Na manhã seguinte, a cidade estava mais movimentada. Descobri, contudo, que não haveria caravana para Azhes naquele dia — apenas no seguinte. Eu não podia esperar. Comprei provisões, um cavalo modesto, mas resistente, e preparei minha bagagem.
Viajar sozinho não era a escolha mais segura — todos diziam para nunca cruzar aquela rota sem escolta. Mesmo assim, marquei no mapa as vilas onde poderia descansar e decidi seguir durante o dia, aproveitando toda luz possível até encontrar abrigo.
Eu partiria sozinho.
E, pela primeira vez, isso não me assustava.
— Se eu viajar sem parar, consigo cruzar toda a estrada de Jarem e entrar em Neflan antes do anoitecer. Posso dormir em Ghuzilan. —pensei enquanto traçava a rota no mapa.
Longe dos meus planos, entre Rorion e a passagem que levava a Dunnas, os Julgadores tinham enviado mensageiros. Em segredo, marcaram um encontro entre o Vale da Morte e a passagem estreita, com um representante dos Renegados. O sombrio chegou sozinho ao acampamento anão: pele azulada, porte esguio, rosto belo, cabelos longos e negros, trajando uma armadura escura e simples — a presença típica da sua espécie.
— Comandante Naru, o sombrio chegou! — anunciou um guerreiro, e Naru saiu da tenda improvisada até o limite do acampamento para receber o visitante.
— Saudações, mensageiro Harloc. Não imaginei que atenderiam tão rápido. Agradeço a consideração de lorde Síron. — respondeu Naru.
— Vim ouvir sobre o resultado da execução do nosso perseguidor, Radan, que soubemos estar sob vossa guarda. — falou Harloc, com a voz gelada.
Naru hesitou, e então falou:
— Esse é justamente o motivo da minha vinda a falar com seu líder. Porém — e aqui peso na voz — o Radan foi libertado. Um jovem humano chamado Epion que se diz soldado de Azhes abriu nossa prisão; fomos impedidos de puni-lo.
Harloc arregalou ligeiramente os olhos:
— Você disse Epion?
— Exato. — Naru bufou. — O que proponho é simples: matem esse humano e retomaremos o fornecimento de armas — como era nos tempos de Desparion.
Harloc ponderou por um instante, depois inclinou-se como que confirmando um acordo:
— Pedido interessante, comandante. Então o moleque também libertou Radan — isso precisa chegar ao senhor Síron. Fique tranquilo: considere esse humano morto.
Naru sorriu, aliviado e insistiu:
— E o Radan? Fomos proibidos de persegui-lo; não poderiam também eliminá-lo?
Harloc negou, com firmeza:
— Isso é impossível. Não atacamos os nossos. Somos Renegados porque fomos banidos — quem se levanta contra nosso povo paga com a vida; enfrentar um de nós significa enfrentar todos em nossa vila Ringhal. Perderam a chance de matá-lo. Esqueça-o.
Naru cerrou os punhos, raivoso:
— Maldito Radan!
— E quanto ao humano — onde podemos achá-lo? — perguntou Harloc.
— O imbecil viaja sozinho a cavalo em direção a Azhes. Tenho dois Julgadores marcando os passos dele; não será difícil emboscá-lo. — informou Naru.
— Perfeito. Vou avisar ao senhor Síron imediatamente. Logo seu humano será eliminado; ele não chegará perto de Azhes. — Harloc assentiu, já virando para partir.
— Fico eternamente grato. Entreguem esse medíocre ao abraço da morte! — exclamou Naru satisfeito.
O sombrio desapareceu velozmente no horizonte, deixando atrás de si apenas a poeira movida pelo vento e o presságio de uma cilada.
Seguia meu caminho alheio aos perigos que me cercavam. A estrada serpenteava entre areia e rochedos, ladeada por montanhas altas — marca inconfundível de Rorion. O calor seco dominava, e as chuvas eram raras, quase esquecidas pelo céu.
Quando alcancei a divisa com Neflan, o cenário mudou como se alguém tivesse virado a página do mundo: estradas de calcário polido, florestas densas e verdes, clima úmido, fresco, acolhedor. Diziam que Neflan era a terra das florestas — e agora eu entendia o porquê. Ali chovia tantas vezes ao dia que o ar parecia sempre recém-lavado.
Ao fim da tarde, cheguei ao povoado de Ghuzilan. Passaria a noite ali antes de retomar a viagem ao amanhecer.
— Bem-vindo, viajante! Veio para participar de nossas festividades religiosas em honra à Bênção do Fogo concedida aos humanos por Thuagan? — recepcionou-me um homem alto, de chapéu largo e túnica verde.
