Dizem que existem dias que mudam o destino de uma pessoa. Dias comuns, em que o céu está limpo, o sol nasce normalmente e nada parece diferente. Mas, às vezes, é exatamente nesses dias tranquilos que o destino de alguém muda de forma inesperada.
Era de manhã no Japão. Naquela manhã, tudo parecia perfeitamente normal: o céu estava limpo, sem uma única nuvem, a brisa de verão passava pelas ruas movimentadas, e o som distante de carros e conversas preenchia o ambiente.
Entre a multidão estava um jovem chamado Kurokami Akihiro, um estudante do ensino médio. Ele era o tipo de cara que sempre parava para ajudar, mesmo quando ninguém faria o mesmo. Ajudava os outros sem pedir nada em troca.
Era um menino de bom coração, que se esforçava nos estudos e, todos os dias, seguia a mesma rotina de sempre: acordar atrasado, trabalhar meio período, correr para a escola e tentar sobreviver às provas.
Além disso, morava sozinho e precisava se sustentar. Para quem olhasse de fora, ele parecia apenas mais um garoto de dezoito anos tentando equilibrar as responsabilidades da vida e os estudos. Mas havia algo que ninguém sabia, um segredo que ele nunca havia revelado a ninguém.
Era segunda-feira, e as férias de verão haviam chegado ao fim. A rotina escolar em Tóquio estava prestes a recomeçar, a começar pelo som irritante do despertador quebrando o silêncio do apartamento.
“PI PI PI PI!”
O alarme tocou às seis da manhã.
Akihiro abriu os olhos lentamente e se levantou da cama. Permaneceu sentado em silêncio por alguns instantes, olhando para a janela. O sol ainda estava nascendo, e a luz suave da manhã começava a iluminar o quarto.

Então, soltou um suspiro.
— Hoje começam as aulas...
O jovem já estava no terceiro ano do ensino médio e havia completado dezoito anos durante as férias de verão. Morava sozinho e, para se sustentar, trabalhava meio período em um pequeno comércio próximo de sua casa. Ele frequentava o Colégio Estadual de Tóquio, uma instituição comum quando comparada às de elite espalhadas pela cidade.
Com o fim das férias de verão, precisava se preparar para o retorno à rotina escolar. Após se levantar da cama, caminhou lentamente até a janela e afastou a cortina. O céu estava azul, os prédios podiam ser vistos ao longe, e uma brisa suave entrou pela janela aberta, balançando seus cabelos.
— E, como sempre, minhas férias de verão não tiveram nada de especial... Não me lembro da última vez que tive férias assim. — Permaneceu observando a paisagem por alguns instantes antes de soltar outro suspiro. — Bom, melhor eu me arrumar, senão vou me atrasar.
Afastando-se da janela, seguiu para o banheiro. Depois de escovar os dentes e tomar um banho rápido, voltou para o quarto, vestiu cuidadosamente o uniforme e arrumou os cabelos pretos diante do espelho. Em seguida, foi até a pequena cozinha do apartamento e preparou um café da manhã simples: algumas torradas e uma xícara de café. Morando sozinho, já estava acostumado a cuidar de tudo por conta própria.
Depois de terminar a refeição, pegou a mochila que havia organizado na noite anterior. Ao conferir o horário no celular, percebeu que já estava na hora de sair.
— Estou pronto. É melhor eu ir. — Com essas palavras, saiu do apartamento e seguiu em direção ao ponto de ônibus.
Akihiro iniciou o caminho de sempre em direção ao colégio. As ruas já estavam movimentadas: trabalhadores seguiam para seus empregos, estudantes caminhavam em grupos e as lojas começavam a abrir suas portas.
Enquanto caminhava, mantinha as mãos nos bolsos e o olhar meio perdido. Seu rosto carregava uma expressão cansada, muito diferente do sorriso que costumava mostrar diante dos outros.
“Todo ano é a mesma coisa...”
O início das aulas, novos objetivos, novas promessas e, no final, tudo acabava igual. Observou as pessoas ao seu redor. Todos pareciam seguir em frente, todos pareciam ter algum lugar ao qual pertenciam. Desviou o olhar.
“Talvez eu esteja pensando demais logo de manhã.”
Pouco adiante, percebeu uma senhora parada próxima à faixa de pedestres. Os carros passavam sem parar, então se aproximou.
— A senhora gostaria de atravessar?
