14
Julieta
- Você foi um bom passatempo, mas já tá começando a me atrasar!
A mulher continua girando a maça, seu rosto cada vez mais impaciente enquanto ela pisca cada um dos olhos, um por vez, como uma cortina se fechando e abrindo, chegava a ser viciante olhar.
Stile estava contra a parede, enquanto ela se aproximava em passos lentos, sabia que daquele lugar, seria mais do que difícil de sair do jeito que estava.
- Eu.. Ah.. Você não tem chance!
A voz de Stile treme enquanto as palavras saem, demorando mais do que ele gostaria, em um ato de tentar passar confiança, ele mostra sua fraqueza enquanto blefa de forma que nem ele saberia se colava.
“Se ela se aproximar mais é impossível eu errar.”
Ele observa ela, enquanto segura a arma contra seu peito, tentando ao máximo não transparecer nada, embora estivesse tremendo – Mas Stile era um militar de alto escalão, não deixaria que isso tomasse conta dele, seu olhar era frio nas pernas da mulher enquanto cada passo fazia com que ele quisesse atirar.
Ela estava em sua mira agora, era impossível errar – Ela dá um passo, levanta a maça de forma totalmente confortável na situação, não mostrava medo, embora Stile achasse que devesse ter.
Ele puxa a arma e em curto período de tempo dá um tiro mirado na perna direita dela, deveria cair, deveria perder o equilíbrio possibilitando um direto em sua cabeça – Mas.. O tiro atravessa o vidro do outro lado da sala, quebrando a janela, e Stile cai com o rosto no chão, soltando a arma com uma pontada de dor em seu peito.
Stile começa a vomitar, um refluxo que ele não havia sentido vindo, não havia previsto, tudo o que ele havia comido, seguido de sangue, uma poça de sangue, líquido biliar e os últimos pratos de comida que havia se deliciado se misturando no tapete caro, que ele segura com força, sua barriga doía, não havia mais o que vomitar, não havia o que expelir.
- Olha! Agora acabou pra você queridinho.. Tá doendo né? Já vai acabar. Eu vou ter certeza que vai.
Ela gargalha, rindo da dor que já havia visto acontecer várias vezes, era impossível parar isso agora, ele já havia caído pelo feitiço – As lágrimas caiam pelos olhos de Stile, doía, doía muito. Ele havia sido burro, idiota, tinha feito errado e se deixado levar, era uma falha, devia ter sido o melhor mas não conseguiu alcançar o objetivo, qual o seu problema? Qual o seu problema Stile?
- Qual o seu problema Stile?
Por um segundo, a gargalhada para, o barulho do tilintar da maça de aço para de ressoar em seus ouvidos, e a dor, cessa também – Havia ele morrido? Não.. Não era isso.
Ele olha para trás da mulher, seu olhar marejado e embaçado ainda consegue distinguir algo, parado observando do outro canto do quarto.
Uma silhueta, ele não conseguia entender o que era, seus olhos estavam doendo e as lágrimas haviam o embaçado, mas algo era distinguível – O relógio que caia da mão da silhueta, segurada por uma pequena corrente de ferro.
Gotas de algo caiam no chão saindo de seu rosto, era estranho – Stile olha, seu sentimento de medo, se torna uma raiva que não havia antes sentido, aquela silhueta havia colocado ele ali, se não tivesse ido atrás, se tivesse se mostrado não estaria na situação, teria sido outro, e não ele, qualquer outro e não ele.
Quase como se sobrepusesse o efeito do “veneno” que havia sido aplicado, ele pega a arma e em um segundo dá um tiro na barriga da mulher, que para de gargalhar e dá passos para trás enquanto o sangue cai, os sons voltam a ser escutados por Stile, mas agora não era a risada, e sim o grito de medo que a mulher havia feito.
Ele limpa sua boca, e levanta com as pernas tremendo, seu corpo não aguentava ficar de pé, e o sangue ainda pingava entre seus dentes sujos, mas agora ele não ligava para isso – Ele olha para ela, um rosto tomado por raiva.