— Err… obrigado. — respondi, mesmo sem entender bem do que ele falava.
— Sou Pergon, guia turístico do povoado! — continuou ele, animado.
Olhei ao redor… e algo me surpreendeu:
Orcsil. Vários deles caminhavam entre os humanos como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Orcsil? — murmurei, incredulamente.
— Exato! — disse Pergon, orgulhoso de ser o primeiro a me ver espantado. Apesar da aparência imponente, eles são respeitados aqui. Todos os anos peregrinam pelas vilas que seguem a doutrina do fogo, trazendo novos ensinamentos. Muitos acreditam que o fogo é só destruição, mas nós sabemos que ele também purifica e renova.
Agradeci a informação e busquei uma estalagem — com sorte, ainda havia vaga. Talvez poucos humanos se arriscassem a dormir ali durante a temporada dos visitantes cor-de-musgo. Eu, porém, sentia o coração aquecido: havia conhecido um Orcsil durante meu treinamento, e o considerava um amigo.
Após me instalar, banhar e deixar a bagagem, saí para absorver a atmosfera daquele lugar. A cidade iluminava-se com tochas e estranhas lanternas flutuantes alimentadas por fogo — belas como estrelas presas a fios invisíveis.
No pátio central, uma multidão sentava ao chão, ouvindo um Orcsil careca e gigantesco — tão imponente quanto Damian — discursar. Sentei-me também.
— Falarei agora sobre purificação. — ecoou a voz profunda do palestrante. Hoje, os homens enterram seus mortos e amaldiçoam suas terras. Por quê?
Um senhor ergueu-se entre os ouvintes.
— Para evitar que os mortos retornem como castigados e nos ataquem!
O Orcsil pigarreou com desaprovação:
— Meia verdade. Qual seu nome, humano?
— Serafim, senhor Phirante.
— Os castigados não surgem apenas por isso, Serafim. O solo é amaldiçoado pelas doenças que os corpos carregam. Queimar os mortos é purificação — impedir que a enfermidade se espalhe.
Uma mulher levantou-se em seguida:
— Sou Hevena. O senhor está sugerindo que queimemos nossos entes queridos? Como chegarão a Thuagan e a Zélius sem seus corpos?
Phirante respirou fundo.
— O corpo é apenas a veste da alma. A luz retorna ao templo de Zélius com ou sem carne. Apenas os castigados permanecem presos ao corpo — essa é a verdadeira crueldade do deus que vocês veneram na morte.
Antes que o murmúrio geral se dissipasse, outra Orcsil — menor, mas extremamente musculosa — ergueu-se, interrompendo:
— Sou Nera. E falarei o que Phirante não diz claramente: se os humanos continuarem enchendo Varcônia de tumbas e cemitérios e os abandonando, em breve não haverá lugar para viver.
O pátio explodiu em vozes, protestos e questionamentos. Phirante lançou à sua companheira um olhar duro — ela havia ido longe demais.
Aproveitei o tumulto para me afastar. Enquanto caminhava, meu pensamento voltou às tumbas imperiais. Beleza fria, silêncio sepulcral, o peso do tempo e da morte... e monstros amaldiçoados rastejando na escuridão. Talvez aqueles Orcsil tivessem razão.
Comi algo numa banca simples e retornei para a estalagem, ao amanhecer, eu partiria.
Naquela noite, dormi acreditando estar seguro.
E naquela mesma noite, milhas distante dali, na fronteira árida entre Dunnas e Gorad…
— Hum... esse humano Epion, de novo. Não pode ser coincidência. Tem certeza de que ele viaja sozinho, Harloc? — perguntou Síron ao mensageiro que se inclinava diante dele.
— Foi o que o general dos Julgadores informou, meu senhor o Radan não foi encontrado depois de libertado pelo humano. — respondeu Harloc, a voz baixa e contida.
— Não temo o Radan; o que ele faz é atacar nossos fornecedores. Manter-se-á longe se não lhe dermos motivos para agir contra nós — ele também respeita as leis do nosso povo. — disse Síron, com a frieza de quem calcula riscos e ganhos.
Ao lado do sombrio, o feiticeiro Delial aproximou-se, visivelmente preocupado.
— Há algo mais inquietante: circulam boatos de que o humano esteve em Vilnor. Se for verdade, os elfos já começam a mover peças — e Fangnar -é um adversário que nem eu ou vocês possamos subestimar. — afirmou Delial, lançando um olhar preocupado a Síron. O mensageiro permaneceu ajoelhado, observando em silêncio.
