1
Dia a Dia
- Eu posso me acostumar.
Stile murmura contra o vidro temperado que cobria toda a parede da frente. Seu uniforme rasgado roçando em suas marcas de queimadura que ainda davam desconforto, ele leva uma mão até o rosto, ajeitando levemente o curativo cirúrgico do lado esquerdo, um leve gemido de dor saí de forma inconsciente, mesmo que não sentisse aquele lado do rosto, a dor não era descartável.
Atrás dele, do outro lado do grande salão, uma porta de elevador se abre, o último resquício da música de elevador tocando no momento que as portas terminam de se abrir, com leves passos para dentro, Bane entra na sala, um suspiro meio aliviado ao ver o outro homem virado para o vidro no lado contrário da sala.
- Você já foi liberado? Achei que passaria mais umas semanas em observação talvez.. Eles não dão folga né?
Ele começa a andar em direção a Stile, enquanto sua voz profunda e forte dissipa o silêncio que antes preenchia o local, uma risada irônica tenta talvez chamar a atenção do outro, como se pedisse permissão para invadir o momento solitário daquele que agora permanecia tão quieto.
– Mas, logo chega o natal né? Pelo menos nessas horas eles deixam a gente descansar um pouco.
O Outro homem se vira, Stile suspira levemente, cansado antes mesmo de iniciar a conversa, uma pressão visível nas costas sem postura dele.
– Bane.. É, eu pedi pra ser liberado.
O uniforme, que antes era de certa forma estilizado, o tecido preto com uma marca de um alvo vermelha nas mangas de forma a assemelhar um caçador, agora ainda mantém as partes mais importantes, mas dá lugar a um material rasgado, um sobretudo preto que cobria até certa parte das pernas do homem, as marcas de que o uniforme havia sido queimado por algo diversas vezes agora existem, mas qualquer vestígio de pele de Stile parece escondido pelo tecido da roupa. Seu rosto estava pintado por um formato cansado quase caricato, uma olheira abaixo de seu olho direito era estampada, enquanto no lado esquerdo um curativo tentava esconder a pele avermelhada e meio apodrecida, mas não tinha tanto sucesso.
Bane, um homem alto de porte grande, usando seu “uniforme” de sempre, uma camiseta preta que cabia perfeitamente em seu corpo, exaltando sua musculatura quase perfeita, e uma calça grande com um estilo camuflado em tons de cinza.
Ele mira os olhos no rosto que antes era familiarizado, tendo certa estranheza ao vê-lo tão diferente, mas não faz nada além de soltar um leve ar irônico pela boca, suspirando, e acenando com a cabeça enquanto compreendia tudo.
– Tá bem fudido né? Mas passa
Ele dá as costas para o colega sem nem ligar muito, indo até o sofá que se apresentava um degrau abaixo naquela grande sala, totalmente acolchoado a se moldar perfeitamente ao corpo tonificado do homem grande, ele pega o controle da grande TV de luxo que estava em cima de uma cômoda perfeitamente posicionada em alinhamento com o sofá, e liga, uma reportagem de um jornal matinal passava enquanto o relógio marcava 10:23 da manhã.
– Então, aqui a gente conseguiu uma entrevista totalmente exclusiva com o herói que tá acompanhando todo o desenrolar dessa história, não é Vigilante?!
A repórter fala exaltada, com aquele entusiasmo fingido de sempre, enquanto passa o microfone que mostrava a logo chamativa do canal para um homem com um terno e gravata sociais, como se tivesse saído de uma empresa naquele momento, seus músculos bem treinados eram aparentes na roupa relativamente apertada para seu tamanho, mas oque o diferenciava era seu rosto, um grande capacete em um tom de amarelo chamativo se apresentava no lugar de sua face, com um vidro preto fosco, que não deixava local nem para imaginação em sua visão, detalhes de costura em cinza e algumas pequenas asas em preto se mostravam aos lados do capacete, antes que o homem começasse a falar Bane passou a visão levemente pelo letreiro abaixo na tela com um certo lampejo de curiosidade sobre oque estavam falando. “AGORA: Serpente renuncia as atividades como vilão”.
- Olha, eu poderia falar de muita coisa sobre o Serpente, mas eu digo que já estava na hora, ele com seus.. Setenta anos já, não é? E eu estou quase alcançando meus sessenta, acho nobre que ele finalmente tenha decidido parar, e ainda mais focando na empresa dele, eu vejo futuro nele como cientista mais que tudo, com a equipe de primeira linha que ele sempre teve. Eu digo, que logo mais, pretendo fazer como todo o herói que consegue chegar nessa idade, vou me aposentar, talvez formar uma equipe com alguns heróis mais novos, e passar meu legado para frente, é isso que eu quero, e espero que ele faça parecido como vilão.