— Oh? Sim, por favor. — A senhora respondeu com
um pequeno sorriso, parecendo aliviada com a ajuda.

Ele a acompanhou até o outro lado da rua.
— Muito obrigada, jovem.
— Não foi nada. — Um sorriso sincero surgiu em seu rosto enquanto observava a senhora seguir seu caminho.
Colocando as mãos nos bolsos novamente, ele retomou os próprios passos. Pouco tempo depois, embarcou no ônibus que o levaria até o colégio. Sentou-se próximo à janela e ficou observando a paisagem urbana passar lentamente diante de seus olhos. Prédios, semáforos e pessoas preenchiam as ruas; tudo parecia tão comum, tão repetitivo que, sem perceber, soltou um pequeno suspiro.
Talvez suas férias não tenham sido especiais mais uma vez, mas pensando bem, sua vida inteira, inclusive elas, nunca havia sido realmente especial.

"Quando o ônibus chegou ao destino, desceu e seguiu em frente; em poucos minutos, o enorme portão do colégio apareceu à sua frente.”
Ele parou por um instante, observando o ambiente à sua volta. Diversos alunos conversavam animadamente enquanto atravessavam os portões. Alguns reencontraram seus amigos, enquanto outros comentavam sobre as férias de verão. Ele apenas observava aquela cena em silêncio.
Mais um ano. Mais uma rotina. Mais dias iguais aos anteriores.
— Bom... vamos lá, mais um ano.
Mal deu alguns passos à frente e uma voz familiar chamou-lhe a atenção.
— Ei, Akihiro!
Virou o rosto: era Kaito, acenando com um sorriso largo. Ao seu lado, Shiro e Haruki também faziam o mesmo.
— Bom dia. — Haruki cumprimentou-o com aquele sorriso calmo de sempre.
Sem notar, seu semblante suavizou de vez e um sorriso brotou-lhe nos lábios.
— Bom dia, pessoal!
— Até que enfim apareceu. — Shiro cruzou os braços, arredando preocupação. — Já estava começando a crer que tinha se perdido no trajeto.
— Moro aqui há anos; difícil seria se perdesse. — Deixou escapar uma risada breve.
— Não subestimem a arte de inventar pretextos esquisitos que é a especialidade do Shiro. — Kaito não segurou a língua.
— Ei! Só estava preocupado com o nosso amigo, oras.
— Claro, claro. — O tom irônico voou direto a ele.
— Que crueldade com a minha pessoa! — O moreno levou a mão ao peito e fez beiço, como se tivesse sofrido uma ofensa das profundezas.
— É o que merece. — Haruki cortou-lhe o caminho, sem dó nem piedade.
Todos caíram na gargalhada; por um instante, uma leveza gostosa pairou sobre eles.
— Então... prontos para o nosso último ano? — indagou Akihiro, avançando um pouco.
— Nem me fale disso. — Shiro passou a mão pela testa. — Quanto mais perto da formatura, mais o povo só fala em futuro.
— E com razão. — Haruki ponderou serenamente.
— Sei lá, acho importante sim... O que cansa é ter que bater nessa tecla toda santa hora. — Murmurou de cabeça baixa. — Cansa, sabe?
— Diz isso, mas na prática nunca decide nada. — Akihiro desviou o olhar, sorrindo de canto.
— Traição! — Apontou o dedo em riste para ele.
— É o que penso também. — Kaito concordou com um movimento de cabeça.
— DUPLA TRAIÇÃO! — Explodiu, chocado, apontando alternadamente para os dois.
— Melhor irmos entrando; a cerimônia de abertura já deve estar para começar.
— Tem toda a razão. — Haruki aquiesceu e pôs-se a caminhar rumo à entrada.
Os quatro atravessaram os portões do Colégio Estadual de Tóquio e seguiram pelos corredores movimentados. Alunos de diferentes turmas caminhavam de um lado para o outro, conversando animadamente após o fim das férias.
Sem perder tempo, o grupo se dirigiu ao pátio central da escola, onde a solenidade de abertura do novo semestre seria realizada; as filas já estavam sendo organizadas pelos professores.
— Parece que chegamos na hora certa. — Akihiro soltou, aliviado.
— Por pouco. — Shiro completou, olhando para o céu já quase totalmente escuro.
