A vida de Kael havia sido difícil desde o princípio, isso era inegável. Talvez por isso tenha se tornado um homem tão firme em seus propósitos.
Nascido em uma família simples de camponeses em um vilarejo pacato próximo a capital, havia crescido em meio a pobreza, simplicidade e trabalho árduo tão comum para todos da região.
Aos oito anos, viu seu pai marchar para uma guerra sem sentido, ordenada por reis estúpidos, por motivos idiotas. O pai prometeu que voltaria. Infelizmente, não voltou.
A mãe, por sua vez, trabalhou dobrado para sustentar a pequena casa que tinham e garantir que Kael não passasse fome. E foi por tamanho esforço que ela acabou por adoecer. Kael tinha quinze anos quando ela se foi.
Se viu sozinho desde então, realizando pequenos trabalhos para sobreviver. Viu os anos passando e o ciclo repetitivo daquela vida pesando cada dia mais em sua mente.
Acordar, trabalhar, comer, dormir, repetir.
Os dias eram sempre os mesmos, exceto pela parte de "comer", essa por sua vez não se repetia todos os dias, e por muitas noites Kael adormecia com aquele vazio tão característico em seu estômago.
Foi quando viu aquele cartaz tão estranho e chamativo, pendurado na parede de avisos ao fundo da taverna local. O cartaz era colorido, com a ilustração de um leão no centro e um texto em fonte legível que se estendia pelas extremidades superior e inferior do papel.
"PROCURAMOS HOMENS E MULHERES AMBICIOSOS! UMA VIDA DE AVENTURA E RIQUEZAS LHE AGUARDA!"
Outra pessoa teria julgado aquilo como uma pegadinha, um golpe, talvez as duas coisas combinadas. Kael, entretanto, viu naquele cartaz uma chance de fugir daquela monotonia. Seja lá qual fosse o resultado dessa decisão, ele estava disposto a arriscar.
Com as poucas moedas que possuía, pagou passagem em uma carroça de transporte, seguindo viagem em direção ao local indicado no cartaz. Levou dois dias, e quando finalmente chegou à propriedade, já era fim de tarde.
Uma placa de madeira na beira da estrada, com o mesmo leão dourado do cartaz, indicava um caminho de chão batido dentre as árvores próximas, seguindo para o leste da estrada principal.
Tomando a pequena bolsa que carregava seus quase inexistentes pertences em mãos, Kael seguiu floresta adentro, com sua túnica se agarrando em pequenos galhos soltos e seus cabelos negros se desgrenhado com cada brisa cortante que soprava pelas copas das árvores.
Ao fim da estrada de chão batido, por fim, viu um enorme portão de madeira maciça se erguer. Muros ainda mais altos partiam dele em ambas as direções, circundando a propriedade que se escondia ali, em meio aquela densa floresta.
No centro do portão, uma estátua no formato da cabeça de um leão se projetava para além da madeira, feita completamente de ferro e pintada em tons de dourado. De sua boca, pendia uma corda grossa com uma esfera metálica na ponta.

Kael olhou em volta, suspirou fundo e caminhou até o portão, puxando a corda para baixo. Ela resistiu levemente, mas logo cedeu. Os olhos do leão, então, brilharam em um tom azulado, quase translúcido, tão similar aos olhos de Kael.
Uma voz metálica ressoou.
"Quem está aí?", questionou.
"Olá! Me chamo Kael", afirmou o rapaz, meio perplexo sobre como aquele mecanismo funcionava. Magia, presumiu. "Estou aqui a respeito de um cartaz que encontrei em uma taverna local. Dizia que procuravam por pessoas ambiciosas em busca de aventura e riquezas".
A voz do outro lado soltou um bufo descontente e entediado.
"Prisla, é outro dos seus", disse ao longe.
Com um baque, o portão começou a se abrir, movendo-se como uma peça única em direção ao interior da propriedade.
"Vá até a casa principal", concluiu a voz de forma irritada, antes de cessar, levando consigo ao brilho nos olhos do leão.
Kael seguiu em direção a casa principal, seus pés batendo contra a estrada de pedras encaixadas que guiava para as três construções dentro da propriedade.
Mais próximo ao portão ficava o estábulo, de onde alguns cavalos podiam ser vistos observando o caminhar de Kael enquanto ele avançava.
Escorado ao muro lateral, erguia-se o que Kael julgou ser um armazém ou depósito. Pela porta entreaberta, pôde ver prateleiras com caixas e afins, bem como a movimentação de alguém que trabalhava organizando-as.
