O Corredor das Criações
A porta da oficina se fechou, e o zumbido dos reparos de K1-R4 desapareceu. O trio agora caminhava por um corredor muito diferente dos anteriores.
As paredes agora eram revestidas de mármore branco polido, decoradas com frisos dourados. Quadros em molduras barrocas cobriam quase toda a superfície, retratando paisagens surreais: cidades flutuantes, florestas de cristal e oceanos de mercúrio. Entre os quadros, nichos abrigavam estátuas de bronze e mármore que pareciam observar os viajantes com olhos vazios.
— Esse lugar é... artístico — comentou Katsu, passando a mão por uma coluna esculpida em forma de videira. — Parece que foi tudo feito à mão.
— E foi — respondeu Kira, ainda um pouco pálida após a aventura no mundo digital. — A Takira, a Artesã, cria o próprio mundo. O corredor reflete a mente dela.
— Então é um mundo cheio de obras de arte? — Lira perguntou, animada, girando para admirar uma pintura de um céu violeta. — Já gostei!
Eles avançaram, mas a beleza do lugar escondia perigos. O silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo eco de seus passos.
De repente, um som sibilante veio de cima.
SSSSSSST.
Katsu olhou para o teto abobadado.
— O que foi isso?
Antes que pudessem reagir, uma sombra despencou das vigas.
Uma criatura monstruosa aterrissou diante deles, bloqueando o caminho. Tinha o corpo de uma aranha gigante, suas pernas com garras afiadas. Seus múltiplos olhos brilhavam com um vermelho doentio e faminto.
— Cuidado! — gritou Kira.
A aranha-monstro abriu as mandíbulas e disparou um jato de teia branca e pegajosa.
Lira foi a primeira a ser atingida. A teia a envolveu como um casulo, prendendo seus braços ao corpo e tapando sua boca antes que ela pudesse emitir uma nota mágica. Ela caiu no chão, debatendo-se em silêncio.
— Lira! — Katsu tentou correr até ela, mas a criatura foi mais rápida. Outro jato de teia o atingiu no peito, jogando-o contra a parede e prendendo seus braços e pernas no mármore. Ele lutou, mas a substância era dura como aço.
Kira recuou, tateando a bolsa em busca de algum item mágico. Mas a aranha lançou um terceiro jato jogando a bolsa para longe presa no chão, e outro prendendo seus pés de Kira no chão, com a bolsa fora de seu alcance.
Eles estavam imobilizados.
A criatura ignorou Kira e Lira. Seus olhos vermelhos se fixaram em Katsu. Ela começou a se aproximar dele lentamente, as patas arranhando o chão como metal.
— Não! — gritou Kira, debatendo-se contra a teia, tentando soltar os pés. — Deixe-o em paz!
A aranha ergueu as patas dianteiras, prontas para empalar Katsu.
O desespero tomou conta de Kira. O medo de perder Katsu, de falhar de novo, de ver mais alguém desaparecer...
E então, o mundo desacelerou.
O som do grito dela se esticou até virar um zumbido grave. As cores do corredor perderam a saturação, ficando cinzentas. Uma calma súbita e fria preencheu a mente de Kira, silenciando o pânico.
O semblante dela mudou. O medo desapareceu, substituído por uma expressão neutra, quase vazia.
Ela abriu a mão direita.
O ar ao redor dela tremulou, distorcendo a luz. Inúmeros pontos de luminosos, como estrelas minúsculas, surgiram do nada, girando em espiral até se condensarem em uma forma sólida.
Uma Espada Larga materializou-se em sua mão.
A lâmina era negra como o vácuo entre as estrelas, pontilhada por brilhos distantes que pareciam carregar galáxias inteiras. A arma emitia uma aura de distorção gravitacional tão forte que o ar ao redor parecia pesar toneladas.
Kira segurou o cabo. A teia que prendia seus pés se desfez instantaneamente, transformada em pó pela pressão da aura.
A aranha parou, sentindo a mudança na atmosfera. Ela se virou para Kira e sibilou, abandonando Katsu para atacar a nova ameaça. A criatura saltou.
Kira não recuou. Com uma expressão vazia e calma, ela apenas ergueu a espada e desferiu um corte vertical.
O movimento foi fluido e silencioso.
A lâmina atravessou a aranha sem encontrar resistência física. Não houve som de corte, nem sangue.
Mas, ao redor do monstro, a gravidade colapsou.
