Chá e Risos
A porta do apartamento se fechou, deixando o frio do corredor de gelo do lado de fora. O calor do ambiente envolveu o grupo instantaneamente, trazendo um alívio quase doloroso para os membros congelados.
Lira, cheia de energia apesar da aventura, correu para o meio da sala e girou, fazendo suas fitas e sinos tilintarem.
— Ah, lar doce lar! Ou melhor, lar doce apartamento flutuante! — Ela riu, jogando-se no sofá. — Katsu, você viu como aqueles elefantes atropelaram a Kirai? Foi incrível!
Katsu, que tirava o colete térmico e o dobrava, sorriu para ela.
— Vi sim. Você foi sensacional, Lira. Quem diria que uma tuba podia ser uma arma de destruição em massa?
Lira abriu um sorriso brilhante, claramente adorando o elogio.
— Obrigada! Acho que encontrei meu verdadeiro som. Forte, alto e... pesado!
Kira observava os dois de longe, perto da porta. Ela deveria estar feliz. Eles estavam vivos, seguros, e Lira tinha recuperado seus poderes. Mas, lá no fundo do peito, uma pequena pontada fria — mais fria que o reino de Yukira — a incomodava.
Ver Lira tão à vontade, tão radiante, e Katsu sorrindo para ela daquele jeito fácil...
Kira sacudiu a cabeça, tentando afastar o pensamento mesquinho. Ela é minha amiga. Pare com isso, Kira.
— Sim, sim, muito talentosa — disse Kira, forçando um tom animado, embora um pouco estridente. — Mas agora que estamos aqui e ninguém virou picolé, alguém quer chá quente?
— Chá! — exclamou Lira, levantando a mão como uma criança na escola. — E depois um banho! Estou com cheiro de neve velha.
— Chá parece ótimo — concordou Katsu, indo em direção à cozinha pequena. — Deixa que eu preparo, Kira. Você já fez muito hoje.
Kira sorriu, um pouco mais relaxada.
— Tudo bem. Vou tomar um banho rápido então. E tentem não destruir a cozinha enquanto isso.
Ela foi para o banheiro, fechando a porta e encostando a testa na madeira fria. O silêncio do cômodo contrastava com as risadas abafadas que vinham da sala.
Durante o banho, a água quente não conseguiu lavar a inquietude de sua mente. Por que isso me incomoda tanto? Lira é inocente, ela não faz por mal. E o Katsu... ele vai embora daqui a pouco. Por que eu me importo se eles estão rindo juntos?
Enquanto se secava, ouviu uma gargalhada alta de Katsu. A curiosidade (e aquele ciúme irritante) falou mais alto. Ela se vestiu rapidamente e caminhou na ponta dos pés até a porta da cozinha, parando para escutar.
O que será que é tão engraçado? Será que estão falando de mim? "Olha como a Kira Comum é sem graça"? Não, eles não fariam isso.
Kira estava prestes a encostar o ouvido na porta quando esta se abriu de repente.
— Ai!
Kira deu um pulo para trás, o coração disparado, fingindo que estava apenas passando por ali.
Katsu estava parado na porta, segurando duas xícaras fumegantes. Ele sorriu, surpreso.
— Kira! Eu estava indo te levar o chá. Parece que temos telepatia.
O vapor do chá subiu, trazendo um aroma de camomila e mel.
Lira apareceu logo atrás dele, ainda rindo.
— Estávamos falando sobre como seria engraçado se um daqueles elefantes musicais aparecesse aqui na cozinha. Imagine ele tentando usar a pia minúscula!
Kira soltou o ar, sentindo-se uma idiota por ter desconfiado. Ela pegou a xícara que Katsu oferecia.
— Isso seria realmente um caos. — Ela tomou um gole, sentindo o calor descer pela garganta. — Obrigada, Katsu. Está perfeito.
Depois do chá e de um momento agradável de conversa no sofá, o cansaço finalmente bateu.
— Lira, você dorme comigo no quarto e Katsu fica com o sofá — decidiu Kira, levantando-se.
Ela foi até o quarto para pegar travesseiros extras. Quando voltou, Katsu já estava ajeitando as almofadas.