O Vigilante fala enquanto gesticula e chama atenção dos outros repórteres em volta que tentam chegar nele quase como abutres sedentos por carne.
- Já tá na hora do velhote se aposentar aí também mesmo! Tá caindo aos pedaços e ainda quer bater nos outros?
Bane ri com desdém observando a reportagem sem prestar tanta atenção, logo depois ele começa a trocar de canal, como se procurasse por algo que realmente o chamasse.
Stile atrás, se senta na mesa que fica logo mais ao lado, observando a TV, e logo depois olhando para o movimento da cidade lá fora por aquela grande janela, com ansiedade batendo o pé no chão inconscientemente de forma rápida.
O Elevador, mais uma vez faz o bipe que indica sua abertura, a música que vem logo ao abrir traz Stile a realidade por um segundo, o fazendo olhar para quem estivesse ali naquela hora. Iluminada pela luz amarelada e meio fosca da caixa de ferro, uma silhueta até que bem baixa entra na sala, o rosto com uma expressão de desconforto com um lampejo de raiva, sem olhar para quem está lá, e na verdade focado no própria roupa, um vestido longo em tom de laranja, com uma segunda camada por cima de um vermelho chamativo, em seu pescoço, um tecido que simularia quase como uma capa, cobrindo até seus cotovelos, ele mostra um tom de amarelo também muito chamativo, com hexágonos vermelhos em seu contorno, um vestido quase fantasioso que não parecia combinar com nada no local, nem com sua pele parda, nem com ela direito.
- Sério, que ódio.. Nem pra fazer algo bonito!
A garota fala, com raiva na voz, enquanto passeia pela sala ainda sem focar em seus arredores, ela joga seu cabelo castanho e ondulado para trás com aparente falta de paciência, antes de parar seus olhos em Stile que estava logo a sua frente sentado a mesa.
- Ainda bem que me avisaram antes que você ia voltar, se não eu me assustaria com esse rosto, tá parecendo um zumbi menino!
Ela fala claramente com desdém, em tom até de brincadeira.
– Sempre foi estranho, agora tá ainda pior
Ela murmura enquanto volta a andar, indo até o sofá onde bane está sentado. Stile continua quieto, sem se incomodar tanto com a clara brincadeira não tão gentil da garota, ele se deita com a cabeça sobre a mesa, ainda pensativo enquanto as dores das queimaduras o privassem de um descanso mental naquele momento.
- Opa Veronika! Bom dia aí-
Ele olha para a garota por alguns segundos, antes de soltar uma risada sincera e bem deliberada, que faz até Stile levantar o rosto para observar oque de engraçado teria tanto.
- Não é possível, virou festa fantasia agora? Tá preparada pro Hallowen pra se vestir de abóbora? Que coisa ridícula!
A garota bufa, soltando ar claramente incomodada pela brincadeira, um rubor aparente colore suas bochechas enquanto ela pensa em algo para dizer.
- Não é culpa minha! Eu falei di-rei-ti-nho para fazerem um uniforme bonito que combinasse com a minha coroa! E tudo bem, as cores combinam, mas não precisava ser assim!! E eles sabem que eu odeio laranja!
Ela fala quase como se gritasse enquanto gesticula, tirando a coroa almofadada de rainha que estava em sua cabeça, a marca registrada da heroína Veronika.
- Eu falo e lembro pra eles tantas vezes, e eles me vem com isso? Já tô até vendo os posts no Myter, esse laranja horrível..
Ela diz claramente preocupada, já imaginando a variedade de posts e brincadeiras que os seus não-fãs fariam, só a possibilidade de aparecer na rua assim já deixa a garota nervosa o bastante para que sentisse uma angústia interna, mas ela sabe que tem que ser forte, Veronika é melhor que isso. Ela aperta com certa raiva o tecido do vestido, mas solta, movendo as mãos como se tentasse relaxar.
- Olha as coisas que me aparecem, não acha Stile?
Bane tenta incluir o colega na conversa, com olhar distante ele logo já foca a visão novamente na garota e no homem, soltando uma leve risada que não poderia ser nada mais que falsa.
- Tá horrível mesmo Veronika..
Ele fale com um leve sorriso no rosto e uma voz sonolenta, talvez nem estivesse prestando atenção de verdade no vestido e só tivesse falado para dar aquilo como resposta as brincadeiras que ela havia feito a poucos segundos atrás.
- Tá, tá, eu não ligo!
Ela vira o rosto, enchendo as bochechas com ar e um suspiro incomodado, ela ligava, mas gostaria mais que não ficassem falando sobre.
