Longe de Vilnor e das discussões humanas, a terra de Higdra erguia-se como um reino guardado pelo mar e coroado por uma muralha natural de montanhas. Diziam que seus picos rasgavam as nuvens, tocando os véus celestes com dedos de pedra e neve. Eram as Cordilheiras que Tocam o Céu, lar dos temidos — e reverenciados — Orcsil, discípulos de Thuagan, deus da morte e das chamas eternas.
Entre os penhascos mais altos, quatro enormes templos — Norte, Sul, Leste e Oeste — formavam Florence, a cidade sagrada dos Orcsil. Suas paredes eram talhadas em basalto vermelho, e ao redor delas se dispunham casas circulares menores, moradas das famílias guerreiras e monásticas daquele povo.
Foi ali que Damian, o Orcsil que eu conheci durante meu treinamento na vila atormentada, adentrou uma daquelas moradas. Ele buscava o conselho daquele que guiara seus passos desde a infância.
O interior era austero: brasas crepitavam num braseiro central, iluminando com luz âmbar a figura de um Orcsil idoso, enorme, coberto por um simples manto vermelho. Seus olhos eram dois carvões incandescentes no meio da penumbra. Ele estava sentado em silêncio profundo — até que Damian se curvou.
— Espero não estar interrompendo sua meditação, sábio mestre. Meu treinamento entre os humanos terminou. Para onde sigo agora?
O ancião abriu os olhos lentamente. Sua voz parecia ecoar das entranhas da montanha.
— Bem-vindo de volta, Damian. Vejo que teu fluxo seguiu o rio da vida como previsto… todavia, há uma pedra lançada no curso dessas águas. Um leve desvio.
Damian franziu as sobrancelhas, confuso.
— Não compreendo. Devo interromper meu treinamento? Meu desejo continua o mesmo: tornar-me guerreiro de Thuagan.
— Dispense formalidades, — disse o ancião, com uma calma pesada. — A relação de mestre e aluno foi interrompida pelas tramas do destino. Chame-me por meu nome.
Damian se endireitou, tenso.
— Mas eu não estou pronto, senhor… Manon. Ainda não entendo o significado da existência.
— E não haverá tempo para aprender. — declarou Manon, com uma tristeza quase imperceptível. — Teu destino chama — preparado ou não.
— Então diga o que devo fazer. Se envolve proteger nossa família Orcsil, darei minha vida sem hesitar.
Manon fitou-o profundamente, como se enxergasse além do corpo, além da alma.
— Durante tua viagem de volta, ouviste vozes nas noites nebulosas? Sussurros na floresta? Lamentos ao pé do rio?
Damian congelou.
— Acreditei serem pesadelos… ou demônios me chamando à morte.
— Não eram pesadelos. Eram ecos do destino. Lembra-te da primeira noite em que os ouviste?
Damian refletiu.
— Alguns dias atrás. Na mata, perto do rio.
O ancião inclinou a cabeça.
— Exatamente quando o curso do mundo foi alterado. Não apenas o teu caminho mudou — mas o de outro. E agora tua missão está ligada a ele.
— Estou começando a temer isso, Manon. Que destino é esse que carrego, capaz de ecoar nas madrugadas do continente?
— Não carregas o fardo. — disse o ancião, firme. — Apenas acompanharás aquele que o suporta. Serás sua lâmina, sua chama, seu escudo.
Os olhos de Damian brilharam com espanto.
— Então chegou… o momento de proteger o grande Orcsil que o senhor dizia que eu encontraria?
— Chegou mais cedo do que deveria. — respondeu Manon. — E isso tornará tua jornada ainda mais árdua. Terás de quebrar tuas crenças. Aceitar que raça não define aliados. Nem inimigos.
Damian respirou fundo, como quem enfrenta uma verdade amarga.
— Eu aceito seu conselho, mestre. Diga-me apenas para onde ir.
Manon sorriu — não com alegria, mas como quem olha o inevitável.
— Recordas daquela vila amaldiçoada em Rorion? Do general castigado?
— Sim, falhei naquele teste. Não o derrotei sozinho. — admitiu Damian, envergonhado. — Um humano me ajudou. Se ele não estivesse lá, eu teria morrido.
— Recordo. — disse Manon. — E esse encontro não foi acaso.
Damian ergueu os olhos devagar.
— Epion. — murmurou Damian .
— Epion Darvo. — confirmou Manon. — Ele é teu destino. Deixe para trás tua visão limitada de raça. Encontre-o. E permaneça ao lado dele.
As chamas tremeluziram como se o próprio Thuagan tivesse ouvido. Damian se curvou profundamente.
— Então irei. E seja qual for o propósito… enfrentarei.
— O rio corre para onde deve. — sussurrou Manon, fechando os olhos. — Mas cuidado, Damian. A força que despertou não pertence aos deuses — nem aos mortais. E ainda não escolheu lado.
