Um Brilho de Esperança
Katsu e Kira atravessaram a porta, as pernas pesadas pela fuga desesperada do labirinto. Ao abrirem os olhos, a escuridão opressiva da pedra fria foi substituída por um crepúsculo eterno.
Eles estavam em uma floresta densa, mas não ameaçadora; era banhada por uma luz estelar prateada que parecia filtrar-se através das copas das árvores gigantescas. O ar era fresco, carregado com o aroma doce de pinho, orvalho e terra molhada.
À frente deles, aguardando com uma postura serena, estava uma elfa. Ela vestia um robe azul-noite, cujas bordas eram bordadas com fios que pulsavam em luz rúnica. Em sua mão, um cajado de madeira branca sustentava uma esfera que girava no ar.
— Finalmente! — A voz dela era melodiosa, mas carregava alívio. — Eu senti a vibração do golem. Achei que não conseguiriam passar.
Kira endireitou a postura, ainda recuperando o fôlego, e fez as apresentações:
— Katsu, esta é Kirana. Ela é a versão maga... e uma das poucas em quem confio plenamente.
Kirana ergueu uma sobrancelha, um sorriso irônico brincando nos lábios.
— "Confia plenamente"? Bons amigos não desaparecem por tanto tempo sem mandar notícias. — Ela voltou seus olhos brilhantes para Katsu. — Prazer em conhecê-lo, viajante.
Katsu fez um gesto desajeitado de cumprimento.
— O prazer é meu. — Ele olhou em volta, desconfiado das sombras das árvores. — Mas como você sabia que estávamos vindo?
Kirana bateu a base do cajado no chão, e uma onda de luz azul percorreu a grama ao redor deles.
— Esta floresta e eu somos uma só. Eu sinto cada folha que cai e cada porta que se abre. — Ela girou o cajado e apontou para uma trilha iluminada. — E vocês chegaram em um momento delicado. Venham, vamos para a cabana. As proteções lá são mais fortes.
Katsu hesitou. A memória dos dentes da fera e do punho do golem ainda estava fresca. Percebendo a tensão dele, Kira deu-lhe um leve empurrão com o cotovelo.
— Relaxa, Katsu. Se a Kirana diz que é seguro, é seguro. Ela é a mais poderosa de nós.
— "A mais poderosa"? Gosto disso — riu Kirana. — Vamos. Se algo tentasse atacá-los aqui, já teria virado adubo.
O caminho pela mata era um espetáculo à parte. Pequenas esferas de luz, semelhantes a vaga-lumes etéreos, surgiam da vegetação para iluminar o trajeto, reagindo à presença de Kirana.
— Então — começou Kira, tentando quebrar o gelo enquanto caminhavam —, o que você tem feito? Ainda criando feitiços perigosos?
— "Experimentais", querida. Eu prefiro o termo "experimentais" — corrigiu Kirana com um sorriso travesso.
A trilha desembocou em uma clareira pitoresca. No centro, uma cabana de madeira escura e telhado inclinado parecia ter crescido de forma organica da terra. Luz dourada e acolhedora vazava pelas janelas redondas.
— Bem-vindos ao meu santuário — anunciou Kirana, abrindo a porta com um gesto da mão, sem tocá-la.
O interior era uma mistura de biblioteca e laboratório de alquimia. O teto, alto e abobadado, era incrustado com cristais que simulavam constelações. Uma lareira crepitava com chamas que mudavam de cor — do laranja para o violeta —, e o cheiro de lavanda e pergaminho velho preenchia o ar.
— Sentem-se, por favor. — Kirana apontou para um sofá coberto de mantas. Ela se virou para Kira, estendendo a mão com expectativa. — O Cristal do Tempo. Deixe-me vê-lo.
Kira retirou o cristal da bolsa e o entregou. A maga segurou a pedra, girando-a entre os dedos longos.
— A matriz de mana foi drenada pelo uso recente — diagnosticou ela. Segurando o cristal com ambas as mãos, Kirana sussurrou palavras numa língua que Katsu não compreendeu, mas que fez o ar vibrar. O cristal emitiu um brilho intenso, antes de estabilizar num azul constante. — Pronto. Está novo em folha.
Katsu, fascinado, ergueu o pulso com a Pulseira de Energia.
— Será que você pode recarregar isso também? A bateria se esgotou.
Kirana pegou o pulso dele, analisando o dispositivo com curiosidade antropológica, mas sem compreensão técnica.
