Akihiro e seus amigos haviam sido invocados pelo Reino de Lularis como os novos Quatro Grandes Heróis da profecia. Agora, estavam em um mundo completamente diferente: uma realidade de magia, reinos, lendas e um Rei Demônio que ameaçava destruir toda a humanidade. Para muitas pessoas, aquilo parecia o início de uma grande história, mas, para o protagonista, ainda parecia um sonho do qual não conseguia acordar.
Após a reunião com o soberano, os quatro foram conduzidos por uma das magas da corte para uma avaliação de suas habilidades. Enquanto seguiam a guia pelos corredores do castelo, o jovem de óculos observava tudo ao redor. Ele ainda sentia dificuldade em aceitar a situação como algo real.
As paredes eram feitas de mármore branco, decoradas por tapeçarias elegantes ao longo do caminho. Guardas e servos caminhavam de um lado para outro, ocupados com suas próprias tarefas. O que realmente chamou a atenção de Akihiro, porém, foram as enormes janelas alinhadas no corredor. Sem perceber, diminuiu o passo e deixou que seu olhar fosse atraído para o lado de fora.
— Uau...
A vista era impressionante.

Do alto do castelo, era possível enxergar boa parte da capital. Tudo parecia limpo, organizado e belíssimo. A cidade se espalhava entre jardins, fontes cristalinas e ruas largas.
Ao longe, o brilho de um grande lago refletia a luz do sol como um espelho. Pontes de pedra branca conectavam diferentes bairros, enquanto árvores cobertas por flores azuladas e rosadas embelezavam as avenidas. Por um instante, o rapaz se esqueceu completamente de toda a confusão recente.
— Este lugar… — murmurou, parando em frente ao vidro. — É lindo.
Atrás dele, a guia sorriu ao ouvir o elogio.
— Fico feliz que pense assim. Esta é a capital de Lularis… a joia do nosso reino.
Mesmo alguém acostumado a ver cenários fantásticos em animes, mangás e light novels precisava admitir: nada daquilo fazia justiça ao que estava vendo com os próprios olhos. Pela primeira vez desde que chegara, sentiu uma ponta de verdadeira admiração. Talvez aquele novo mundo fosse muito mais grandioso do que imaginava.
Pouco tempo depois, o grupo chegou a uma sala circular. No centro, havia um pedestal de pedra que sustentava uma pequena esfera de cristal. Assim que entraram, a jovem maga voltou-se para eles de frente.
— Heróis, antes de começarmos, permitam que eu me apresente adequadamente. — Ela levou uma das mãos ao peito e fez uma breve reverência. — Muito prazer. Meu nome é Emi Aurara e sou responsável por realizar a avaliação inicial de vocês.

Kaito arregalou os olhos logo ao vê-la, pensando baixinho:
Caramba… Ela é linda…
— É um prazer, senhorita. — Abriu um sorriso confiante. — Meu nome é Kazehaya Kaito.
— Muito prazer, herói Kazehaya — respondeu ela, mantendo uma postura gentil e elegante.
Shiro segurou uma risada discreta antes de dar um passo à frente:
— Kuroyami Shiro. Prazer em conhecê-la.
— Takayama Haruki. O prazer é meu. — O loiro apenas acenou calmamente com a cabeça.
Akihiro foi o último a se manifestar, um pouco tímido:
— M-Me u nome é Kurokami Akihiro.
A examinadora fez uma anotação rápida em seu relatório.
— Kazehaya, Kuroyami, Takayama e Kurokami… Correto?
— Mais ou menos. — Haruki balançou a cabeça devagar. — Esses são os nossos sobrenomes.
Emi inclinou levemente a cabeça, sem entender de primeira:
— Hum?
— No lugar de onde viemos, é comum dizermos o sobrenome antes do nome — explicou Akihiro, suavemente.
— Entendo. — Ela assentiu, conferindo os papéis para não errar. — Então devo chamá-los diretamente de Kaito, Shiro, Haruki e Akihiro?
— Exatamente — confirmou o jovem de óculos.
— Compreendo perfeitamente. — Um sorriso dócil iluminou seu rosto. — Agora, por favor, aproximem-um pouco mais.
Os quatro caminharam juntos até o pedestal. Akihiro encarou a esfera de cristal brilhante com fascínio e um pouco de incerteza:
Eu realmente estou em outro mundo…
Ao seu lado, Kaito parecia cheio de animação, impaciente para começar:
— Estou muito curioso para descobrir minhas habilidades! Quem sabe não sou absurdamente poderoso?
— Ou absurdamente impaciente — brincou Shiro, cruzando os braços sem sequer olhar para o amigo.
— Ei! — reclamou Kaito, sem levar a mal.
A maga deixou escapar uma risadinha leve com a brincadeira, mas logo recuperou a serenidade profissional:
— Antes de iniciarmos, preciso explicar direitinho como funciona essa avaliação.
Todos voltaram a atenção para ela, prontos para ouvir cada palavra.
— Este cristal é um artefato mágico utilizado para analisar indivíduos. — Ela caminhou até a esfera e colocou a mão sobre sua superfície.
Um brilho azul percorreu o cristal.
— Neste mundo, existe uma energia chamada mana. Toda criatura viva possui mana. Algumas possuem pouca; outras, quantidades extraordinárias. A quantidade de mana é medida por meio de uma unidade chamada MP.
Mana Points… — Akihiro pensou, reconhecendo imediatamente a sigla dos jogos e das leituras que conhecia.
— Quanto maior o MP, maior será sua reserva de mana e seu potencial mágico — continuou a maga.
Os quatro escutavam atentamente.
— No entanto… — Emi ergueu um dedo, criando um breve suspense. — Mana não é tudo. O cristal também revela a classe de cada indivíduo. A classe representa a natureza do seu talento e define quais caminhos possuem maior afinidade com você.
Imagens suaves começaram a surgir dentro da esfera: espadachins, magos, arqueiros e sacerdotes. O brilho do cristal mudou novamente, e pequenos símbolos passaram a girar em seu interior.
— Além da classe, também existem as afinidades mágicas: Fogo, Água, Vento, Terra, Relâmpago, Luz, Trevas e muitos outros elementos mais raros. Essas afinidades determinam quais tipos de magia vocês poderão aprender com mais facilidade.
Akihiro observava tudo com atenção, fascinado com os desenhos brilhantes.
— Por fim… — A voz de Emi ficou um pouco mais séria. — Existe o nível. Ele representa o estágio atual de desenvolvimento de uma pessoa. Quanto mais experiência adquirir, mais forte ela se tornará.
Em resumo, o cristal revelará quatro informações importantes: sua classe, sua quantidade de mana, suas afinidades mágicas e seu nível atual. Esses quatro fatores são a base do sistema de poder deste mundo.
Ela apontou para uma pequena caixa posicionada ao lado do pedestal.
— Além disso, o reino fornecerá um painel mágico para cada um de vocês. Por meio dele, poderão consultar suas informações sempre que desejarem.
Kaito abriu um sorriso empolgado.
— Então espero que meu valor esteja bem alto!
— Veremos em alguns instantes. — Emi respondeu com um sorriso enigmático.
No entanto, antes que o rapaz avançasse, ela fez um sinal para que esperasse.
— Mas existe uma referência que vocês precisam conhecer antes do teste.
A jovem tocou a esfera com a ponta dos dedos, alterando a tonalidade da luz.
— Caramba… — murmurou Kaito, protegendo os olhos do brilho intenso.
Runas começaram a surgir ao redor do cristal, enquanto números e símbolos mágicos apareciam diante deles.
A examinadora observou os resultados. Seu olhar percorreu as informações uma vez, depois duas e, em seguida, uma terceira, como se estivesse verificando se não havia cometido algum erro de leitura.
Por fim, concluiu:
— Isso é impossível…
— Hum? — Kaito inclinou a cabeça, confuso. — O que aconteceu?
A jovem levantou lentamente o olhar, ainda parecendo incrédula.
— Kazehaya Kaito. Classe: Herói. Nível: 18. MP: 9.870.
Os olhos dos cavaleiros se arregalaram, e Akihiro quase engasgou com a própria saliva.
— Mais de nove mil?!
— Afinidades: Terra, Água e Relâmpago — completou ela.
O silêncio tomou conta da sala por alguns instantes.
Então, o moreno abriu um sorriso enorme, cheio de si.
