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Lindsay
Dash abre os olhos, a escuridão do quarto e o silêncio a fazem levantar com calma, coisa que ela não sentia que podia antes. Ela se levanta da cama, um suspiro renovado saindo de seus pulmões, de pouco a pouco toma conta de onde está.
Uma pontada de angústia toma conta de seu peito, mas é algo que logo ela sufoca e pensa de forma racional, seu uniforme roxo e capacete jogados em cima da mesa do outro lado do quarto, antes de colocar, ela alcança em sua mochila um espelho de mão, e olha para o seu próprio rosto.
Sua pele branca e lisa continua bem tratada como sempre, seus cabelos loiros e longos, agora bagunçados, não precisariam de muita coisa para ficarem perfeitamente bonitos novamente, os olhos azuis que penetravam a si própria no reflexo eram estonteantes, ela começa a olhar toda a sua roupa, a camiseta grande utilizada como um pijama simples e branco caia por um braço, revelando uma das alças pretas de seu sutiã que usava por baixo, ela usava um short preto que rivalizava com a cor da camiseta, ele era apertado e ressaltava suas coxas lisas e bem treinadas, assim como suas penas que eram tão bem modeladas – Ela havia passado tanto tempo pensando em como ter esse corpo, que a própria julgava perfeito.
Dash traz o espelho para o rosto novamente, agora com um sorriso confiante e satisfeito, ela morde o lábio, seu coração correndo um pouco mais rápido por si própria.
- Tá sexy como sempre Lindy.. Nunca perde a graça.
Ela mesma ri de si, antes que seu olhar fosse capturado pelo uniforme atrás, jogado, mas aquele capacete parecia a encarar, como se tivesse uma vida própria, seu sorriso cai do rosto, ela suspira e olha novamente para o espelho, um olhar preocupado tomando conta – Era tão linda, cobiçada por tantos, mas por que logo o seu uniforme era assim? Queria poder usar algo como Bane, ou até Veronika, não importava a maquiagem que usasse, quantos produtos gastasse na pele para que não fosse oleosa, no cabelo para que fosse sedoso, ninguém veria por mais do que alguns minutos.
- Se eu sair assim?..
Lindsay deixa o espelho de lado por um segundo, olha para o chão, procurando duas pantufas que havia trazido, ela tremia um pouco de frio, mas não estava pensando nisso agora. Olha para o uniforme por mais um segundo – Mas não, agora não usaria ele.
Ela para em frente a porta, antes de tocar para abri-la.
- Oi! Não.. Oiii..! Não! Opa! Também não.. Oii~.. Ah.. Deixa..
A mulher encena vários tipos de cumprimento, não sabe nem ela o porque disso, talvez.. Não queria ser a mesma de sempre?
Ela abre a porta, confiante o bastante, para logo dar de cara com..
- Ah, oi Mark.
- Dash, bom dia, acabou mudando o estilo? De forma mais casual e sensual diria eu.
Ele começa a tentar levar ela para dentro do quarto novamente, só para ser brutalmente empurrado e cair no chão.
- Eu ainda não entendi como isso funciona.
- E não acho que vai entender.
Ela olha pra ele com certo nojo, antes de dar um suspiro e colocar um sorriso no rosto indo para a sala principal, ela balança o cabelo longo, e faz a pose que ela julgaria mais feminina.
- Bom dia pessoal!
A sala estava quase vazia, só Bane estava ali, além de Reni que parecia falar sozinha em sua cadeira. Mark logo levanta e passa por ela, indo para o canto da sala e olhando para a mulher, sem falar nada.
- Bom dia Dash.
- Onde tá o resto? O Stile e a Veronika não acordaram ainda?
Ela se aproxima em passos lentos e medidos, havia sido modelo quando mais nova, então já sabia de algumas coisas. Ela vira a cabeça, suas mãos atrás do corpo, e se senta ao lado de Bane.
