A viagem até a capital de Rorion foi curta, pois já estávamos próximos. Ao chegarmos, a maior parte da tropa anã permaneceu do lado de fora dos portões; eu fui conduzido ao palácio apenas pelo general Naru e quatro Julgadores. O castelo era magnífico — erguido diretamente sobre a montanha, feito de pedra escura e pilares tão altos que pareciam tocar as nuvens. Guardas protegiam a entrada e, assim que pisamos no salão principal, um homem vestindo roupas nobres veio nos receber.
— Estou surpreso em ver membros do exército do falecido Desparion em nossos portões. — declarou ele com elegância.
— Eu sou o general Naru, agora líder dos Julgadores. Preciso falar com o rei de Rorion.
— Eu sou o duque Enil, responsável pelo reino enquanto Sua Majestade, o rei Mágno, participa da reunião em Neflan.
— Então é com o senhor que resolvo esta questão, nobre duque. Julgadores, tragam o humano. — ordenou Naru.
Fui puxado até eles e forçado a ajoelhar.
— Este jovem interferiu em nossos assuntos. Libertou o sombrio que assassinou Desparion, que estava sob nossa guarda! — vociferou o general.
O duque ergueu uma sobrancelha, observando-me.
— Por que fez isso, camponês? Não sabe o quão perigosos são os sombrios? E diga-me seu nome.
— Eu me chamo Epion. Sou soldado de Azhes… e fiz o que precisava ser feito.
— Ele admite! — bradou Naru. — Pedimos autorização para executá-lo como exemplo a todos que ousarem nos impedir.
O duque aproximou-se, pousando uma mão sobre minha cabeça. Seus olhos brilharam em reconhecimento.
— Epion de Azhes… o soldado das tumbas imperiais. O homem que entrou em território élfico. Todos nós torcemos pela sua recuperação, soldado.
Naru arregalou os olhos.
— O nobre duque conhece esse homem?
— Todos os reinos conhecem. — respondeu Enil, firme. — Libertem-no agora, general, sob pena de guerra contra Azhes.
— Mas ele libertou Radan, assassino de anões! — protestou Naru, desesperado.
— Sabemos por que o caçam. — rebateu Enil, em tom glacial. — E sabemos também que Radan combate apenas os Renegados. A morte de Desparion foi consequência das próprias ações dele — provadas pelas tropas de Azhes. O ex-comandante de vocês traficava armas para criminosos. A partir de agora os Julgadores estão qualquer ação contra o sombrio. Quebrarem essa ordem significará romper todos os acordos comerciais com os reinos humanos.
A sala se encheu de queixas.
— Isso é um absurdo, duque! — rugiu Naru.
— É uma ordem final. Voltem para suas terras, Julgadores. — encerrou Enil.
Os anões deixaram o palácio bufando e me lançando olhares de ódio. Minhas amarras foram cortadas pelos guardas do castelo, e permaneci diante do duque, que acabara de salvar minha vida.
— Eu… eu não sei como agradecê-lo, meu senhor, — consegui dizer, emocionado.
— Não precisa agradecer, — respondeu Enil com um sorriso leve. — Essa ordem partiu do rei Vaakum logo após a batalha nas tumbas. Quanto a mim… estou apenas honrado por conhecê-lo. Tenho grande curiosidade pelas terras dos elfos e sua cultura.
— Eu… não saberia descrevê-las, meu senhor. — admiti.
— Imagino. — disse ele com compreensão. — Guardas! Levem Epion à melhor hospedaria de Rorion, por minha conta. Fique o tempo que desejar, guerreiro. Espero que se sinta confortável até retornar a Azhes.
Agradeci pelo gesto, embora não precisasse realmente da hospedagem oferecida pelo duque. Ainda que agora fosse um guerreiro de Azhes, minha antiga vida como minerador continuava me garantindo algum conforto financeiro. De toda forma, instalaram-me na mesma hospedaria da minha última visita a Rorion.
Pretendia aproveitar a noite para procurar meu velho amigo Ran-ses. Porém, antes que pudesse sair, um mensageiro bateu à porta, devolvendo todos os meus pertences — inclusive a espada élfica.
Caminhei pelas ruas em direção à taverna da Caneca Rachada. A cidade parecia menos movimentada que antes, e notei guardas patrulhando em maior número. Ao me aproximar do estabelecimento, encontrei um grupo de guerreiros reunidos do lado de fora. Havia vozes exaltadas vindo lá de dentro. Entre eles, reconheci um dos companheiros de Ran-ses.
— Boa noite. Lembro de você — um dos amigos do Ran-ses, certo? Onde ele está?
— Eu também me lembro de você. É o afortunado jovem de Azhes, não é? — respondeu, sorrindo. — Meu nome é Othel, caso tenha esquecido.
— E o Ran-ses? Está lá dentro?
— Não. Infelizmente está de guarda no portão sul esta noite.