— Heh… Eu sabia!
— Sabia nada — rebateu Shiro imediatamente.
— Ei, deixa eu aproveitar meu momento!
Após a avaliação de Kaito, foi a vez dos outros dois.
Shiro avançou até o cristal, e uma mistura de luz vermelha e azul começou a surgir da esfera. Poucos segundos depois, os resultados apareceram flutuando:
Kuroyami Shiro
Classe: Herói | Nível: 17 | MP: 9.680
Afinidades: Fogo • Água • Cura
— Incrível… O herói Shiro possui magia de cura e uma quantidade de mana muito acima da média — analisou Emi, incapaz de esconder a admiração.
Em seguida, foi a vez de Haruki.
O jovem colocou a mão sobre o cristal e, desta vez, uma forte luz esverdeada envolveu a esfera. Os resultados apareceram logo depois:
Takayama Haruki
Classe: Herói | Nível: 16 | MP: 9.790
Afinidades: Água • Vento • Fogo
Emi permaneceu em silêncio por alguns instantes. Os três amigos possuíam valores absurdamente altos, muito acima dos padrões normais do reino.
— Os heróis são realmente incríveis… — murmurou para si mesma, maravilhada enquanto anotava as informações.
— Akihiro, é a sua vez.
O coração do rapaz disparou contra o peito. Até aquele momento, tudo havia sido impressionante — todos tinham recebido a classe Herói e possuíam milhares de pontos de mana. “Talvez… talvez eu também seja igual a eles.”
Respirando fundo para tentar conter o tremor nas mãos, aproximou-se do cristal.
— Aqui vou eu…
Então, colocou a mão sobre a esfera.
O brilho surgiu, mas era diferente — muito diferente. A luz era pálida. Fraca demais. Emi franziu a testa. Os resultados apareceram:
Kurokami Akihiro
Classe: ??? | Nível: 1 | MP: 10
Afinidade: Terra
Silêncio. Ninguém falou nada. Akihiro piscou uma vez. Duas vezes.
— Hã?
Emi voltou o olhar para o último integrante do grupo. Encarou os números, depois voltou o olhar para o rapaz e, em seguida, tornou a olhar para os resultados.
— Isso… — sua voz falhou por um instante — isso não está certo.
Kaito se aproximou.
— O que aconteceu?
Emi não respondeu imediatamente.
— Senhor Akihiro… poderia repetir a avaliação?
— S-Sim.
Ele voltou a tocar o cristal, o coração acelerado. Talvez fosse apenas um erro. Talvez o cristal estivesse quebrado. Talvez… Emi encarou os números, depois voltou o olhar para o rapaz e tornou a olhar para os resultados.
— Isso… isso não faz sentido — murmurou a maga, com a voz falhando. — Uma invocação de herói concede automaticamente a força e a experiência de um cavaleiro formado. É por isso que os seus amigos despertaram acima do nível quinze. Mas você… nível um? 10 de MP? Isso é o status de uma criança comum deste mundo.
Os sussurros começaram entre os cavaleiros no fundo da sala. Kaito e Shiro se olharam, a empolgação de antes sumindo instantaneamente, substituída por um desconforto pesado.
Akihiro continuou com a mão na esfera, sentindo o suor frio escorrer pela nuca. Seus olhos estavam fixos naqueles três pontos de interrogação no campo da classe.
“Nível um…?” — pensou ele, enquanto engolia em seco. — “O que tem de errado comigo?”
— Isso… isso deve ser um erro — gaguejou Emi, dando um passo para trás. — O cristal nunca falhou antes, mas o nível inicial de um herói deveria ser o de um cavaleiro treinado… Isso é impossível.
Os sussurros dos soldados ao fundo começaram a preencher a sala, cortando o silêncio. Kaito e os outros olhavam para os dados de Akihiro, a alegria de antes sumindo de seus rostos.
Akihiro lentamente afastou a mão da esfera fria. Ele olhou para os próprios dedos trêmulos e depois para os amigos, engolindo o nó que se formava em sua garganta.
— Um erro, é? — murmurou o rapaz, com um sorriso amargo, sabendo lá no fundo que o sistema não estava errado.
A avaliação repetiu-se, e os resultados apareceram exatamente iguais. O silêncio retornou, ainda mais pesado desta vez. A empolgação que preenchia a sala desapareceu completamente. Akihiro sentiu um aperto estranho no peito; os olhares ao redor pareciam ter mudado.
Emi respirou fundo.
— Senhor Akihiro… poderia me acompanhar por um momento?
— E-Eu? — perguntou o rapaz.
— Sim — confirmou ela.
— Claro.
Os dois se afastaram um pouco do grupo. Kaito observava em silêncio, assim como Shiro, enquanto Haruki parecia tentar entender o que estava acontecendo. Quando chegaram longe o suficiente, Emi voltou a falar:
— Senhor Akihiro… antes da invocação, você ouviu algum som estranho? Como sinos.
Os olhos do rapaz se arregalaram.
— Agora que você falou… sim. Eu ouvi. Fui o primeiro a perceber aquele barulho.
A expressão de Emi mudou imediatamente.
— O quê?
Ela permaneceu em silêncio, pensativa, enquanto a confusão crescia em seu rosto, como se aquilo fosse algo impossível de acontecer.
— Senhorita Emi?
A voz dele a trouxe de volta à realidade.
— Ah… me desculpe. Pode me chamar apenas de Emi. Não precisa de formalidades.
— T-Tá certo.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Senhor Akihiro… sua força física é equivalente à de um humano comum. Seu nível é 1, seu MP está abaixo da média de uma pessoa normal, você não possui uma classe identificável e tem apenas uma afinidade elemental. A Terra não é necessariamente fraca, mas, em combate, isso não será suficiente.
Akihiro sentiu o estômago afundar. Baixou o olhar para as próprias mãos, como se procurasse nelas alguma resposta.
— Então… eu sou fraco?
Emi não respondeu imediatamente.
“Mas isso não faz sentido… Apenas os Heróis da Profecia conseguem ouvir os sinos da invocação. Então, como… como ele ouviu? Será que houve um erro durante a invocação? Não… isso é impossível. A magia de invocação dos heróis jamais falhou.”
O ambiente permaneceu em silêncio. Por fim, Emi soltou um suspiro.
— Por enquanto, aguarde a decisão de Sua Majestade. Até lá, descanse.
Um pequeno sorriso forçado surgiu em seu rosto. Em seguida, retornou até os outros heróis.
— Vocês passaram por muita coisa hoje. Vou levá-los aos aposentos dos heróis.
Akihiro assentiu, mas sua mente continuava presa àqueles números.
MP: 10 | Classe: ??? | Nível: 1
Pela primeira vez desde que chegara àquele mundo, começou a sentir que talvez não devesse estar ali.
Enquanto isso...
No grande salão do castelo, o clima havia mudado completamente. Cavaleiros, magos da corte e nobres estavam reunidos, ansiosos para conhecer os lendários Heróis da Profecia. Todos pareciam radiantes: taças eram erguidas em brindes, enquanto elogios ecoavam por todos os cantos. Os três jovens recebiam atenção de todos os lados.
— Incrível… nove mil pontos de mana. Eles são realmente extraordinários. — Um nobre murmurou, com os olhos arregalados de admiração.
— Verdadeiros heróis. — Outro completou, balançando a cabeça.
— O reino finalmente está salvo. — Um terceiro ergueu ainda mais a taça.
Até mesmo a princesa de Lularis observava os três com evidente interesse.
O de cabelos espetados parecia adorar cada segundo daquela atenção; o mais calmo e racional tentava manter a compostura naturalmente; já o mais determinado permanecia em silêncio, observando tudo com atenção.
Foi então que um dos nobres ergueu a voz:
— Majestade. — O salão emudeceu um pouco. — Se me permite perguntar… onde está o quarto herói?
Alguns trocaram olhares confusos.
— Agora que mencionou… ele realmente não está presente — comentou alguém mais ao fundo.
— Tinha a certeza de que a profecia falava em quatro — observou outro.
O rei permaneceu calado por instantes. Naquele exato momento, as grandes portas se abriram de repente. Emi entrou rapidamente, com o semblante mais sério do que o habitual, e se aproximou depressa do trono.
— Majestade, preciso falar com o senhor imediatamente — disse ela, com a voz carregada de preocupação.
Aquele tom fez o rei perceber que algo não estava certo.