O corpo da criatura começou a se distorcer, sugado para dentro de si mesmo. Pontos de luz explodiram de dentro dela, brilhando intensamente antes de serem absorvidos pela lâmina negra da espada.
Em um segundo, a aranha desapareceu, consumida pelo vazio.
Kira soltou a arma.
A espada caiu no chão com um estrondo ensurdecedor. O impacto foi tão pesado que o chão de mármore rachou e o corredor inteiro estremeceu, como se um meteoro tivesse atingido o local.
Segundos depois, a espada se dissolveu em poeira estelar e desapareceu.
Os olhos de Kira rolaram para trás e ela desabou, inconsciente.
O Peso da Memória
Katsu sentiu a teia que o prendia se dissolver em fumaça branca assim que o monstro foi destruído. Ele caiu no chão, tossindo, e correu imediatamente para Kira.
— Kira! — Ele a segurou nos braços, checando o pulso dela. Estava rápido, mas forte.
Lira, também livre da teia, correu até eles, esfregando os pulsos doloridos.
— Ela está bem? O que... o que foi aquilo?! — perguntou Lira, os olhos arregalados de medo e admiração. — Aquela espada... parecia feita um buraco negro!
Kira gemeu e abriu os olhos devagar. Ela piscou, confusa, olhando para o rosto preocupado de Katsu.
— Katsu...? — A voz dela estava fraca.
— Eu estou aqui. Você nos salvou.
— Salvei? — Ela franziu a testa, tentando se sentar. — Eu não me lembro... parecia um sonho. Senti uma paz absoluta... e um peso terrível ao mesmo tempo.
Katsu a ajudou a se levantar. Ela ainda estava trêmula, apoiando-se nele.
Lira, que olhava para o local onde o monstro havia desaparecido, viu algo brilhando no chão entre as rachaduras do mármore.
— Ei... o que é isso?
Ela se abaixou e pegou o objeto.
Era um relógio de pulso. A vidro rachado e os ponteiros parados.
— De onde isso veio? — perguntou Lira, examinando o objeto. — O monstro deixou cair?
Kira olhou para o objeto na mão de Lira, reconhecendo-o.
A cor fugiu de seu rosto. O ar pareceu ficar gelado novamente.
— Não toque nisso! — gritou Kira, com uma urgência que assustou os dois.
Lira deu um pulo e quase derrubou o relógio.
— O quê? Por quê?
Kira se soltou de Katsu e deu um passo trêmulo em direção a Lira. Ela olhou para o relógio quebrado com um horror profundo e silencioso.
— As coisas do corredor são perigosas — disse Kira, a voz baixa e trêmula, mas carregada de uma seriedade sombria. — Deixem onde está. Vamos embora. Agora.
Katsu olhou de Kira para o relógio, sem entender a reação extrema, mas sentiu o medo na voz dela.
Lira colocou o objeto delicadamente no chão, recuando.
— Certo... vamos embora.
Kira se virou e começou a andar rápido, quase correndo, em direção à porta no final do corredor. Katsu e Lira a seguiram, trocando olhares preocupados.
Um silêncio pesado e estranho caiu sobre o grupo. Ninguém ousou falar sobre a espada, sobre o monstro ou sobre o relógio.
Finalmente, chegaram a uma porta gigantesca, esculpida em madeira escura com formas abstratas.
Antes que pudessem bater, um som de pedra arrastando pedra ecoou.
Ao redor da porta, estátuas humanoides de mármore e metal começaram a se mover. Seus olhos se acenderam com um brilho âmbar. Elas desceram de seus pedestais, bloqueando a entrada com lanças e escudos.
— Definitivamente, não são só enfeites — disse Katsu, colocando-se na frente das garotas.
As estátuas avançaram, sincronizadas como um exército.
Mas, antes que o combate começasse, a porta se abriu com um rangido suave.
— Não precisam se preocupar. — Uma voz calma e autoritária veio de dentro.
Imediatamente, as esculturas pararam. Elas recuaram lentamente para suas posições originais, tornando-se pedra inerte mais uma vez.
Uma mulher apareceu na entrada. Ela usava um avental sujo de tinta, argila e carvão sobre roupas simples. Seu cabelo estava preso num coque bagunçado, com pincéis espetados nele como grampos.
Takira, a Artesã.
Ela os analisou com olhos críticos, parando em Katsu.
— Hmmm... um visitante incomum. — Ela cruzou os braços. — E vejo que trazem o peso de uma destruição recente com vocês. Entrem. Temos muito o que conversar.