— Boa noite, Katsu — disse ela, entregando os lençóis.
— Boa noite, Kira. — Ele sorriu, um sorriso cansado mas gentil.
Kira foi para o quarto, onde Lira já estava deitada.
Kira apagou a luz. O silêncio reinou por alguns minutos, apenas com o som da respiração delas.
— Kira... — sussurrou Lira no escuro.
— Hm?
— Você ama o Katsu?
A pergunta, direta como uma flecha, fez Kira engasgar com a própria saliva.
— O quê?! — Ela se sentou na cama, grata pela escuridão esconder seu rosto em chamas. — De onde você tirou isso, Lira?
Lira se virou, o som dos lençóis farfalhando.
— É que... desde que recuperei meu poder, eu sinto as coisas de um jeito diferente. Música é emoção, sabe? E quando vocês estão perto um do outro, a "música" do ambiente muda. Fica... harmônica. Intensa.
Kira apertou os dedos contra o cobertor.
— Você está imaginando coisas. É só o estresse da viagem. E... ele vai embora amanhã. Não faria sentido.
Lira ficou em silêncio por um momento.
— Talvez... — disse ela, bocejando. — Mas a música não mente, Kira. Boa noite.
Lira adormeceu quase instantaneamente, deixando Kira acordada, encarando o teto escuro e ouvindo as batidas do próprio coração.
Eu amo o Katsu?
Labirinto Digital
A manhã seguinte chegou com a inevitabilidade de um relógio.
Eles caminharam em silêncio até a oficina da K1-R4. O corredor metálico parecia mais frio do que o normal.
Dentro da oficina, K1-R4 estava parada diante de uma estrutura circular enorme: o Portal Quântico. Luzes azuis pulsavam ao redor do arco, zumbindo com energia contida. O cheiro de ozônio era forte.
— Sistema pronto. Estabilidade do túnel: 98%. — anunciou K1, sua voz monótona ecoando pelo galpão. — Katsu, posicione-se na plataforma.
Katsu olhou para o portal e depois para as garotas. Ele removeu a Pulseira de Energia do pulso e caminhou até Kira.
— Quero que fique com isso — disse ele, entregando o dispositivo. — Ela me salvou várias vezes. Agora vai te proteger. E... é uma lembrança.
Kira segurou a pulseira ainda quente pelo contato com a pele dele. Ela abriu a boca para falar, para pedir que ele ficasse, para dizer qualquer coisa... mas as palavras morreram na garganta.
Ao lado dela, Lira deu uma cotovelada discreta (mas nem tanto) em suas costelas.
— Fala logo — sussurrou Lira. — Diga o que sente!
Kira olhou para Katsu. Ele a encarava com expectativa, um brilho de tristeza nos olhos.
— Eu... — Kira baixou a cabeça, derrotada pela própria insegurança. — Obrigada, Katsu. Por tudo. Boa viagem.
Katsu sorriu, um sorriso triste, e assentiu. Ele se virou e subiu na plataforma.
K1-R4 começou a digitar freneticamente no painel.
— Iniciando sequência de transporte em 3... 2... 1...
O arco se acendeu com uma luz branca cegante. Katsu foi envolvido pelo brilho. Ele acenou uma última vez.
E então, desapareceu.
O portal se apagou. O zumbido parou. A oficina ficou silenciosa.
Lira suspirou, triste.
— Ele se foi.
— Transporte concluído. — confirmou K1.
Kira sentiu um buraco no peito. Ela segurou a pulseira com força e virou as costas.
— Vamos embora, Lira.
Lira se despediu, retornando a seu próprio mundo musical.
Kira voltou para o apartamento. O lugar parecia maior, mais vazio sem ele. Kira deixou a pulseira sobre a mesa de centro e se jogou no sofá, exausta emocionalmente.
Kira fechou os olhos e adormeceu, vencida pelo cansaço.
Mas o descanso foi perturbado por um pesadelo.
No sonho, ela via Katsu flutuando em um vazio escuro, sua expressão desesperada enquanto gritava por ajuda.