— É urgente? — perguntou ele, franzindo a testa.
— Sim. Muito urgente — confirmou ela, sem hesitar.
Ele voltou-se então para todos os presentes.
— Peço licença por alguns instantes — anunciou com calma. — Enquanto isso, aproveitem para conhecer melhor os nossos heróis.
Dito isso, saiu do salão acompanhado dela. Caminharam por um corredor mais afastado e silencioso. Ao ter certeza de que ninguém os ouvia, ele parou de repente.
— Agora fale… O que houve? E onde está o quarto herói? — perguntou com firmeza.
Ela respirou fundo, buscando forças para prosseguir.
— Majestade… é justamente sobre ele.
A expressão do soberano tornou-se rígida de imediato.
— O seu nome é Akihiro Kurokami, e durante a avaliação algo aconteceu que não conseguimos explicar.
Ele calou-se. Ela então relatou tudo: os números, a falta de uma classe definida, o nível, a quantidade de mana. Pouco a pouco, seus olhos se arregalaram, até que finalmente…
— O quê?! — Sua voz ressoou forte por todo o caminho. — Você tem absoluta certeza?
— Sim, Majestade. — Ela manteve o tom estável. — Refizemos o exame, e os resultados foram exatamente os mesmos.
Ele levou a mão ao rosto, atônito.
— Isso não faz sentido… A profecia menciona claramente quatro heróis. Como um deles pode apresentar índices tão baixos?
— Eu também não compreendo. — Ela abaixou ligeiramente o olhar. — Sua mana é menor que a de uma pessoa comum. Não possui uma classe reconhecida. Seu nível é apenas um. E a única afinidade que demonstra é com o elemento Terra.
O silêncio pesado voltou a dominar o lugar. Ele ficou imerso em pensamentos, até que o semblante endureceu.
— Droga… — sussurrou.
Ela baixou a cabeça, ciente da gravidade da situação. Se a notícia chegasse aos nobres, as dúvidas surgiriam de imediato: seria a profecia falsa? Teria a invocação falhado? Seria aquele jovem realmente um dos escolhidos?
Após alguns instantes de reflexão, ele voltou a falar com voz calma, mas resoluta.
— De qualquer forma… a profecia não pode estar errada. — Ela ergueu os olhos, surpresa. — Talvez haja algo que ainda não conseguimos perceber. Nem todos despertam seu verdadeiro poder logo de início. Há registros históricos sobre isso: alguns levam meses ou até anos para revelar o que realmente são. Acredito que o mesmo possa valer para os grandes heróis.
Ela ponderou sobre as palavras.
— Então o senhor deseja observá-lo melhor?
— Exatamente. — Ele cruzou os braços. — Antes de tirar qualquer conclusão, vamos testá-lo, acompanhá-lo e descobrir se há algo oculto por trás desses números.
— Entendido, Majestade. — Ela assentiu.
Mas uma dúvida ainda persistia. Ela hesitou por um instante antes de perguntar, com cautela:
— Majestade… e se ele realmente não for um herói?
Ele calou-se. Por alguns instantes, só se ouvia o som distante das comemorações lá fora. Então falou baixo:
— Não quero considerar essa hipótese agora. — Desviou o olhar para uma janela do corredor. — Porque, se for verdade… teremos um problema muito maior do que supomos.
O silêncio voltou a pesar no ambiente. E, pela primeira vez desde a invocação, ele começou a questionar-se se algo teria saído errado.
Naquela mesma noite, Akihiro percorria os corredores do castelo.
— Nossa… — Olhou ao redor, admirado. — Esse palácio é enorme.
Saiu apenas para procurar o banheiro e acabou perdido completamente.
— Acho que virei no caminho errado…
Após vagar perdido por alguns minutos, ouviu vozes e deu de cara com o grande salão.
— Hm? — Espiou para dentro. — Então era aqui que estavam. — Seguiu para dentro do salão.
Os três estavam rodeados de nobres e cavaleiros, todos conversando animadamente ao seu redor.
— Acabei me perdendo um pouco. — Deu uma risada leve. — Esse lugar é um verdadeiro labirinto.
Por um instante, o salão inteiro emudeceu. Depois as vozes voltaram, mas com outro tom: ninguém se aproximou, ninguém o cumprimentou, ninguém lhe fez perguntas. Os olhares que antes brilhavam de admiração agora traziam dúvida, ou pior, indiferença. Ele não compreendia o porquê, mas sentia: algo estava muito, muito estranho.
Mais tarde, os quatro seguiram para os aposentos reservados aos heróis. O quarto era amplo e confortável, mais luxuoso do que qualquer lugar onde ele já havia morado. Mesmo assim, não conseguia descansar. Sentou-se junto à janela, fitando o céu escuro, e comentou baixinho:
— Vocês são mesmo incríveis.
O de cabelos espetados ergueu uma sobrancelha.
— Hm?
— Suas habilidades… — Sorriu, mas sem brilho nos olhos. — São impressionantes. Nove mil de mana… classe Herói… múltiplas afinidades… — Baixou o olhar para as próprias mãos. — Comparado a vocês, eu sou patético.
O mais impulsivo aproximou-se e bateu-lhe levemente no ombro.
— Relaxa, parceiro. — Encarou-o firme. — É só o primeiro dia. Uma hora ou outra vai despertar algo absurdo, pode ter certeza.
— Ele tem razão. — O mais calmo e racional interveio com tranquilidade. — Não deixe isso te abalar.
— Mal sabemos como este mundo funciona. — O determinado concordou com a cabeça. — É cedo demais para tirar conclusões.
Ele ficou em silêncio por instantes, então sorriu de modo mais sincero.
— Obrigado, gente.
De repente, lembrou-se dela: Nagisa, que pela manhã tinha tentado avisá-lo sobre os três. Ele soltou uma risada pequena.
— Nagisa… espero não tê-la deixado preocupada. — Sacudiu a cabeça. — Mas ela estava enganada. Não há como esses caras serem comuns.
Ele abriu um sorriso, um largo sorriso.
Enquanto conversavam nos aposentos, em outro canto do castelo, o destino dele estava sendo decidido. No escritório real, o soberano fitava os papéis espalhados pela mesa, entre eles, o relatório da avaliação dos heróis.
Akihiro Kurokami
Classe: ??? | MP: 10 | Nível: 1
Afinidade: Terra
Ele ficou em silêncio por um longo instante, depois fechou os olhos.
— Dez dias… — murmurou.
Emi ergueu o olhar.
— Majestade?
— O anúncio oficial dos heróis será feito em dez dias. — Apoiou os braços sobre a madeira escura. — Até lá, ninguém comenta nada sobre o quarto. Se há algo oculto naquele jovem… nós vamos descobrir. — O semblante dele endureceu. — Nesses dez dias, ele será posto à prova.
No dia seguinte, começava o primeiro treinamento. Enquanto todo o reino aguardava a cerimônia oficial, ele passaria por uma sequência de testes, sem nem mesmo saber que estava sendo avaliado. O objetivo era único: provar se ele era realmente um dos escolhidos, ou apenas um erro da magia de invocação.
Quem comandaria tudo isso era um homem conhecido e respeitado em todo o território: líder do Exército, Espada do Rei, um dos maiores guerreiros que o reino já vira — Aldric Hoven.
Naquela manhã, o grande pátio de treinamento fervia de movimento: soldados executavam exercícios, cavaleiros observavam ao redor, e alguns membros da corte acompanhavam tudo em silêncio, entre eles a própria Emi. Ao centro, os quatro foram reunidos diante daquela figura de postura rígida.
Fios grisalhos já apareciam em seus cabelos castanhos, e uma longa cicatriz riscava seu rosto — bastava um olhar para perceber que se tratava de alguém que conhecia a guerra de perto.
— Bom dia, grandes heróis. — A voz forte ressoou por todo o pátio. — Me chamo Aldric Hoven, comandante do Exército Real e Espada de Sua Majestade.
Os quatro prestaram atenção.
— Nos próximos dias, avaliarei suas habilidades em combate: espadas, lanças, arcos, escudos e qualquer outra arma que for necessária. — Em seguida, fez um gesto em direção à maga. — Enquanto isso, Lady Emi cuidará dos testes de magia.
Emi fez uma reverência respeitosa.
— Farei o meu melhor.
Shiro estava bastante confiante e abriu um largo sorriso.
