A Oficina de Possibilidades
O corredor, desta vez, era pequeno e funcional. As paredes eram painéis de metal cinza-chumbo, lisos e frios ao toque. O ar cheirava a ozônio e óleo queimado, e um zumbido grave de ventilação. A única saída era uma porta maciça de aço escovado do outro lado da sala.
Katsu soltou o ar, aliviado, passando a mão pela parede metálica.
— Finalmente, algo que parece... construído. Acho que estamos com sorte dessa vez — comentou ele, tentando sacudir a poeira da floresta de suas roupas. — Para onde estamos indo agora?
Kira, ainda segurando a sacola de itens mágicos contra o peito como um escudo, deu um sorriso fraco.
— Vamos encontrar a K1-R4. Esse é o corredor para o mundo dela.
Ao se aproximarem da porta de metal, Katsu notou a ausência de maçanetas ou teclados. A superfície era lisa, exceto por uma lente de câmera escura posicionada acima deles.
— E agora? — perguntou ele, franzindo a testa. — Batemos?
Antes que Kira pudesse responder, um feixe de luz vermelha varreu os dois de cima a baixo. Uma voz sintética, amplificada por alto-falantes ocultos, reverberou pelo corredor estreito.
— Identificação necessária.
Kira deu um passo à frente, erguendo o queixo.
— Sou eu, Kira. Lembra de mim?
A voz respondeu imediatamente, fria e analítica.
— Múltiplas correspondências encontradas no banco de dados. Especifique a designação.
Um silêncio desconfortável caiu sobre eles. Katsu olhou para Kira, que parecia subitamente pequena diante da porta gigante. Ela engoliu em seco.
— Solicitação de parâmetro: Qual sua função primária ou atributo de destaque? — insistiu a voz mecânica.
Kira baixou a cabeça, os ombros caindo. A voz dela saiu num sussurro quase inaudível.
— Nenhuma... Sou apenas... a Kira. A comum.
Houve uma pausa de três segundos, onde apenas o zumbido da ventilação foi ouvido. Katsu sentiu um aperto no peito ao ver a amiga daquele jeito.
— Designação aceita: Kira Padrão. Acesso liberado.
Com um silvo hidráulico e um clangor metálico, a porta deslizou para o lado, revelando o interior. Katsu, percebendo que Kira ainda encarava o chão, colocou a mão no ombro dela.
— Ei — disse ele, suavemente. — Pra mim você não é "comum". Você me salvou do monstro, do golem e me guiou até aqui. Quem precisa de um rótulo quando se tem coragem?
Kira olhou para ele, surpresa. Um leve rubor subiu às suas bochechas e ela tentou disfarçar com um sorriso torto.
— É... quem precisa? — respondeu, a voz um pouco mais firme. — Vamos entrar.
O interior era uma catedral à tecnologia. O teto era alto, cruzado por trilhos onde braços mecânicos deslizavam carregando peças. Bancadas intermináveis exibiam ferramentas que Katsu nem sonhava existir, e prateleiras organizadas milimetricamente guardavam componentes de ligas brilhantes. O som era uma sinfonia rítmica de soldas, prensas e servos motores.
De trás de uma dessas bancadas, uma figura surgiu. Era K1-R4.
Seu corpo era uma obra-prima de engenharia: placas de cerâmica branca e metal polido cobriam uma estrutura humanoide, mas as juntas brilhavam com luz azulada. O rosto era uma máscara de perfeição sintética, com olhos que eram lentes de câmera sofisticadas, simulando a íris dos olhos.
Ela caminhou até eles com movimentos fluidos, mas precisos demais para serem humanos.
— Olá K1-R4 — Disse Kira acenando para sua contraparte robótica.
— Para melhor eficiência, pode me chamar somente de K1.
K1, estendeu a mão metálica para Katsu.
— Contato físico necessário para diagnóstico — disse ela. A voz não tinha entonação, apenas dados.
Katsu apertou a mão dela. Era fria e dura. Um feixe de luz azul emanou da palma da robô, escaneando o braço dele até o ombro.
— Análise completa. — K1 soltou a mão dele e virou-se para Kira. — Entrelaçamento quântico corrompido. Erro fatal na assinatura dimensional.
— O que isso significa? — perguntou Katsu, massageando a mão.
K1 virou a cabeça para ele com um leve zumbido.
— Significa que você é uma anomalia, Katsu. Você não deveria existir nestas coordenadas.
— Eu sei — interveio Kira, dando um passo à frente. — Ele é de outro mundo, K1. Estamos tentando levá-lo de volta, mas a Runa da Kirana falhou.
— Correção: A magia é uma variável instável. A ciência é absoluta. — K1 caminhou até um painel holográfico e começou a digitar em uma velocidade impossível. — O "entrelaçamento quântico" é o elástico que prende cada ser ao seu universo de origem. O seu elástico arrebentou. A Runa falhou porque não havia linha para puxar.