Os quatro tomaram seus lugares junto aos demais estudantes enquanto aguardavam o início do evento. Pouco a pouco, o burburinho foi diminuindo; logo, o diretor subiu ao palco improvisado na frente do pátio. A solenidade durou cerca de cinquenta minutos.
Pouco depois do término, Akihiro e os outros chegaram à sala onde aconteceria a primeira aula do novo ciclo letivo; por sorte, o grupo observou o cartaz afixado na parede.
Turma 3‑A. O grupo observava o cartaz afixado na parede.
— Parece que a sorte finalmente resolveu ajudar a gente — comentou Kaito, com um sorriso largo.
— Pode crer — respondeu o loiro, cruzando os braços. — Dito isso, vocês vão ter que me aguentar este ano.
Akihiro suspirou, ajeitando os óculos no rosto:
— Como se tivéssemos escolha, Haruki.
— Deixem de drama, vocês me amam — Shiro intrometeu-se na conversa, rindo e empurrando os amigos de leve para dentro da sala.
Os quatro ocuparam suas carteiras e no primeiro dia, os alunos começaram a entrar; vozes e risadas preenchiam o ambiente. Akihiro caminhou até o fundo e ocupou uma carteira próxima à janela. Ao seu lado estava Kurotsuki Nagisa, uma das poucas pessoas com quem conseguia interagir com tranquilidade desde o segundo ano.
Apoiou o rosto na mão e observou a turma: uns relembravam as férias, outros já discutiam vestibulares, universidades e planos para o futuro. Havia algo de estranho naquilo, parecia que todos sabiam o caminho a seguir, exceto ele.
Seu olhar voltou‑se para fora: o céu mantinha o mesmo tom azul límpido da manhã. Se alguém perguntasse quem era Akihiro Kurokami, ouviria sempre o mesmo: bom aluno, educado, responsável, alguém em quem se pode confiar.
Mas ninguém via o que vinha por trás dessa imagem: noites estudando até tarde, movimentos repetidos milhares de vezes, uma rotina rigorosa que construíram sozinho. Não havia talento especial ali; apenas dedicação, o esforço diário de quem tenta acompanhar aqueles que parecem já ter todas as vantagens de partida. Um sorriso tênue surgiu em seus lábios.
Talvez fosse por isso que gostava tanto de light novels, mangás e animes: nelas, pessoas absolutamente comuns podiam encontrar seu lugar, seu valor, alguém que as escolhesse. A vida real, porém, seguia caminhos bem mais imprevisíveis. Antes que se perdesse ainda mais nessas reflexões, uma voz suave o chamou de volta. Virou‑se imediatamente: era Nagisa.
— Você está pensando demais de novo, não está?
Akihiro piscou algumas vezes enquanto a encarava, Nagisa o observava com uma expressão tranquila, como se já soubesse exatamente o que estava passando pela sua cabeça, e então Akihiro a respondeu:
— Eu não estava pensando tanto assim.
— Estava, sim.
— Como você sabe?
— Porque você faz essa cara toda vez.
— Que cara?
— A cara de quem está tentando resolver todos os problemas do mundo sozinho.
Akihiro soltou uma pequena risada.
— Essa foi específica demais.
— Eu sou observadora.
— Ou intrometida.
— Também.
Nagisa apoiou o queixo sobre a mão e observou os alunos que conversavam pela sala. Depois de alguns segundos, voltou sua atenção para o amigo.
— Então... o que estava passando pela sua cabeça dessa vez?
— Nada importante. — Desviou o olhar para a janela.
— Mentira.
— Você nem me deixou responder.
— Porque eu te conheço.
Às vezes, era difícil esconder qualquer coisa dela.
— Eu só estava pensando no futuro. — Um suspiro escapou.
— Universidade?
— Talvez.
— E isso te preocupa?
— Talvez um pouco.
Nagisa permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de falar:
— Sabe... Eu acho que você se preocupa demais com coisas que ainda nem aconteceram.
— É fácil falar.
— É mesmo. — Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto. — Mas você sempre dá um jeito de resolver as coisas.
Akihiro a encarou por alguns segundos.
— Você tem muita confiança em mim, sabia? Até demais, na verdade.
Ela não respondeu imediatamente. Nagisa então desviou o olhar, apontou discretamente para a frente da sala e completou:
— Além disso, acho que deveria aproveitar mais o presente.
— Por que você diz isso?
— Porque é o nosso último ano do ensino médio.
