Por algum motivo, abro os olhos devagar. Eu estava dormindo?
Não lembro de dormir…
Ao meu redor: vegetação alta e densa, principalmente as árvores que parecem ter uns cinco metros de altura. O chão é úmido e lamacento, há um lago esverdeado e uma fina névoa branca cobrindo a água.
Ouço um barulho à minha direita, olho rapidamente e vejo uma centopéia gigante saindo do meio da vegetação.
– Que porra é essa!?
Tento me afastar, mas não sinto minhas pernas. Na verdade, não sinto nada!
Tento olhar para os meus braços e pernas… Não estão aqui! O que está acontecendo!?
É um sonho!? Fecho os olhos com força, tento acordar. Não funciona? Normalmente, quando percebo que é um sonho, acordo na mesma hora.
Tem alguma coisa errada.
Olho em volta, vejo o lago e me aproximo. Não sei como, mas me aproximo.
Olho para o meu reflexo na água parada…
Uma bola de fogo alaranjada com dois pontos brancos brilhantes, parecem olhos, flutuando um pouco acima do chão. Mas fogo na água?
Não.
Eu encaro o reflexo por um longo tempo. A ficha caiu… Ou quase.
– Este sou eu?
Agora eu notei que minha voz mudou e é estranha. Parece um eco reverberando numa sala vazia, ao mesmo tempo que parece grave e aguda, alta e baixa…
Eu morri? Eu sou uma alma?
Não. Não faz sentido.
Isso é o Céu ou o Inferno?
De repente, uma libélula gigante passa voando rapidamente por cima das árvores.
Eu voltei no tempo?
Claro que não. Não faz sentido. Nada disso faz sentido.
Eu tento lembrar onde eu estava antes de vim pra cá… Nada?
Eu lembro dos lugares, lembro dos eventos e coisas do dia a dia, mas tem algo faltando…
Meu rosto, meu nome, minha família. Eu não lembro deles! Eu sei que tinha um nome, uma casa, uma família, uma rotina. Mas eu não lembro dos rostos ou dos nomes!
Preciso ficar calmo… Um novo lugar que não é minha casa, um corpo que não é meu, criaturas gigantes que parecem pré-históricas…
Um Isekai? Mas isso é coisa de anime… É a única coisa que consigo pensar.
– Status!
…
Nada. Não era pra aparecer uma tela brilhante com estatísticas? Isso é realmente um isekai?
Olho para o meu reflexo novamente e tento me acostumar com o novo corpo.
Nem todo isekai tem tela de status ou elementos de MMORPG… Este deve ser o caso.
Com certeza morri, já que parece que não fui invocado. Nem que vim por acidente.
Eu renasci em outro mundo como um elemental de fogo.
É a única explicação. Agora a causa e o motivo da minha morte… Eu não consigo lembrar. Deve ter algum motivo para isso. Eu lembro de todo o resto da minha antiga vida, exceto nomes, rostos e o dia da minha morte.
Talvez com o tempo, eu consiga lembrar de algo.
Mas até lá: preciso descobrir como sobreviver nesse mundo.
Decido explorar o ambiente. A sensação de voar ainda é estranha, mas, com o tempo, devo me acostumar.
Não sei dizer se a fauna e flora local é grande ou eu que sou pequeno.
Todo o ambiente é cercado por vegetação. Tanto árvores quanto a grama, os arbustos, as ervas e o musgo, dominam a vista.
Os animais daqui são absurdamente grandes comparados a mim. Até agora, vi sapos, libélulas, centopéias, jacarés, serpentes, aranhas e mosquitos. Todos, sem exceção, são gigantes. Estou me sentindo insignificante perto desses titãs.
Agora que estou mais calmo, reparei numa coisa interessante: todos os animais emanam uma aura.
