No final do dia, Morin nos encarregou de mais uma missão — e, dessa vez, ele viria junto. Viajaríamos eu, ele e Mei até o território de Neflan. Levaríamos todas as encomendas e seguiríamos para a Passagem do Vale, onde encontraríamos os Julgadores para entregar os equipamentos ao comandante Desparion.
Mesmo tendo concluído tudo o que devia a Morin, concordei com mais essa tarefa, já que era o caminho de volta para minha vila — o reino de Azhes ficava logo depois.
Passamos a noite nos preparando para a partida, que seria no dia seguinte. Porém, o território para onde íamos não estava em paz — e, sem o nosso conhecimento, algo estranho acontecia lá.
Um anão muito bem equipado e armado entrou apressado na maior tenda do acampamento dos Julgadores.
— Comandante Desparion! Preciso de uma audiência com o senhor, urgente! — disse o anão, visivelmente nervoso.
— Acalme-se, Mathil. Seja qual for o recado, pode falar aqui, diante dos meus capitães — respondeu Desparion, que estava em reunião com seus anões de confiança.
Ele era um anão diferente — famoso vendedor de armamentos e líder dos Julgadores. Tinha uma longa barba branca trançada e vestia uma armadura de prata reluzente.
— Sofremos um ataque contra a patrulha da Muralha dos Fiéis, a poucos quilômetros daqui — informou Mathil.
— Quem ousaria? Quantos tínhamos lá na vigília? Houve sobreviventes? — perguntou Desparion, com sua voz imponente.
— Eram seis guerreiros, meu senhor. Nenhum sobreviveu. Todos foram mortos com ataques frontais — respondeu Mathil, em tom trágico.
Desparion cerrou o punho.
— Então essa tropa que me desafia não é covarde… são corajosos. Estão marchando para o nosso acampamento?
— Não sabemos, senhor. Na verdade, os agressores não deixaram rastro algum. A única informação vem dos corpos de nossos soldados: dois deles tentaram fugir e foram atingidos por flechas longas, com penas de falcões dos Alpes. Os outros foram mortos por golpes precisos de adaga.
— Penas de falcões dos Alpes…? — murmurou Desparion, pensativo. — Desconheço qualquer anão ou homem que usaria isso. Ninguém além de elfos é capaz de subir até os Alpes. Será que foram eles?
Um dos capitães pediu a palavra.
— Perdoe-me a interrupção, meu comandante, mas os elfos não deixam as florestas por nada — afirmou Naru.
— Concordo com Naru, comandante — disse outro capitão, Zifu. — Não creio que sejam os elfos. Além disso, eles não têm números para nos desafiar.
— Eles também não têm motivos — completou Naru. — De acordo com meus informantes, os elfos estão melhores hoje do que na época em que governavam Azhes.
— Mesmo assim… — respondeu Desparion. — Fomos nós um dos responsáveis pela queda deles nas guerras passadas. Um orgulho ferido é sempre um bom motivo para conflito.
Ele se ergueu, impondo presença.
— Já não importa quem sejam. Preparem doze dos nossos melhores combatentes. Irei pessoalmente à Muralha dos Fiéis caçar esses agressores e mostrar que ninguém desafia Desparion impunemente!
Virando-se para Naru, concluiu:
— Você ficará encarregado de receber as encomendas trazidas por Morin.
Três horas depois daquela reunião, Morin, Mei e eu chegávamos ao acampamento dos Julgadores.
Fiquei impressionado com o lugar. Apesar de estar dentro do território de Neflan, era um assentamento isolado, sem a proteção da guarda do castelo.
A Passagem do Vale era citada em quase todos os contos dos historiadores — palco de antigas guerras, onde deuses e exércitos travaram batalhas. O ar era seco, o calor intenso, e a paisagem repleta de montanhas, rachaduras e cavernas misteriosas.
A passagem levava por três caminhos:
• O principal, uma estrada larga em linha reta para o nordeste, conduzia à capital de Neflan.
• O segundo, ao sul, chegava às Terras de Ninguém e, depois, ao território de Dunnas.
• O terceiro, um estreito vale rochoso e em declive, seguia até as Cavernas Proibidas — e, se alguém sobrevivesse aos labirintos, chegaria a Midril, a cidade dos anões.