Akihiro acompanhou o olhar dela. Os alunos conversavam animadamente pela sala, criando uma atmosfera familiar. Era uma cena comum, algo que presenciava praticamente todos os dias, mas, naquele momento, as palavras de Nagisa fizeram aquilo parecer um pouco diferente.
— É... Acho que você tem razão.
— Claro que tenho. Eu sempre tenho. — Um sorriso sincero surgiu no rosto de Nagisa.
— Essa confiança toda devia ser crime.
— Inveja não fica bonita em você.
— Agora você está exagerando.
Antes que Nagisa pudesse responder, a porta da sala se abriu. Uma mulher de cabelos castanhos escuros entrou carregando livros, uma pasta e uma pilha pesada de documentos. Ela caminhou até a mesa principal e observou a turma enquanto o burburinho dos alunos diminuía pouco a pouco, até sumir completamente. Conforme todos ocupavam seus lugares, o primeiro dia de aula estava oficialmente prestes a começar.
— Bom dia, turma.
— Bom dia! — responderam em uníssono.
A mulher sorriu levemente.
— Meu nome é Aiko Fujimura. Serei a professora responsável por esta turma durante o ano letivo e espero que possamos nos dar bem.
Ela pegou um marcador e escreveu seu nome no quadro em letras garrafais.
— Como é o primeiro dia, não vou começar pegando pesado com vocês, mas não confundam isso com falta de exigência.
Alguns alunos soltaram risadas nervosas.
— Afinal... — continuou ela —, vocês estão no terceiro ano. Este é um período importante para o futuro de todos.
A professora explicou as regras da turma, os eventos escolares e o cronograma do primeiro semestre. Em seguida, deu início à aula normalmente.
Akihiro apoiou o cotovelo sobre a mesa e começou a fazer anotações. O conteúdo ainda era simples, nada que exigisse muito esforço de sua parte. O som do marcador deslizando pelo quadro branco ecoava pelo silêncio da sala, até que uma sensação estranha percorreu seu corpo.
Era familiar. Por algum motivo, ele tinha a impressão de estar sendo observado. Desviou os olhos do caderno e olhou ao redor, tentando descobrir de onde vinha aquela sensação, até que percebeu.
Nagisa o encarava diretamente, mantendo os olhos fixos nele por alguns segundos.
— Hum? — Akihiro piscou, sem entender.
Ao perceber que havia sido descoberta, Nagisa virou o rosto depressa para a frente. Ele a observou por alguns instantes e, depois, voltou a atenção para o caderno.
Provavelmente não era nada. Talvez ela estivesse apenas distraída, olhando para a janela ou pensando em alguma coisa. De qualquer forma, não parecia importante, e a aula seguiu normalmente.
Mas, alguns minutos depois...
Ela voltou a olhar para ele. Dessa vez, manteve os olhos fixos por mais tempo, como se tentasse decifrar alguma coisa.
Akihiro ergueu uma sobrancelha.
— Tem algo no meu rosto, Nagisa?
— Não... — Ela desviou o olhar de repente, enquanto um leve rubor tomava conta de suas bochechas.
— Então por que fica me encarando?
— Não estou te encarando.
— Está, sim.
— Não estou.
— Está.
— Não estou!
— Tá bom, então, se você insiste tanto. — Akihiro soltou uma risada baixa.
Nagisa cruzou os braços e virou-se um pouco de costas. Segundos depois, lançou-lhe um rápido olhar meio sutil. Ele percebeu, mas decidiu não comentar.
O dia letivo passou voando entre apresentações de professores, anotações de matérias e cochichos sobre o vestibular. Quando o sinal tocou, anunciando o término das aulas, os alunos começaram a arrumar os materiais para ir embora.
— O pessoal já me espera. Melhor eu ir andando.
Ele já estava na porta quando uma voz o chamou.
— Akihiro... espera um pouco.
Nagisa aproximou-se, fazendo-o se virar para ela. A sala estava quase vazia, e o silêncio tornava o ambiente ainda mais carregado.
— Aconteceu alguma coisa? — Franziu levemente a testa.
Ela hesitou por alguns instantes, pesando cada palavra antes de dizê-la.
— Preciso falar de uma coisa... É sobre aqueles três com quem você anda.
Manteve-se firme, sem recuar um passo.
— O que têm eles? — A confusão aumentou em seu olhar.