Bane já conhecia Dash há muito tempo, cinco anos e talvez um pouco mais ainda, eles treinavam juntos praticamente todo dia, então aquilo não era algo tão diferente assim. Lindsay se aproximava no sofá, nem ela entendia o que estava fazendo, mas Bane, também não ligava tanto, a princípio.
- Então, dormiu bem?
- Dash? O que você tá fazendo?
Veronika aparece do outro corredor, com duas xícaras de café na mão, ela olha com incredulidade para Dash.
- Vem aqui rapidinho.
Ela passa, largando as xícaras no chão mesmo, e pega na mão de Dash, que estava já posicionada subindo pela coxa do colega, Veronika a pega no pulso, e puxa o braço da amiga que somente aceita suspirando alto com decepção, as duas vão até o corredor dos quartos.
- Tá, o que é isso? O que você tá fazendo?
- Ah miga.. O que foi? Não tô fazendo nada demais!
Ela puxa o braço, colocando a outra mão no ombro de Veronika e olhando para ela com um sorriso malicioso.
A amiga, que estava com o uniforme vestido, pega a camisa de Dash e arruma, desamassando ela e tentando deixar mais.. Normal.
Dash olha, e seu rosto toma uma vergonha na hora, um rubor grande sobre por suas bochechas e orelhas, e ela coloca as duas mãos no rosto.
- E-Eu entendi, desculpa..
- Vamo lá amiga, eu não ligo de você dar em cima do Bane, ou de qualquer um dos garotos aqui, você sabe o que faz, eu acho. Mas pensa na situação, a gente tá no espaço, em uma nave que é menor que um apartamento no Brooklyn, e tem uma criança logo ali do lado, eu sei que talvez você esteja meio assustada, eu te conheço a cinco anos, você não é assim tá bom? Tenta pensar um pouco antes de sair fazendo tudo o que dá na telha.
- ... Tá, desculpa.
A vergonha desaparece, agora mudando para um arrependimento, e certa tristeza? Nem ela saberia o porquê de sentir isso, o porquê de fazer isso, logo olha para baixo, e vai até seu quarto no fim do corredor, fechando a porta sem olhar para Veronika atrás – Ela senta na cama, pegando o espelho que havia jogado, olha para o seu reflexo e começa a encarar seus próprios olhos.
- Eu não sou assim? Como eu sou? Eu sou diferente?..
Lindsay olha para o capacete na mesa, a roupa roxa jogada como se tivesse sido descartada.
- A gente é diferente?..
O seu reflexo agora fosco no vidro preto da sua viseira, seu corpo, seu rosto, era ela no reflexo, não era?
- Não, a gente não é.. A gente é a mesma pessoa.
Ela solta uma risadinha, era ridículo falar com seu reflexo, mas, de certa forma esclarecedor, volta seu olhar novamente ao espelho.
- Por que você não pode ser a Lindy quando é a Dash? O que te impede?
Ela começa a inconscientemente conversar com o reflexo tanto do capacete quanto do espelho, como se interpretasse duas pessoas diferentes.
- Tudo te impede, você não é a “Lindy” quando usa isso.
- Por que eu não sou ela? Por que você acha que pode me impedir de ser ela e não você?
- Vocês são a mesma pessoa, para de conversar consigo mesma como se fosse duas pessoas diferentes, isso é idiota!
Ela fecha os olhos, e se reencosta na cama, soltando o espelho, suas mãos entram em meio as suas coxas, sendo apertadas com força, um sinal da angústia e do medo que poderia a tentar tomar a qualquer segundo – Seus olhos se abrem, e ela olha por fim ao capacete.
- No fim, o que, ou quem é a Lindsay depois daquilo?
- Eu não sei.
Ela levanta, sem querer encarar o uniforme, mas mesmo que não quisesse, ela pega o traje todo, e coloca o capacete, assim também, arrumando o resto do uniforme roxo, e sentando na cama, sem falar nada por algum tempo.
-
- Eu conversei com ela.. Viu?
Bane, já estava tomando o café, e pega a xícara de Veronika oferecendo para ela, Mark já não estava ali mais.
