O Encontro
Um relâmpago que pareceu rasgar a própria realidade iluminou o ambiente. Por um instante, Katsu só enxergou o branco.
Quando a luz se dissipou, o silêncio veio pesado demais. O ar estava diferente. Frio. Ele não reconhecia o lugar.
O local lembrava o corredor de um prédio — estreito, de paredes lisas —, mas estendia-se além do que os olhos alcançavam. As decorações nas paredes se repetiam, infinitas vezes.
Katsu levou a mão à cabeça, sentindo o coração bater rápido demais.
— Isso... não faz sentido.
Mais adiante, naquela infinitude, uma única porta se destacava, parecendo chamar por ele. Katsu hesitou por alguns segundos antes de dar o primeiro passo, como se temesse que o chão pudesse ceder sob seus pés.
Mas, antes que pudesse avançar, um som agudo ecoou. Garras arranhavam o chão como pregos em um quadro-negro. Ele congelou, o coração martelando no peito, e lentamente se virou. O que viu roubou seu fôlego: uma criatura bestial, de olhos vermelhos e famintos, com dentes tão afiados que pareciam capazes de despedaçar ossos com um único golpe.
A criatura começou a se aproximar, com os olhos fixos nele. As patas da fera batiam no chão em um ritmo implacável, reduzindo a distância entre eles a cada segundo.
O pânico o paralisou momentaneamente. Mas então, como se o próprio destino interviesse, a porta à sua frente se abriu e ele ouviu a voz urgente de uma garota, que mantinha o braço esticado em sua direção:
— Venha rápido!
Tomado por uma adrenalina repentina, Katsu correu. Cada passo parecia levar uma eternidade. A fera soltou um rugido ensurdecedor e disparou com fúria em seu encalço.
Quando Katsu entrou, a garota fechou a porta num estrondo, deixando o monstro do lado de fora. Ela ficou por um instante ali parada, com a testa encostada na porta, manteve a palma da mão pressionada contra a madeira. De olhos fechados, sussurrou para a porta com uma voz carregada de um pesar antigo:
— Me desculpe...
Dentro do apartamento, Katsu desabou na sala com as pernas tremendo. O lugar era moderno e acolhedor, mas ele sentiu uma sensação de confinamento imediata, como se o mundo inteiro se limitasse àquele espaço.
— O que era aquilo? Que lugar é esse? Quem é você? — disparou Katsu, ofegante, enquanto o mundo girava em sua mente.
— Por favor, se acalme. Você está seguro agora — disse a garota, a voz carregada de preocupação. Seus olhos o examinavam atentamente, buscando sinais de ferimentos. — Meu nome é Kira. E o seu?
— Eu... eu sou Katsu — respondeu ele, começando a recuperar o fôlego, a voz falhando enquanto tentava juntar as peças. — Obrigado... eu achei que ia morrer.
— Aqui você está seguro — reforçou Kira, num tom gentil que visava tranquilizá-lo.
Katsu engoliu em seco, desviando o olhar para a porta trancada.
— Mas... o que era aquilo? Aquele monstro?
Kira suspirou, sua expressão misturando pena e exaustão.
— Um dos muitos perigos do corredor. Eles não deviam estar aqui... mas, desde que ela chegou, nada é mais seguro.
Katsu franziu a testa.
— Ela? Quem?
Kira hesitou, como se as palavras tivessem um gosto amargo.
— Nós a chamamos de Kirai. Pelo menos, é assim que eu e... as outras Kiras a chamamos. Ela é diferente. Perigosa. Foi ela quem trouxe os monstros para o corredor.
Katsu arregalou os olhos, surpreso.
— Outras Kiras? Eu achei que Kira era o seu nome.
— E é o meu nome. O nome de todas nós.
— Isso está meio confuso. Quer dizer que, neste prédio, há outras pessoas com o mesmo nome?
Kira deu um pequeno sorriso, triste e compreensivo.
— Não existe um prédio. Apenas corredores ligando mundos. E agora, você está no meu.
— Para. — Ele respirou fundo. — Mundos? Eu não... não estou bem para brincadeira. Eu só quero voltar pra casa.
Kira enfiou as mãos nos bolsos do moletom, pensando em como explicar a realidade em que ele se encontrava.
— Katsu, abra a janela e dê uma olhada. Mas, por favor... não se assuste.
Katsu sentiu um aperto no peito com o pedido, mas caminhou até a janela. Ao abri-la e olhar para fora, ficou sem reação.
Diante dele estava um vazio cósmico, profundo e repleto de estrelas. O apartamento parecia flutuar solto no espaço, sem chão, sem céu, apenas o infinito.
— O quê? Como? — balbuciou, com o olhar perdido na imensidão. — O mundo, o planeta... tudo sumiu! Não tem nada!
Kira tentou se aproximar, mas ele recuou bruscamente, as mãos tateando o batente da janela.
— Essa janela é falsa, só pode ser! — Ele soltou um riso nervoso, quase histérico. — Isso é uma tela, um truque... é impossível! Impossível!
