Capítulo 2 — O Nascimento
Lá fora, a chuva caía incansavelmente.
Raios cruzavam o céu escuro enquanto trovões faziam as janelas da enorme mansão tremerem.
Empregadas e mordomos corriam apressados pelos corredores carregando toalhas, água quente e ervas medicinais. O clima dentro da residência era tão caótico quanto a tempestade do lado de fora.
Gritos de dor ecoavam pelo andar principal da mansão.
Todos vinham do quarto do casal responsável pela Casa Drakenhart.
Dentro do aposento, a primeira esposa do Marquês, Evelyne Drakenhart, se contorcia de dor sobre a cama enquanto entrava nas horas finais do trabalho de parto.
Ao seu lado estava o próprio Marquês Victor Drakenhart.
Mesmo tentando manter a postura digna de um nobre militar, a tensão estampada em seu rosto era impossível de esconder. Sua mão segurava firmemente a de Evelyne enquanto sacerdotes, curandeiros e parteiras se moviam sem parar ao redor da cama.
— Faça força, Lady Evelyne! Já consigo ver a criança! — gritou a parteira.
O ambiente mergulhou em completo alvoroço.
E naquele instante…
Eu oficialmente cheguei a este mundo.
…
Escuro.
Quente.
Acolhedor.
Era a primeira sensação que tive.
Meu corpo parecia flutuar lentamente, como se estivesse submerso em água morna.
Então…
Uma luz surgiu.
Fraca no início.
Mas ficando cada vez mais forte.
Senti algo me puxando.
As vozes começaram a surgir logo depois, abafadas e distantes, em um idioma que eu não conseguia entender.
Meu corpo ficou leve.
Frio.
Uma brisa tocou minha pele.
A luz se tornou intensa demais.
Minha visão ainda estava embaçada, mas conseguia enxergar silhuetas enormes se movendo ao meu redor.
Espera…
Gigantes?
Não…
Fui eu quem encolheu.
Uma sensação absurda percorreu meu corpo inteiro.
Meu coração disparou.
Não conseguia mover meus braços direito.
Nem minhas pernas.
Muito menos falar.
Então a verdade finalmente me atingiu.
— Não me diga…
Fui erguido por alguém.
Uma mulher.
Provavelmente a parteira.
Enquanto ela dizia algo animada naquele idioma desconhecido.
E naquele instante percebi.
Mesmo sabendo que seria reencarnado…
Eu realmente havia voltado como um bebê.
— Lady Evelyne… Marquês Victor… ele nasceu saudável.
A voz da parteira carregava certo alívio.
— Mas… isso é estranho. Ele não está chorando.
Mesmo sem entender completamente o idioma, consegui perceber a preocupação em seu tom.
— O olhar dele… parece assustado… não, curioso.
Logo em seguida, fui envolvido em uma toalha quente e entregue nos braços de uma mulher deitada sobre a enorme cama.
Minha mãe neste mundo.
Minha visão ainda estava embaçada, mas mesmo assim consegui perceber sua beleza.
Longos cabelos azulados escureciam até quase o preto nas pontas, espalhados pelo travesseiro de seda. Seu rosto estava tomado pelo cansaço do parto, mas ainda assim havia um sorriso gentil estampado nele.
Alívio.
Felicidade.
Ela dizia algo enquanto me segurava com cuidado, mas eu ainda não conseguia compreender as palavras.
Então uma presença pesada tomou o quarto.
Um homem alto se aproximou da cama.
Seu olhar era imponente.
Frio.
Mas naquele instante havia um raro traço de preocupação nele.
Ele se inclinou, beijando a testa da mulher antes de voltar os olhos para mim.
Provavelmente…
Meu pai.
Seu cabelo vermelho preso em um rabo de cavalo era marcante, assim como a cicatriz que atravessava seu olho direito.
Mesmo parado, sua presença parecia pressionar o ambiente ao redor.
Um guerreiro.
Não precisei ouvir ninguém dizer isso para entender.
Então ele me pegou nos braços.
Mesmo sendo apenas um bebê, consegui sentir a firmeza de seu corpo. Seus braços eram fortes como aço.
Ele me encarou em silêncio por alguns segundos antes de pronunciar uma palavra.
Minha mãe repetiu a mesma palavra logo em seguida.
Então os demais no quarto fizeram o mesmo, como se comemorassem algo.
Um nome.
Meu nome neste mundo.
O som ainda era estranho para mim, mas repeti mentalmente várias vezes até conseguir memorizá-lo.
Ren.
— Meu senhor.
A voz de um homem idoso chamou a atenção do quarto.
Era um sacerdote vestido com mantos brancos ornamentados por símbolos dourados.
— Podemos prosseguir?
Meu pai desviou o olhar para ele e assentiu lentamente.
— Certamente.
Fui entregue ao sacerdote logo em seguida.
Ele me colocou sobre uma espécie de berço improvisado enquanto meus olhos acompanhavam cada um de seus movimentos.
O homem caminhou até uma pequena mesa próxima à janela.
Sobre ela havia diversos objetos metálicos, pergaminhos e pequenos frascos contendo líquidos coloridos.
Mas um item chamou minha atenção.
Um cristal transparente.
O sacerdote o pegou cuidadosamente antes de retornar até mim.
Então voltou a olhar para o Marquês.
— Com sua permissão… darei continuidade ao ritual.
Meu pai apenas assentiu novamente.
O sacerdote então ergueu o cristal próximo ao meu peito.
Algo naquela pedra parecia… estranho.
Mesmo sendo transparente, eu conseguia sentir uma sensação incômoda vindo dela.
Então o homem começou a entoar um cântico.
As palavras ecoavam lentamente pelo quarto enquanto símbolos dourados surgiam ao redor do cristal.
Meus olhos permaneceram fixos nele.
Cinco centímetros.
Talvez menos.
Foi quando o cântico terminou.
E tudo mudou.
O cristal transparente foi consumido instantaneamente por uma escuridão profunda.
Negra.
Azeviche.
Uma espécie de raio negro surgiu em seu núcleo enquanto faíscas vermelhas percorriam sua superfície.
O sacerdote arregalou os olhos.
Então—
CRACK.
Uma rachadura atravessou o cristal.
No mesmo instante, todas as velas do quarto se apagaram.
O ambiente mergulhou em escuridão.
Uma pressão fria percorreu o aposento inteiro.
Empregadas começaram a recuar assustadas.
Os sacerdotes ficaram pálidos.
Então uma das janelas explodiu.
Os estilhaços voaram pelo quarto enquanto um vulto negro atravessava a abertura.
Por um breve instante, senti aquela presença me observando.
Mas antes que alguém pudesse reagir…
O vulto simplesmente se desfez no ar.