O Ateliê dos Sonhos
Kira, Lira e Katsu atravessaram a porta esculpida e entraram no mundo da Takira, a Artesã.
O Ateliê era imenso, iluminado por claraboias gigantescas que deixavam entrar uma luz dourada e constante. Esculturas de pedra, madeira e metal estavam espalhadas por todos os lados, algumas ainda inacabadas, outras tão detalhadas que pareciam prestes a respirar. Quadros cobriam as paredes, retratando paisagens surreais e figuras misteriosas. Sobre grandes mesas de trabalho, havia projetos de invenções, pequenos modelos de cidades flutuantes e esboços de armas incompletas.
Takira caminhava na frente, com as mãos nos bolsos do avental sujo de tinta. Seus passos ecoavam no silêncio do lugar.
Katsu aproveitou o momento para tirar uma dúvida que o incomodava desde a destruição do laboratório da Akira.
— Kira, tem algo que não faz sentido — disse ele, baixinho. — Se a Kirai é tão poderosa, por que ela não entrou no seu apartamento para me pegar? Por que ela só apareceu como aquela fumaça assustadora?
Kira hesitou, sem saber como explicar as regras complexas daquele universo. Mas foi interrompida por Takira, que parou de andar e se virou para eles.
— Porque ela não pode, rapaz — explicou a Artesã, com um tom professoral. — Cada mundo é uma fortaleza selada. A "Âncora" — ela apontou para Kira — é a única que possui a chave. Kirai pode ser poderosa, mas as leis do multiverso são absolutas: ninguém entra se a dona da casa não abrir a porta.
O rosto de Kira empalideceu instantaneamente.
— Foi por isso... — sussurrou ela, a voz falhando. — A Akira estava esperando por nós. Ela abriu a porta achando que éramos nós...
Katsu sentiu um arrepio na espinha. A imagem da cientista sorrindo na tela de comunicação, ansiosa para conhecê-los, agora parecia uma armadilha cruel.
Takira olhou para Kira com uma expressão de pena, mas também de alerta.
— Exatamente. Kirai não força portas. Ela espera que você cometa um erro. Lembre-se disso.
Ela voltou a caminhar, guiando-os para o salão principal.
Katsu não pôde deixar de admirar o espaço. Como estudante de arquitetura, aquele lugar era o paraíso.
— Isso é incrível... — disse ele, tocando a maquete de uma torre de cristal.
Takira sorriu de leve, orgulhosa.
— Cada pedaço desse mundo é uma extensão da minha criatividade. Eu crio para entender. Para dar forma ao caos.
Ela se virou para Kira, limpando as mãos sujas de argila num pano.
— Agora, diga-me... qual o motivo da visita? E quem é esse rapaz interessante?
Lira foi quem tomou a iniciativa, indo direto ao ponto.
— Já ouviu falar da Estrela dos Desejos?
O sorriso de Takira desapareceu instantaneamente. Seu olhar se tornou mais sério, e seus dedos tocaram o bolso do avental, como se verificassem algo precioso.
— Ah... então é isso? — Ela suspirou, desviando o olhar para uma estátua inacabada no canto da sala. — Sim, eu a esculpi... mas a Estrela não existe mais.
Kira arregalou os olhos.
— Você a criou? Mas porque não existe mais?
Takira caminhou até uma prateleira empoeirada e pegou um pequeno fragmento de cristal que brilhava com uma luz fraca e oscilante. Ela o segurou entre os dedos com cuidado reverente.
— Na época, eu e outra Kira criamos esse artefato. Era uma das criações mais poderosas já feitas. Eu pretendia usá-lo para compreender a essência dos mundos. Mas minha parceira mudou... ela achava que poder traria conhecimento.
O silêncio preencheu a sala enquanto ela continuava, a voz carregada de arrependimento.
— Tomada pela ganância, ela pegou a Estrela e fez seu pedido. Obteve um enorme poder e um conhecimento parcial... mas o próprio poder a consumiu, corrompendo sua mente. Foi assim que ela se tornou a Kirai.
Katsu franziu a testa.
— Então... a Kirai não era má originalmente?
— Não — respondeu Takira. — Ela era como nós. Curiosa. Cheia de sonhos. Mas seu desejo a transformou. Depois de obter seu poder, a Estrela não aguentou a pressão e explodiu. Ela se partiu em três pedaços. Dois desapareceram no multiverso, restando apenas este.
Ela entregou o fragmento para Kira.
Assim que os dedos de Kira tocaram o cristal, ela sentiu um choque elétrico percorrer seu corpo. Seus olhos se arregalaram e ficaram brancos por um segundo.