A casa principal, por sua vez, era uma construção de dois andares. O primeiro, de pedra e o segundo, de madeira escura. O telhado era barro, com uma camada de palha por baixo. As aberturas eram de madeira maciça, tal qual a do portão e na entrada principal, versões menores da cabeça de leão adornavam o topo das portas duplas, que abriram-se rapidamente antes mesmo de Kael terminar de subir o breve lance de escadas.
Quem o recebeu foi uma garotinha...
Não, uma pequena mulher.
Um metro e trinta, talvez. Cabelo castanho-claro, cortado de forma bagunçada e curta. Uma pele bronzeada, coberta por uma túnica clara, amarrada à cintura com uma corda. Nos joelhos e cotovelos, vestia proteções feitas de couro. Nos pés, botas pequenas e apertadas, feitas de um material silencioso.
Olhos grandes e expressivos, orelhas largas e pontudas, um nariz pequeno e arrebitado e uma boca que parecia duas vezes maior do que o convencional, especialmente considerando o grande sorriso que esboçava.

"Aha! Eu sabia que meus cartazes surtiram efeito!", exclamou a gnoma. "A Krusha me deve mais dez moedas de prata! Hehehe!" riu, com as mãos na cintura, de forma triunfante.
...
Ela olhou para Kael, como se a ficha finalmente caísse.
"Oh, claro...", murmurou. "Bem-vindo à sede dos Leões Dourados! Meu nome é Prisla e é um grande prazer lhe receber! Como devo lhe chamar?"
"Kael...", respondeu. "Leões Dourados?"
"Sim! Somos uma guilda de aventureiros!", afirmou contente. "Realizamos trabalhos do norte ao sul do reino, sendo recompensados de maneira adequada por nossos esforços! Quase sempre...", murmurou ao final da frase.
Com um gesto exagerado, ela apontou para o interior da casa pertencente à guilda a qual fazia parte.
"Mas deixemos essa conversa pra depois, você deve estar cansado depois de sua viagem", afirmou. "Entre, vamos!"
Com a energia de sempre, a gnoma Prisla guiou Kael até uma sala aconchegante, ao lado da escada que levava ao segundo andar. Lá, o rapaz se aconchegou em um dos sofás confortáveis que preenchiam as paredes opostas do cômodo, separados por uma mesa de centro baixa e uma lareira de pedras, que queimava baixo mais ao fundo.
"Fique à vontade para servir-se", ela disse ao apontar para a garrafa de vinho e a bandeja de biscoitos sobre a mesa. "Vou buscar o chefe, aproveite para descansar um pouco!", e então partiu, subindo as escadas.
Meio correndo, meio andando, mas sempre barulhenta.
Kael serviu uma taça de vinho, sentindo o sabor encorpado descer pela garganta e aquecer seu peito. Saboreou alguns dos biscoitos e se recostou contra o sofá confortável, preso em pensamentos rápidos sobre aquele lugar tão peculiar.
Algum tempo depois, ouviu o som de passos na escada, e logo, três figuras se aproximaram dele.
Prisla vinha à frente, o sorriso bobo nos lábios e os olhos expressivos dançando entre Kael e os outros dois enquanto se aproximava.
Atrás dela, vinha um homem alto, na casa dos cinquenta. Cabelos grisalhos e penteados para trás, com uma barba farta que lhe adornava o rosto. Tinha um corpo robusto, com leve sobrepeso, trajado em uma túnica cor de terra que lhe caía até os pés. Nos dedos das mãos, que trazia de maneira relaxada sobre a barriga avantajada, Kael pôde notar anéis de ouro e prata, um deles com o tão recorrente leão.

Atrás dele, por sua vez, vinha uma figura muito mais marcante.
A mulher tinha mais de dois metros de altura, com uma pele verde musgo e olhos amarelados. Uma orc, sem dúvidas. Cabelos negros e volumosos desciam em ondas até o meio de suas costas, enquanto a armadura de peles que vestia, lutava para manter todo aquele excesso de músculos contido. Seus braços e coxas eram colossais, e o par de seios fartos pareciam querer pular para fora das amarras que os prendiam.

"Viram só?", questionou a gnoma. "Eu falei que meus cartazes funcionam", disse ao apontar para o rapaz. "Este é Kael, nosso mais recente ‘quase’ membro."
A orc percorreu Kael com olhos, antes de grunhir com desdém e sentar-se no sofá do lado oposto ao do rapaz, espalhando-se pelo móvel como se ele todo lhe pertencesse.
Talvez pertencesse.
O homem por sua vez, sentou-se no mesmo sofá que Kael, na ponta oposta, estendendo uma mão rugosa que Kael logo apertou.
"É bom lhe conhecer, rapaz", disse em um tom grave. "Me chamo Edmund Lionheart. Sou o fundador e líder dos Leões Dourados, nossa guilda de aventureiros para contrato."