— Você confia muito neles, não é mesmo?
— Claro. São meus amigos. Mas por que essa pergunta agora?
— Não tenho certeza se são realmente como você imagina... — Respirou fundo, como se as palavras pesassem. — Ouvimos dizer que se envolvem em coisas erradas, principalmente com alunos mais novos.
— Isso não faz sentido.
Os dedos apertaram com força a alça da mochila.
— Não estou inventando! É o que todos comentam! — Bateu o pé levemente no chão, nervosa.
— Está enganada.
A voz saiu mais alta do que pretendia, ecoando pelas paredes vazias.
— Eles foram os únicos que vieram falar comigo... quando eu não conhecia ninguém. — Baixou o tom, quase em um murmúrio. — Então, não... não seriam capazes disso.
Nagisa permaneceu calada por um instante. Percebeu como o olhar dele, por trás das lentes, perdeu a firmeza por um breve momento.
— Não sei tudo o que você passou... — falou mais suavemente, mantendo a cabeça baixa antes de erguê-la devagar. — Mas nota-se que carrega uma carga muito pesada sozinho... Isso transparece em você.
Ele não respondeu. Apenas virou ligeiramente de lado, mantendo o corpo tenso.
— Só não quero que se machuque. — Deu um passo para trás, os ombros parecendo mais caídos. — Por favor... tome cuidado.
Ela saiu devagar da sala.
Akihiro permaneceu ali por alguns instantes, teimoso demais para dar crédito às palavras dela. No entanto, aquela conversa havia deixado uma sensação incômoda em sua mente. Ainda assim, logo afastou os pensamentos e seguiu seu caminho para encontrar os amigos.
Encontrou-os já na porta principal; o céu escurecia cada vez mais.
— Parece que vai começar a chover. — Ele ergueu o rosto para as nuvens pesadas.
Um primeiro pingo atingiu o chão.
Ploc.
Depois outro.
Ploc... ploc.
Em poucos instantes, a chuva desabou de vez. Começou fina, mas ganhou força a cada minuto. Os alunos apressaram o passo pela calçada; alguns abrem guarda-chuvas, enquanto outros ergueram as mochilas sobre a cabeça para se proteger. A água batia no asfalto e espalhava pelo ar aquele cheiro característico e intenso de terra molhada.
— Estranho... Não havia nenhuma previsão de chuva para hoje! — Shiro observava as gotas escorrendo ao redor enquanto caminhava ao lado dos amigos.
— Pois é... Também estou surpreso, mas logo deve passar. Não costuma chover assim por aqui nesta época. — Akihiro ergueu o rosto em direção às nuvens pesadas.
— É verdade mesmo. — Shiro concordou, voltando o olhar para a rua adiante.
Haruki enfiou as mãos nos bolsos e entrou na conversa:
— As aulas já voltaram. Acho melhor ir se acostumando, o ano só começou.
— Nem me fala... Quero acabar logo o ensino médio para prestar vestibular. — Um sorriso leve apareceu nos lábios de Akihiro ao imaginar o que viria pela frente.
Kaito resolveu dar sua opinião:
— É um caminho longo. O jeito é dar o nosso melhor para chegar lá.
— Com certeza. — Akihiro balançou a cabeça.
— Pois é. — Haruki concordou e apoiou a mão em seu ombro.
Seguiam conversando tranquilamente quando algo chamou a atenção de Akihiro: um som baixo e distante.
Tin... Tin... Tin... Tin... Tin...
Ele diminuiu o ritmo por um instante.
“O que é isso...? Sinos?”
Franziu a testa, tentando localizar a origem.
“Deve ser cansaço... Estou começando a ouvir coisas.”
Recomeçou a andar junto aos amigos, mas o som voltou a soar, agora mais nítido:
Tin... Tin... Tin... Tin...
— Ah... De novo! — Akihiro lançou um olhar desconfiado ao redor antes de chamar a atenção dos amigos. — Pessoal... vocês estão ouvindo um barulho de sino?
— Barulho de sino? — Shiro ergueu uma sobrancelha e permaneceu em silêncio por alguns segundos, tentando ouvir algo além do som da chuva. — Não estou ouvindo nada.
— Eu também não. — Haruki olhou para os dois lados da rua, mas não encontrou nada que pudesse produzir aquele som.
— Você está bem, Akihiro? — Kaito diminuiu o passo e encarou o amigo com preocupação.
