Na manhã seguinte, levantamos acampamento e partimos para uma viagem de mais oito dias, quase sem paradas para descanso. No entardecer do oitavo dia, entre os sons dos galopes dos cavalos e o crepitar das rodas de madeira, ouvi o senhor Jacko gritar meu nome:
— Senhor Epion! Senhor Epion! É aqui o seu ponto de desembarque!
Toda a caravana parou. Assim que pedi para desembarcar, Jacko aproximou-se e disse:
— A região que procura está próxima. Desça aquelas planícies na direção do pôr do sol e chegará onde deseja. Que a Trindade Divina o proteja.
A caravana partiu, e me vi sozinho em um lugar desconhecido, pensando que nunca havia ido tão longe de minha vila.
Caminhei na direção do pôr do sol, conforme Jacko havia orientado. Foram cerca de quatro horas até que comecei a avistar as ruínas de uma vila — exatamente como ele descrevera. Contudo, parecia ser bem maior do que eu imaginara.
Cruzei os restos de um arco de madeira em pedaços, que acredito ter sido a entrada daquele lugar estranho. O som constante da ventania dificultava minha audição, e a névoa barrenta em volta feria meus olhos, fazendo-os lacrimejar. Eu mal conseguia enxergar o que estava a dez passos de distância.
Não avancei muito. Por sorte, encontrei um casebre em ruínas e decidi fazer dele minha residência temporária. Logo escureceria, e o senhor Cádmo havia me avisado para explorar somente durante o dia.
À noite, apesar da névoa, a falta de telhado na minha nova morada me permitiu admirar as poucas estrelas visíveis naquele céu turvo. E, por um breve instante, pensei em Lilith, até finalmente adormecer.
Primeiro dia na vila em ruínas:
Enfim, minha caçada teve início. Levantei cedo, comi um pouco dos mantimentos que trouxera comigo, peguei minha espada e fechei a porta improvisada do casebre. Enquanto procurava meu primeiro desafio, aproveitei para praticar os movimentos com a espada descritos no pergaminho.
— Vejamos o que diz aqui… —falei enquanto abria o mapa. — Encontre uma rocha circular quase do tamanho de um homem, localizada próxima à entrada da cidade. Nela, estarão as informações de um diário secreto.
Suspirei, olhando ao redor.
— Mas com toda essa névoa e tantos escombros, como vou encontrar essa pedra?
Poucos passos à frente, avistei a silhueta de alguém surgindo no meio da neblina. A pessoa tinha os ombros curvados, sombra duvidosa e parecia se apoiar em algo parecido com um forcado.
— Vou me aproximar — pensei. — Talvez seja um morador local e possa me ajudar.
— Com licença, senhor… ou senhora… eu gostaria de saber onde posso encontrar—
Consegui chamar sua atenção, mas congelei no mesmo instante. Fiquei sem palavras diante daquela figura. Apesar de vir em minha direção, apresentava partes do corpo em decomposição, com ossos expostos — um cadáver vivo.
— Espere, senhor! Você não me parece muito bem, e eu não sou uma ameaça! — tentei argumentar.
Ele me ignorou completamente e acelerou o passo emitindo um som irritante de arrastar, soltando grunhidos que pareciam vir do resto do que um dia fora sua boca.
Os movimentos eram lentos, provavelmente por causa do corpo deteriorado, mas ele tentava com força me atingir com o forcado. Eu estava tão abalado com a cena — o fedor, a aparência, o som — que só consegui me esquivar por instinto.
— Eu… preciso combatê-lo — pensei. — Mesmo que tenha sido um morador desta vila, está morto. Tentar matá-lo novamente não deve ofender os Deuses. Além disso, talvez isso faça parte do treinamento.
Desviei de mais um ataque e, enfim, empunhei minha espada. Golpeei, cravando-a em sua perna direita. Para minha surpresa, o ser— pois assim decidi chamá-lo — ignorou completamente o ferimento e tentou me acertar de novo, forçando-me a recuar e deixando minha espada cravada nela.
— Droga! Agora estou desarmado… preciso recuperar minha espada.
Antes que pudesse reagir, ouvi passos atrás de mim. Eram mais dois deles, com a mesma aparência horrenda da primeira. Uma delas não tinha um dos braços; a outra, era impossível distinguir o que fora em vida — talvez uma mulher.
Então, lembrei-me das palavras do governador Cádmo:
“Algumas criaturas desejarão apenas lhe matar.”
Foquei na primeira. Escapei de outro ataque, empurrei-a com o corpo e a fiz cair diante de mim. Aproveitei o momento, puxei a espada de sua perna e a cravei em seu peito. Mesmo assim, ela não parou. Agarrou minha cabeça e tentou morder-me. Em desespero, empurrei-a com força, perfurando os olhos dela com os dedos.
