O médico respirou fundo antes de começar.
— Miku... eu não vou mentir para você, nem fingir que está tudo bem. Acho que você tem o direito de saber o que aconteceu.
O quarto ficou em silêncio.
— Há algumas semanas, você sofreu um grave acidente. Uma mulher que passava pela rua encontrou você caída e perdendo muito sangue. Ela chamou a ambulância imediatamente.
Miku permaneceu olhando para o médico, tentando entender.
— Você teve muita sorte. Se ela tivesse demorado mais alguns minutos para passar por ali...
O médico parou de falar.
Não precisou terminar a frase.
Miku abaixou a cabeça.
Seus pais permaneceram em silêncio.
Depois de alguns segundos, ela perguntou em voz baixa:
— Doutor... por que eu não consigo sentir meu olho esquerdo?
O médico olhou para os pais.
Os dois, mesmo com lágrimas nos olhos, fizeram um leve aceno com a cabeça.
Ele voltou a encarar Miku.
— Infelizmente... você perdeu o olho esquerdo.
O mundo pareceu parar.
Miku arregalou os olhos.
Olhou para o médico.
Depois para seus pais.
Nenhum deles dizia uma palavra.
As lágrimas começaram a cair.
Seu pai tentou segurar sua mão.
Mas Miku a afastou delicadamente.
Ela respirou fundo, tentando controlar o choro.
Então perguntou:
— Me diga tudo... o que aconteceu comigo?
O médico assentiu.
— Além da perda do olho, você sofreu queimaduras graves em parte do corpo por causa do impacto do acidente.
Ele fez uma pequena pausa.
— Você também perdeu parte das suas memórias. Ainda não sabemos se elas voltarão completamente, mas existe essa possibilidade.
O silêncio voltou a tomar conta do quarto.
Miku continuava olhando para os lençóis.
— Tem... mais alguma coisa?
— Não.
Ela fechou os olhos.
— Eu queria ficar sozinha... por favor.
Sua mãe deu um passo à frente.
— Miku...
Ela não respondeu.
O pai segurou delicadamente o braço da esposa.
— Vamos dar um tempo para ela.
Os três caminharam até a porta.
Antes de sair, o médico disse:
— Se precisar de qualquer coisa, é só chamar uma das enfermeiras.
A porta se fechou.
O quarto ficou completamente silencioso.
Miku levou lentamente a mão até o lado esquerdo do rosto.
Seus dedos tocaram os curativos.
Depois tocaram o lugar onde antes estava seu olho.
Ela ficou imóvel.
As lágrimas começaram a cair novamente.
— Por quê...?
Sua voz falhou.
— Isso... isso não pode ser verdade...
Ela apertou os lençóis.
— É só um sonho...
Mais lágrimas.
— Não... não pode...
Ela se virou de lado na cama.
— Meu olho...
Sua respiração ficou descontrolada.
— Meu rosto...
Ela levou as mãos ao rosto e começou a chorar ainda mais.
— Mamãe...
— Papai...
Do lado de fora do quarto, seus pais ouviam tudo.
A mãe já não conseguia conter o choro.
O pai abriu a porta.
Os dois correram até a cama.
A mãe abraçou Miku com força.
— Filha...
Miku não disse nada.
Apenas chorou ainda mais nos braços deles.
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Algumas horas depois.
O médico bateu na porta.
— Posso entrar?
Miku enxugou as lágrimas.
— Pode.
— Como está se sentindo?
Ela respirou fundo.
— Não posso dizer que estou bem... mas estou tentando aceitar.
O médico sorriu de forma gentil.
— Isso já é um grande passo.
Ele consultou a prancheta.
— Sua recuperação física está sendo muito rápida. Se continuar assim, em alguns dias você poderá voltar para casa.
Miku apenas ouviu.
— Mas as enfermeiras me disseram que suas memórias ainda não voltaram.
— Não...
— Você se lembra de alguma amiga?
Miku pensou por alguns segundos.
— Eu... tenho amigas?
O médico fez uma anotação.
— Entendo.
Ele guardou a prancheta.
— Mesmo depois da alta, você precisará voltar ao hospital a cada dois dias para fazermos exames.
Miku apenas assentiu.
O médico caminhou até a porta.
Então se lembrou de algo.
— Miku... você gostaria de ver seu rosto em um espelho?
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Não.
O médico esperou.
— Quando eu voltar para casa... eu mesma vou olhar.
Ele colocou o pequeno espelho de volta no bolso do jaleco.
— Entendo.
Antes de sair, sorriu levemente.
— Você é mais forte do que imagina.
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Dias depois...
O médico aproximou uma pequena lanterna do rosto de Miku.
— Hoje é o dia da sua alta. Vamos fazer alguns testes.
Ele levantou quatro dedos.
— Quantos dedos tem aqui?
Miku tentou focar.
Seu olho começou a lacrimejar.
Ela piscou algumas vezes.
— Três...?
O médico sorriu.
— Não. Eram quatro.
— Tudo bem. Vamos de novo. Não force. Vá com calma.
Ele levantou oito dedos, usando as duas mãos.
Miku respirou fundo.
— Oito.
— Muito bem.
Depois levantou seis.
— E agora?
— Seis.
— Certo.
O médico começou a mover a mão lentamente.
— Agora acompanhe minha mão apenas com o olhar.
Miku tentou.
Após alguns segundos, ficou um pouco tonta.
O médico interrompeu o teste.
— Excelente. Já é suficiente.
Ele sorriu.
— Miku, você já pode voltar para casa.
Virando-se para os pais, acrescentou:
— Qualquer problema, tragam ela imediatamente ao hospital. E, por enquanto, não deixem que saia sozinha.
— Pode deixar. Muito obrigado, doutor. — respondeu o pai.
Depois de tantos dias deitada, Miku se levantou lentamente.
Alongou o corpo.
Olhou pela janela por alguns segundos.
Então desviou o olhar.
Sua mãe colocou uma sacola sobre a cama.
— Filha, trouxe uma roupa para você.
— Vamos ao banheiro? Lá será mais confortável para trocar.
— Não precisa...
Miku respondeu baixinho.
— Pode deixar a roupa aqui. Eu me troco sozinha.
— Tem certeza?
— Por favor...
O pai colocou a mão no ombro da esposa.
— Vamos. Ela precisa de um pouco de espaço.
Antes de sair, ele disse:
— Vamos resolver a papelada da alta. Estaremos esperando na recepção.
Miku fez um pequeno aceno com a cabeça.
A porta se fechou.
Ela caminhou até ela e a trancou.
Depois fechou a cortina da janela.
Pegou a sacola.
Ficou olhando para as roupas durante alguns segundos.
Respirou fundo.
Começou a tirar a roupa do hospital.
Olhou para o teto.
Fechou os olhos.
Então abaixou lentamente o olhar para o próprio corpo.
Os curativos ainda cobriam grande parte da pele.
Ela respirou fundo mais uma vez.
Sem dizer uma palavra, começou a vestir as roupas novas.
Do lado de fora, seus pais aguardavam em silêncio.
Alguns minutos depois...
A porta do quarto começou a se abrir.