Cama de Casal Desbloqueada
Pós-raid: Ren carregando o próprio túmulo
O dia tinha terminado, mas Ren parecia que ainda estava preso nele.
Ele saiu da escola como se tivesse toneladas penduradas nos ombros. Passos lentos, olhar vazio, a mochila pesando como se estivesse cheia de tijolos e arrependimentos.
Do lado dele, Selena ia… saltitante.
Saltitante mesmo. Quase pulando.
— Ren, aquele campo de treinamento é bem estruturado! As rotas são claras, os instrutores parecem competentes… e os ogros estão bem disfarçados!
Ren fez uma careta, meio morto por dentro.
— Não são ogros. São alunos.
Selena assentiu, séria.
— Ogros jovens.
Ren soltou um som que não era exatamente um suspiro. Era o espírito dele saindo do corpo por alguns segundos e voltando porque ainda tinha boleto pra pagar.
[Nota do narrador: a segunda-feira não termina quando você sai da escola. Ela só muda de skin.]
No portão, Caio e Davi ficaram parados, encarando os dois como se estivessem vendo um bug do universo.
Caio tinha a boca meio aberta, olhos arregalados, expressão de “isso virou anime e ninguém me avisou”.
Davi apertou os olhos, tentando analisar a realidade como se fosse uma equação.
— Ren…
Ren parou, virou devagar, com cara de quem já sabia que ia apanhar em forma de perguntas.
Caio apontou para Selena, depois para Ren, depois para Selena de novo, como se a mão dele estivesse tentando montar a frase sozinha.
— Tá… como?
Ren piscou.
— Como o quê?
— COMO você tá namorando uma garota linda dessas?!
Ren olhou para Caio. Depois olhou para Davi. E fez a única coisa que o cérebro dele conseguiu processar sem travar.
Deu de ombros.
Um ombro pesado. Derrotado. Um ombro que dizia: não me peçam relatório, eu só sobrevivi.
— Aconteceu.
Caio levou as duas mãos à cabeça, como se estivesse tentando segurar a própria sanidade.
— “Aconteceu”?! Ren… eu tropeço e ganho hematoma. Você tropeçou e ganhou um evento de romance rank-S?!
Selena, que estava acompanhando tudo com atenção estratégica, inclinou a cabeça na hora.
— Rank-S…?
Ela olhou para o próprio peito, como se fosse encontrar um emblema ali, depois olhou em volta, desconfiada.
— Como ele sabe que eu sou rank-S? Eu deixei meu cartão da guilda à mostra?
Ren fez uma careta imediata de não, não, não, não.
— Selena… não existe cartão. É só… jeito de falar.
Caio encarou Ren, depois encarou Selena, em silêncio, como quem acabou de perceber que o universo estava jogando com DLC.
Davi observou Selena com cautela, igual alguém avaliando um animal bonito… e potencialmente fatal.
— Ela parece… perigosa.
Selena sorriu, educada.
— Eu sou.
Ren se encolheu na mesma hora, desesperado.
— Não fala assim!
Selena inclinou a cabeça, inocente.
— Mas é verdade.
Caio soltou um “mano…” quase reverente.
— Ren… você tá vivendo o sonho de todo mundo.
Ren pensou, com amargura:
(Isso não é um sonho. Isso é uma quest de sobrevivência.)
Eles se despediram. Caio ainda andando de costas, olhando como se Ren fosse uma lenda urbana. Davi só balançou a cabeça lentamente, como se confirmasse uma teoria antiga: a realidade não era confiável.
[Nota do narrador: Davi está certo. Ele sempre está. É irritante.]
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Lívia recebe “dano crítico”
Do outro lado do pátio, Lívia ainda estava ali, parada, com o uniforme impecável e a alma completamente amassada.
Ela encarava a cena como se alguém tivesse arrancado um capítulo inteiro da vida dela e colado outro por cima.
Na cabeça dela, tudo ecoava:
Onde foi que eu deixei isso passar?
Como ele… como ele conseguiu…?