O fedor, agora ainda mais intenso, me fez quase vomitar. Cambaleei, tonto e ofegante, enquanto os outros dois seres se aproximavam. Percebi que apenas um deles vinha diretamente em minha direção — o que ainda tinha olhos. O outro parecia confuso, guiando-se apenas pelo som.
— Certo… preciso derrotar a que enxerga primeiro.
Corri até o forcado caído no chão, empunhei-o e o cravei com toda a força na criatura feminina, a que tinha um braço faltando, mas enxergava prendendo-a ao solo.
— Uma neutralizada… faltam duas — pensei.
As restantes não podiam me ver, apenas me ouvir. Aproveitei a vantagem e me aproximei da primeira, que ainda estava com a espada cravada no peito. Assim que toquei no cabo, levei um golpe violento — parecia um soco. Caí no chão, trazendo a figura comigo.
Durante a queda, consegui recuperar a espada. Segurei o pescoço do inimigo para afastar suas mordidas e o atingi na cabeça lateralmente. Só então ele parou de se mover.
O terceiro estava diante de mim, mas movia-se devagar demais — o corpo já deteriorado. Resolvi recuar. Não havia motivo para matá-la.
—Será que estou violando algum tabu religioso? Pensei.
— Melhor voltar para o abrigo. —Conclui. — O soco que levei vai me deixar o olho inchado.
Saldo do dia: uma criatura morta, duas neutralizadas… e o cheiro delas impregnado em mim. O olho esquerdo dói, mas continuo vivo. Considerarei o dia produtivo.
De volta ao casebre, troquei de roupa para amenizar o odor. Não havia água para banho — apenas o pouco que reservei para beber.
Naquela noite, não consegui pensar em Lilith. Só via, na mente, o tormento que havia enfrentado.
Tive medo de dormir.
No dia seguinte, despertei ainda mais cedo que no primeiro. Eu não conseguia parar de pensar que precisava de água — tanto para repor o estoque quanto para um banho decente.
— Bem, estou em uma vila — Falei para mim. — Por mais velha e destruída que seja, deve haver um poço. Toda vila nasce próxima a um rio, ou constroem um poço. Essa não deve ser diferente.
Assim, uma nova missão se somou à minha lista: encontrar água.
Deixei o abrigo e saí à procura de uma área com mais ruínas. Em vilas antigas, os poços costumavam ser construídos no centro, cercados pelas residências. No caminho, encontrei mais daquelas criaturas, mas já não tremia como antes. Enfrentei algumas, evitei grupos maiores e aprendi a distinguir seus padrões de comportamento. Sozinhas, eram lentas e previsíveis; em grupos, tornavam-se perigosas.
Caminhei por cerca de dez minutos até avistar o que restara da fonte de água local. Ao me aproximar, percebi que o poço era profundo, e, surpreendentemente, seu sistema de coleta ainda funcionava. Girei a manivela, e uma água cristalina jorrou do balde.
A visão foi quase divina.
Sem pensar duas vezes, lavei o rosto, o corpo e fiquei longos minutos sob aquela água. O ruído do jorro batendo contra o chão ecoava pelas ruínas, mas, estranhamente, não atraiu criaturas.
Enquanto esperava minhas roupas secarem, sentei-me à beira do poço e abri o mapa que o governador Cádmo havia me dado. Comecei a ler o capítulo que falava sobre a pedra — aquela que eu deveria encontrar —, mas o texto era enigmático. Não dizia nada sobre a localização exata da pedra nem sobre suas inscrições, apenas mencionava que ela guardava segredos de uma vila que havia desafiado o império.
Um trecho me chamou a atenção:
“Os moradores dessa vila jamais morreriam, mas também jamais deixariam de habitá-la.”
Fiquei gelado.
— Sem dúvida… essa passagem fala sobre este lugar. — pensei. — Então aquelas criaturas… são os camponeses que viviam aqui?
Assustado, decidi parar de enfrentá-las. Eu podia muito bem evitá-las. Bastava empurrá-las, distraí-las ou me desviar. E, para minha surpresa, eu estava ficando bom nisso.
O dia passou rápido, e a noite chegou de repente, mais escura e densa que a anterior. A névoa barrenta ficou tão espessa que eu mal via um palmo à frente.
— Droga, não vou conseguir voltar até o abrigo — pensei.
Encontrei uma árvore seca, sem folhas, e subi nela para tentar descansar em segurança. Apesar do frio e do medo, o cansaço me venceu.
Durante a madrugada, sons estranhos ecoavam pela vila. Alguns pareciam distantes, outros muito próximos. Eu me mantive acordado o quanto pude, mas acabei adormecendo.