- O que é isso? V-volta pro chão queridinho! Você não consegue ficar de pé.
Ela fala com a voz encantadora agora tremendo, ela estava com medo naquele momento, mas não poderia deixar levar por isso, ela tinha que lutar – Ela gira a massa com o intuito de jogar, dando um sorriso confiante, que logo se quebra.
Stile parte para ela correndo, e pula em cima da mulher, que em um susto tenta desviar, mas tinha sido uma surpresa tão grande os movimentos dele, que ela não poderia ter previsto algo assim – Stile logo derruba ela no chão, deslizando no tapete, e em um ato de fúria segura o pescoço da mulher com uma força que não deveria ter naquele momento.
- Pergunta qual o meu problema agora seu merda! Você não tem direito de perguntar essas coisas, você não me conhece, você não me entende!
A mulher sequer tem um tempo de reação enquanto se debate no chão, Stile estava cego naquele momento, ela suplica, embora ele nem escute, ele coloca a pistola no queixo dela e aperta o gatilho sem nem pensar – O tiro passa por sua cabeça, e imediatamente, ela para de se mover, ele dá outro tiro, e outro.
- EU NÃO TENHO PROBLEMA ALGUM! NÃO TENHO! MINHA CABEÇA TÁ NO LUGAR, TÁ TUDO NO LUGAR!
Sua munição acaba, ele joga o revólver para o lado, e segura na roupa dela, puxando e empurrando ela contra o chão, batendo a cabeça da mulher enquanto grita à plenos pulmões.
- PERGUNTA PORRA! PERGUNTA A MERDA DO MEU PROBLEMA! Agora não quer né.. Agora você não quer.
Sua voz para de sair, rouca, sua garganta dói com os gritos, ele olha para o rosto dela, os olhos ainda abertos na expressão de medo que ela fazia enquanto suplicava, mas para ele, não era aquela mulher ali, nunca havia sido – Stile levanta do corpo dela, recuperando o fôlego, suas pernas tremiam, mas ele não ligava se o efeito ainda não havia passado, não parecia mais fazer diferença.
Ele pega suas roupas e se veste, após isso pega sua arma, arruma todos os seus acessórios pegando de volta, e desce o elevador – Ele passa pela entrada do prédio, sem olhar para ninguém, embora os alienígenas envolta se assustem com o sangue em seu rosto, seu corpo sujo, seu jeito estranho de andar, ele não estava pensando nisso, na verdade, talvez não estivesse pensando em nada.
-
- Eu achei que um herói mundial era melhor que isso! Fraco! Isso é vergonhoso!
Ele vem em passos lentos e pesados na direção de Stile, e com uma de suas manóplas pega a estaca de ferro na barriga de Stile, enfiando ela ainda mais enquanto ele sentia dor, mas não reagia, ele estava olhando para frente com seus olhos congelados, como se estivesse morto já, mas não estava, as lágrimas caem devagar.
- Que merda.. Já tá assim? Coisa feia do cacete. Mas de qualquer forma, sabe aquele heróizinho que você veio salvar aqui? Então, eu peguei um dos “brinquedinhos especiais” que ele tinha, e amaria testar, o que acha?
Stile continua com o olhar vidrado, sua mente não estava mais ali talvez.
- Já que não se opõe!
Ele se afasta um pouco, deixando a bola de lata que tinha na mão no chão, e pega algo em um cinturão que vestia, um braço decepado, ele tem uma pequena asa como parte do uniforme do herói talvez – O Carniceiro aperta o braço, que além de pingar um pouco de sangue, começa a secretar um líquido verde na aba da asa.
- Eu já testei um pouco nesse lixão aqui, mas queria ver o efeito de forma diferente.
Ele dá uma gargalhada, antes de girar seu braço, e jogar o líquido secretado no corpo de Stile, de forma a pegar em suas roupas, e de pouco a pouco, dissolver elas, pegando o ácido diretamente em sua pele, queimando ela de pouco a pouco, o Carniceiro faz isso uma, duas, três vezes, rindo e se divertindo enquanto Stile parecia estar fora de órbita, como se tivesse desistido de tudo.