Antes que eu respondesse, ouvimos o som de algo quebrando lá dentro — mesas, cadeiras ou talvez ossos.
— O que está acontecendo aí? — perguntei, confuso.
— Três soldados mexeram com uma mulher. E ela começou uma confusão. — explicou Othel.
— Ela estava acompanhada?
— Nada disso. Foi ela quem partiu pra cima deles.
— E vocês estão aqui fora… por quê? Não deveriam estar ajudando?! — falei, indignado.
Um dos soldados soltou uma risada breve.
— Ela não precisa de ajuda. Na verdade, expulsou todo mundo antes de começar a lição.
— Então só sobraram os três idiotas lá dentro. — completou Othel.
— Vocês são soldados! Deveriam impor ordem — não assistir!
Sem esperar resposta, marchei até a porta da taverna.
— Eu não entraria aí se fosse você! — gritou Othel.
Ignorei o aviso. Assim que cruzei a porta, uma faca passou veloz ao lado do meu rosto e cravou com força na madeira atrás de mim.
— Eu disse para esperarem lá fora! — uma voz feminina ecoou.
— Nepher? — exclamei, surpreso.
Ela estava lá, imponente. Segurava um soldado pelos cabelos como se fosse um saco de trigo. Outro estava pendurado de cabeça para baixo em uma viga, com as calças presas nos tornozelos. O terceiro gemia sob a sola da bota dela, o rosto esmagado contra o chão.
Ao me ver, Nepher soltou o pobre coitado e tirou o pé do rosto do outro.
— Epion! — disse ela, aproximando-se com um sorriso feroz.
— O que, exatamente, aconteceu aqui? — perguntei, incrédulo.
— Nada demais. — respondeu com naturalidade. — Apenas disciplinando estes homens. Pedi gentilmente que todos saíssem, para que não se sentissem humilhados.
Olhei para o caos ao redor. — Acho que eles estão humilhados de qualquer forma.
— Você está bem? Estou feliz em te ver. — disse ela, pegando meu braço. — Venha. Vamos conversar em outro lugar.
Deixamos a taverna da caneca rachada, e assim que passamos pela porta, as pessoas reunidas do lado de fora abriram caminho, afastando-se como se temessem Nepher. Até Othel parecia inquieto. Aproximei-me dele.
— Estamos indo para outro lugar. Se encontrar o Ran-ses, avise que estou na cidade até amanhã e gostaria de vê-lo.
— Si… sim! — respondeu, engolindo seco.
— Ela deve ser uma abominação… — sussurrou um dos soldados ao lado dele.
Fingi ignorar, mas lancei lhe um olhar firme, deixando claro que tinha ouvido — e que não gostei. Então voltei para Nepher e seguimos juntos, para surpresa daqueles homens.
Caminhamos até um amplo pátio iluminado pelas tochas penduradas na muralha. No caminho, Nepher falava animada sobre suas façanhas desde nosso combate contra os Lizardes.
— E você? O que fez nesse tempo? E por que está em Rorion? — perguntou.
— Fui capturado pelos Julgadores. Trouxeram-me até aqui para pedir permissão do rei para me executarem. — contei com simplicidade.
Ela parou, franzindo o cenho.
— Ouvi rumores sobre isso. Mencionaram alguém… não dei atenção. Então era você o maluco que libertou um sombrio do acampamento deles?
— Sim. O nome dele é Radan. Ele me poupou uma vez. Só retribuí.
— Epion… você é maluco. As fofocas sobre você estão viajando por toda Varcônia.
— Não quero fama. Meu desejo é apenas…
Ela arqueou a sobrancelha, divertida.
— A-ham. Essa cara… tem uma mulher nessa história, não tem?
— Esquece. — desviei o olhar. — Apesar do incidente com os anões, estou bem. Cheguei a conversar com seu tutor.
— Com o Rions? Não acredito! Estou há semanas esperando ele voltar para continuar meu treinamento. Algo sério aconteceu. Só me disse para ficar em Rorion e nunca desapareceu assim sem dar notícias…
— Tem algo mais. Algo tão absurdo que você não vai acreditar: estive em Vilnor. E o líder deles proibiu os elfos de saírem por enquanto. Foram muito gentis comigo. Até me deram esta espada. — saquei a lâmina e mostrei a ela.
Os olhos de Nepher brilharam.
— Isso é… Epion, isso é incrível! Você tem ideia do que significa receber uma relíquia élfica?
— Não. O que significa?
— Que no dia em que precisar deles, apresente essa espada e será tratado como um igual.
— Se eu soubesse disso antes, teria andado com ela pendurada no ombro o tempo todo lá. — ironizei.
Rimos juntos, conversando por horas. Mas eu precisava descansar: ao amanhecer, pretendia partir na caravana para Azhes.
Demorei a dormir. Minha mente revivia cada passo daquela jornada — e pensar que, quando deixei Swan, eu era apenas um minerador…