— Estou bem, mas vocês têm certeza de que não estão ouvindo um sino tocando? Olhem... Quer dizer, escutem de novo.
Tin... Tin...
Kaito permaneceu em silêncio, concentrando-se no som que ecoava ao redor.
— Espera... Agora que estou prestando mais atenção, você tem razão. Também estou ouvindo um barulho de sino. — A expressão de curiosidade em seu rosto logo deu lugar à confusão.
— Você está certo, Kaito. Agora também consigo ouvir. — Shiro olhou de um lado para o outro, tentando encontrar a origem do som. — Mas que barulho é esse? De onde ele está vindo?
A chuva aumentou de repente.
SHHHHHHH...
— Gente... Não estou gostando nada disso. — Os olhos de Akihiro se arregalaram enquanto observava os arredores.
Não havia templos por perto.
Nenhuma igreja.
Nenhuma torre de sino.
Ainda assim, o som continuava.
Tin... Tin... Tin...
Parecia estar próximo.
Cada vez mais próximo.
Perto demais.
Akihiro abaixou o olhar. Linhas de luz começaram a surgir lentamente sobre o asfalto molhado, espalhando-se em padrões complexos, semelhantes às raízes de uma enorme árvore. Símbolos desconhecidos apareceram entre aquelas linhas, formando desenhos que nenhum deles conseguia reconhecer.

A estranha luz continuou se espalhando. O círculo mágico que surgia sob os pés dos quatro brilhava cada vez mais intensamente, iluminando a rua e refletindo-se sobre a água acumulada no chão.
O coração do jovem acelerou.
— O que é isso?! — Recuou um passo, mas as linhas luminosas continuaram avançando sob seus pés.
— Mas que merda é essa?! — Kaito arregalou os olhos enquanto observava os símbolos brilhantes se espalharem pelo asfalto.
— O que está acontecendo?! — Haruki girou o corpo, procurando alguma explicação ao redor.
Os quatro começaram a entrar em pânico. A luz ficou ainda mais forte, tão intensa que se tornou impossível manter os olhos abertos.
Então, um enorme pilar de luz surgiu do círculo mágico que os envolvia.
O corpo de Akihiro ficou leve, como se uma força invisível o estivesse puxando para algum lugar.
— Pessoal…!
Antes que pudesse terminar a frase, sua consciência desapareceu.
Akihiro abriu os olhos lentamente. Sua visão estava embaçada e a cabeça girava. Por alguns segundos, não conseguiu entender o que estava acontecendo, mas então percebeu: aquelas não eram as ruas do Japão.
Seu corpo congelou. Colunas gigantescas sustentavam um teto extremamente alto; bandeiras vermelhas e douradas decoravam as paredes, e cavaleiros usando armaduras completas estavam posicionados ao redor do salão. No final daquele enorme ambiente, havia um trono — e sentado nele, um homem de aparência imponente.
Akihiro sentiu um arrepio percorrer seu corpo.
— Aonde...? — Ele se levantou rapidamente. — Aonde estamos...? Que lugar é esse?
Foi então que se lembrou da luz, do círculo mágico, da conversa na calçada.
— Espera... — Seus olhos se arregalaram. — Pessoal!
Akihiro olhou para o lado e encontrou Kaito, Shiro e Haruki próximos dele. Os três também pareciam confusos, observando o enorme salão ao redor como se tentassem entender o que havia acabado de acontecer.
— Vocês estão bem?! — perguntou, aproximando-se dos amigos.
— Sim... Eu acho. — Kaito levou uma das mãos à cabeça, ainda tentando compreender a situação. — Mas não faço ideia de onde estamos.
Haruki permaneceu em silêncio por alguns instantes, analisando os arredores. Seu rosto estava mais sério do que o normal enquanto observava as enormes paredes, as colunas e as pessoas que os cercavam.
— Definitivamente, não estamos mais no Japão.
Kaito fechou os punhos e lançou um olhar irritado para o salão.
— Que diabos aconteceu?
O silêncio tomou conta do lugar. Os quatro permaneceram atentos, tentando encontrar alguma explicação, até que o homem sentado no trono se levantou lentamente. O movimento foi suficiente para atrair todos os olhares, e, por alguns segundos, ninguém ousou dizer uma palavra.
— Sejam bem-vindos, herois. — A voz forte e calma percorreu todo o salão, rompendo o silêncio.
