.
O raio desceu antes que os demônios chegassem.

Pelo eixo da lança. Pelo cabo. Pelas palmas das suas mãos. Por ela inteira.
E Valerius não desviou. Respirou fundo — o tipo de respiração que é menos ar e mais decisão — e conduziu. Transformou-se em fio, em circuito, em ponte entre a tempestade e a rocha. A dor foi o tipo que não tem nome útil, o tipo que existe além da linguagem, no lugar onde o corpo para de reclamar porque reclamar exigiria energia que não há.
Durou talvez três segundos.
Quando terminou, o pico estava limpo. O granito ao redor havia vitrificado. O ar cheirava a ozônio com uma intensidade que ardia nas narinas e seria sentida no vale abaixo como aquele cheiro específico que antecede tempestades — que os humanos achavam que era natureza e era, desta vez, uma Valquíria.
Valerius estava de joelhos, as mãos presas à lança enterrada, a cabeça baixa.
Ficou assim por um longo tempo.
A montanha não comentou. Ela apreciou isso.
O céu ainda estava cinza quando ela desceu. Mais devagar. Cada passo uma negociação entre a vontade e músculos que haviam dado mais do que tinham, e que expressavam esse fato com uma eloquência dolorosa.
Lá embaixo, nas planícies entre os Picos e os vales, mais portões continuavam se abrindo. Pequenos daqui de cima. Ela sabia a escala real.
Isso não é uma incursão.
Era uma invasão. E ela havia gastado tudo para segurar um único front, por uma única tarde, contra uma fração de um todo do que estava por vir.
Valerius arrancou um fragmento de granito ainda quente e o apertou na palma da mão ensanguentada. Uma prática antiga. Uma pedra de tempestade — impregnada com resíduo elétrico, o tipo que durava horas. Para quem soubesse a frequência, era um farol.
Ela não sabia se os outros estariam ouvindo. Não sabia se Thalassa ainda estava no bosque, se Krell ainda segurava aquela maldita parede, se Xandros havia saído da biblioteca.
Mas mandou o sinal.
E começou a descer em direção ao vale central. A Encruzilhada do Destino, como chamavam nos mapas antigos. Um nome dramático para o que era, essencialmente, uma bifurcação de estradas com uma fonte seca no meio.
Parece um lugar onde o destino te encontra, ela pensou.
E odiou, sinceramente, que o pensamento fizesse sentido.
Ela desceu. Exausta. Sem raios. Com uma lança, um sinal enviado, e a certeza absoluta de que o que havia visto nos vales era grande demais para qualquer um sozinho.
Em algum lugar do outro lado dos portais, Asmodeus continuava seu plano de expandir o abismo por todo o Meio.
Valerius, sabia que algo mais estava por vir.
Mas primeiro: uma semana de sono. E, de preferência, algo quente para comer.
Nessa ordem.