— Hm... metal frio, luz artificial, sem fluxo de mana. — Ela soltou o braço dele. — Isso é tecnologia, provavelmente coisa da K1-R4. Sinto muito, Katsu. Minha magia lida com as forças da natureza e do éter, não com... circuitos.
Ela caminhou até um baú de carvalho no canto da sala e começou a revirar o conteúdo.
— Mas talvez eu tenha algo útil para a viagem... Onde coloquei aquele... ah!
Antes que ela terminasse, Kira, que espiava por cima do ombro da maga, viu um colar prateado com uma etiqueta pendurada: "Colar da Invisibilidade".
— Uau! Posso testar? — perguntou Kira, já colocando o colar em volta do pescoço antes de obter resposta.
— Kira, espera! — Kirana tentou avisar, mas era tarde.
— O que tem demais? E então? Funcionou? Estou invisível?
Katsu arregalou os olhos e, num reflexo de pânico e vergonha, cobriu o rosto com as mãos e virou-se de costas bruscamente.
— Kira! Suas roupas sumiram!
Kira olhou para baixo. Seu corpo estava ali, visível como sempre, mas suas roupas haviam desaparecido, deixando-a apenas de roupas íntimas. Ela soltou um grito agudo, cruzando os braços sobre o peito.
— Que tipo de invisibilidade é essa?!
Kirana riu de nervoso, estalando os dedos. O colar se soltou do pescoço de Kira e as roupas reapareceram.
— Desculpe! Ainda estou calibrando o feitiço. Ele deveria tornar a pessoa invisível, mas por enquanto só afeta tecidos superficiais. — Ela pigarreou, tentando recuperar a postura sábia. — Falha técnica.
Enquanto Kira, com o rosto vermelho como uma pimenta, ajeitava o moletom, Kirana voltou ao baú e retirou um objeto diferente. Era uma pedra rúnica circular, perfeitamente polida.
— Aqui está, achei que tinha perdido. A Runa do Retorno.
O clima na sala mudou instantaneamente. A vergonha deu lugar a uma expectativa palpável.
— Essa runa está vinculada ao conceito de "Lar" — explicou Kirana, entregando o objeto a Katsu. — Ela deve ser capaz de puxar você através do véu dimensional de volta para o seu mundo.
— Eu... eu vou poder voltar para casa? Agora? — A voz de Katsu falhou, os olhos marejados de esperança.
Ao lado dele, Kira congelou. O alívio de vê-lo salvo colidiu violentamente com uma pontada aguda de solidão. Por um segundo, a máscara de bravura caiu, revelando uma tristeza profunda. Ela desviou o olhar para a lareira, mordendo o lábio.
— É claro — disse Kira, forçando um sorriso que não chegou aos olhos. — É isso que queríamos, não é?
Katsu, focado na runa, não percebeu. Mas Kirana viu. A maga alternou o olhar entre os dois, compreendendo algo que nem eles mesmos haviam admitido ainda.
— Segure com as duas mãos, Katsu — instruiu Kirana, suavemente. — Visualize sua casa. Sua vida. Onde você pertence.
Katsu obedeceu. Ele fechou os olhos, a pedra fria em suas mãos. Casa. Chuva. A universidade. A runa começou a pulsar com uma luz branca, crescendo em intensidade. O ar ao redor de Katsu começou a chiar, como estática.
Vai funcionar, pensou Kira, sentindo um aperto no peito.
E então, a luz morreu.
Não houve explosão, nem som. A runa simplesmente apagou, voltando a ser uma pedra comum e cinzenta.
Katsu abriu os olhos, o silêncio da sala gritando em seus ouvidos.
— Por que parou? — Ele sacudiu a pedra. — Por que não funcionou?!
Kirana suspirou, pegando a runa de volta e analisando-a com tristeza.
— A conexão foi rejeitada. Algo... ou alguém... bloqueou o caminho. Ou talvez seu mundo esteja "trancado" de alguma forma que minha magia não consegue penetrar.
Katsu desabou no sofá, a esperança drenada de seu corpo. Kira sentou-se ao lado dele, colocando a mão em seu ombro. Ela queria dizer algo, mas sentia-se culpada pelo alívio egoísta que brotara em seu peito.
— Não vamos desistir — disse ela, firme. — Vamos achar outro jeito.
A Floresta em Movimento
A noite caiu pesada sobre a floresta, enquanto Kirana pesquisava alternativas em grimórios antigos.
Ela fechou o livro com um suspiro. Percebendo a exaustão física e emocional dos convidados, preparou o ambiente.