— Heróis…? — Shiro repetiu, a confusão crescendo em seu olhar.
O soberano levou a mão ao peito e fez uma reverência breve.
— Antes de tudo, apresento-me: sou Kael Lularis, décimo primeiro rei do Reino de Lularis.
— Um rei…? — A palavra saiu baixa da boca de Akihiro, quase um sussurro. — Um rei de verdade? — A descrença era nítida em cada traço seu.
O rei concordou lentamente, o semblante tornando-se sério de imediato.
— E trago um pedido: salvem nosso mundo da tragédia que se aproxima.
Nenhuma voz se ouviu por instantes.
— Espera um pouco. — Haruki ergueu a mão devagar. — É informação demais de uma vez. Fomos invocados para outro mundo? E agora somos heróis?
Uma lembrança passou na cabeça de Akihiro: tantas histórias e jogos que conhecia… era exatamente aquilo.
Foi aí que Kaito, sem conter a indignação, ergueu o tom de voz:
— Que história é essa?! Tiraram-nos de casa sem perguntar nada e já querem favores? Nos devolvam agora! Agora mesmo! — As palavras saíram cheias de revolta.
O ar pareceu pesar. Os guardas trocaram olhares tensos.
— Infelizmente… isso não é possível. — O soberano baixou o olhar, profundamente pesaroso.
— Como assim não pode?! — Kaito deu um passo à frente, com os punhos cerrados. — Deve ser brincadeira!
Ele avançou mais um pouco e, de imediato, várias lâminas desembainharam-se com um tinido metálico, todas voltadas para o peito dele.
— Pare aí mesmo!
— Não chegue mais perto do Rei!
Kaito parou como se tivesse batido em uma parede.
— Guardas, guardem as armas. — A ordem do rei foi seca, mas serena. — Eles são nossos convidados.
Ao ver os soldados recolherem as espadas, o monarca curvou-se profundamente diante dos jovens.
— Sei que é imperdoável o que fizemos: afastá-los de tudo o que conhecem. Mas não havia outra saída. Vocês são os Heróis da Profecia — os únicos capazes de nos defender.
Todos ficaram atônitos.
— Não me interessa esse lugar! — O impulso de Kaito ainda falava mais alto. — Quero apenas voltar para casa!
Shiro aproximou-se devagar do amigo, tentando conter a situação.
— Tente se acalmar, Kaito.
— Como?! — Ele virou-se de um lado ao outro, sem conter a fúria. — Fomos arrancados sem explicação e agora dizem que não há volta!
Haruki juntou-se a eles.
— Perder a calma não resolve nada. — Sua voz saiu firme, mas mansa. — O Shiro tem razão: temos de entender primeiro o que está se passando.
Um longo suspiro saiu do peito de Akihiro.
— Concordo. Ninguém aqui pediu isso, mas estamos todos juntos nessa.
— Exato. — Haruki manteve o contato visual com o grupo. — Ninguém fica para trás.
Aos poucos, os ombros tensos de Kaito baixaram. A raiva ainda estava ali, mas deu espaço à razão.
— …Está bem. — Murmurou por fim.
O silêncio voltou a reinar no salão. O rei ergueu o rosto devagar, olhando para os quatro rapazes.
— Então... ouvirão o que tenho a dizer?
Um longo suspiro escapou antes que Kaito voltasse a encará-lo com os braços cruzados.
— Tá. Fale logo.
A expressão de Kael tornou-se pesada, como se estivesse prestes a revelar algo terrível — um segredo mantido oculto por séculos.
— Duzentos anos atrás, houve uma guerra. Uma guerra tão grande que mudou a face deste mundo para sempre. Naquela época, existiam seres que hoje restam apenas nas lendas: deuses e demônios. Muitos detalhes se perderam com o passar dos séculos, mas uma verdade permaneceu intacta: eles entraram em conflito, e o mundo inteiro pagou o preço. Ao fim daquele confronto, o então chamado Rei Demônio, Zarath, foi derrotado.
Ele fez uma pausa, deixando o peso das palavras no ar, antes de continuar:
— Mas sua queda não veio sem um custo terrível. Desde então, os demônios desapareceram. Ou, pelo menos, foi o que todos acreditaram. Por duzentos anos, não houve nenhum sinal deles: nenhuma guerra, nenhuma ameaça. Até agora. Relatos sombrios começaram a surgir de mansinho: cidades reduzidas a escombros, nações inteiras desaparecendo do mapa. E um nome antigo voltou a ser sussurrado com medo nos quatro cantos do reino: os Generais do Rei Demônio.