- E quando o Mark e a Dash chegam? Eles sempre demoram tanto! Espero que peguem algo para comer pelo menos..
Ela vai até um pequeno frigobar mais ao canto do local, logo ao lado de alguns armários que de vez em quando poderiam guardar ingredientes para jantares que eles antes inventavam de fazer para passar o tempo como equipe, festas ou coisas do tipo, antes mais comemoradas que agora, cinco anos depois de a equipe se formar as comemorações se tornaram mais raras, e as relações mais distantes, era perceptível por toda a equipe.
Veronika alcança uma pequena caixa de um suco de laranja, logo onde ela pegou, um estoque de mais outras dez caixinhas de suco que só ela bebe estavam ali, claramente estocadas e compradas somente por ela em momentos passados, uma hipocrisia sútil no ódio dela por coisas laranjas.
- Eles devem estar se pegando, certeza.
Bane fala, brincando com o fato dos dois outros heróis sempre disputarem corridas juntos regularmente, algo que ele faz a mais tempo do que poderia se lembrar. De forma irônica, logo ao falar, o elevador se abre com aquela música de novo, uma clara forma de lembrar e de avisar a chegada de um novo alguém.
De dentro, andando casualmente uma silhueta roxa chega na sala, com um uniforme roxo e apertado, ressaltando as curvas de seu corpo e os leves músculos por certo tempo de treino, em sua cabeça um capacete roxo que parece ter vindo direto de algum motorista de um carro de corrida, um roxo mais escuro aparece tanto em luvas que ela usa, em torno de seu abdômen, e na área abaixo de suas coxas, simulando uma meia calça, uma placa de um amarelo chamativo cobre seu peitoral, dessa vez não tecido, mas uma placa de algum item mais duro, além de detalhes amarelos em outras extremidades do uniforme, em seus pés, tênis simples mas luxuosos feitos para corrida se destacam com o tom preto e simples.
Ela traz um par de sacolas com alguns itens, enquanto cumprimenta os outros heróis com um gesto, coloca as sacolas em cima da mesa e começa a retirar alguns itens, com um suspiro cansado ela começa a listar os itens que trouxe.
- Peguei uns bolinhos naquela padaria aqui perto, além do básico né, pra quem quiser um sanduíche.
A mulher fala, claramente cansada pela corrida provavelmente, enquanto abre as embalagens, de um bolo de laranja e um de chocolate, simples e nem tão apetitosos à primeira vista, mas talvez a única coisa que ela tenha achado no caminho.
- Bane, fez o café já?
- Cadê o Mark? Não tava com você?
Veronika interrompe a pergunta curiosa, enquanto toma um gole de seu suquinho, fazendo com que a pequena caixa durasse bem mais do que deveria, ela se vira e abre uma gaveta no armário da cozinha, pegando alguns talheres para cortar o bolo, já se agachando para pegar os pratos também.
- Estou aqui.
Uma voz mais aveludada mas abafada fala pelo vidro que impede ele de entrar na sala, da parte de fora do prédio, um corpo voa, talvez o segundo maior do grupo, uma roupa com um tecido estranho branco, alguns detalhes quase como raízes amarelas brilhantes detalham e tomam conta de seus braços e pernas, até um pouco no rosto, chifres brancos se espiralam para cima em sua cabeça, e um arco amarelado, quase como uma auréola passa de seu pescoço até o topo de seus chifres por de trás da cabeça.
Alguns poderiam o descrever como um ser de luz, um ser enviado por alguém maior, algo nem desse mundo, mas ele, ele é só o Mark, como uma atitude irônica e nem um pouco necessária, ele atravessa o vidro, passando pelos raios de sol que refletiam, e entrando dessa forma tão.. Desnecessária, todos da equipe observam com um olhar já acostumado.
Enquanto ele toma rumo a sentar em uma das cadeiras na mesa, o resto da equipe continua com seus afazeres, arrumando uma mesa para o café, quase como uma família.. Estranha no mínimo.
Após alguns poucos minutos, todos se sentam a mesa, Dash traz uma garrafa de café, com o café feito em pouco tempo já que Bane, havia esquecido como sempre.
- Que uniforme é esse amiga? Gostei das cores, ficou mais chamativa viu?
Dash se senta ao lado da outra garota, empurrando a amiga com o ombro e dando uma leve risada quase inaudível pelo capacete, ao contrário de Bane, ou de Veronika por si, ela havia gostado do uniforme realmente, achando que o vestido com estilo de princesa, ressaltava o lado “fofo” que ela via em Veronika, tanto por sua estatura baixa e por sua personalidade que se frustrava com pouca coisa.