Apesar de ser o caminho mais curto, ninguém o usava. As cavernas eram traiçoeiras, capazes de levar qualquer viajante desavisado à morte.
— Pare de divagar sobre esse lugar e me ajude a descarregar a carroça, Epion! — disse Morin, irritado.
— É que eu nunca estive aqui — respondi. — Só ouvi histórias. E por que a Mei não está nos ajudando?
— Ela foi ao encontro de um dos capitães deste assentamento. Precisamos montar nossa tenda; passaremos a noite aqui. Partiremos tão logo eu receba meu pagamento.
— Os livros da minha antiga escola diziam que deuses já lutaram aqui… já pensou, Morin? Estamos pisando na mesma terra onde deuses caminharam!
— Deixe disso! — retrucou ele. — Eu nem acredito nesses contos élficos. Se esses deuses eram tão poderosos, onde estão agora?
— Pai! — chamou Mei, aproximando-se.
— Finalmente voltou. Onde está o capitão Naru, que encomendou nossos serviços? — perguntou Morin.
— Está na tenda central. Mas não poderá nos receber hoje. Estão todos nervosos — o comandante Desparion deixou o acampamento com doze guerreiros para interceptar um grupo de agressores. Se até os Julgadores estão inquietos… prefiro não dizer o que isso significa.
— Como assim?! — disse Mei, arregalando os olhos. — Quem ousaria atacar os Julgadores?
— Vai haver batalha aqui, Morin? — perguntei.
— É claro que não, Epion! Vamos montar nossa tenda e amanhã fecharemos os negócios com o capitão Naru.
Enquanto montávamos acampamento, a tropa de Desparion seguia em perseguição pela estrada que levava à capital de Neflan.
— Senhor, o que quer que tenha atacado nossos guardas se move de maneira peculiar. No início da trilha, tudo indicava que seguiria para Dunnas, mas, em determinado ponto, mudou bruscamente a rota, tomando o caminho que leva até Neflan — informou Izador.
Desparion cruzou os braços, o olhar severo e atento.
— E quais seriam as intenções deles?
Izador respirou fundo, escolhendo bem as palavras.
— Não há indícios de que estejamos perseguindo uma tropa, meu senhor. Nenhum rastro pesado, nenhum acampamento improvisado, nada. Mas estou quase certo de que a mudança de direção tem relação com o vento, que também mudou… agora sopra do sudeste.
Desparion arqueou uma sobrancelha.
— Espere. Está insinuando que é um único ser? E o que o vento tem a ver com isso?
— Sim, meu senhor. Estou convencido de que é apenas um. Ele se move de forma calculada. O vento carrega o som de nossos passos… e o cheiro das nossas armas, do metal e do suor. Ele quer que o vento leve até ele tudo o que somos.
Desparion permaneceu em silêncio.
— Nós não o estamos caçando, senhor… — concluiu Izador. — Ele está nos caçando.
De volta ao acampamento, nosso descanso foi interrompido na madrugada pelo capitão Naru.
— Perdoe-me por interromper seu descanso, Morin, mas trago algo mais urgente que nossos negócios.
— Tudo bem, capitão. Estou aos seus serviços.
— Receio que esta região tenha sido invadida por assassinos de Dunnas. Nosso comandante, contra nossos avisos, partiu com um pequeno grupo. Todos os meus homens estão em prontidão. Gostaria de pedir-lhe um favor: que parta na direção contrária e avise aos soldados de Neflan, na capital, que os Julgadores estão em alerta.
— Isso é muito perigoso, capitão — afirmou Morin.
— Não se preocupe. O caminho até Neflan está livre — foi por ele que viemos, e estamos a poucas horas da capital.
Morin hesitou, mas logo encontrou uma solução melhor.
Acordou-me no exato momento em que eu sonhava.
— Levante-se, Epion. Quero que conheça o capitão Naru.
— Um humano? — gaguejou o capitão, surpreso.
— Sim, capitão. Ele é meu ajudante e, neste momento, não há ninguém melhor que ele para levar essa mensagem até o reino dos humanos — disse Morin.
— De fato… — concordou o capitão, após breve pausa.