Kael fixou o olhar em Kaito, sério.
— Seres que deveriam ter desaparecido junto ao seu soberano. Mas um deles já se revelou: Vautos, conhecido apenas como “A Calamidade”. Uma única aparição foi suficiente para destruir um povoado inteiro. E se um só deles é capaz de tamanha devastação, ainda restam outros. Além disso, correm rumores de que eles não agem ao acaso: movem-se em busca de algo muito maior, algo que pode trazer de volta aquilo que jamais deveria retornar. Se isso for verdade... este mundo está à beira de algo muito pior do que uma simples guerra.
— Por favor, heróis, eu lhes peço que nos ajudem! Prometo que terão tudo o que precisarem! — suplicou o rei, ainda de joelhos, com a voz embargada. Não implorava apenas pelo reino, mas pelo destino de todo o mundo.
Akihiro virou-se para os amigos, esperando ouvir a opinião de cada um.
— Então é isso... O que acham, pessoal?
Haruki cruzou os braços e permaneceu em silêncio por alguns instantes, refletindo com calma antes de finalmente responder:
— Pelo que ouvimos até agora, somos os quatro heróis de uma profecia. Heróis destinados a salvar este mundo. Sinceramente, não vejo motivo para recusar.
Shiro assentiu com firmeza ao ouvir o amigo, mantendo sua postura tranquila:
— Tem razão. Além disso, pelo que foi dito, não há nenhuma forma de voltarmos para casa no momento. Gostando ou não, essa é a nossa realidade agora.
Kaito, porém, ainda não parecia completamente convencido. Todo aquele cenário era absurdo demais para ser aceito de uma vez. Depois de alguns segundos em silêncio, soltou um pequeno suspiro de frustração, cruzando os braços e mantendo o rosto fechado, ainda carregado de irritação e confusão.
Por alguns segundos, o salão permaneceu em silêncio enquanto Akihiro tentava organizar tudo o que havia acontecido desde que chegara àquele mundo. Então, o protagonista respirou fundo e soltou uma leve risada, quebrando um pouco o clima pesado.
— Eu concordo com vocês. Sabe, pessoal... Tudo isso é muito estranho...
Os três olharam para ele. Akihiro balançou a cabeça, ainda sem conseguir acreditar completamente no que estava vivendo.
— Estamos realmente em outro mundo. Um mundo de magia. Um lugar que eu só conhecia pelos animes, mangás e light novels que costumava ler. Ainda parece um sonho... Ou talvez uma alucinação. Se alguém me contasse isso ontem, eu teria chamado essa pessoa de louca.
Kaito deu um meio sorriso de lado, concordando com as palavras do amigo.
— Faz todo sentido, não é mesmo?
Em seguida, Akihiro voltou a atenção para o rei, que ainda permanecia ajoelhado diante deles.
— Mas agora isso é real. E, sinceramente, não acho que tenhamos muitas opções. Então... nós vamos atender ao seu pedido.
Um alívio visível tomou conta do rosto do soberano, quase fazendo-o chorar.
— Muito obrigado, heróis! Agradeço profundamente!
— Mas temos algumas condições.
— Sim. — Akihiro continuou com calma. — Se querem nossa ajuda, também terão que ouvir os nossos pedidos. Certo?
O rei permaneceu em silêncio por alguns instantes, avaliando cuidadosamente aquelas palavras. Por fim, assentiu.
— Pois não. Ouvirei cada uma delas.
A tensão no ambiente diminuiu um pouco. Pela primeira vez desde que haviam chegado àquele lugar, o clima deixou de ser tão pesado. Os quatro Heróis da Profecia haviam aceitado o chamado do reino, mas aquilo estava apenas começando.
Diante deles existia um mundo completamente desconhecido, uma profecia que ainda não compreendiam e um destino que nenhum dos quatro poderia imaginar.
A vida de Akihiro mudaria completamente em poucas horas. Antes, era apenas um estudante do ensino médio, um jovem comum que carregava dores que ninguém conseguia perceber. Agora... era um herói invocado para outro mundo, um dos escolhidos para salvar uma realidade inteira.
Ou, pelo menos... era o que parecia.
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