- Você gostou? Eu.. Não curti tanto.
A garota diz, agora não tão brava com o vestido como antes, ela pega levemente a barra de uma das camadas da roupa e analisa, agora tentando gostar mais, um leve rubor sobe pelas bochechas pelo elogio inesperado naquela manhã.
- E você Stile? Como ‘cê tá?
Dash alcança o homem que continua deitado em sua frente, falando e esperando uma resposta enquanto pega sua xícara e arruma um gole de café com destreza, café puro, como ela sempre toma.
- ...
- Ele deve tá dormindo, moleque tava que nem morto aqui.
Bane responde antes que Dash fale qualquer coisa, colocando a mulher em completo silêncio enquanto ela percebe que ninguém parece querer conversar. As manhãs dos Heróis Mundiais passaram a ser cada vez mais silenciosas, quanto mais o tempo passa, menos eles fazem, e menos precisam estar ali.
Enquanto lá embaixo, andares e andares, no nível em que os carros passam e as pessoas correm atrasadas para o trabalho, ou casais se divertem em encontros em cafés qualquer, um homem corre atrás do cachorro que se desprendeu da coleira, uma mulher chora na faixada de um estabelecimento depois de ser demitida, um jovem caí de seu skate após tentar fazer uma manobra arriscada, ou um senhor se diverte jogando xadrez com um amigo de longa data, todos eles tem algo em comum, todos eles sabem que os Heróis Mundiais estão lá por eles.
Mas.. Eles imaginam o contrário, o imaginário de um humano normal não poderia estar mais errado do que realmente acontece naquela torre, dias e dias, as vezes semanas sem qualquer missão, estar em um cargo tão alto como herói não significa receber mais missões, e sim lidar com as mais difíceis, e mesmo que sejam difíceis, o ápice do heroísmo mundial não sente qualquer dificuldade na maioria das vezes.
Então, a vida de um herói mundial é simples, pacata, e sem graça na maioria das vezes, muito diferente da visão que tanto os heróis, quanto os civis tem, mas é bom, não ter que fazer tanto, não demanda tanto esforço e ainda assusta ameaças que poderiam ser perigosas de certa forma, eles funcionam mais como um símbolo do que como verdadeiros heróis.
Após um café silencioso, todos continuam sentados na mesa, pensativos de certa forma, mas antes que possam comentar qualquer coisa, Stile se levanta de surpresa, todos olham para ele por um segundo, segurando a atenção dos outros ele anda até um painel grande na parede, que mostrava um mapa completo da cidade, lentamente e quase sem vontade ele começa a olhar o mapa, deslizando os dedos pela tela enquanto procura algo, até que mais aos arredores, ele observa um pequeno ponto que pisca em vermelho, o sinal que eles tinham de que lá, teria algo para fazerem. Sem pensar e nem olhar para o resto da equipe, ele clica, recebendo as informações do local de forma detalhada, e logo vai até o elevador tomando rumo para fora da torre.
- Vai ir atrás de uma mis-.. Ah, deixa
Dash tenta perguntar, mas não consegue antes que o elevador feche enquanto Stile olha para baixo com a tristeza e desânimo estampados no rosto, enquanto como último relance, ele puxa a arma guardada em uma pequena bolsa em suas costas.
Ela levanta, antes de olhar para o resto da equipe.
- Então... Vamos acompanhar ele?
- Alguém aqui tinha que levantar né, só não achei que ia ser o traumatizado ali
Bane também se levanta da mesa, fazendo um pequeno alongamento antes de ir direto para o elevador. Ele aperta o botão e espera que o elevador volte para aquele andar, enquanto olha para o resto da equipe que também faz o mesmo.
- A gente vai lutar? Eu não vi direito qual seria o problema.
Mark já chega próximo do vidro para fazer sua mágica desnecessária novamente, enquanto olha para os outros três com a estranheza de sempre.
- Não tinha sido especificado
Veronika fala, antes que em sua mão logo se materialize como mágica, um bastão, ou “Cajado Mágico” como ela gosta de chamar, um cajado com cabo feito de madeira, mas parece algo mais resistente, um pequeno detalhe de um pano vermelho na ponta, que fica abaixo de quatro aberturas douradas que seguram um cristal azulado e brilhante no meio, quase como pétalas de uma flor que não desabrochou ainda.
- Então Mark, sabe né? Se chegar lá e ver que talvez a situação fique ruim, espera a Dash, tenta dar uma olhada, e depois a gente chega.
Bane dá as ordens assim que o elevador se abre, os três entram, enquanto Mark passa a janela com o mesmo truque anterior.