- Errei todas, mas que droga não é amigão? O rosto tá intacto, mas acho que pertinho não erra né!
Ele se aproxima novamente e deixa mais um pouco de ácido se acumular, antes de chegar com seu braço acima do rosto de Stile, e deixar ele pingar de pouco a pouco em seu rosto – Mas em pouco segundos ele fica entediado e deixa tudo cair de um lado só, dando uma risada alta enquanto lágrimas caem pelo rosto de Stile que nem se move.
- Depois de hoje acho que me sinto bem melhor! Deu até uma renovada de espírito!
O jeito que o homem fazia, era sádico, era torturante, ele era lento em tudo, ninguém salvaria Stile, ninguém o tiraria de lá, ninguém.
-
Alguém toca em seu ombro, um toque que traz Stile de volta rapidamente, ele balança a cabeça e vira para trás, havia andado sem rumo por quanto tempo já?
- Stile? Você aqui? Que cacete deu contigo?
Bane fala ligeiramente preocupado, seu rosto também estava com um corte, e ele tinha uma atadura na barriga – Stile olha para ele, olha para si mesmo e se percebe em poucos segundos.
- É.. Eu não quero falar sobre isso.
- Não, mas cê tá bem? Também passei por umas coisas aí meio complicadas, um dragão estranho e os caralho tudo.
- Eu diria que, também passei por “umas coisas”.
- Mas deu tudo certo né? Cê parece meio abalado, tava andando tudo estranho aí na rua.
- Tô sim, tô bem, é.. Coisa envolvendo mulheres.
Ele suspira, dando passos de um lado para o outro meio desconfortável, enquanto Bane dá de ombros e dá um sorrisinho.
- Entendo Stile, entendo, mulher é coisa difícil né?
- É.. Difícil.
- Mas assim ó.. Se não foi essa, tem muitas.
Ele oferece um soquinho para Stile, que dá um sorriso meio involuntário, e bate também.
- Isso aí, marcha.
Os dois começam a andar agora pela rua, Bane falando sobre todo o acontecimento, enquanto Stile somente escuta.
- Daí depois disso, acordei depois, peguei a Veronika, e achei um verdinho bem gente boa, ele nos achou um hospital ou coisa assim, deixei ela lá, mas eu queria achar vocês ainda. Só que.. Não fui muito bom em ir na direção da nave.
Ele dá uma olhada em volta, nenhum dos dois sabia onde estava talvez, Stile havia se perdido na noite, enquanto Bane somente tinha ido ao hospital que parecia ficar longe até.
- Ah, e também ele me deu isso aqui.
Ele puxa um broche do bolso, era como o distintivo real que Flop havia os dado mais cedo.
- Ah.. Sim sim, eu tenho uns desses também, me encarregaram de dar para vocês.
- Tava demorando né?
Eles guardam de volta e continuam seguindo em direção, agora com rumo ao hospital.
- Vamos dar uma passadinha no hospital antes.. Eu quero ver como a baixinha tá e daí a gente vai para a nave.
- Acho que.. Tá bem.
Mas antes que realmente pudessem dar mais alguns passos, algo passa pelo lado deles e para, uma luz que quase poderia cegar e parecia ter atravessado toda a cidade em alta velocidade – Ele para, e toma forma rapidamente, era Mark, que parecia um pouco mais ansioso que o normal.
- Que ótimo que pude encontra-los mais rápido que esperava.
- Eai Mark, o que é?
Ele se aproxima levitando no chão.
- Me sigam, acredito que talvez tenhamos um problema, não há muito tempo para explicar, Dash está em ação e me deixou para procura-los.
- Mas que tipo de problema?
- Forma de vida não identificada.
- O que?
- Tartaruga.
Bane balança a cabeça, ainda não havia entendido, mas Mark logo começa a ir em certa velocidade, o bastante para que pudessem acompanhar rápido até certo ponto, Bane pega Stile sem nem perguntar, e começa a correr atrás de Mark em direção ao objetivo que Mark havia dito.