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Missão
Um celular começa a vibrar, com um toque estridente e chato que alerta os dois enquanto desviam do centro da cidade, evitando a multidão ao acaso de reconhecimento.
Bane pega o celular de seu bolso, e vê o número que liga para ele.
“Savage”, o número de seu treinador, um homem que o conhece, e respeita a mais tempo do que poderia lembrar, quase um pai.
- Diga, tá precisando de algo?
- Opa! Queridão! Tudo bem? Como tá indo a semana? A gente não se fala a tempo já, aquela ida pro Alaska me tomou um tempo.
- É, tudo certo aqui, e com você? Como que foi lá? O Braço ainda tá inteiro né?
Bane dá uma risada, claramente feliz com a ligação enquanto começa a andar mais lentamente na rua, Mark paira na frente observando sem falar nada.
- Foi legal pra caralho, tinha uns engomadinho lá que já tentaram se sobrepor pra cima da gente, mas só foi bom meter o cacete neles.
- Hum! Sempre nessas né, fico feliz que tenha voltado, vê se vem visitar minha mãe ou eu quando puder agora que tá aqui, certo?
- Pode deixar garotão! Já já tô batendo na porta aí! Mas por enquanto vou desligar por que eu tô meio.. Ocupado aqui
Ao fundo, uma voz feminina corta a voz extremamente alta e máscula do homem do telefone, que logo desliga sem pensar duas vezes.
Bane deixa um sorriso no rosto antes de dar uma risada genuína e seguir rumo para perto do Mark denovo.
- Falando nisso, faz tempo que não visito minha mãe não é? Deixa eu ver se ela tá na cidade.
Ele pega o celular com certa destreza e logo disca o número, o único que sabe de cabeça, enquanto espera que atenda, ele fala para Mark.
- Pode ir indo, vou passar fazer uma coisa, vê se encontra o Stile inclusive.
- Claro, farei isso, acredito que ele deva estar na torre.
Ele sai em velocidade pela cidade com objetivo a torre, enquanto a mãe de Bane finalmente atendia.
- Fica brincando pra lá, brincando pra cá, que chatice!
Veronika, deitada no sofá do salão dos heróis mundiais, olha para o teto enquanto na TV ao lado passa um programa infantil conhecido, sobre um homem com fantasia de dinossauro e seu assistente fantoche, uma reprise desse programa já finalizado a alguns anos.
A garota havia chegado, e já se tratado quanto aos machucados, abaixo do vestido e em suas mãos alguns tecidos que estancavam qualquer sangramento, além de um leve tratamento que os médicos dos andares abaixo haviam ajudado a fazer.
Ela olha para o programa, o homem dinossauro estava rindo com o seu fantoche, e ao redor algumas crianças riam juntas enquanto comiam um grande bolo recheado, um piquenique estava sendo feito nesse episódio, um dos episódios mais divertidos do programa onde quinze espectadores haviam participado, e Veronika sabia muito bem disso.
As crianças gargalhando quanto as encenações do homem, o ambiente leve e feliz, enquanto ela olhava com um tom cético e sério para a tela, uma sensação de inveja passava por todo o seu corpo, quase um refluxo, uma vontade de vomitar.
- Hm..
Ela olha fixamente para uma das garotas que tinha um sorriso radiante, sua pele parda e cabelo cacheado castanho preso, duas maria-chiquinhas bem feitas eram presas e davam um toque ainda mais infantil para sua aparência, ela ria e estava se divertindo com o resto das crianças.
“Senhor dino! Cadê seus outros amigos?”
Ela pergunta, curiosa pelo paradeiro dos outros personagens que também eram recorrentes no show. O homem agacha próximo dela, olhando em seus olhos com aquele olhar brincalhão, a fantasia de dinossauro cobria o resto de seu corpo, provendo uma grande cauda que balançava de um lado para o outro, dando um tom mais bobo ainda para aquilo.
“Eles estão de férias! Foram para a praia! Mas eu, senhor Dino, quis trazer meus outros amigos para brincar aqui! Vocês!”
Ele fala com a voz pateta em tom brincalhão, antes de acariciar e bagunçar levemente o cabelo dela, levantando e voltando a encenar mais momentos para as crianças.