Ele continuou repetindo a palavra, procurando por fios ou emendas na "imagem", mas só encontrou o frio do vidro e o silêncio do vácuo. Kira esperou em silêncio até que os ombros dele cedessem.
— Se acalme, por favor — disse ela, pousando a mão com leveza no ombro dele.
Desta vez, Katsu não recuou. Ele permitiu que ela o guiasse, com as pernas ainda bambas, até o sofá.
— Sente-se. Vou te explicar tudo.
***
— O seu mundo está bem. Onde você está agora é outro lugar. Você está no meu mundo.
— Eu enlouqueci?
— Não diga isso! — Kira levou a mão ao peito, sentindo um aperto, como se a sugestão a ferisse. — Eu não vou deixar que isso aconteça! — completou, com a voz mais séria.
Katsu colocou as mãos no rosto, encheu os pulmões de ar e soltou devagar.
— Ok, vou escutar. Me explique o que é isso tudo, por favor.
Kira sentou-se ao seu lado.
— Este mundo é interligado a outros através do corredor. Cada um destes mundos é habitado por uma versão de mim; algumas parecidas, outras bem diferentes.
Katsu prestava atenção, mas com um olhar de pura incredulidade.
— Certo... são clones? — perguntou, tentando racionalizar as palavras dela.
— Não, não. Algumas são únicas, tanto em aparência quanto em personalidade.
— E quantas são?
— Incontáveis — respondeu ela, com um leve dar de ombros.
Katsu passou as mãos pelos cabelos enquanto tentava processar a informação. Apontou para a porta com receio.
— E como eu volto pra casa, com aquela coisa lá fora? E aliás, essa porta de madeira é segura?
— Não precisa se preocupar com a fera. Não é uma porta comum; enquanto estiver fechada, nada pode entrar. E para viajarmos, a porta se conectará a um novo corredor, um caminho diferente que leva ao mundo de destino. — Kira levantou-se, tentando mudar o clima.
— Mas não precisa ter pressa! — disse ela, e havia uma nota de ansiedade na sua voz, como se temesse o silêncio que viria se ele parasse de falar. — Você não quer tomar um chá? Vou preparar, é rapidinho. Eu tenho... eu tenho várias ervas diferentes. Podemos conversar mais, você pode me contar do seu mundo...
Ela já ia em direção à cozinha, os movimentos rápidos demais, numa tentativa quase desesperada de normalizar o caos, quando Katsu a interrompeu.
— Não! Obrigado... Quero ir pra casa. Agora.
Kira parou na porta da cozinha, um pouco decepcionada.
— O problema é que eu ainda não sei como chegar ao seu mundo... mas prometo que vou descobrir.
O Conflito
Durante a conversa, uma névoa escura começou a se formar no centro da sala. A temperatura despencou bruscamente e o ambiente, antes acolhedor, tornou-se carregado de tensão elétrica. Dentro da névoa, uma silhueta se delineava; claramente feminina, com contornos que lembravam muito os de Kira.
— Que cena patética. — A voz era idêntica à de Kira, mas desprovida de qualquer calor. — Você ofereceu o seu chá e promessas vazias?
A silhueta se virou para Katsu.
— Não se sinta especial. — Kirai inclinou a cabeça, um movimento lento e predatório. — Você não é um convidado. É uma peça que eu movi. Foi o meu esforço que te arrancou de seu mundo. Você me pertence, e se cooperar posso te levar de volta.
— Não dê ouvidos a ela, Katsu! — gritou Kira, com raiva. — Ela é mentirosa e manipuladora.
O vulto voltou o rosto para Kira. O desdém em sua expressão era como uma bofetada.
— Quando irá entender que nenhum deles vai preencher esse silêncio, sua tola? Entregue-o. Eu não tenho paciência para crises de caridade.
A silhueta começou a se desmanchar em fumaça, avançando em direção a Kira antes de sumir por completo. A voz fantasmagórica, porém, permaneceu ecoando pelas paredes do apartamento:
— Me devolva o que é meu. Agora.
Katsu, atordoado pelo que acabara de presenciar, olhou para a Kira ao seu lado. Ela parecia lutar contra uma mistura de medo e raiva, balançando a cabeça repetidamente.
— Não, não... de novo não.
— O que foi aquilo? — perguntou Katsu, a voz trêmula de pavor.
Kira respirou fundo, tentando se recompor.
— Aquela... era a Kirai — explicou, resignada.
Um calafrio percorreu a espinha de Katsu.
— Ela... ela disse que me trouxe aqui.
Kira concordou com a cabeça. O olhar dela estava preocupado, refletindo uma batalha interna.
— Ela tem essa habilidade, de algum modo. Manipula os corredores, os mundos, e às vezes... leva pessoas. Eu não sei ao certo como ela faz isso ou por quê.
Katsu olhou para a porta que levava ao corredor, agora um lugar ainda mais ameaçador do que antes.
— E agora? O que fazemos?
Kira olhou nos olhos de Katsu, misturando determinação e desespero.
— Eu vou te proteger. E juntos, vamos encontrar um caminho.