É parecido com vapor saindo do corpo. Não consigo pensar numa comparação melhor. Cada aura tem uma cor. Após observar o comportamento dos animais daqui, pude reparar num padrão e cheguei a esta conclusão:
Verde: são pacíficos. Os únicos que vi foram as centopéias, que, apesar do tamanho, são herbívoras.
Branca: são neutros. Todos os sapos e libélulas que pude ver tem essa aura. Provavelmente só querem sobreviver.
Vermelha: hostis e agressivos. Tem muitos aqui: serpentes, aranhas, jacarés e mosquitos. Eles não hesitam em brigar pela sobrevivência.
Passei uns cinco minutos assistindo uma aranha apanhar de um enxame de mosquitos furiosos. Até agora, não sei dizer se isso foi épico ou vergonhoso.
Fora isso, todo o ambiente parece primitivo, nenhum sinal de vida senciente ou fantástica.
Um pântano deveria ser perfeito para abrigar hidras, homens-lagarto ou bruxas.
Mas não vi nada disso. Não sei se fico aliviado ou decepcionado. Por um lado é bom ter menos ameaças, por outro é triste vê tão pouca variação de espécies.
De repente, me sinto um pouco tonto. Voo um pouco mais lento e mais baixo do chão. Meu raciocínio também está mais lento, mas ainda funcional. Minha visão fica um pouco turva.
O que está acontecendo?
Essa sensação parece familiar.
Lembrei. Isso acontece quando fico com muita fome.
Estranho. Eu sequer tenho um estômago ou, pelo menos, não deveria ter.
Me aproximo de uma pequena poça d'água e encaro meu reflexo.
Estou menor?
Não só isso, minhas chamas parecem um pouco mais alaranjadas que antes.
Estou ficando fraco, mas como?
Isso não importa. A pergunta importante é: como faço para recuperar minha força?
Olho em volta. Não sei o que estou procurando, mas eu preciso encontrar alguma coisa.
Vejo uma centopéia se alimentando do musgo de uma rocha. A aura dela, por alguma razão, me atrai como um imã.
Meu corpo se move sozinho.
Me aproximo rapidamente, e por impulso, libero um jato de chamas que envolve o corpo do animal.
A centopéia se debate no chão, em dor e agonia, até soltar um “grito" agudo enquanto as chamas queimam sua carapaça.
Em poucos segundos, a centopéia morre.
Então, a aura que emanava do corpo dela é puxada para mim.
A aura se funde às minhas chamas, a sensação é quente e quase elétrica.
Imediatamente, me sinto mais forte e renovado.
De repente, uma sequência de imagens invade minha mente: trilhas, vegetação, uma clareira, rochas, lagos, uma árvore oca e uma outra centopéia.
O que acabou de acontecer?
Primeiro: ajo de forma involuntária. Depois, essas imagens desconexas.
Preciso pensar com mais calma.
Relembrando minha situação atual:
Agora eu sou um elemental de fogo, essencialmente um ser espiritual. Mas enfraqueço como se fosse fogo comum, ou seja, como o fogo, eu preciso de combustível.
Essas imagens estranhas cravaram na minha mente como se eu tivesse vivenciado elas… São memórias.
Vejo o corpo carbonizado da centopéia. Agora não há nenhuma aura envolvendo ela.
Meu combustível são almas?
É mais provável. Por mais que eu não goste da possibilidade, não quero morrer de novo. Nesse caso, apagar. Se isso acontecer, com certeza será meu fim.
Preciso de mais. Não faz nem meia hora que despertei nesse mundo.
Para o fogo durar mais tempo, é necessário colocar mais lenha.
Como eu sou um ser mágico, talvez a energia das almas se acumule como se fosse uma bateria.
Não posso perder mais tempo. Preciso saber do que sou capaz.
Procuro por um espaço aberto. Voo seguindo uma trilha de terra, esperando encontrar uma clareira.
A trilha parece familiar… São as memórias da centopéia?
Pensando bem, realmente havia uma clareira no meio das memórias.
