Mergulho no Virtual
Kira e Lira abriram os olhos, piscando contra uma luz intensa e artificial.
O mundo ao redor delas não era feito de matéria, mas de luz. Elas estavam em uma sala vasta, cujas paredes eram formadas por grades de neon azul que pulsavam ritmicamente. O chão sob seus pés era translúcido, revelando rios de código binário fluindo como água corrente lá embaixo.
Kira olhou para as próprias mãos. Elas brilhavam com uma aura pixelada, e a luva prateada que K1 lhe dera agora parecia fundida à sua pele digital.
— Uau... — sussurrou Lira, girando. — É como estar dentro de um videogame!
Ela tocou uma das paredes de luz. BZZT. Uma faísca estalou, e Lira recuou a mão rapidamente.
— Ai! É sólido... mas formiga.
A voz de K1-R4 ecoou pelo espaço, vindo de lugar nenhum e de todos os lugares ao mesmo tempo.
— Atenção, usuários. Vocês estão no nível superficial do sistema. As leis da física aqui são simuladas para o conforto da sua mente, mas a estabilidade é baixa. Não demorem.
Uma porta retangular se desenhou na parede à frente, abrindo-se com um som digital.
— Sigam o fluxo de dados. Katsu está no núcleo.
Elas atravessaram a porta e começaram a correr por um corredor longo e curvo. O som de seus passos era abafado, como se estivessem correndo sobre vidro.
De repente, a voz de K1 soou urgente:
— PAREM! Protocolo de Segurança ativado.
Kira e Lira se jogaram atrás de uma coluna de luz roxa. Segundos depois, uma patrulha de drones geométricos flutuou pelo corredor. Eles não tinham hélices ou motores, apenas formas piramidais que giravam no ar, emitindo feixes de luz vermelha que escaneavam o ambiente.
SCANNING... SCANNING...
As duas prenderam a respiração, imóveis, até que os drones passassem e desaparecessem na curva seguinte.
— Foi por pouco, — disse K1. — O Firewall está caçando anomalias. Vocês são anomalias. Continuem.
Elas voltaram a correr até chegarem a um abismo digital. Diante delas, um rio gigantesco de informações fluía no vazio, carregando fragmentos de imagens, sons e textos de todos os mundos conectados. Era lindo e vertiginoso.
— Como atravessamos isso? — perguntou Kira, olhando para a ponte de luz que se estendia sobre o rio. Ela parecia frágil, piscando intermitentemente.
— A ponte está corrompida, — informou K1. — Mas é o único caminho. Corram.
Memórias Perdidas
Elas pisaram na ponte. A cada passo, blocos de luz se acendiam sob seus pés. Mas, na metade do caminho, o fluxo de dados abaixo delas explodiu em um gêiser de informações.
A ponte tremeu violentamente.
— Desvio de rota! — gritou K1. — Entrem no Banco de Memórias à esquerda! Agora!
Kira viu uma fenda na parede digital e puxou Lira para dentro, segundos antes da ponte se desfazer em pixels atrás delas.
Elas rolaram para dentro de uma sala silenciosa e flutuante.
Aqui, o caos do rio de dados desapareceu. O ambiente era calmo, preenchido por milhares de telas flutuantes que exibiam cenas em loop.
Lira se levantou, encantada.
— O que é isso?
— Este é o cache de memória do multiverso, — explicou K1. — Fragmentos de vidas de todas as Kiras que consegui coletar de resíduos dimensionais.
Lira parou, fascinada.
— Olha! Sou eu!
Em uma tela, Lira estava tocando flauta para uma plateia de pássaros coloridos. Em outra, K1-R4 estava construindo um braço mecânico. Em outra, Yukira esculpia uma estátua de gelo.
— É como um museu de nós mesmas... — disse Lira.
Mas Kira parou diante de uma tela específica. A imagem era nítida, diferente das outras. Mostrava uma Kira jovem, talvez com a mesma idade que ela tinha agora, com um vestido longo imponente. Ela segurava uma espada larga cuja lâmina parecia feita de pedaços do céu estrelado.
O olhar daquela Kira era feroz, determinado... e triste.
Kira sentiu um aperto no peito. Uma sensação de déjà vu a atingiu com força física.
— Eu... eu conheço essa espada — sussurrou ela, estendendo a mão para tocar a tela.
— Cuidado! Não toquem nos arquivos! — alertou K1.
Tarde demais. A ponta do dedo de Kira roçou a imagem.
BZZZZZT.
O sistema reagiu violentamente. Todas as telas ficaram vermelhas. Um alarme estridente soou.
— Alerta de Intrusão! Protocolo de Defesa Ativado! — A voz do sistema não era a de K1, mas uma voz fria e genérica.
O chão começou a tremer e se desmanchar em pixels.
— Corram para a saída! Agora! — gritou K1, sua voz voltando.
Elas correram em direção a uma porta de luz no fundo da sala. O chão desaparecia atrás delas a cada passo.
Elas pularam pela porta segundos antes de a sala inteira ser deletada.