O vento soprou lá fora, uivando entre as montanhas como um presságio.
O destino começava a se mover.
A despedida em Vilnor
Minha estadia entre os elfos seguia tranquila quando fui chamado por uma bela, porém séria elfa de cabelos escuros. Sem dizer palavra além de meu nome, ela me conduziu através das passagens floridas de Vilnor até a presença do líder de todos os elfos: Fangnar Lockgard.
Ao entrar, senti o fôlego me escapar.
A construção lembrava um palácio em miniatura, semelhante ao de Azhes, mas infinitamente mais puro e sereno. Flores de cores impossíveis pendiam em vasos delicados; arbustos brilhavam sob a luz que atravessava uma magnífica cúpula de vidro no teto. O salão respirava paz — e parecia sagrado demais para o toque humano.
Enquanto ainda admirava tudo, dois elfos caminharam em nossa direção. Minha guia fez uma reverência silenciosa e partiu, deixando-me diante de figuras que irradiavam autoridade e serenidade.
E então reconheci um rosto.
— Senhora Ridell… enfim posso agradecê-la por ter salvo minha vida. — falei, com um sorriso sincero.
— Você fez mais do que eu naquela batalha, guerreiro de Azhes. — respondeu ela com leveza.
Ao lado dela, um elfo de postura nobre e olhos cinzentos me observava com calma ancestral.
— Fico aliviado que tenha se recuperado. Eu sou Fangnar Lockgard, senhor dos elfos.
— É uma honra finalmente conhecer o senhor… o pai da Lilith! — admiti, surpreso. — Mas me perdoe a honestidade — eu imaginava que fosse mais velho.
Ele sorriu com gentileza.
— Envelhecemos de forma diferente. Apesar desta aparência, sou antigo — talvez o mais antigo ser vivo deste mundo. Não sei quanto tempo ainda caminharei entre meu povo, por ora, carrego esse fardo.
— Agradeço por permitir minha estadia em Vilnor. Não contarei nada do que vi aqui — embora deseje poder ficar mais. Este lugar é… inesquecível.
— Você conquistou esse direito, Epion Darvo. — disse Fangnar com serenidade. — E aqui nada é escondido. Se desejar, pode contar ao seu povo o que viveu. É o primeiro humano a pisar nesta vila — e creio que será o último.
Meu peito apertou ao ouvir aquilo — honra e tristeza misturadas.
— Mas chegou a hora de partir. — prosseguiu ele.
— Eu imaginava… — murmurei, tentando esconder a decepção. — Ainda assim, gostaria de ficar mais algum tempo.
— Seu reino precisa de você. Os homens certamente esperam notícias do jovem que desafiou o mal em nome deles.
Engoli seco e fiz um aceno de respeito.
— Posso ao menos me despedir de Lilith antes de ir?
— Infelizmente não será possível. — respondeu Fangnar
Meu coração deu um salto — e um nó logo depois, sabendo que era uma despedida.
— E leve isto. — continuou o líder élfico.
Um elfo aproximou-se, trazendo uma espada envolta em tecido branco. Ao revelá-la, percebi o brilho prateado da lâmina, fria como o luar e leve como se feita de vento.
— Uma espada élfica ancestral. Lutou em guerras antigas e derrotou um titã nascido da Trindade. Que ela encontre propósito em suas mãos.
Fiquei sem palavras.
— Guardarei este presente com toda honra que existe em mim. — consegui dizer, emocionado.
— Então vá, Epion. E que um dia nossos caminhos voltem a cruzar-se.
Saí dali com o coração pesado, mas cheio de esperança —Lamentando por não poder ver Lilith.
Atrás de mim, Ridell comentou em voz baixa:
— Intrigante, esse humano. Não acha, meu senhor?
Fangnar observava a porta por onde eu havia partido.
— É verdade, capitã. — murmurou ele. — Houve um tempo em que elfos e homens batalharam juntos. Eu era jovem, e apenas ouvia histórias. Se Epion não fosse tão jovem, eu diria que veio daquela era… pois seus olhos não veem rancor entre raças — apenas almas.
Deixei Vilnor em silêncio enquanto os elfos ainda discutiam seus destinos. Não sei ao certo como cheguei ao outro lado. Um instante estava passando pelos portões da vila, e no instante seguinte, já me encontrava diante da estrada que levava à região de Rorion.
— Como... cheguei aqui? — comentei confuso, olhando para trás, completamente atônito. — Acabei de cruzar a saída e já estou na estrada? Isso é... feitiçaria.
A floresta sumira como fumaça, restando apenas a trilha poeirenta adiante.
— Talvez Vilnor nem exista realmente... ou talvez a floresta mude para proteger seus caminhos. — suspirei. — Acho que nunca vou saber.