Minha história começa em uma próspera vila de mineradores chamada Swan, erguida aos pés de um vulcão e pertencente ao Reino de Azhes.
Era governada por um antigo mago que, após abandonar a doutrina da magia, passou a viver recluso em um templo construído pelos próprios cidadãos.
Meu nome é Epion Darvo, filho de Hicell Darvo, minerador e comerciante.
Sou humano e minerador.
Por influência do meu melhor amigo, iniciei o treinamento para me tornar um dos guardas do castelo de Azhes.
— Humph... A caça está escassa. Se continuar assim, só encontrarei alguma coisa mais próxima da cidade de Azhes... — resmungava enquanto caminhava pela mata.
Costumava usar a caça como treinamento para minhas habilidades com o arco — que, diga-se de passagem, não eram das melhores.
Não percebi quando alguém se aproximou por trás, até ouvir uma voz familiar:
— Olá! Demorei muito?
Ao me virar, vi Lilith, uma elfa de longos cabelos dourados, olhos azuis como o céu e pele reluzente como cristal.
Conhecia-a desde os meus doze anos, graças a uma antiga ligação entre o governante de nossa vila e os elfos.
Apesar de serem raramente vistos, Lilith visitava Swan com frequência.
— Oh... não, claro que não — respondi, um pouco tímido.
— Você estava se exercitando? — perguntou ela, aproximando-se devagar.
— Não, senhorita Lilith. Apenas caçando.
— Então, deixe-me ajudá-lo. Prepare o arco, segure firme a flecha...
Fiquei em posição de ataque e fechei um olho para mirar. Ela se aproximou tanto que pude sentir o perfume de seus cabelos.
— Mantenha os dois olhos abertos e segure um pouco a respiração... Agora, dispare.
Obedeci, mas a flecha passou longe.
Do arbusto, um coelho saltou, ileso.
— Ih, errei... Um elfo não teria falhado.
— Não compare as particularidades de cada raça, Epion. Cada uma tem suas vantagens e desvantagens.
— Foi apenas um comentário bobo, Lilith. Nem acredito nessas diferenças.
— Você não muda, não é? Sempre achando que somos todos iguais... Caminha comigo um pouco?
— Claro. Será um prazer.
A presença dela era sempre relaxante e agradável.
Ela precisava vir até minha vila para que pudéssemos nos ver, pois, na cidade dos elfos, nenhum humano podia entrar.
— Epion, você realmente quer se tornar guarda do castelo de Azhes e deixar o lugar onde cresceu?
— Ainda não pensei muito nisso. Mas... se a senhorita me visitar onde quer que eu esteja, estarei feliz.
Ela sorriu.
Enquanto caminhávamos, Lilith avistou alguém à frente.
Era Zander Jorgan, meu amigo de infância e o responsável por me convencer a treinar.
— O que faz por aqui, Zander? — perguntei.
— Estou atrás da minha caça. Abati um alce, mas alguma coisa o arrastou para cá — respondeu ele, observando os rastros na relva.
— Deixe isso para lá. O que quer que o tenha arrastado pode ser maior do que imaginamos.
— De jeito nenhum, Epion! Se queremos entrar para a guarda, temos de estar prontos para tudo!
Foi então que ele notou Lilith.
— Senhorita Lilith! Perdão, eu nem a vi! — disse, apressado.
— Zander, há muitos animais ferozes nesta região. Pode ser perigoso — advertiu ela.
— Não se preocupe, milady. Nós a protegeremos! Vamos, Epion!
Corremos pela planície até encontrarmos um urso gigante.
E era enorme — debruçado sobre o alce, devorando-o com ferocidade.
— O que é aquilo? — perguntou Zander.
— Não sei, mas é melhor irmos embora — respondi.
— Tarde demais — disse Lilith. — Ele já nos percebeu aqui.
Recuamos lentamente, porém a fera avançou com velocidade surpreendente, soltando uma respiração pesada.
Zander tentou sacar a espada, no entanto foi arremessado para longe.
Tentei me colocar diante de Lilith, mas ela me afastou com firmeza e olhou para trás.
Um zunido cortou o ar.
Uma flecha atravessou a criatura, cravando-se no corpo do alce que estava adiante.
O urso tombou, sem vida, a poucos centímetros de nós.
— Que disparo impressionante, Epion! — exclamou Zander.
— Não fui eu.
— Helmut... — murmurou Lilith, vendo um elfo descer pela planície.
Era Helmut, um elfo de pele morena, cabelos negros e olhos verdes — arrogante e sempre próximo demais dela.
E, para meu infortúnio, não gostava nem um pouco de mim.
— O que faz aqui, Helmut? Já pedi que pare de me seguir!
— Perdoe-me, senhora. Cumpro ordens — respondeu ele friamente. — Talvez eu não seja mais necessário quando a senhorita parar de arriscar a própria vida.
Ela o ignorou e voltou-se para nós:
— Vocês estão bem?
— Ótimos! — respondeu Zander, empolgado.
— Hilários... — zombou Helmut. — Mal conseguem se proteger. Não entendo por que perde tempo com esses humanos.
— Ignorem-no — pediu ela. — Vamos voltar. Não é normal um urso titã nesta região. Eles vivem nas montanhas.