As lágrimas escorrem lentamente dos olhos de Veronika, sem que ela mesma perceba.
- Eles estão de férias.. Que bobo.
Ela ri, enfiando o rosto em uma almofada e chorando baixo, enquanto desliga a TV com o controle, deixando somente o silêncio e seus soluços baixos naquele andar do prédio luxuoso.
O elevador se abre, o jingle avisando novamente a chegada de mais alguém, e Stile sai dele, indo direto e sentando na mesa que ficava logo ao lado do sofá, com raiva em seus movimentos, sem paciência alguma, ele bate na mesa. Veronika que havia parado de chorar já, fica quieta, sem se mover, não parecia que ele havia notado ela, um calafrio passa em seu corpo quanto ao jeito violento que ele mostrava naquele momento.
- Não é como se ele ou qualquer um outro fosse entender né?
Ele levanta da mesa, derrubando a cadeira no chão, e vai até o vidro que cobre a parede, a grande janela que mostrava toda a cidade, ele encara o próprio reflexo, e arranca a faixa de seu olho com um gemido de dor, o sangue que havia secado descolando da mancha de queimadura, que se mostrava feia e ruim, o buraco em que seu olho ficava, agora era só um buraco vazio, suas pálpebras agora inexistentes, depois de várias e várias cirurgias falhas para tentar recuperar o melhor de seu tecido. A expressão de raiva que agora havia em seu rosto esfria, era a primeira vez que ele havia visto aquilo, e era horrível, o tecido de sua carne totalmente avermelhada em vários tons de vermelho.
- N-não, o que é isso? Porque fizeram isso comigo?..
O tom de sua voz começa a ficar choroso e arrependido, ele se afasta do vidro mas sem desviar o olhar de seu reflexo, como se tivesse medo que o próprio o atacasse, seu outro olho começa a lacrimejar com lágrimas demoradas caindo lentamente.
- Quem é esse no reflexo?.. Eu não quero que seja eu..
Suas pernas tremem, quase traindo sua confiança e o fazendo cair no chão, ele estende a mão levemente para pegar a arma em suas costas como se visse um inimigo em potencial, mas vacila, deixando a mão trêmula ao lado do corpo, a outra, se estende para o rosto, pensando em tocar, mas com medo, ele não consegue.
Veronika, nem se atreve a mover-se, tanto pelo momento vergonhoso que havia passado, e pelo peso que o quarto tinha agora, com a clara frustração de Stile transparente, ela abraça a almofada contra o corpo enquanto escuta com atenção cada som proveniente do colega.
Ele continua olhando, e cada vez a mais que encara, mais seu corpo treme de medo de si mesmo, ele em um momento de raiva, pega a pistola de um coldre que segurava perto de suas pernas, atirando sem pensar no reflexo, em seu rosto, o estrondo faz com que Veronika comece a tremer mais diante da situação, ele guarda a arma e se afasta tremendo, rapidamente vira e começa a arrumar a faixa novamente no lugar, o tecido colando nas manchas de carne em seu rosto.
- Eu vou me vingar ainda, eu vou mostrar pra eles que eu posso ser o melhor, que isso não fez nada comigo, eu continuo o melhor atirador do mundo mesmo sem um olho, e eles vão entender.
Impaciente ele anda até o elevador, saindo da sala como se nada tivesse acontecido, o elevador se abre, fecha e ele some dali, deixando somente o suspiro ofegante de Veronika no silêncio pós tiro.
Ela liga a TV novamente, agora um programa de auditório aleatório começa a passar em outro canal, ela senta no sofá abraçando a almofada, e começa a assistir em silêncio ainda tremendo, alerta a qualquer barulho, especialmente do elevador.
Um tempo depois, enquanto continua focada, um barulho de algo na janela, seguido de um zumbido chato, era Mark entrando pelo reflexo no vidro, de um sol começando a se mostrar como o fim de tarde lentamente se aproxima.
- Garota, sozinha aqui?
Ele se aproxima e começa a pairar ao lado do sofá, o rosto de Veronika mostra uma expressão relativamente assustada com a presença dele, mas que logo vacila voltando a aquele tom debochado e chato como sempre, ela joga a almofada de lado, como se quisesse esconder os vestígios de qualquer outra situação passada.