Será que é por isso que ele nunca percebeu?
Isso já estava acontecendo e eu… eu tava competindo com ... de onde ela veio mesmo?
Lívia apertou os dedos no caderno, tentando manter o sorriso social.
Não. Eu não vou surtar. Eu sou a Lívia. Eu sorrio. Eu aceno. Eu existo.
Mas os olhos dela denunciaram: ela estava em choque.
[Nota do narrador: o golpe foi crítico, e a armadura dela era só carisma.]
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Em casa: o interrogatório do sobrevivente
Quando chegaram, Ren entrou e largou a mochila no sofá como se estivesse largando um corpo.
Selena olhou ao redor, confortável demais. Como se aquele lugar já fosse dela há anos.
Ren respirou fundo e apontou:
— Tá. Agora você vai me explicar.
Selena inclinou a cabeça.
— Sim.
Ren ergueu um dedo, professor de desespero.
— Como você conseguiu se matricular na minha escola?
Selena piscou.
— Eu pedi.
Ren arregalou os olhos.
— Você… pediu?
— Sim. E paguei a taxa.
Ren fechou os olhos, tentando não imaginar tragédias.
— E o uniforme?
Selena sorriu, como se estivesse revelando um truque simples.
— Magia de ilusão.
Ren ficou imóvel.
— Ilusão…?
Selena então tocou a própria roupa e desfez o feitiço.
O uniforme “derreteu” em brilho por um segundo e… voltou para as roupas normais do shopping.
Ren ficou com a boca aberta.
(Pensamento do Ren: …então a Quest do shopping era opcional.)
Ren apontou para ela, indignado:
— Então você poderia ter ido com qualquer roupa!
Selena respondeu com uma tranquilidade ofensiva:
— Sim. Mas você parecia querer que eu fosse discreta.
Ren encarou o teto.
— Eu vou enlouquecer.
[Nota do narrador: ele diz isso como ameaça, mas é só previsão.]
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A mente de Ren ainda tentava entender tudo, quando Selena falou como se estivesse contando uma história comum:
— O diretor foi gentil.
Ren travou.
— Foi?
Flashback: Selena versus burocracia (o diretor não teve chance)
Sala do diretor.
A porta abriu com força.
Selena entrou como quem invade um castelo inimigo. Passos firmes, aura de missão principal.
O diretor levantou os olhos, assustado.
— Hã… posso ajudar?
Selena foi direta:
— Quero estudar na mesma sala que o Ren.
O diretor pigarreou, já ajeitando o óculos, entrando em modo burocracia.
— Bem…Mocinha isso exige solicitação formal de transferência, documentos, histórico escolar… e existe uma taxa de transferência…
Selena ouviu “taxa” e pareceu relaxar.
Ela abriu a bolsa.
O diretor olhou para dentro e, por um segundo, viu o brilho do destino.
“TOC.”
“TOC.”
Selena colocou duas barras de ouro na mesa.
O diretor parou.
Piscou.
O rosto dele mudou do modo “funcionário cansado” para “homem iluminado”.
— …ACEITO. Digo… aceitamos! Ficamos profundamente honrados por escolher nossa escola.
Selena inclinou a cabeça, satisfeita, como quem completa uma side quest.
— Ótimo.
O diretor sorriu como se tivesse ganhado um bônus de fim de ano.
— Seja bem-vinda!
Fim do flashback.
Ren, de volta à sala, ficou pálido.
— Ela… ela comprou o diretor também.
Selena olhou para ele, confusa.
— Eu não comprei. Só paguei a taxa.
Ren apontou, indignado:
— ISSO É COMPRAR!
Selena ponderou.
— É diplomacia.
Ren afundou no sofá.
— Eu vou virar estatística.
[Nota do narrador: estatística de quê, ainda não sabemos. Mas vai ter gráfico.]
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A noite: “Entrega Expressa” e o boss final do capítulo
Quando chegou a hora de dormir, Ren entrou no quarto e…
congelou.
Uma cama de casal.