— Descansem. — Com um aceno do cajado, tapetes se transformaram em camas confortáveis. — Amanhã pensaremos com clareza. Aqui dentro, nada pode tocar vocês.
Katsu deitou-se, virando para a parede, imerso em sua frustração. Kira adormeceu logo em seguida, exausta.
Mas a paz não durou.
No meio da madrugada, um estrondo que parecia vir das entranhas da terra fez a cabana inteira estremecer. Livros caíram das prateleiras e os cristais no teto tilintaram violentamente.
— Acordem! — A voz de Kirana cortou o sono deles como uma lâmina. Ela já estava de pé, o cajado brilhando intensamente.
— O que foi isso? Um terremoto? — perguntou Katsu, levantando-se num pulo.
Kirana correu para a janela e abriu as cortinas. O rosto dela, iluminado pela luz do cajado, empalideceu.
— Pior. A floresta... ela se voltou contra nós.
Katsu e Kira olharam para fora. O que viram desafiava a lógica. As árvores gigantescas não estavam apenas balançando com o vento; elas estavam se movendo. Raízes grossas como troncos rompiam o solo, arrastando-se como pernas de aranha. Galhos retorcidos se fechavam como garras, avançando em direção à clareira.
— Kirai... — sussurrou Kira. — Ela corrompeu a floresta.
Um tronco maciço golpeou a lateral da cabana. A madeira gemeu sob o impacto.
— Eu vou segurá-las! — gritou Kirana.
Ela escancarou a porta e saiu para a varanda. Erguendo o cajado acima da cabeça, ela gritou uma palavra de poder. Uma onda de choque de luz branca explodiu dela, atingindo a primeira linha de árvores vivas. A madeira estalou e queimou, empurrando os monstros para trás.
Os joelhos de Kirana cederam e a luz do cajado oscilou. — Minha mana... elas estão drenando a energia do ambiente!
Kirana recuou, conjurando um domo de energia dourada sobre a cabana, que tremeluziu sob os golpes incessantes dos galhos.
Ela voltou para dentro, trancando a porta e correndo para o centro da sala. Puxou um tapete pesado, revelando um alçapão de ferro com inscrições rúnicas.
— Escutem bem! — Ela pegou uma bolsa de couro da mesa deu para Kira. — Itens de emergência. Peguem.
— Kirana, o que você vai fazer? — Kira segurou o braço da amiga.
— A barreira vai cair em minutos. Eu preciso ficar e canalizar energia para mantê-lo de pé, ou a cabana será esmagada com vocês dentro.
Ela abriu o alçapão, revelando uma escada escura.
— Este túnel é uma via de escape antiga. Ele leva diretamente a uma porta secundária. É um atalho para sair deste mundo. Corram!
— Não! Não vou deixar você aqui! — gritou Kira, lágrimas brotando nos olhos.
Outro impacto sacudiu a casa, rachando uma das vigas do teto.
— Vá, Kira! — A voz de Kirana foi um trovão de autoridade. — Leve-o para a segurança. Se a Kirai pegar o Katsu, tudo estará perdido. Eu sou a Guardiã desta floresta, vou ficar bem, confie em mim. Agora VÃO!
Katsu puxou Kira pelo braço.
— Temos que ir, Kira! Ela sabe o que está fazendo!
Com um grito de frustração, Kira desceu pelo alçapão, seguida por Katsu. Kirana bateu a porta do alçapão e a selou magicamente acima deles.
Na escuridão do túnel, iluminado apenas pelas fracas inscrições luminosas nas paredes, eles corriam. Acima deles, o som da batalha era abafado, mas os tremores de terra eram constantes. Poeira caía sobre seus cabelos.
— Ela vai morrer... — soluçou Kira enquanto corria. — Ela ficou para trás por minha causa.
— Ela ficou para trás para nos dar uma chance — disse Katsu, embora seu próprio coração estivesse acelerado pelo medo. — Não desperdice isso.
Finalmente, o túnel terminou em uma porta de madeira antiga.
— É a saída — disse Kira, parando diante da porta.
Um último tremor, mais violento que os outros, sacudiu o chão, seguido por um silêncio repentino e terrível vindo da superfície.
Kira encostou a testa na porta. Ela limpou as lágrimas com a manga do moletom, e quando levantou o rosto, a tristeza havia dado lugar a uma fúria fria.
— A Kirai... ela acha que isso é um jogo — sussurrou Kira, segurando a maçaneta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. — Ela vai pagar por isso.
Ela girou a maçaneta que brilhava, e pode-se ouvir um zumbido mecânico suave.
— Vamos, Katsu. Próxima parada.