— Tenho certeza de que nos sairemos muito bem. Afinal, somos heróis.
O mais calmo soltou uma risada leve.
— Confiança é o que não lhe falta, não é mesmo, Haruki?
— Isso é uma qualidade minha, Shiro.
O experiente guerreiro manteve a seriedade.
— Mas o que eu preciso ver são os resultados.
O determinado Kaito assentiu com firmeza.
— Vamos nos esforçar ao máximo.
— Sim. — Respondeu o último, com voz decidida, embora por dentro estivesse tomado de nervosismo.
O primeiro teste foi com arco e flecha. Receberam seus equipamentos, e os alvos foram colocados a dezenas de metros de distância.
— Se concentrem no alvo. — Orientou o comandante. — Respirem fundo e soltem a flecha.
O mais racional foi o primeiro: esticou a corda sem hesitar. Thwip! A flecha cortou o ar. Crack! Acertou quase perfeitamente no centro. Alguns cavaleiros murmuraram, impressionados.
— Excelente — reconheceu Aldric.
O jovem racional apenas coçou a nuca, discreto.
— Acho que foi só sorte.
— Sorte nada — rebateu o de cabelos espetados.
Ele observava tudo, parecendo tão simples. Chegada sua vez, o jovem de óculos segurou o arco, respirou fundo, mirou e soltou a corda. A flecha caiu no chão antes de percorrer nem metade do caminho. Um silêncio pesado pairou por instantes, seguido de risadas baixas entre os soldados. Sentiu o rosto queimar de vergonha.
— Droga… — sussurrou.
O amigo aproximou-se devagar.
— Relaxa os ombros. Você está colocando força onde não precisa.
— Entendi. — Tentou de novo. Errou. E mais uma vez. Errou novamente.
Enquanto isso, os outros dois acertavam os alvos sem esforço. O que mais se destacava continuava sendo o mais calmo: sua precisão parecia quase inata.
Depois vieram as lanças. O mais determinado, Haruki, surpreendeu a todos: movimentos limpos, controlados e certeiros. A arma girava em suas mãos como se sempre tivesse pertencido a ele. Aldric observava cada detalhe com atenção.
— Postura impecável… Continue assim.
— Agradeço — respondeu ele, mantendo a compostura.
Akihiro tentou repetir os mesmos movimentos. A lança parecia pesada, desajeitada, estranha.
Tentou uma vez, depois outra, e outra. Mas nunca conseguia executar os movimentos corretamente.
Quanto mais tentava acompanhar os outros… mais percebia a diferença entre eles.
Chegou então a vez do teste de espada.
Kaito foi colocado para treinar contra um cavaleiro veterano. Mesmo usando espadas de madeira, os golpes eram rápidos e precisos. O som das colisões ecoava pelo campo.
TOC!
TOC!
TOC!
Aldric observava, impressionado.
— Você aprende rápido, herói Kaito.
Kaito abriu um sorriso.
— Obrigado pelo elogio.
Akihiro observava tudo, e então chegou a sua vez.
Pegou uma espada de madeira e tentou reproduzir o movimento que havia visto. Avançou, perdeu o equilíbrio e caiu. Alguns soldados desviaram o olhar; outros apenas suspiraram.
Kaito imediatamente estendeu a mão.
— Centro de gravidade. Você está colocando o peso do corpo no lugar errado.
Akihiro aceitou a ajuda e levantou-se.
— Parece tão fácil quando vocês fazem.
— Porque nós também estamos aprendendo — respondeu Kaito.
— Só estamos pegando o ritmo mais rápido — comentou Haruki.
Aquilo deveria ter sido reconfortante. Mas não foi.
A noite chegou, e com ela o fim do primeiro dia. Os outros heróis haviam impressionado praticamente todos — com exceção de Akihiro.
Enquanto caminhava de volta para os aposentos, uma sensação pesada tomava conta dele.
— Eu preciso melhorar… — Seus punhos se fecharam com força. — Não posso continuar assim.
Mais tarde, quando quase todos estavam dormindo, Akihiro voltou sozinho ao campo de treinamento. A lua iluminava o pátio vazio. Ele pegou uma espada de madeira. Assumiu postura e começou: um golpe, depois outro, e outro. Movimentos básicos, lentos, repetitivos, mas ele continuou. O suor começou a escorrer; os braços começaram a doer.
Mesmo assim, não parou. Mais tarde, pegou um arco. Mirou, atirou, a flecha caiu antes de alcançar o alvo. Tentou novamente. Errou. Outra vez. Errou. Mais uma. Errou. A frustração crescia, mas ele continuava. A cada tentativa, a cada erro, a cada falha ele continuava. Seus dedos já estavam doloridos. Os braços pesavam como chumbo. Mas ainda assim… puxou outra flecha, mirou, respirou fundo.
— Eu não vou desistir. — E atirou mais uma vez.
Naquela mesma noite, uma luz ainda permanecia acesa em uma das torres do castelo. A princesa de Lularis estava sentada próxima à janela, lendo alguns documentos. Mas então…
TOC!
O som ecoou ao longe. Ela levantou a cabeça.
TOC!
O mesmo som se repetiu.
— Hm? — A princesa fechou o livro. — Que barulho é esse a essa hora da noite?
Curiosa, levantou-se da cadeira e caminhou até a janela. Ao olhar para baixo, avistou o campo de treinamento. Normalmente, aquele lugar ficava vazio durante a madrugada. Mas naquela noite, havia alguém ali. Sozinho. Treinando. A princesa estreitou os olhos.
— Espera…
O jovem segurava uma espada de madeira. Seu uniforme estava encharcado de suor. Os movimentos eram lentos, desajeitados. Mas ele continuava repetindo os mesmos golpes. Outra vez. E outra. E mais uma. Como se estivesse tentando gravar cada movimento no próprio corpo.
A princesa reconheceu aquele rosto.
— Ele é… — Seus olhos se arregalaram levemente. — O quarto herói… Akihiro Kurokami.
Ela havia ouvido os rumores que circulavam pelo castelo nos últimos dias. O herói sem classe. O herói sem talento. O herói cujo status era praticamente o de um humano comum.
Seu olhar permaneceu fixo nele. Akihiro executou outro golpe, perdeu o equilíbrio, quase caiu. Mas se firmou novamente, respirou fundo e continuou. A princesa ficou em silêncio, observando.
— Ele ainda está treinando…
O relógio do castelo já havia marcado a meia-noite há bastante tempo. Mesmo assim, ele permanecia ali: sozinho, sem aplausos, sem reconhecimento, sem espectadores. Apenas treinando.
Os olhos da princesa se arregalaram um pouco mais. Porque, pela primeira vez desde a chegada dos heróis… ela viu algo que os relatórios não mostravam.
Determinação. Uma determinação quase teimosa.
Akihiro ergueu a espada mais uma vez. Os braços tremiam de exaustão. Mesmo assim… continuou.
A princesa permaneceu observando pela janela. Sem perceber, um pequeno sorriso surgiu em seus lábios.
— Que pessoa estranha…
Os dias passaram rapidamente: o segundo dia chegou, depois o terceiro e então o quarto. Os treinamentos se estendiam do amanhecer ao entardecer — armas, combate, resistência física — todos os dias preenchidos por avaliações. E cada dia mais, a diferença entre Akihiro e os outros heróis se tornava evidente.
Kaito demonstrava um talento surpreendente com a espada: parecia dominar qualquer técnica depois de vê-la apenas uma vez. Os cavaleiros comentavam frequentemente sobre seu potencial:
— Esse garoto aprende rápido demais — diziam os observadores.
— Parece um veterano preso no corpo de um iniciante — um nobre presente havia comentado.
Kaito apenas sorria ao receber os elogios.
Shiro brilhava especialmente com o arco e a magia; sua precisão era impressionante, capaz de deixar até os arqueiros mais experientes do reino admirados. Além disso, sua afinidade com magia de cura tornava-o extremamente valioso:
— Um arqueiro que também cura aliados… Isso é raro, muito raro mesmo.
Haruki tinha um jeito próprio: não era tão explosivo quanto Kaito, nem tão certeiro quanto Shiro, mas possuía uma estabilidade admirável. Com lanças, espadas, escudos e até na magia mantinha um desempenho consistente — tanto que até Aldric ficou impressionado.
— Você tem uma base excelente — elogiou o comandante. — Não podia esperar menos dos grandes heróis da profecia.