— Parece que seu encontro com o filho do líder dos elfos o deixou nervoso, Delial. — ironizou Síron, com um sorriso curto. A causa é maior que Fangnar; se você está aqui, é porque acredita nela.
— Não podemos arriscar. Devemos informar nosso senhor. — insistiu Delial.
Síron bufou, decidindo com pressa de comandante.
— Desnecessário. Irei até Neflan interrogar esse humano pessoalmente. E você, elfo, fique escondido aqui nas Dunnas — não venha perturbar nosso rei. Harloc, prepare os Renegados e convoque a Black. Não há tempo para viagens longas: precisaremos dos portais dela para emboscar Epion antes que alcance Azhes.
Deitei cedo e levantei ao amanhecer para continuar a viagem. A vila ainda dormia; o silêncio denunciava que muitos haviam festejado até tarde. Preparei o cavalo e, para poupá-lo no longo percurso, decidi seguir parte do caminho a pé, guiando-o pelas rédeas. Ao sair de Ghuzilan, avistei as grandes tendas marrons do acampamento dos Orcsil, todas marcadas por símbolos indecifráveis, mas não havia sinal deles — talvez ainda dormissem. Segui pela estrada de calcário, com o rio à esquerda e uma floresta cerrada à direita. Havia animais por ali, potencial perigo, mas minha presença não os perturbou.
Depois de uma hora, alcancei uma bifurcação: um caminho seguia reto sobre a ponte que cruzava o rio; o outro descia para a floresta. Abri o mapa e franzi a testa — a bifurcação não constava; nele havia apenas um único traço até o descampado de Rastyre.
— Que estranho: essa bifurcação não aparece aqui.
Uma voz grossa e rouca respondeu atrás de mim.
— Desconheço esta região, mas o ar é mais puro pelo caminho que atravessa o rio.
Virei-me assustado e vi Damian sentado sobre um tronco caído, perto da margem.
— DAMIAN! — exclamei, surpreso e feliz por reencontrá-lo.
— Também não esperava revê-lo, Epion. Nós Orcsil seguimos os conselhos do nosso guia, Manon. — respondeu ele.
— Manon? Já ouvi esse nome... Damian, que fazes aqui? Vieste participar do festival do fogo em Ghuzilan? — aproximei-me.
— Esses viajantes da doutrina de Thuagan não me atraem, nem são guerreiros. Não vim por isso. Ainda não sei qual é o meu propósito, mas meu mestre acredita que teu destino esteja ligado ao meu. Então, ele me falou o dia e a hora que você passaria por aqui.
Antes que eu pudesse responder, uma voz feminina interrompeu-nos, distante e inesperada. Olhamos na direção do som e vimos algo impossível: no meio da correnteza, de pé sobre a água sem afundar, estava uma figura.
— É uma bruxa. Epion, fica atrás de mim! — Damian ergueu o báculo e posicionou-se na minha frente.
Reconheci a presença: Black, a serva de Síron que estivera nas catacumbas do império.
— Boa memória, humano. E tu, Orcsil, não seria sensato lutar nas condições em que te encontras. — falou a elfa sombria, com voz cortante. No mesmo instante, oito sombrios emergiram entre as árvores: estávamos cercados.
— Levo o máximo que puder comigo para os braços de Thuagan! — gritou Damian, irado, e eu preparei a espada; precisava defender-me.
— Eles não têm motivos para atacá-lo, Damian. Querem vingança contra mim pelo que aconteceu nas tumbas do império em Azhes.
— O garoto tem razão; não é preciso que você morra. Talvez nem seja necessário que você lute. Nosso líder Síron quer apenas falar com o humano. — explicou ela.
— Não posso vencê-los, Epion! — Damian soou derrotado.
— Você não precisa. Eu irei com eles. — respondi, decidido.
Damian parecia confuso; Manon não o teria enviado para ver-me capturado. Ainda assim, o confronto era desigual: alguns sombrios avançaram.
— Amarrem esse humano no próprio cavalo! — ordenou um deles.
Damian ficou imóvel, os olhos fixos nos meus; eu pude sentir o desespero vibrando da alma
dele. Antes de serem tomadas outras decisões, consegui sussurrar:
— Vai para Rorion e conte tudo a uma guerreira chamada Nepher. Você pode intervir!
Foram minhas últimas palavras antes de ser arrastado, montado no cavalo e conduzido floresta adentro pelos sombrios. Damian ficou parado na margem, olhando até que desaparecemos entre as árvores.
— Nepher... — murmurou ele, determinado, como se enfim tivesse reconhecido o rumo que deveria tomar.