Ele pegou uma taça e bebeu um pouco de vinho.
"A nossa companheira ali", apontou para a orc com a taça. "É Krusha, uma dos membros mais antigos dessa associação."
Krusha nem se deu ao trabalho de cumprimentar Kael, mantendo seus olhos nas chamas baixas da lareira.
"Enfim", prosseguiu Edmund. "Creio que tenha uma breve ideia do que fazemos aqui?"
"Bem, não exatamente."
"Como saberia?", questionou a orc. "Esses cartazes estúpidos não servem nem para passar a informação corretamente. Os últimos dois desavisados que vieram através deles não passavam de pesos mortos."
A gnoma se ofendeu.
"Meus 'cartazes estúpidos' trouxeram três possíveis membros para a guilda. Quantos vieram através dessa sua personalidade gentil, sua fedorenta cor de musgo?"
"Eu vou quebrar esse seu nariz arrebitado, sua nanica do cacete!", rugiu ao começar a se erguer do sofá, antes de ser cortada pela voz pesada de Edmund.
"Chega!", declarou. "Parecem duas crianças... Pelos deuses."
"Me desculpe", murmurou a gnoma, se retirando para um canto mais distante da sala.
A orc por sua vez apenas grunhiu e virou o rosto para o outro lado.
"Peço perdão", disse o homem ao coçar o nariz, próximo aos olhos. "Onde estávamos... Ah, sim!", bateu as mãos e voltou a atenção para Kael, que observava toda a situação meio perplexo com a dinâmica do grupo. "Aqui, fornecemos nossos serviços através de contratos. Lidamos com monstros, malfeitores, escoltas e até mesmo trabalhos menores quando necessário."
Ele passou as mãos adornadas pelos cabelos grisalhos e fitou o teto, bebendo um gole a mais da taça de vinho.
"Temos trabalhos para todos os tipos de pessoas e para todos os tipos de habilidades", resumiu ao voltar os olhos cansados para Kael. "O que importa, no fim, é se você está verdadeiramente disposto a se dedicar aos Leões Dourados."
Kael pensou por um breve instante.
"Não sei dizer ao certo o quão útil serei, mas estou disposto a tentar. A vida que eu levava… Já estou farto dela. Se houver uma chance de recomeçar, de fazer mais dessa minha existência simplória, estou disposto a dar meu máximo".
O homem sorriu.
"Ambição e força de vontade", deu um leve tapa contra o ombro do rapaz. "É um ótimo começo. Agora me diga, quais habilidades têm a oferecer?"
"No que diz respeito à experiência de combate, sou novato", admitiu. "Mas tenho um corpo forte e estou pronto para aprender, se estiverem dispostos a me ensinar."
"É perda de tempo", resmungou a orc.
"Não seja tão impulsiva, Krusha. Ele tem esse brilho no olhar, já é mais que a maioria", levou a taça até a mesa e se levantou. "Faça os testes com o rapaz, vejamos com o que estamos lidando, sim?"
"Se você insiste...", a orc levantou-se como uma muralha à frente de Kael e com um gesto brusco, apontou com o queixo para que ele a seguisse. "Caminhe, humano."
Deixaram os outros para trás, enquanto avançavam pelo corredor iluminado a tochas. Conforme a orc caminhava à sua frente, Kael não pôde deixar de observar a montanha de músculos que formavam seu corpo, em especial suas nádegas volumosas, que contraíam e relaxavam a cada passo.
"Espero que não esteja olhando para minha bunda, humano. Odiaria ter que arrancar essa sua piroquinha e dar para os cães comerem", riu. "Na verdade, não odiaria não".
"E-eu não estava olhando", mentiu.
"Então continue assim."
"Posso saber onde estamos indo?"
"Não ouviu o velhote? Vamos fazer alguns testes", disse ao parar em frente a uma porta alta de madeira.
Lá dentro, foram recebidos por um cômodo amplo, com bonecos de treino, feitos de madeira e acolchoados com palha. Nas paredes próximas à porta, estantes se erguiam até o teto, repletas de livros.
Krusha foi até uma mesa próxima a uma das estantes e sentou-se sobre ela, a madeira rangendo com o peso.
Ela apontou para uma runa desenhada no chão; um círculo com marcas estranhas no centro.
"Tire as roupas e entre no círculo", comandou.
Kael ficou meio perdido por um tempo.
O que ela havia dito?
Krusha revirou os olhos, entediada. Soltando um bufo, apontou novamente, dessa vez falando de forma lenta e pausada.
"Tire as roupas. Entre no círculo."