— Kira... socorro! — A voz dele ecoou em sua mente, distorcida.
Kira acordou num sobressalto, suando frio. O apartamento estava escuro.
Na mesa de centro, a Pulseira de Energia piscava com uma luz vermelha.
BIP. BIP. BIP.
Kira pegou o dispositivo com mãos trêmulas e apertou o botão. Um holograma surgiu:
ALERTA DE SISTEMA. LOCALIZAÇÃO DO USUÁRIO: INDETERMINADA. ERRO CRÍTICO.
— Tem algo errado... — sussurrou ela, encarando o aviso. — Preciso falar com a K1. — Ela se apressou retornando o mundo mecânico.
Ao chegar à porta de metal da oficina, Kira encontrou Lira já esperando ali, envolta em seu típico entusiasmo misturado com inquietação.
— Lira? O que está fazendo aqui? — perguntou Kira, surpresa.
— Eu... estava tocando, tentando relaxar, mas de repente senti algo estranho, como se o mundo tivesse parado por um instante. Tive um pressentimento ruim sobre o Katsu. — Respondeu Lira, sua expressão mais séria do que o normal.
Quando ouviu Lira dizer isso, Kira sentiu um frio na barriga. Ela sabia que Lira não era do tipo de se preocupar à toa. Com os olhos arregalados e um arrepio percorrendo sua espinha, ela afirmou
— Katsu está em perigo!
O painel ao lado da porta se acendeu.
— O que estão fazendo aqui? Eu estou ocupada. Retornem mais tarde.
— Precisamos falar com você! Algo aconteceu com o Katsu!
A voz hesitou por alguns segundos antes de responder
— Eu já sei disso. Estou tentando resolver o problema.
— Resolver como? — Kira insistiu.
A pausa seguinte pareceu interminável. Finalmente, a voz de Kira Robô voltou.
— Muito bem. Entrem. Vou tentar abrir a porta.
— Tentar? — repetiu Kira, trocando um olhar preocupado com Lira.
— Entrem.
A porta se abriu. O interior da oficina estava um caos. Painéis holográficos vermelhos flutuavam por toda parte, exibindo mensagens de erro em cascata. K1-R4 estava conectada a cabos grossos que saíam da parede, processando dados em velocidade máxima.
— Eu já sei. — A voz de K1 soou cansada, se é que isso era possível para uma robô.
— O que está acontecendo? — perguntou Lira, com a voz ansiosa.
Kira Robô continuou manipulando os painéis enquanto explicava.
— Alguns minutos após o transporte de Katsu, detectei que uma energia incomum havia emanado dele. Essa energia desencadeou uma série de erros no sistema da oficina, resultando em uma pane geral. Ele ficou preso no sistema de transporte quântico.
Kira ficou boquiaberta.
— Preso? Como isso é possível?
— Não sei ao certo, — admitiu K1. — Mas estou mantendo o sistema funcionando manualmente. Se ele cair, Katsu ficará preso para sempre.
Kira sentiu o coração apertar.
— E como podemos tirá-lo de lá?
K1 apontou para uma máquina menor no canto da oficina.
— Aquela máquina pode transportá-las para dentro do sistema. Lá, vocês poderão localizá-lo e trazê-lo de volta. Mas... — Ela fez uma pausa, olhando diretamente para Lira. — Não use magia lá dentro. Não sei como o ambiente virtual pode reagir a isso.
Lira engoliu em seco e assentiu.
K1 caminhou até Kira e entregou uma luva prateada com sensores nas pontas dos dedos.
— Use isto. É uma âncora de dados. Assim que tocar nele com a luva, o sistema puxar todos vocês para fora.
Kira vestiu a luva. Ela serviu perfeitamente.
K1 começou a digitar.
— Não tenho muito tempo antes que o firewall de segurança tente eliminar vocês como vírus.
Kira e Lira entraram na máquina. Luzes de neon começaram a girar ao redor delas.
— Vamos trazer ele de volta — disse Kira, segurando a mão de Lira.
— Iniciando digitalização em 3... 2... 1...
O mundo físico desapareceu em um flash de luz branca.