Ela projetou um diagrama complexo no ar.
— Posso construir um Gerador de Ponte Einstein-Rosen para criar um túnel artificial. É arriscado. A probabilidade de desintegração molecular é de 12,4%.
— Bom... é melhor do que zero — disse Katsu, com uma mistura de determinação e receio.
— Afirmativo. — K1 continuou digitando. — O processamento dos cálculos levará tempo. Aguardem na área de espera. E não toquem em nada.
K1-R4 virou-se de costas, imersa em seus dados.
Katsu começou a andar pela oficina, fascinado.
— Este lugar é insano — comentou, observando um drone minúsculo consertar uma placa de circuito. — Tudo aqui tem um propósito.
Ele olhou para Kira, que estava parada perto de uma bancada, brincando nervosamente com a barra do moletom.
— Então... por que você está fazendo tudo isso por mim? — perguntou ele, quebrando o silêncio.
Kira congelou. A pergunta a pegou desprevenida.
— É... porque é o certo a se fazer! — gaguejou ela, evitando o olhar dele. — E... bem... você tem seu mundo.
Um Salto no Desconhecido
Para fugir do assunto, Kira pegou o primeiro objeto que viu na bancada: um par de óculos com lentes grossas e armação prateada cheia de fios.
— Olha que legal! — disse ela, colocando-os no rosto e fazendo uma pose exagerada. — O que acha? Estilo cientista louca?
Katsu riu.
— Você ficou... estilosa.
Kira, sentindo-se encorajada pelo riso dele, empinou o nariz.
— Estilosa e perigosa. Aposto que com isso eu enxergo através das paredes ou algo assim.
Ela olhou para o alto, em direção a uma passarela de manutenção suspensa a dez metros do chão.
No momento em que seus olhos focaram na plataforma, as lentes dos óculos brilharam em vermelho. Um texto surgiu no visor dela: DESTINO FIXADO.
— Hã? — fez Kira.
ZAP.
O ar estalou onde ela estava, e Kira desapareceu, deixando apenas uma breve estática no ar.
Katsu piscou, confuso.
— Kira?!
— AHHHHH!
O grito veio de cima. Katsu olhou para o alto e o sangue gelou em suas veias. Kira havia se materializado na passarela, mas errara o cálculo por meio metro. Ela estava pendurada pela borda, as pernas balançando no vazio, os dedos escorregando no metal oleoso.
— Katsu! Eu não consigo subir! — gritou ela, a voz embargada pelo pânico.
— Aguenta firme! — berrou Katsu.
Ele não pensou. Viu uma escada de serviço na parede oposta e correu. Subiu os degraus de dois em dois, o coração batendo na garganta.
— Katsu, minha mão está escorregando! — choramingou ela. Os óculos caíram do rosto dela, despencando e se estilhaçando no chão da oficina lá embaixo.
Katsu chegou ao topo da passarela. Ele se jogou de barriga no chão metálico e esticou o braço para baixo.
— Me dá a mão! Agora!
Kira soltou uma das mãos da grade para alcançar a dele. Por um milissegundo terrível, ela ficou suspensa apenas por três dedos.
Katsu agarrou o pulso dela com toda a força que tinha. O peso dela puxou o ombro dele com violência, quase o arrastando para a borda também, mas ele travou as pernas na grade de proteção.
— Te peguei — grunhiu ele, cerrando os dentes. — Eu não vou te soltar.
Com um esforço supremo, ele a içou. Kira passou a perna pela grade e rolou para a segurança da passarela, caindo em cima dele. Ambos ficaram ali, ofegantes, o coração de um batendo contra o peito do outro.
— Você está bem? — perguntou Katsu, ainda segurando o braço dela.
Kira estava pálida, tremendo. Ela assentiu devagar, os olhos cheios de lágrimas.
— Eu pensei que ia cair... Eu sou uma idiota.
Katsu sentou-se, ajudando-a a se sentar também.
— Você não é idiota. Só... curiosa demais. — Ele tentou sorrir, mas ainda estava assustado.
Kira abraçou os próprios joelhos, escondendo o rosto.
— Eu só queria... queria parecer que sei o que estou fazendo — confessou ela, a voz abafada. — Você olha para a K1, para a Kirana... elas são incríveis. Têm poderes, inteligência. E eu? Eu só tenho um apartamento vazio e quase me mato com um par de óculos. Eu estou improvisando tudo isso, Katsu. Eu não sou uma heroína.
Katsu olhou para ela. A vulnerabilidade dela era dolorosa, mas real.
— Kira, olha para mim.
Ela levantou o rosto, os olhos vermelhos.
— A Kirana ficou para trás lutando. A K1 está lá embaixo calculando probabilidades. Mas quem abriu a porta para mim quando o monstro estava vindo foi você. Quem correu para o labirinto sem ter magia foi você. — Ele tocou levemente o braço dela. — Coragem não é não ter medo ou ter superpoderes. É estar morrendo de medo, não saber o que fazer, e fazer mesmo assim. E nisso, você é melhor que todas elas.
