Bem longe das preocupações dos elfos, nas vastas terras de Neflan, eu despertei em meio à grandiosidade da maior cidade comercial de todos os reinos — uma joia viva que jamais dormia.
Suas ruas fervilhavam de vozes e passos, e o ar trazia o aroma de especiarias, ferro e maresia. Era uma cidade bela e populosa, onde todas as raças encontravam abrigo e negócio.
No coração de Neflan, erguia-se a mais sagrada de suas três igrejas, dedicadas à Trindade Divina. A igreja central, consagrada ao deus Zélios, dominava o horizonte com sua escadaria de mármore azul e tijolos negros. Seu teto, erguido em forma de triângulo, rasgava os céus como uma lança luminosa, e seus vitrais — seis de cada lado — contavam em cores o triunfo da luz sobre as trevas.
No altar principal, uma imponente estátua de Zélios segurava uma lança dourada. Logo abaixo, o deus Adiunm, senhor do amor, abria seus braços aos fiéis apaixonados — e era sob sua bênção que os casamentos se celebravam.
Ao leste da cidade, a igreja de Niff, deusa da beleza, recebia mulheres de todos os cantos, atraídas pelo encanto esculpido na estátua da divindade. A oeste, guardando o porto, erguia-se o templo sombrio de Thuagan, deus da morte, onde os velórios eram realizados para assegurar a passagem dos espíritos ao além.
Ao norte, por trás da igreja de Zélios, ficava o castelo de Neflan — destino para o qual fui levado após o massacre.
Ali, no salão do trono, o velho rei Dóren discutia com o capitão Naru o destino de seu povo e o peso da tragédia.
— Eu compreendo teu desespero, Naru — disse o rei, um homem de olhos castanhos e barba branca como a neve. — Teu líder está morto, e seu corpo é conduzido às minas dos anões. Ainda assim, o sobrevivente permanecerá aqui, sob meus cuidados. Este castelo continua interditado aos Julgadores; abro exceção apenas a ti.
— Entendo, majestade — respondeu Naru. — Mas este sobrevivente tem informações valiosas sobre o assassino de Desparion.
— Talvez — replicou Dóren, erguendo o olhar cansado. — Mas apenas os deuses sabem quando — e se — ele despertará. E lembre-se: trata-se de um humano e, portanto, está sob jurisdição dos homens, não dos anões.
Um guarda interrompeu a conversa:
— Majestade, há um visitante à porta. Um elfo, sozinho, pede audiência.
Naru estalou os dentes.
— Mandem-no embora. Não precisamos da interferência dessa raça.
Mas o rei ergueu a mão.
— Tragam-no até aqui. As desavenças dos anões com os elfos não são minhas.
Enquanto isso, eu jazia inconsciente em um dos muitos quartos do castelo. Estava perdido em um vazio frio e silencioso, sem sonhos — apenas sombras e vozes distantes.
Sentia meu corpo ser movido, mas não podia reagir.
Até que, após longas horas — ou dias, quem saberia dizer —, a luz atravessou minhas pálpebras. Despertei.
Os curativos cobriam meus ferimentos, e a dor era constante, mas suportável. Recordei o encontro com o sombrio: cada gesto, cada palavra, cada olhar ainda ecoava em minha mente.
Pouco depois, um guarda entrou, observou-me em silêncio e partiu. Retornou acompanhado de dois homens: o rei Dóren e outro, envolto em um manto marrom, com o rosto oculto sob o capuz.
— Boa tarde, jovem — disse o rei. — Sou Dóren, senhor destas terras. Encontra-te na cidade de Neflan.
— Já ouvi falar de vossa majestade e de sua cidade. Sou Epion Darvo, da vila de Swan, em Azhes.
— Fico feliz que tenha sobrevivido, Epion — disse Dóren. — Este é Rions, que deseja falar contigo.
— Rions? O tutor de Nepher? — perguntei, surpreso.
— Sim — respondeu o elfo, retirando o capuz. — E vejo que o destino insiste em cruzar nossos caminhos, jovem da vila de Dhor.
— O que aconteceu com Mei e Morin? Onde estão os anões?
— Muitos voltaram às suas vidas — respondeu o rei. — Alguns Julgadores ainda estão aqui, em Neflan. Querem respostas sobre o assassinato de Desparion. Mas fique tranquilo: nenhum deles entrará neste castelo.
— Desparion… ele está entre os mortos? Há quanto tempo estou aqui?
— Três dias — respondeu Rions.
O elfo deu um passo à frente.
— Estive no local do massacre. Tenho minhas suspeitas, mas preciso do teu testemunho para confirmá-las.
— Eu vi o assassino — respondi. — Um elfo sombrio, poderoso o bastante para dizimar todos sozinho. Falou-me seu nome antes de me poupar a vida.
— Radan — completou Rions, com expressão sombria.
— Sim… conhece-o?
— Mais do que gostaria — suspirou o elfo.
— Ele me observou — continuei. — E, por um instante, percebi… hesitação.
— Clemência não é virtude dos sombrios — afirmou Rions. — Há algo mais nisso.
— Ele mencionou os Renegados e disse que Desparion lhes fornecia armas.
— Síron — respondeu o elfo.
— Então Radan agia pelo lado certo?
— Matar nunca é correto — disse Rions. — Se Desparion cometia crimes, deveria ser julgado.
— Então… por que ele não me matou?
— Porque percebeu que você estava no lugar errado, na hora errada.
Depois disso, deixaram-me sozinho.
Eu estava feliz — feliz por saber que Lilith estava bem.
Assim que recuperei as forças, deixei o castelo e iniciei o caminho de volta para Azhes.
No horizonte, uma sombra colossal cruzou os céus.
Minutos depois, vi a fumaça.
Minha vila.
Swan.
Chamas desciam do céu.
Um dragão.
Quando cheguei, não restava nada além de cinzas.
Minha vila havia sido apagada do mundo.
E eu chorei.
Entre as ruínas, apenas o templo carbonizado permanecia de pé.
O último testemunho da existência de Swan.