A Ponte de Luz
Elas caíram em um espaço aberto, um vasto vazio digital onde ilhas de dados flutuavam sem gravidade.
Em uma dessas ilhas, a cerca de vinte metros de distância, estava Katsu.
Ele flutuava inconsciente dentro de uma esfera de luz vermelha, preso como um inseto no âmbar.
— Katsu! — gritou Kira.
Mas havia um abismo entre a plataforma onde elas estavam e a ilha dele. Não havia ponte. Apenas o vazio digital.
— A ponte foi deletada, — informou K1, a voz cheia de tensão. — Não consigo reconstruí-la a tempo. O sistema vai deletar a área em 60 segundos.
Kira olhou para o abismo. Era longe demais para pular.
— Não! Não pode terminar assim! — esbravejou Kira, ajoelhando-se e batendo com força no chão digital. Lira, vendo o desespero da amiga, começou a vasculhar ao redor com os olhos. Seu olhar se fixou em um painel caído...
— Não tem outro jeito, desculpa K1. — Disse ela.
Sob seus dedos, o painel brilhou e se transformou em um Keytar — um teclado portátil de neon que parecia ter saído de um filme dos anos 80.
— Ok... vamos lá.
Lira respirou fundo e tocou o primeiro acorde sintético, que saiu como um feixe de luz.
As demais notas vieram em seguida. Ondas de som coloridas saíram do instrumento, solidificando-se no ar. Lira tocou mais rápido, seus dedos deslizando pelas teclas luminosas.
As notas musicais se uniram, formando uma ponte sólida e brilhante de luz e som que se estendia sobre o abismo.
— Sistema colapsando! — gritou K1. — RÁPIDO!
Kira correu pela ponte musical. O chão vibrava sob seus pés a cada nota que Lira tocava. Raios explodiam ao redor dela, mas Lira mantinha o ritmo, criando escudos sonoros para proteger a amiga.
Kira chegou à ilha. Ela correu até a esfera vermelha onde Katsu estava preso.
— Katsu!
Ela ergueu a mão com a luva prateada e a pressionou contra a barreira.
— Conexão estabelecida! — confirmou K1.
A esfera se estilhaçou em pixels. Katsu caiu nos braços de Kira, ainda inconsciente.
O mundo digital se dissolveu em um clarão branco.
***
Kira abriu os olhos, sentindo o cheiro de óleo e metal. Estava de volta à oficina.
Ela se sentou, ofegante. Ao seu lado, estava Lira que também acordava, parecendo exausta.
E no chão, entre elas, estava Katsu.
— Katsu!
Ele gemeu e abriu os olhos devagar. Ele piscou, confuso, olhando para o teto da oficina.
— Kira? — A voz dele estava rouca. — O que aconteceu? Eu estava... caindo.
Kira não aguentou. As lágrimas que ela segurou o dia todo finalmente transbordaram. Ela o abraçou com força, enterrando o rosto no peito dele.
— Você voltou... você voltou...
Katsu, ainda meio tonto, retribuiu o abraço, acariciando o cabelo dela.
— Eu estou aqui.
Lira se aproximou, sorrindo cansada.
— Conseguimos.
Mas a celebração foi interrompida pela voz de K1-R4.
— Análise de danos: — A robô estava parada diante de um painel fumegante. — Sistema de transporte quântico: Inoperável. Portal: Destruído.
Kira se soltou de Katsu e olhou ao redor, por toda a oficina, saia fumaça de circuitos.
K1 virou a cabeça para Lira.
— Meus sistemas não aguentaram a energia mágica que invadiu os circuitos, vai levar tempo até que tudo esteja reparado.
Lira encolheu os ombros, culpada.
— Desculpa... mas era a única maneira!
— Nota de desculpa processada e arquivada. O custo dos reparos será adiciona ao seu perfil.
— Consequência: — Ela apontou para Katsu. — Unidade Katsu, sem previsão de retorno ao próprio mundo. Não tenho peças nem Nexum para construir outro portal.
O silêncio caiu pesado sobre a oficina.
Katsu estava preso. Talvez para sempre.
Lira, percebendo o clima pesado, tentou animar.
— Ei... se a tecnologia falhou... talvez a gente deva tentar algo mais... místico?
— Já tentamos Lira... a runa do retorno de Kirana.
— Mas estou falando de mais poderoso do que magia. A Estrela!
— Que estrela? — perguntou Katsu.
— Uma lenda — disse Kira, levantando-se e ajudando Katsu a ficar de pé. — Dizem que existe um item capaz de realizar qualquer desejo. A Estrela dos Desejos.
— Lenda não catalogada, — interveio K1. — Probabilidade de existência: Baixa.
— Mas não é zero — rebateu Kira. — E se houver uma chance... nós vamos encontrar.
Katsu sorriu. Havia ainda uma última esperança.
— Então, qual é o plano? — perguntou ele.
Kira olhou para a porta da oficina.
— Vamos visitar Takira. A Artesã. Se alguém sabe sobre itens lendários, é ela.