- Eu que diga, não tava com os outros alienígena?
- O Bane acabou tendo um compromisso, então saí procurando o Stile e depois vim aqui, mas não tive muito sucesso em acha-lo.
A voz de Veronika falha por um segundo ao ouvir o nome de Stile, um calafrio passa por seu corpo relembrando o terror que sentiu a segundos atrás, o medo, mesmo de um colega de equipe.
- A-ah! Eu não vi ele também, deve estar bebendo com alguém, ou sei lá o que ele faz..
- Ele nunca tanto foi de beber, nenhum de vocês têm esse hábito.
- Nunca se sabe né!
Bane bate na porta de madeira com leves toques, esperando alguém atender, a casa de sua mãe, uma casa relativamente simples onde fica, ao contrário de suas várias outras casas espalhadas pelo mundo, em uma vizinhança simples e com atmosfera também simples, uma casa de uma família americana normal como qualquer outra.
A porta se abre, uma mulher relativamente alta, com quase dois metros de altura, seu cabelo é preto, liso e longo, indo até sua cintura, apesar da idade, ela é uma mulher bem cuidada, de pele parda mais escura e olhos de cores divergentes, um rosa shock e um azul quase roxo, ela veste roupas caseiras, um grande roupão da mesma cor de seu olho azul, e pantufas bem casuais.
- Boa tarde meu filho, como você está? Pode entrar..
O sorriso e olhar materno aquece o coração de Bane por um segundo, que entra na casa já familiarizado, o aroma de um chá recém feito é relaxante para aquele homem que sempre parece tão sério.
- Então mãe, finalmente voltou para cá né.. Tem um tempo até a próxima viagem?
- Oh meu filho, sua mãe decidiu tirar umas férias nesse fim de ano, talvez possamos passar um tempo juntos? Meu trabalho não deixa tanta margem para esse tipo de coisa, você sabe.
Patrícia, a mãe de Bane, tem uma empresa, uma transportadora na verdade, milionária e com sedes espalhadas pelo mundo todo, a “WRC”, famosa e totalmente administrada por ela e sua sobrinha, como Patrícia sempre havia trabalho demais em todos os locais, ela quase não parava em casa e na maioria das vezes estava em casas compradas ao alugadas em outros lugares, longe de seu filho.
- Claro mãe.
Um sorriso abre no rosto dele, diferente do sorriso sarcástico de sempre.
- Eu também vou ter as minhas férias como herói mundial por um tempo, umas duas semanas, poderíamos ir para algum outro lugar.. Havaí talvez? Última vez que visitei aquele lugar, fiquei com muita vontade de voltar lá.
Ele fala enquanto se senta no sofá, seu corpo pesado faz as molas rangerem, ele olha, com certo medo de estragar, mas relaxa rapidamente.
- Podemos ver filho, eu vou falar com a Maria para ver se ela vai querer ir também.
A mulher pega um grande bule cheio de chá e duas xícaras, serve para os dois, entrega uma xícara para Bane, e começa a beber o seu próprio, um gosto leve e que parece relaxar no mesmo momento.
- Verdade, também não vejo ela a um tempo.
- Mas filho, como anda o trabalho? Não é muito puxado? Eu vejo na TV você sempre ensanguentado ou cheio de machucados.
- Essa é a vida de um herói mundial mãe! Mas, não é tão ruim assim, a gente já conversou, meus machucados saem rápido e eu sempre fico de pé.
- Eu fico preocupada de qualquer forma, mas continua se cuidando, eu sei que você é um homem forte.. Você sempre foi..
Ela passa suas mãos pelas costas de Bane, fazendo um leve carinho, antes de bagunçar seu cabelo também com aquele sorriso feliz por ver o filho bem.
O celular vibra, e começa a apitar, Bane pega ele como reflexo e observa.
“Reunião dos Heróis Mundiais às 18:00 no prédio da Associação”
Ele olha, observa o horário, e guarda o celular, ainda relaxado por ser relativamente cedo, mas ele sabe que tem que chegar lá no horário.