Era um pedido inesperado, mas dada as circunstâncias, Kael resolveu consentir. Já havia vindo até ali, desistir de um possível recomeço por algo tão simplório não lhe parecia correto.
Removeu a túnica primeiro.
Não tinha uma montanha de músculos feito Krusha, mas os anos de trabalho braçal haviam lhe conferido um visual atlético.
Colocou as botas ao lado da porta, desfazendo por fim o nó que segurava suas calças puídas, antes de abaixá-las juntamente com a roupa íntima.
O olhar amarelado da orc percorreu seu corpo da cabeça aos pés, voltando naturalmente até o seu pênis, antes de dar uma risada desacreditada.
"Pelo menos nesse departamento você está acima da média."
"Estou?"
"Bem, para um humano, está", afirmou, gesticulando com a mão, como alguém que quer encerrar logo o assunto. "Pise na runa."
Kael caminhou até o círculo, pisando em seu interior. As runas brilharam em tons alaranjados, e logo uma corrente de energia fluiu por todo seu corpo.
Sua visão tomou um tom azul, enquanto seus músculos se contraíram e relaxaram diversas vezes. Sua mente pareceu receber uma enxurrada de informações e quando se deu por si, foi arremessado para trás por uma força invisível.
"Mas que porra...", tossiu.
A orc se aproximou, os olhos fixos no peito do rapaz, que por instinto levou a visão para o mesmo ponto.
Lá, uma runa brilhava em um tom azul, oscilando por alguns segundos antes de desaparecer completamente.
"O que caralhos é isso?!"
"Fale baixo, humano", disse a orc ao arremessar as calças de Kael sobre ele. "E cubra essa piroca."
A orc caminhou até um suporte, onde um maço de papéis descansava. Na folha mais à frente, um texto começou a se escrever de forma mágica. Quando terminou, ela tomou o papel em mãos e leu o conteúdo.
"Interessante", revelou, levando os olhos até Kael, que agora terminava de se vestir.
"O que?"
"Essa runa injeta magia no corpo de quem pisa nela, e posteriormente usa essa magia para analisar uma variedade de atributos, dando notas de 1 a 10."
Ela lê novamente o papel.
"Físico 8, bom. Bem acima da média, especialmente para um humano sem experiência em combate. Eu sou um 10, se tiver alguma dúvida."
Ótimo, pensou Kael.
"Intelecto 6. Levemente acima da média, nada demais. Não é inteligente, mas também não é um completo imbecil. Sabe ler e falar devidamente. Eu tenho um 6 também."
Parece certo.
"Reserva Mágica, ou Mana, 3. É um valor baixo, mas levando em consideração sua reação, acredito que você nem sabia que tinha magia nessas suas veias", ela dá um leve bufo irritado. "Nessa aqui você me venceu. Eu tenho um 0."
Magia? Ele tinha ouvido direito?
"Por último, afinidade elemental. A sua é o raio. Todos têm uma afinidade elemental, a minha por exemplo é a pedra. Esses elementos se manifestam de maneiras diversas nos corpos e mentes das pessoas, mas são especialmente importantes para os magos. O que é o seu caso."
Kael engoliu em seco, era tanta informação que estava um pouco atônito.
"Eu tenho magia...?"
"Sim e não. Você tem uma reserva de mana, embora pequena. Ela pode ser aumentada com o tempo, bem como os outros atributos, desde que você treine para isso."
"O que isso tudo significa, então?"
Ela dá um sorriso de canto de boca.
"Significa que você não é tão inútil assim", com o papel em mãos ela foi até a porta, abrindo-a. "Vou levar esses resultados para o velhote, você deveria aproveitar para descansar, já está tarde."
Ela olhou para além da janela na parede mais distante, onde o céu da tarde já havia dado espaço para o anoitecer.
"Procure a nanica, ela vai te arrumar um lugar para dormir. O velhote pode falar com você pela manhã."
Saindo da sala, a voz dela ecoou uma última vez enquanto se afastava.
"Tente não morrer tão cedo, humano."
"Ah... Okay?"
E ali ficou Kael, digerindo toda aquela informação.
Pouco depois saiu da sala e rumou para o local onde havia visto Prisla por último, lá foi recebido com entusiasmo pela pequena gnoma que rapidamente o guiou para um dos quartos vagos, o acomodando para a noite.
Nas horas que se sucederam, Kael ficou preso em seus pensamentos. A possibilidade de um recomeço para sua vida sem perspectiva era um deleite; E a ideia de ter magia correndo em suas veias o deixava ainda mais animado.
Quando se deu por si, estava adormecendo.
Havia muito tempo que ele não sabia o que era desejar que o próximo dia chegasse depressa, como agora.
•••