Haruki agradeceu com educação. E então havia Akihiro, o quarto herói… ou pelo menos era o que dizia a profecia. Para ele, as espadas continuavam pesadas, o arco difícil de controlar, a lança desconfortável. E a magia era ainda pior.
Nos testes conduzidos por Emi, ela estava orientado os herói sobre a magia daquele mundo.
— A mana é a energia mágica existente dentro dos seres vivos. Ela funciona como a fonte de energia necessária para realizar magia. Pense nela como uma energia interna que pode ser conduzida e moldada pela vontade do usuário. Para manifestar mana, o usuário precisa: Concentrar → reunir a mana dentro do próprio corpo. Imaginar a forma da magia e depois liberar essa mana, basta ter concentração.
os outros três manifestaram seus elementos com facilidade: pequenas chamas, rajadas de vento, água fluindo e luz restauradora. Já ele… quase nada conseguia fazer. Às vezes surgia uma faísca fraca de energia; outras vezes, nem isso.
Emi observava tudo em silêncio, o semblante tornando-se cada vez mais pensativo, como quem tenta decifrar um enigma sem solução.
Chegaram o quinto dia, depois o sexto e o sétimo. E os comentários começaram a surgir: primeiro baixinhos e reservados, depois cada vez mais claros e diretos.
— Será que ele é realmente um herói?
— Talvez tenha havido algum erro na invocação…
— Não se vê nele nada diferente de uma pessoa comum
Akihiro ouvia cada palavra. Fingia não perceber, mas ouvia tudo: cada dúvida, cada olhar de desconfiança. Mesmo assim, não desistia.
Todas as noites, quando todos já descansavam, voltava sozinho ao pátio. Praticava golpes com a espada, depois tentava com o arco, seguia com a lança e terminava com exercícios de força, até os braços doerem intensamente, as pernas tremerem e não conseguir mais manter-se de pé.
Só então voltava ao quarto, dormia poucas horas e, ao amanhecer, recomeçava tudo de novo. Certa noite, mais uma vez treinava sozinho sob o luar…
Uma voz surgiu atrás dele:
— Você vai acabar desmaiando nesse ritmo.
Akihiro se virou, assustado. Era Aldric. O comandante observava em silêncio.
Akihiro abaixou a espada.
— Desculpe, não queria incomodar ninguém.
— Não está me incomodando — disse o comandante.
— Mas o que faz aqui, senhor Aldric?
Aldric cruzou os braços.
— Me diga… por que continua treinando tanto?
Akihiro ficou calado por alguns instantes, depois respondeu:
— Porque sou fraco. E não quero continuar sendo um fraco. Quero ser útil a Kaito, Haruki e Shiro. Não quero ser um fardo.
O vento soprou suavemente pelo campo vazio. Aldric observou o jovem por um momento, depois desviou o olhar.
— Entendo.
Foi tudo o que disse. Mas, pela primeira vez, pareceu começar a enxergar algo em Akihiro que nenhum painel de status conseguia mostrar.
E assim passou o oitavo dia, depois o nono. Até chegar finalmente ao décimo: o dia em que o rei receberia o relatório final dos quatro heróis, o dia que definiria o futuro de Akihiro Kurokami naquele mundo. E sem que ele imaginasse, também seria o dia em que sua vida começaria a mudar de verdade.
Chegou o último teste. As provas com armas haviam terminado; agora era a vez da avaliação de magia. No centro do campo, Emi posicionou-se diante do grupo.
— Bom dia — cumprimentou, olhando cada um deles. — Hoje faremos a avaliação mágica final. É o último teste antes de fechar os relatórios.
Kaito abriu um sorriso confiante.
— Então vamos lá, vamos impressionar!
— Tente não explodir nada — comentou Shiro, com calma.
— Sem promessas — respondeu Kaito, rindo levemente.
Emi suspirou suavemente e continuou:
— Vamos começar pelo básico.
Ergueu a mão e uma pequena esfera de água flutuou sobre sua palma.
— Concentrem sua mana. Sintam o fluxo mágico correndo dentro de vocês e manifestem-no.
dos assentiram.
Haruki foi o primeiro. Fechou os olhos, e uma energia suave começou a fluir ao redor do corpo. O vento ao seu redor movimentou-se devagar, em perfeita harmonia.
— Excelente controle — elogiou Emi.
Depois foi a vez de Shiro. Pequenas chamas surgiram na palma da mão, crescendo pouco a pouco até se unirem em uma esfera brilhante. Ele apontou para o alvo:
BOOM!
A explosão atingiu o centro exato. Até os cavaleiros observavam, impressionados.
— Muito bom — reconheceu Emi.
Chegou então a vez de Kaito. Estalos elétricos crepitavam ao redor do braço, ganhando força rapidamente:
CRACK! CRACK!
Um relâmpago disparou e acertou o alvo com potência.
— Incrível… — Emi arregalou os olhos. Mesmo após dez dias, os três ainda superavam todas as expectativas.
E chegou a vez de Akihiro. Um silêncio respeitoso, mas pesado, tomou conta do ambiente. Ele caminhou devagar até a frente, respirou fundo. Emi acompanhava cada movimento com atenção.
— Concentre-se — orientou ela suavemente. — Sinta sua mana. Imagine a magia tomando forma.
Akihiro concordou com a cabeça, fechou os olhos e tentou. Tentou sentir, tentou visualizar… mas nada aconteceu. Uma gota de suor escorreu-lhe pela testa. Insistiu novamente. E então: uma pequena vibração sacudiu o solo, uma fina rachadura abriu-se perto dos pés — e logo desapareceu.
O silêncio permaneceu.
— Foi pouco… — admitiu Emi, mantendo a calma e a gentileza na voz. — Mas foi alguma coisa. Continue praticando.
Akihiro respirou fundo e tentou de novo. Mais uma vez. E outra. Mas o resultado permanecia o mesmo. Lá no alto, na varanda do castelo, o rei observava tudo em silêncio; ao seu lado estava a princesa de Lularis.
— Entendo… — murmurou ele, baixo. — Então essa é a resposta.
A princesa permaneceu calada.
— Durante dez dias acompanhamos esse jovem — continuou o soberano. — Treinamentos, combate, magia… os resultados estão todos aí. Não há nada. Nenhum poder extraordinário, nenhuma habilidade especial, nem o sinal de uma Classe Herói.
Seu semblante tornou-se mais severo.
— Creio que já temos nossa conclusão.
Mas a princesa não tirava os olhos do campo. Viu como os outros brilhavam e recebiam elogios, enquanto ele só conseguia falhar… e mesmo assim não parava de tentar.
— Mesmo assim… — disse ela baixinho.
O rei virou-se para ela.
— Hm?
— Ele continua tentando — repetiu ela suavemente. — Mesmo sabendo que não tem o talento dos outros, mesmo sabendo que está muito atrás… ele continua avançando.
O rei não respondeu de imediato. Mas, pela primeira vez, começou a se perguntar qual era a força que fazia aquele garoto lutar todos os dias, sem nunca desistir.
A noite caiu. Os quatro estavam reunidos no quarto que o castelo lhes havia cedido. Haruki girava distraidamente uma lança pequena de treino entre os dedos.
— Amanhã sai o anúncio dos quatro grandes heróis.
Shiro estava sentado no parapeito da janela.
— Já está bem claro quem são os favoritos.
Kaito estava encostado na parede e concordou com a cabeça.
— Isso não é surpresa para ninguém.
Akihiro permaneceu calado sobre a cama, depois perguntou baixinho:
— Vocês já sabem quem vai ser escolhido?
Haruki deu de ombros.
— O rei precisa de poder imediato.
Shiro olhou diretamente para ele.
— Ainda não conseguiu estabilizar a magia, correto?
— Quase… Sinto a energia lá dentro, mas ela não responde quando chamo.
Kaito cruzou os braços.
— Talvez sua habilidade desperte só mais tarde.
— E se nunca despertar?
Um silêncio pesado tomou conta do ambiente.
Haruki respirou fundo.
— Então você vai ter que encontrar outro jeito de ser útil.
— Vocês prometeram que enfrentaremos tudo isso juntos — lembrou Akihiro, com voz suplicante.
Shiro desviou o olhar para o lado.
— Promessas são feitas antes que a política do reino entre no meio do caminho.