Voltamos em silêncio, desconfortáveis com a presença do elfo.
No vilarejo, fomos ao templo do governador Cádmo, onde Lilith relatou o ocorrido.
Nem ele soube explicar o que aquele animal fazia em nossas terras.
— Epion, por que colocou a vida da senhorita Lilith em perigo? — repreendeu-me o velho Cádmo.
— Não era minha intenção, senhor, eu faria tudo para protegê-la.
— Só pode ser brincadeira. Nem com todo treinamento desse mundo você seria capaz disso — disse Helmut, desdenhoso.
Lilith lançou-lhe um olhar cortante e voltou-se para mim:
— Preciso retornar, Epion. Voltarei em breve para visitá-lo.
Ela partiu, seguida por Helmut.
Fiquei sozinho com Cádmo, que suspirou antes de dizer:
— Qual é a sua idade agora?
— Vinte, senhor. Por quê?
— O que vocês estão tentando fazer é impensável... e impossível.
— Senhor? — perguntei, confuso.
— Uma elfa e um homem... nada nas antigas escrituras menciona tal união. E, pior, ela é filha de Fangnar. Que destino difícil você escolheu, filho. Mas... devo admitir: você sonha alto.
— Tem algo que o senhor possa fazer para me ajudar a estar mais perto dela?
— Duvido que alguém neste mundo possa — respondeu.
— Então preciso me tornar forte. Forte o bastante para ser capaz de protegê-la.
Cádmo me observou por alguns instantes.
— Esqueça o arco — aconselhou. — Você é minerador; talvez a espada lhe sirva melhor. Treine não apenas para lutar, mas sobreviver. Se tivesse começado mais cedo, como Zander, não precisaria de um treinamento tão intenso quanto o que lhe darei agora.
Ele me entregou um mapa e alguns pergaminhos.
— Leve este mapa e siga as instruções nele. Aprenda a empunhar e utilizar bem a espada em cada situação. E leve algumas porções consigo, caso se machuque.
— Tudo isso, senhor? Muito obrigado!
— Ainda não acabei. Procure locomover-se apenas durante o dia e acampe em segurança. Isso é um treinamento de sobrevivência, Epion. Poucos guerreiros seguem esse caminho. A maioria das criaturas descritas nesse mapa apenas se defende. Entretanto, outras atacarão de forma impiedosa. Ou você as mata, ou morrerá — alertou-me ele.
Cádmo fez uma breve pausa.
— Tenha muito cuidado, Epion. Você se parece muito com o seu pai, que os deuses o tenham. É tão determinado quanto ele. Embora desconfie que ele não aprovaria o caminho que escolheu. Quando retornar, eu mesmo falarei aos elfos sobre sua conquista.
— Quanto tempo leva para caçar todas as criaturas listadas aqui? — perguntei.
— Isso vai depender de você.
Saí do templo, reuni meus pertences e levei duas horas para trancar minha casinha, onde havia morado sozinho durante quatro anos.
E então parti.
Não falei nada com Zander ou com qualquer outra pessoa. Afinal, imaginava que não passaria muitos meses fora dali.
Dei uma última olhada para trás, do alto da planície que levava a Azhes.
Lá estava minha pacata vila, cercada pelo castelo do governador e ornamentada pelo imponente vulcão que se erguia acima dela.
O cheiro de terra e cinzas encheu meus pulmões.
Então segui em frente, rumo à capital do nosso território.
Lá, consegui uma vaga em uma caravana composta por quatro grandes carruagens destinadas ao transporte de viajantes. Seguimos para o sudoeste, em direção a Rorion.
Fizemos uma parada para descansar durante a noite.
Como estava sem sono, decidi analisar o mapa que o governador Cádmo havia me dado. Caminhei até a fogueira do acampamento e encontrei um senhor contando moedas.
— Com licença. Por acaso conhece a região do reino de Rorion? — perguntei.
— Em partes, meu jovem — respondeu o homem grisalho enquanto eu lhe estendia o mapa, mostrando o local onde pretendia chegar.
Ele observou a indicação por alguns segundos.
— Sim, sim! Essa área fica próxima da fronteira, antes mesmo da capital de Rorion. É um lugar muito perigoso, jovem. Não aconselho ir até lá sozinho.
— Entendo, é que faz parte do meu treinamento. Preciso atravessar essa região — expliquei.
— Pelos comentários da caravana, soube que você é minerador... e tampouco parece um guerreiro — comentou ele.
— Estou pretendendo mudar isso — respondi.
— Pois bem. Qual é o seu nome, rapaz?
— Epion.
— Eu sou Jacko, vendedor de joias para os nobres. Se deseja mesmo ir ao local indicado nesse mapa, saiba que ali já existiu uma vila devastada por guerras. Hoje é apenas o covil de criaturas agressivas que parecem mortas, mas estão vivas. E, para piorar, mal se distingue o dia da noite, pois toda a região é coberta por uma névoa de poeira constante.
— Obrigado pelas informações. É melhor dormirmos um pouco, pois partiremos assim que surgirem os primeiros raios de sol. Bom repouso, senhor Jacko.
— Disponha, jovem e corajoso Epion.