Nova. Grande. Imensa. Uma cama que gritava: “sua privacidade foi removida do inventário.”
A mãe apareceu na porta com um sorriso orgulhoso, como se tivesse acabado de desbloquear uma conquista.
— Pedi entrega expressa. Minha preciosa tem que dormir bem.
Ren fez uma careta tão forte que doeu.
— Mãe…
Selena sorriu, radiante, e falou sem qualquer barreira social:
— Obrigada, mami.
Ren virou o rosto lentamente para Selena, olhos arregalados.
(Pensamento do Ren: MAMI?)
(Pensamento do Ren 2: Quando isso aconteceu?)
(Pensamento do Ren 3: Por que minha mãe tá aceitando?)
A mãe ficou ainda mais emocionada, como se tivesse recebido um título de nobreza.
— Imagina, querida…
Ren sentiu a própria existência diminuir.
A mãe então saiu… mas antes, virou com um olhar e um sorriso perigosamente cúmplice:
— Boa noite. Se comportem.
Ren gelou.
— Mãe…
Ela completou, tranquila:
— E só não façam muito barulho.
Ren ferveu.
O rosto dele ficou vermelho num nível alarmante. Ele abriu a boca e não saiu som. Só vapor imaginário.
A porta fechou.
Silêncio.
Ren virou para Selena, desesperado:
— Eu vou dormir no chão.
Selena franziu a testa, imediatamente séria.
— Não.
Ren piscou.
— Não?
— Se você dormir no chão, eu durmo no chão.
Ren apontou.
— Mas… por quê?!
Selena respondeu como se fosse óbvio:
— Você quer ficar de vigia.
Ren levou a mão ao rosto.
— Selena… estamos num quarto fechado. Não tem ataque de bestas. Não tem ladrões. Não tem Maou.
Selena piscou, ponderando.
— Tem ogros?
Ren quase chorou.
— NÃO TEM OGROS.
Selena assentiu.
— Então é seguro.
Ren tentou recuperar o controle da própria vida:
— Então eu posso dormir no chão.
Selena cruzou os braços.
— Não.
Ren encarou ela.
— Por quê?
Selena respondeu com simplicidade absoluta:
— Porque eu quero dormir com você.
Ren travou.
O cérebro dele abriu um menu de opções e todas estavam bloqueadas.
Ele desistiu de lutar.
— Tá… tá bom. Cama. A gente… dorme na cama.
Selena sorriu, satisfeita, como quem completou objetivo principal.
Ren virou de costas, tentando sobreviver ao próprio coração.
Calma. Controle-se. Você é um adolescente. Ela é linda. Mas você é um ser humano civilizado.
CONTROLE-SEEEEE.
E então Selena voltou do banheiro.
De camisola.
Ren virou o rosto e o mundo parou por um segundo.
Ela estava simples, mas isso só piorava tudo, porque a beleza dela parecia ainda mais real, mais próxima, mais… perigosa.
Ren engoliu seco com tanta força que sentiu a garganta reclamar.
(Pensamento do Ren: CONTROLE-SE.)
(Pensamento do Ren: CONTROLE-SE AGORA.)
(Pensamento do Ren: EU NÃO FUI TREINADO PRA ISSO.)
Selena deitou, puxou a coberta, olhou para ele como se fosse a coisa mais natural do universo:
— Vamos dormir então.
Ren deitou com o corpo rígido, olhando para o teto como se fosse encontrar respostas no gesso.
O coração dele batia como se tivesse voltado pro castelo do Maou.
Selena virou pro lado, confortável.
Ren não pregou os olhos.
Não uma vez.
Ele ficou ali, imóvel, encarando o teto, sentindo o próprio cérebro derreter lentamente, enquanto uma única frase ecoava, implacável, dentro dele:
(Pensamento do Ren: Eu sobrevivi a dragões no sonho… mas não vou sobreviver a uma camisola.)
Quest 04 concluída: NÃO.

[Nota do narrador: “dormir” foi removido do conjunto de habilidades do protagonista por 1 noite.]