Kaito falou com tom mais firme, mas sem raiva:
— Não significa que viramos seus inimigos. Continuamos seus amigos… só que agora precisamos nos concentrar nos treinamentos e nas provas, entende?
— Mas quer dizer que estou sozinho nessa luta?
Ninguém respondeu.
Mais tarde, naquela mesma noite… os corredores do castelo estavam silenciosos e iluminados apenas pela luz fraca das tochas.
Restavam apenas três dias para o anúncio oficial. Durante esses dias, a princesa Luna tinha acompanhado atentamente cada treinamento: viu Shiro acertar alvos distantes com uma precisão quase incrível; observou Haruki manejar a lança com tanta naturalidade como se praticasse há anos; assistiu Kaito evoluir rápido com a espada, chegando a superar até cavaleiros experientes. Todos eram admiráveis, tinham talentos que faziam jus ao título de heróis. Mas também prestou atenção em Akihiro.
Viu algo diferente nele: cada tombo, cada erro e cada falha apenas o faziam se levantar, esforçando-se mais intensamente do que qualquer outro. Caminhava ela pelo corredor quando notou uma luz ainda acesa vindo dos aposentos dos heróis. Curiosa, aproximou-se devagar. A porta não estava fechada completamente; por uma pequena fresta, pôde olhar para dentro.
Akihiro estava só, sentado na beira da cama, olhando fixamente para as próprias mãos, como se buscasse ali uma resposta que ainda não encontrava. Os outros três tinham saído para conversar com instrutores e organizar estratégias.
— Sei que existe algo aqui dentro… — murmurou, quase sem voz. — Eu consigo sentir.
Fechou os olhos e tentou reunir a energia mais uma vez. Por instantes, silêncio absoluto. Então, uma vibração suave percorreu seus dedos: pequena, frágil, mas existia.
Akihiro abriu os olhos e um sorriso cansado, mas verdadeiro, apareceu em seu rosto.
— Eu sabia… só preciso treinar um pouco mais.
Fez a mão fechar devagar.
— Sei que sou capaz.
Lá fora, Luna permaneceu imóvel, observando em silêncio. Lembrou dos comentários cruéis que circulavam pelo castelo: “Um fracasso”, “Não é um herói de verdade”, “Inútil”. Todos pareciam já ter decidido quem ele era. Mas vendo-o assim… não conseguia concordar com ninguém. Pois quem desiste não passa as noites tentando sozinho, sem ninguém para aplaudir, sem receber elogios, sem ter quem veja o esforço.
A princesa baixou o olhar, pensativa.
— Você é estranho… — sussurrou baixinho. — Dizem que é fraco… mas não age como quem já perdeu a esperança. Todos repetem que não serve para nada, mas ninguém nota o quanto se dedica.
Ele voltou a se concentrar, tentando sentir novamente aquela energia, mesmo visivelmente exausto.
Ela sorriu suavemente para si mesma.
— Talvez o erro não esteja em você… Alguém que persiste assim não pode ser chamado de fraco.
Afastou-se devagar, mas agora carregava no peito uma curiosidade nova e especial por esse quarto herói.
No dia seguinte seria o grande anúncio oficial, mas naquela noite, enquanto Akihiro seguia tentando sem saber de nada… seu destino estava sendo discutido no salão do conselho do Reino de Lularis.
O rei Kael reuniu os nobres mais influentes do reino; estavam também presentes Emi Aurara, Aldric Hoven e a princesa Luna. A rainha não pôde comparecer. O clima era sério e pesado. O rei olhou para todos ao redor da mesa antes de começar a falar.
— Convoquei este conselho para discutirmos a situação de Akihiro Kurokami.
O silêncio tomou conta da sala. Os nobres trocaram olhares, e um deles foi o primeiro a falar:
— Majestade, os relatórios já foram analisados, e o jovem não possui nenhuma característica compatível com um herói.
Outro nobre concordou:
— Seu nível é apenas um, sua quantidade de mana é inferior à de um humano comum, e sequer possui uma Classe identificável.
— Isso nunca aconteceu antes.
Murmúrios surgiram pela sala.
— Será que a invocação falhou?
— Talvez tenha ocorrido algum erro durante o ritual.
Aldric cruzou os braços:
— Isso seria extremamente improvável.
Todos voltaram a atenção para ele.
— Segundo os registros históricos, o ritual sempre invoca os quatro heróis da profecia — continuou ele. — Nunca houve falhas registradas, pelo menos nenhuma que conhecemos.
— Então como explicar aquilo? — perguntou um dos nobres. — Porque aquele garoto definitivamente não é um herói.
A palavra ecoou pela sala. Emi permaneceu em silêncio; ela não gostava daquela situação, mas os números eram difíceis de contestar.
Outro nobre levantou a voz:
— De qualquer forma, não podemos ignorar os fatos. Os outros três possuem talentos extraordinários. Já Akihiro não demonstrou nada. Nem com armas, nem com magia, nem mesmo durante os treinamentos. Em uma guerra contra os demônios, ele seria incapaz de acompanhar os demais.
Kael fechou os olhos; aquelas palavras eram duras, mas refletiam exatamente o que ele vinha pensando nos últimos dias.
— Então chegamos ao verdadeiro problema — disse o rei, abrindo os olhos. — O que faremos em relação a ele?
— Não precisamos dele — respondeu um duque presente. — Os outros três heróis já são mais do que suficientes.
— Concordo.
— Ele apenas atrapalharia.
— Seria um peso para o reino.
As opiniões começaram a se repetir, uma após a outra. A princesa Luna observava em silêncio, até que praticamente todo o conselho parecia ter chegado à mesma conclusão.
Kael permaneceu calado por alguns instantes, então falou:
— Também não vejo motivos para mantê-lo no palácio.
A princesa Luna arregalou os olhos:
— Pai…
Mas o rei continuou:
— Durante dez dias demos a ele todas as oportunidades possíveis: treinamento, avaliações, tempo… e os resultados não mudaram. — Seu olhar tornou-se frio. — Não posso arriscar recursos do reino em alguém que não contribuirá para a guerra.
Luna levantou-se imediatamente:
— Isso não é justo!
Todos olharam para ela.
— Ele treinou todos os dias! Todas as noites! Enquanto os outros descansavam, ele continuava treinando! Eu vi isso com meus próprios olhos!
O salão ficou em silêncio.
— Mesmo sabendo que estava atrás dos outros — prosseguiu ela, com voz firme — mesmo ouvindo pessoas chamando-o de fracasso, ele nunca desistiu. Isso não significa nada para vocês?
Alguns nobres desviaram o olhar; outros apenas permaneceram indiferentes. Foi então que um deles respondeu:
— Determinação não vence guerras, princesa… poder vence.
Luna fechou os punhos com força:
— Mas fomos nós que o trouxemos para este mundo! Ele não pediu para estar aqui!
Emi finalmente tomou a palavra:
— Majestade, a princesa tem razão em um ponto.
Todos voltaram a atenção para ela.
— Independentemente do resultado da invocação, fomos nós que o arrancamos de seu mundo. Talvez fosse sensato mantê-lo sob proteção até encontrarmos uma forma de enviá-lo de volta.
O rei permaneceu calado por um instante; pareceu considerar a proposta, mas então balançou a cabeça:
— Não. A resposta foi firme. — A guerra se aproxima, não temos tempo nem recursos para desperdiçar.
Luna ficou incrédula:
— Pai…
Kael levantou-se de sua cadeira, e o simples gesto foi suficiente para silenciar todo o salão.
— Minha decisão está tomada — disse ele, e sua voz ecoou forte pelo conselho. — Declaro oficialmente que Akihiro Kurokami não será reconhecido como um dos heróis do reino.
Os olhos de Luna se encheram de aflição:
— Pai!
— Amanhã pela manhã ele será removido do palácio.
O silêncio tornou-se sufocante.
— O anúncio oficial dos heróis será adiado até que se reorganize a cerimônia.
Ninguém contestou: nem mesmo Emi, nem mesmo Aldric. A decisão do rei foi tomada.
Luna abaixou a cabeça, sentindo uma revolta sincera crescer dentro do peito. Pois ela sabia de uma coisa: enquanto todos ali só conseguiam enxergar números e estatísticas, ninguém parecia capaz de ver o jovem e todo o esforço que existia por trás deles.