Kira segurou a respiração por um momento. As palavras dele pareciam preencher um vazio que ela nem sabia que tinha.
— Obrigada, Katsu — sussurrou ela, um sorriso genuíno, embora tímido, surgindo.
— Alerta de segurança: Intrusos na passarela superior.
A voz de K1-R4 ecoou pelos alto-falantes, cortando o momento.
Eles desceram a escada, encontrando a robô parada diante dos destroços dos óculos, segurando um pedaço da lente quebrada.
— Óculos de Salto Espacial Experimental: Destruídos — constatou K1. Ela virou a cabeça para Kira.
— Desculpe, K1 — sussurrou Kira.
— Nota de desculpa adicionada. — K1 jogou os restos no lixo e voltou ao painel. — O cálculo da ponte foi concluído. Mas há um problema.
— Qual? — perguntou Katsu.
— A fonte de energia. Para estabilizar o túnel, preciso de Nexum. É um isótopo ultra-estável e extremamente raro. Não tenho em estoque.
— E onde conseguimos isso? — perguntou Kira.
K1 apontou para um mapa holográfico e, com um gesto rápido, abriu uma janela de comunicação no ar. A tela chiou por um momento antes de estabilizar, revelando o rosto de uma mulher jovem em um ambiente branco e estéril. Ela usava um jaleco impecável, óculos de proteção na testa e tinha o cabelo preso em um coque prático, mas com algumas mechas rebeldes caindo sobre o rosto.
Era Akira.
— K1? — A voz dela soou clara, mas apressada. Ela segurava uma prancheta digital e parecia estar no meio de um experimento. — Eu estava prestes a te ligar. Meus sensores detectaram aquela oscilação quântica na sua oficina. O que você explodiu dessa vez?
K1-R4 permaneceu impassível.
— Negativo. A oscilação foi causada por uma anomalia dimensional. — K1 moveu a câmera para mostrar Katsu. — Este é Katsu. Habitante de um universo externo. Preciso de Nexum para estabilizar um túnel de retorno.
Akira se aproximou da tela, os olhos arregalados de curiosidade científica.
— Um viajante extra-dimensional?! Incrível! — Ela ajeitou os óculos, fascinada. — As leituras dele devem ser fascinantes. Katsu, certo? Prazer! Sou Akira. Eu adoraria estudar sua assinatura biológica, mas se a K1 está pedindo Nexum, a situação deve ser crítica.
Katsu sorriu, sentindo uma simpatia imediata pela cientista.
— O prazer é meu, Akira. E sim, estamos com um pouco de pressa.
Akira assentiu, voltando ao modo profissional. Ela caminhou até uma bancada ao fundo, onde uma caixa metálica reforçada brilhava com uma luz azul pulsante.
— Tenho um lote recém-sintetizado aqui. É a forma mais pura que já consegui. — Ela deu tapinhas na caixa com orgulho. — Estou terminando de selar o contêiner para transporte. Venham buscá-lo. Meu laboratório está a apenas dois setores de distância.
— Estaremos aí em breve. — Disse Kira.
— Esperarei por vocês. Tenho algumas perguntas sobre a física do seu universo, Katsu. Não demorem!
A transmissão encerrou com um bipe suave, deixando a imagem dela congelada por um instante antes de desaparecer.
K1 então se virou para Katsu e olhou para a Pulseira de Energia no pulso dele, que ainda piscava em vermelho, descarregada desde a luta com o Golem.
— Dispositivo ineficiente, bobina cinética queimada e bateria esgotada. Permita-me.
Ela segurou o pulso de Katsu. Pequenos braços mecânicos saíram de seus dedos, trabalhando na pulseira com velocidade cirúrgica. Faíscas voaram.
— Firmware atualizado para versão 5.2. Capacidade de carga aumentada em 200%. Recarga cinética ativada. — Ela soltou o braço dele. O display agora brilhava num azul intenso e estável.
— Uau! Obrigado, K1 — disse Katsu, admirando a tecnologia.
K1-R4 olhou para ele. As lentes de seus olhos se estreitaram e os cantos de sua boca metálica se ergueram milimetricamente, num movimento rígido e assustador que tentava imitar um sorriso humano.
— De... nada — disse ela, pausadamente.
Kira e Katsu trocaram um olhar de pavor cômico.
— Vamos logo buscar esse Nexum — sussurrou Kira, puxando Katsu pela manga. — Aquele sorriso vai me dar pesadelos.
Chegando na porta principal, K1 pousou sua mão sob um painel que emanou uma luz dourada e em seguida a porta se abriu, deslizando lateralmente.
Com um último aceno para a robô, eles atravessaram, deixando para trás o mundo de metal e entrando no desconhecido mais uma vez.