- Por que você deixou acontecer? Você sabe que não era ela.
- Queria ver até onde ela ia, fiquei curioso dessa vez.
- Claro, claro, curioso.
Ela pega a xícara com rapidez, e senta, fazendo uma cara emburrada enquanto o sofá toma seu corpo por completo.
- A gente vai passar por perto de um cinturão de asteroides daqui a pouco, tudo bem pessoal? Não se preocupem! Só vai dar uma turbulência!
- Tá bom Reni! Vai fundo!
As duas trocam conversa entre os dois cômodos diferentes.
- Cadê o Stile inclusive? Eu não vi ele hoje.
Veronika vira, perguntando para Bane, só de falar o nome do homem ela já sente um leve calafrio, como se ele fosse aparecer no corredor a qualquer segundo.
- Ah, é verdade, ontem acho que ele acabou exagerando nos remédios talvez, e começou a delirar um pouco.
- Delirar? O que ele disse?
- Ele começou a falar de um tique-taque de relógio, tava bem desesperado na verdade.
- Entendi.. Que estranho, é coisa de remédio mesmo?
- Deve ser, mas eu fico meio mal sabe? Eu acho que a gente não deveria ter trazido ele no estado que tá..
- Não foi uma decisão nossa, a Associação sequer barrou ele, e ele decidiu vir.. Falando nisso, eu queria conversar com você sobre ele, eu tinha algo para falar..
Ela começa a enrolar o cabelo com certa apreensão, um nó na garganta prestes a se desatar, mas não antes que – Um barulho começa a encher a sala, o ar cortado por um zumbido estridente no canto da nave, os dois tapam os ouvidos, era algo extremamente desconfortável de se ouvir, como um garfo sendo raspado no prato, talvez pior.
- O que é isso?
Bane levanta em alerta, já colocando a luva e seguindo para o corredor da cozinha e banheiros, que era de onde parecia vir o som, Veronika espera um pouco, desconfortável com o zumbido, mas logo ela toma coragem e segue.
- Ah.. Claro
Reni pula da cadeira, também ouvindo um pouco, e vai correndo até os dois com seus passos pequenos, olheiras grandes eram capazes de ser vistas embaixo dos seus olhos, mas ela continuava animada como sempre.
- A gente tá em um local cheio de asteroides, e por aqui.. Tem um bichinho bem chato!
- Tão cedo já tem que enfrentar alguma coisa? Que saco.
Bane toma a frente, Veronika segue atrás enquanto Reni espera na porta sem parar de falar – A frente, na parede, faíscas saiam do ferro sem parar, como se algo estivesse cortando o casco da nave, e rapidamente, uma ponta vermelha começa a entrar para dentro, parecia um cone cheio de marcas de gasto, a medida que se aproximam o buraco circular antes pequeno começava a aumentar, e o cone vermelho se revelando cada vez maior.
- É uma das espécies mais conhecidas, vocês nunca ouviram falar? São os devoradores de asteroides! São criaturas de carapaça dura com um grande cone tomando toda a sua cabeça, eles tem um manto branco que cobre seu corpo, e vários pequenos espinhos! Além de três línguas gigantes que saem de dentro do cone! Eles se alimentam dos asteroides, quebrando eles no meio primeiramente, e depois se alimentando de minerais que eles carregam! Além de qu-
Bane que já estava pronto para atacar, olha para trás com a cara mais raivosa do mundo, ele não aguentava tanta palestrinha.
- A gente já entendeu que você é concursada em espaço, agora saí do lugar que a gente tá, é cheio de asteroide né? Então saí daqui! Logo!
- T-tá! Mas eu só queria falar qu-
- Vai logo! Não ouviu ele?
Veronika também briga com a menina, que saí correndo para o cockpit novamente, enquanto os dois tomam posição para a luta iminente, antes que de forma rápida, a carapaça da nave se abra com a criatura entrando como um vulto para dentro, se levantando, e dando um chiado com uma voz quebrada que parecia abafada.