E naquela mesma noite, sem saber de nada disso… Akihiro continuava treinando sozinho sob o luar. Sem imaginar que aqueles que o haviam invocado para aquele mundo já tinham decidido abandoná-lo.
Logo pela manhã, Kaito, Shiro e Haruki foram convocados para a sala do trono. Os três caminharam pelo grande salão até pararem diante do rei.
— Vossa Majestade desejava nos ver? — perguntou Kaito.
Kael permaneceu sentado em seu trono, com o olhar sério.
— Sim.
O rei apoiou os braços nos apoios do trono.
— Tomei uma decisão em relação a Akihiro Kurokami.
Os três prestaram atenção.
— Durante dez dias ele recebeu treinamento, durante dez dias recebeu recursos do reino, durante dez dias recebeu oportunidades para provar seu valor. E durante esses dez dias… — o olhar do rei tornou-se frio — não demonstrou nenhuma característica compatível com um herói. Sua mana é inferior à de um humano comum, seu nível permanece no um e seu desempenho foi inferior em todas as avaliações.
Os três heróis permaneceram em silêncio.
— Portanto, ficou decidido que ele não participará da guerra contra os demônios. Além disso, não permanecerá mais no palácio real.
Um sorriso surgiu no rosto de Kaito.
— Entendi. — Deu uma risada leve. — Então aquele cara realmente não era um herói.
Shiro desviou o olhar, e Haruki permaneceu calado.
— Aguardem aqui. Em breve ele será trazido até o salão.
Os três assentiram. Cerca de trinta minutos depois, as grandes portas se abriram. Akihiro entrou acompanhado por um cavaleiro, o rosto cheio de confusão.
— Majestade, trouxe o jovem Akihiro.
— Obrigado. Pode se retirar.
— Sim, senhor.
Quando o cavaleiro saiu, Akihiro olhou ao redor: o rei, os nobres, os guardas e até seus companheiros estavam todos ali reunidos.
— O que está acontecendo? — perguntou baixinho.
Ninguém respondeu de imediato, até que o rei tomou a palavra.
— Akihiro Kurokami, convoquei você para comunicar uma decisão do Conselho de Lularis.
O coração dele disparou no peito.
— Uma decisão…?
— Após analisarmos detalhadamente todos os seus resultados, chegamos à conclusão de que você não possui qualificações para ser reconhecido como um herói deste reino.
Akihiro ficou imóvel, como se tivesse perdido o chão.
— O… quê?
— Seus resultados foram insuficientes. Você não tem força, não tem mana e não apresenta utilidade militar para a guerra que está chegando.
Cada palavra atingiu-o como um golpe pesado.
— E-eu consigo melhorar! — deu um passo à frente, desesperado. — Posso treinar ainda mais! Só preciso de mais um pouco de tempo! Prometo ser útil! Por favor, me deem só mais uma chance!
O rei permaneceu imóvel e impassível.
— Já lhe dei dez dias inteiros. — Silêncio. — Dez dias para provar o seu valor, e durante todo esse tempo você não me deu um único motivo para crer que é realmente um herói.
Akihiro sentiu o peito se apertar dolorosamente, e sua voz saiu fraca e trêmula.
— Kaito… Shiro… Haruki… — olhou para os três, cheio de esperança. — Vocês também pensam assim?
Silêncio. Por um instante, uma pequena parte dele ainda esperava ouvir alguma palavra diferente.
Então Kaito sorriu, um sorriso frio, que ele nunca tinha visto antes.
— Claro que pensamos.
Akihiro gelou no lugar.
— O quê…?
Kaito também deu um passo à frente, olhando com indiferença.
— Ainda não percebeu?
— Perceber o quê? — sussurrou ele.
— Que você nunca foi importante para nós.
As palavras cortaram fundo, como uma lâmina afiada.
— Você nunca foi nosso amigo — continuou Kaito, sem qualquer remorso.
O mundo pareceu parar de girar ao seu redor.
— Não mesmo… Desde o início, só era útil quando convinha — prosseguiu o mais calmo. — Fazia os ser
viços chatos, ajudava nas provas, resolvia nossos problemas… facilitou muito a nossa vida no mundo antigo.
Akihiro começou a tremer dos pés à cabeça.
— Não… Isso é mentira… Diz que é mentira!
— Será mesmo? — retrucou Kaito com desdém.
Shiro fechou os olhos e a voz saiu baixa, sem coragem de encará-lo.
— Desculpa, Akihiro… mas não vou arriscar o meu futuro por sua causa.
Foi como receber mais uma facada no peito. Haruki apenas suspirou, desviando o olhar.
— Agora seguimos caminhos diferentes.
Sem palavras, Akihiro ficou paralisado. E então vieram à mente as palavras de Nagisa, como um aviso que não soube dar valor: “Akihiro… tenha cuidado com eles, não confio nesses três…”
Seu corpo tremeu mais forte.
— Não… não pode ser verdade… não…
Levou uma mão trêmula ao rosto, sentindo os olhos arderem.
— Então… — a voz quase não saiu — era só isso? Todo esse tempo… eu fui o único que realmente acreditou nessa amizade?
Ninguém disse nada. Não havia nada que pudessem responder.
— JÁ CHEGA!
A voz forte e indignada ecoou pelo salão, fazendo todos se virarem de uma vez. Era Luna. Ela avançou alguns passos, o olhar duro e cheio de reprovação.
— Chamam a si mesmos de heróis… — disse ela, encarando firmemente os três — mas estão aqui humilhando alguém que já perdeu tudo!
O salão ficou em silêncio absoluto.
— Será que o título de herói já subiu tanto à cabeça de vocês a esse ponto? — questionou com firmeza.
Kaito baixou o olhar, Shiro permaneceu calado e Haruki apertou os punhos sem jeito.
— Enquanto ele passava todas as noites acordado, treinando até não aguentar mais… vocês só estavam ocupados recebendo elogios e glórias! Eu vi o esforço dele com os meus próprios olhos! Todos os dias, sem faltar um só! — disse ela, e depois olhou para Akihiro com doçura e compaixão — pela primeira vez, alguém ali parecia realmente enxergá-lo, e não só números fracos
O rei levantou-se devagar, e imediatamente o silêncio voltou a dominar tudo. Sua presença era pesada e inquestionável.
— Akihiro Kurokami, a partir deste momento — anunciou com voz solene — revogo oficialmente sua condição de herói do Reino de Lularis.
As pernas de Akihiro amoleceram, quase caindo.
— Além disso… — continuou o soberano — você não pertence mais a este reino.
Luna arregalou os olhos, assustada.
— Pai… por favor…
— Amanhã, ao primeiro raio de sol — a voz ecoou forte — será escoltado para fora dos limites dos territórios de Lularis.
Então veio a sentença final:
— E será abandonado na Grande Floresta da Morte.
O salão inteiro ficou imóvel, chocado. A princesa Luna foi a primeira a reagir:
— O QUÊ?! — Ela avançou imediatamente, tomada pela indignação. — Quando decidiram isso? Isso não é exílio! É uma sentença de morte! Mesmo que ele não seja reconhecido como herói, fomos nós que o trouxemos para este mundo! Isso é injusto!
Aldric também deu um passo à frente:
— Majestade, peço que reconsidere.
O rei o encarou firmemente:
— Está questionando minha decisão?
— Não, senhor, jamais — respondeu Aldric, mantendo a voz segura. — Mas estou alertando para o risco: ainda não sabemos tudo sobre esse jovem.
Kael ignorou o aviso e virou o rosto na direção de Akihiro:
— Eu governo com base nos fatos. E o fato diante de mim é simples: ele não traz nenhum benefício ao reino.
Mais uma vez, as palavras duras bateram forte no peito do jovem.
— Mas, pai… — tentou Luna intervir novamente.
— CHEGA! — cortou o rei. Sua voz trovejou pelo salão, calando a todos de vez. — Minha decisão está tomada.
Ninguém mais ousou falar. Naquele instante, Akihiro entendeu de verdade: ali, naquele mundo desconhecido, ele estava completamente sozinho.
O rei voltou a se acomodar no trono, agindo com uma calma indiferente, como se não tivesse acabado de ditar uma sentença cruel:
— Preparem a escolta. Ao amanhecer, ele será levado e deixado sozinho na floresta.
Akihiro permaneceu parado, imóvel, como se o corpo tivesse perdido qualquer força para reagir. Ao seu redor, só havia olhares: de desprezo, de receio, de indiferença… Ninguém estendia a mão para ajudá-lo.