Contínuo seguindo a trilha até encontrar a clareira da memória.
É um espaço bem aberto, com vegetação baixa. O solo não é tão úmido como o resto do pântano, e há uma grande rocha presa ao solo. Vai servir como um alvo.
Me aproximo da rocha, ficando a uns cinco metros de distância dela.
Relembro de como liberar o lança-chamas e, naturalmente, consigo usá-lo, atingido a rocha em cheio.
Porém isso drena energia de forma contínua. Preciso pensar numa forma de conseguir atacar sem gastar muita energia.
Talvez uma bola de fogo?
Ah, é mesmo. Eu já sou uma bola de fogo.
Algo menor. Um dardo de fogo vai servir.
Fecho meus olhos por um instante, visualizando um pequeno projétil de fogo, e então o disparo contra a rocha.
O projétil percorre o ar em alta velocidade e, ao atingir a rocha, explode, deixando uma pequena parte dela chamuscada.
Ótimo. É rápido, explosivo e econômico. Parece que, graças a esse corpo, sou capaz de usar qualquer magia de fogo, contanto que eu tenha energia o suficiente para isso.
Hora de encontrar meu alvo.
Saio da clareira seguindo uma outra trilha de terra. Durante o caminho, encontrei outra centopéia gigante e consegui derrotá-la facilmente, disparando alguns dardos flamejantes.
Também encontro um sapo gigante próximo de um lago, mas, por enquanto, é melhor evitar áreas com muita água.
Mais à frente, entre duas árvores, há uma enorme teia de aranha, se estendendo de um tronco a outro.
Me aproximo e vejo a aranha gigante no topo da teia, escondida entre as sombras das árvores.
Se não fosse pela aura e olhos vermelhos, eu não teria a visto.
Esse vai ser meu primeiro combate.
Lanço um dardo flamejante em direção a aranha que, ao perceber o projétil se aproximando, salta para fora da teia, atravessando a folhagem das árvores e pousando bem na minha frente.
Olhando bem, ela parece ter o tamanho de um cachorro de porte grande.
Seus múltiplos olhos vermelhos me encaram, enquanto sua aura parecia mais intensa.
É assustador, mas não posso recuar.
Ataco diretamente com um dardo flamejante, e ela desvia, pulando para direita e disparando um jato de teia pelo abdômen como contra-ataque.
O ataque é rápido demais para desviar e me acerta em cheio. Mas, graças à minha natureza flamejante, a teia derrete instantâneamente.
Eu tenho uma vantagem.
Atiro mais dardos flamejantes, um atrás do outro, sentido minha energia drena a cada disparo. E a aranha continua desviando com seus saltos e disparando jatos de teia que, apesar de serem rápidos, são ineficazes contra mim.
Ela tenta outro disparo de teia, mas falha.
Essa é minha chance.
Desfiro uma rajada de dardos flamejantes na direção da cabeça dela, cada tiro acertando em cheio, causando pequenas explosões que a cegou completamente.
Enquanto a aranha se debate de dor, me aproximo rapidamente e libero meu lança-chamas na frente dela.
As chamas a consomem rapidamente até a morte.
Sua aura vermelha sai de seu corpo e se transfere para mim, se fundindo com minhas chamas.
E mais uma sequência de memórias: mais trilhas, árvores, lagos, mosquitos, libélulas, outra aranha e… humanos?
Um grupo, na verdade, composto por: um guerreiro com armadura de couro, espada de ferro e escudo de madeira;
Um mago com manto e chapéu roxos, carregando um cajado de madeira;
E uma sacerdotisa, com manto branco e ornamentos dourados, carregando um cetro dourado.
Sem dúvida, uma party clássica de RPG. Pelo equipamento, pareciam ser iniciantes, então talvez eu consiga encontrar humanos por aqui.
Mas isso é algo bom ou ruim?
No ponto de vista humano, provavelmente sou um monstro. Talvez fugissem ou lutassem contra mim.
Talvez se eu tentar dialogar…
Enquanto me perco em pensamentos, um redemoinho de fogo envolve meu corpo por um instante e, no instante seguinte, me sinto… maior?
Não só isso, mais forte também.
Eu subi de nível?
Terei que arranjar uma poça d'água para ter certeza.
Olho para o cadáver carbonizado da aranha e depois vejo os arredores.
Merda.
Eu estava tão concentrado na batalha que não percebi que acidentalmente incendiei as árvores e a vegetação rasteira.
O fogo queima e se alastra do chão até às árvores.
Droga, droga, droga!
O que eu faço?
Pensa. Pensa. Pensa…
– Aí!
Algo vindo de cima me machuca.
Olho para cima e vejo nuvens densas se formando acima de mim, as gotas de chuva começando a cair nas árvores, no solo e em mim.
Isso dói. Dói muito. Eu não consigo descrever tal dor enquanto procuro abrigo.
Por sorte, as memórias da primeira centopéia que matei me guiam até uma grande árvore oca.
Me abrigo dentro da concavidade, esperando a chuva passar.
Foi por pouco. Espero que eu não acabe incendiando essa árvore também. É meu único abrigo.
Assisto à chuva cair, molhando as plantas e o solo, então não deixo de pensar em como isso foi conveniente demais.
Chuvas não são tão comuns em áreas pantanosas. Apesar de serem raras, quais as chances de chover exatamente no local de incêndio?
Sem falar que àquelas nuvens se formaram muito rapidamente, o que dá espaço para uma única possibilidade:
Magia.
Mas quem? Ou o quê?
Enquanto divago nos meus pensamentos, a chuva passa e as nuvens se afastam rapidamente. O brilho do sol volta a atravessar as folhas das árvores e tocar no solo úmido.
Saio do meu esconderijo e volto para a área onde causei o incêndio.
Vejo os galhos e troncos das árvores levemente canonizados, a vegetação rasteira queimada até um certo ponto. As cinzas se misturam ao solo lamacento.
Ótimo. A chuva conseguiu apagar o incêndio antes que piorasse.
Eu preciso ter mais cuidado com esse poder a partir de agora. Se fosse época de seca… Nem quero imaginar o estrago que eu faria por conta desse descuido.
Mas deixando isso de lado, a chuva de fato não foi normal.
Mas de novo: quem ou o quê…
De repente, sinto uma pressão assustadora sobre mim, como se fosse me esmagar completamente.
Que merda é essa?!
Estou com medo. Muito medo. Eu não quero morrer.
Sinto que tem algo por trás de mim. Me observando e se aproximando.
Minha curiosidade me diz pra me virar, mas meu medo diz que se eu fizer isso… eu vou morrer.
– Pequeno espírito flamejante…
Uma voz rouca e ameaçadora ecoa pelo ambiente. Minhas chamas oscilam no momento em que a “coisa" falou comigo.
– Então é você que tem queimado os animais da região… Não só isso… Como quase causou um incêndio.
Merda, merda, merda.
Provavelmente foi essa entidade, ou seja lá o que isso é, foi quem apagou o incêndio. Não só isso. Ela têm me observado. Como eu não senti essa aura antes?!
– Estou falando com você, pequeno espírito flamejante… Não sabe como conversar com os mais velhos? Vire-se e olhe para mim.
Esse é meu fim. Não há dúvidas.
Hesitante. Me viro lentamente, mantendo os olhos fechados. Então, os abro e tudo que vejo é uma silhueta negra envolvida com aura vermelha, muito mais ameaçadora do que a da aranha. Seus olhos são dois pontos brancos brilhantes que me encaram diretamente.
– Ótimo. Agora… Você tem cinco minutos para me explicar por que você está fazendo isso.
Ele pausa, como se estivesse me avaliando.
– Seja honesto e dependendo da resposta… talvez eu te deixe vivo.
Continua…