Então, reunindo toda a dor e o rancor que sentia, ele ergueu a voz:
— Me invocam até aqui… me tratam como lixo… — Seus punhos se cerraram com tanta força que as articulações ficaram brancas. — Como se eu fosse algo sem valor… só porque sou fraco?
Todos prestaram atenção, mas ninguém
respondeu.
— É POR ISSO MESMO?! — gritou, e o som ecoou alto pelas paredes de pedra.
Até alguns nobres se surpreenderam com a coragem do garoto em desafiar a autoridade real. Akihiro deu um passo à frente, depois outro, olhando diretamente nos olhos do soberano:
— Então por quê?! Por que me chamaram?! Responda! Me arrancaram da minha casa, da minha família, do meu mundo… e agora querem me jogar fora como se eu fosse um objeto inútil?!
O salão permaneceu em silêncio absoluto. O rei não demonstrou nenhum abalo, e aquela frieza só fez crescer ainda mais a revolta que queimava no peito do jovem.
— VÃO TODOS À MERDA! — gritou ele, avançando mais um passo.
Os guardas reagiram depressa. Agarraram os braços de Akihiro com força, enquanto espadas afiadas eram apontadas contra o seu pescoço. Ele lutou para se soltar, mas foi inútil.
— Soltem-me! Me soltem, pelo amor de Deus!
— Já chega — disse o rei. Sua voz fria e sem emoção cortou o tumulto imediatamente. — Tirem-no da minha frente.
— Sim, Majestade — responderam os guardas.
Eles começaram a arrastá-lo para fora do salão. Alguns nobres olhavam com desdém; outros desviavam o olhar, fingindo não ver a cena cruel.
Enquanto era levado, uma pergunta martelava sem parar dentro de sua cabeça:
Por quê? Por que estou passando por isso? Por que sempre acaba assim?
Seus olhos arderam, e as lágrimas finalmente rolaram pelo rosto. Akihiro não lutou mais. Deixou-se levar, entregando-se ao cansaço… até que as portas pesadas do salão se fecharam atrás dele com um estrondo:
BOOM!
O som reverberou pelos corredores, e depois veio o silêncio completo.
Dentro do salão, Luna permaneceu estática. Sua voz saiu baixa, mas carregada de mágoa:
— Precisava mesmo chegar a esse ponto, pai?
O rei suspirou, massageando as têmporas:
— Entenda, filha… estamos à beira de uma guerra terrível. Não podemos carregar pesos que não ajudam a lutar.
— Um peso? — repetiu ela, apertando os punhos com indignação. — É assim que o senhor enxerga uma vida humana?
— Ele não tem utilidade para o reino — respondeu ele, calmamente. — Essa é a dura realidade.
— NÃO! — rebateu ela, fazendo todos se calarem novamente. — Isso não é verdade! A verdade é que fomos nós que o tiramos de tudo o que conhecia! Fomos nós que o trouxemos para cá! E agora vamos abandoná-lo na Grande Floresta da Morte? Isso não é uma decisão sensata… é crueldade pura!
O rei fechou os olhos por um instante. Ao abri-los, porém, nada havia mudado.
— Minha decisão está tomada.
Luna ficou imóvel por um momento. Então, sabendo que não havia mais jeito de convencê-lo, desviou o olhar. Sem dizer mais nenhuma palavra, virou-se e saiu devagar, com os passos ecoando tristemente pelo corredor vazio.
O rei permaneceu sozinho no trono, calado. Pela primeira vez, até os nobres presentes pareciam inquietos, incomodados com o peso daquela decisão.
Lá fora, Akihiro foi jogado em um quarto pequeno, frio e afastado, longe de todos os outros aposentos reais.
Enquanto isso, o Reino de Lularis seguia apressando os preparativos. Faltavam poucos dias para a cerimônia oficial onde os heróis seriam apresentados ao povo. Criados corriam de um lado para o outro, cavaleiros organizavam a guarda e mensageiros cruzavam os corredores levando ordens urgentes.
A antiga profecia dos deuses estava prestes a se cumprir.
Séculos atrás, quando o terrível Rei Demônio quase destruiu tudo, os deuses lutaram ao lado dos homens e conseguiram selar os demônios em uma dimensão distante. Mas, antes de partirem, deixaram escrito: quando a ameaça voltasse, quatro heróis seriam chamados para salvar a humanidade.
Os quatro tinham chegado… mas apenas três foram aceitos. E essa terrível diferença deixava uma dúvida sombria no ar, algo que nem mesmo o rei conseguia explicar direito.
Nos seus aposentos, o rei Kael permanecia sentado diante da janela, com o olhar distante e pensativo. As palavras de Luna ainda ecoavam claramente em sua mente:
“Somos nós que o trouxemos para este mundo”.
Ele fechou os olhos e murmurou baixinho para si mesmo:
— Fiz a escolha correta… Um governante não pode tomar decisões guiado apenas pela emoção. — Ao abrir os olhos novamente, encarou o céu que clareava devagar além do horizonte. — Aquele jovem só se tornaria um peso para o nosso reino.
O monarca levantou-se sem pressa, ajeitando suas vestes reais.
— Já está na hora.
Pouco tempo depois, em outra ala do palácio, uma criada bateu suavemente à porta dos aposentos dos heróis:
— Com licença.
Os três jovens voltaram o olhar para a entrada.
— Sua Majestade aguarda vocês na sala do trono.
Kaito abriu um sorriso satisfeito, ajeitando a postura:
— Agradecemos o aviso.
— É uma honra poder servir aos heróis — disse a criada, curvando-se educadamente antes de se retirar e fechar a porta.
Na sala do trono, o rei já os esperava com sua imponência habitual. Ao seu lado estava uma jovem de longos cabelos loiros, trajando vestes elegantes e mantendo uma postura impecável.
Os três heróis entraram e caminharam até pararem diante do soberano.
— Agradeço por terem vindo — disse Kael.
— A honra é toda nossa, Majestade — respondeu Kaito prontamente, tomando a liderança do grupo.
O rei assentiu com a cabeça, satisfeito com a postura do rapaz.
— Muitas coisas aconteceram nesses últimos dias, mas ainda há alguém que não apresentei formalmente a vocês. — Ele fez um gesto suave em direção à jovem ao seu lado. — Esta é minha filha, a princesa do Reino de Lularis: Luna Lularis.
Luna segurou delicadamente a barra do vestido e fez uma reverência graciosa:
— É um prazer conhecê-los.

Por alguns instantes, o salão caiu em um breve silêncio. Os três ficaram encantados. A beleza delicada e a aura nobre da princesa chamaram imediatamente a atenção de todos ali.
Kaito foi o primeiro a recuperar a fala, exibindo seu melhor sorriso:
— É um grande prazer conhecê-la, princesa.
Shiro sorriu de forma amigável, um pouco mais contida:
— Também é um prazer conhecê-la.
Haruki deu uma risada leve, coçando a nuca com um ar descontraído:
— O prazer é todo meu.
Luna apenas devolveu o cumprimento com um sorriso educado e reservado. Era apenas cortesia formal, mas para os três rapazes parecia a maior das atenções.
Kaito trocou um olhar rápido e cheio de confiança com os companheiros; sentiam-se ainda mais importantes. Afinal, eram os heróis escolhidos pela profecia, os salvadores daquele mundo, e o reconhecimento precoce já começava a subir-lhes à cabeça.
— Espero que possamos trabalhar muito bem juntos daqui para frente — disse Kaito, cheio de si.
— Também espero — respondeu ela suavemente.
Mas por trás da resposta polida, o coração da princesa não estava ali. Sem que pudesse controlar, sua mente insistia em trazer à tona outro rosto: o rosto do jovem a quem todos tinham virado as costas e deixado sozinho no escuro.
Akihiro.
O rei levantou-se devagar para encerrar o encontro:
— Muito bem, as apresentações estão concluídas. Agora, retornem aos seus treinamentos.
— Sim, Majestade — responderam os três em uníssono.
Eles saíram sem demora, seguindo animados e conversando alto em direção ao campo de treinamento. Enquanto isso, em um quarto afastado, frio e silencioso do castelo, Akihiro permanecia só. Ele aguardava no escuro,
sem saber que, naquele exato momento, seu caminho começava a se separar para sempre do destino brilhante reservado aos outros três.