Visões.
Ela viu um mundo espelhado, com arvores de vidro e rios que refletiam o céu. Viu um lugar onde o tempo é conceitual e abstrato. E viu o rosto da Kirai rindo, segurando os outros dois pedaços.
Lira, sentindo a mudança na energia mágica da sala, olhou para Takira.
— Você sentiu isso?
Takira assentiu, pensativa.
— Sim. Parece que o fragmento reagiu à presença dela. Esse pedaço ainda carrega um pouco da essência mágica... se ao menos tivéssemos todas as partes, eu poderia tentar reconstruí-lo.
Kira piscou, voltando a si. O brilho branco sumiu de seus olhos, substituído por uma determinação feroz. Ela olhou para o fragmento em sua mão, que agora pulsava em sincronia com seu coração.
— Eu sei onde estão os outros fragmentos — disse ela, a voz firme. — Eu vi.
Katsu e Lira olharam para ela, surpresos.
— Viu? Onde? — perguntou Katsu.
— Um está no mundo dos Reflexos. Escondido atras de um espelho. E o outro no mundo do Tempo.
— Dois locais extremamente perigosos e traiçoreiros. — Alertou Takira.
— Mas nós vamos encontra-los... e restaurar a Estrela dos Desejos!
Takira sorriu, um sorriso triste mas esperançoso.
— Se conseguirem, talvez haja uma chance de salvar não apenas o seu amigo... mas também a própria Kirai.
— Salvar a Kirai? — Lira franziu a testa. — Depois de tudo que ela fez?
— Ninguém nasce monstro, menina — disse Takira. — E talvez, ainda haja algo da minha antiga parceira lá dentro.
Uma Visita Perigosa
Após a revelação sobre a origem da Estrela e a conexão com a Kirai, o clima no ateliê mudou. A esperança de salvar Katsu agora estava entrelaçada com um perigo muito maior.
Kira olhou para o fragmento de cristal pulsando na mão de Takira.
— Então, para onde vamos agora? — perguntou ela, ansiosa para começar.
Takira guardou o fragmento em um bolso especial do avental.
— Sua visão aponta para dois lugares específicos. Um está no Mundo dos Reflexos. É lá que encontrarão a primeira parte.
Katsu franziu a testa, curioso.
— Mundo dos Reflexos? Qual Kira vive lá?
Takira balançou a cabeça.
— Nenhuma. Esses dois mundos — o reflexo e tempo — são especiais. Eles não têm uma "Âncora" como os nossos. Fazem parte dos pilares fundamentais do multiverso, existindo independentemente de nós. São lugares antigos e perigosos.
— Ótimo — murmurou Lira, sarcástica. — Mais perigo. Adoro.
Kira respirou fundo, tentando manter a calma.
— Se é lá que está a esperança para o Katsu... então vamos.
O grupo se despediu de Takira e caminhou em direção à porta de saída do ateliê.
Quando a porta se fechou atrás deles, o silêncio voltou a reinar no grande salão das criações. Takira suspirou, cansada, e voltou para sua mesa de trabalho. Ela começou a organizar suas ferramentas — cinzéis, martelos e pincéis — com movimentos lentos e metódicos, tentando acalmar a mente turbulenta.
Mas ela não estava sozinha.
Um som de passos lentos e deliberados ecoou pelo mármore, vindo das sombras entre as estátuas gigantes.
Takira não se virou. Ela sabia quem era.
— Um monstro? — A voz era suave, mas carregada de veneno. — É assim que você me vê depois de tudo?
Kirai saiu das sombras, parando ao lado da mesa de trabalho. Ela não parecia a vilã furiosa que haviam enfrentado antes. Estava calma, quase melancólica, observando as ferramentas com um interesse nostálgico.
Takira continuou a limpar um cinzel, sem olhar para ela.
— Você decidiu ser esse monstro, Kirari. Ninguém te forçou.
O ar ao redor delas estalou com eletricidade estática. Os olhos de Kirai, antes calmos, brilharam como brasas vivas.
— Eu já falei para não me chamar assim! — sibilou ela.
Com um movimento rápido demais para ser visto, Kirai agarrou o pescoço de Takira. Uma descarga elétrica roxa percorreu o corpo da Artesã, fazendo-a gemer de dor e largar a ferramenta.
— Kirari morreu no dia em que a Estrela explodiu — sussurrou Kirai no ouvido dela. — Lembre-se disso.
Ela soltou Takira bruscamente. A Artesã caiu de joelhos no chão, tossindo e massageando o pescoço, onde marcas de queimadura começavam a aparecer.
Kirai caminhou até a janela, observando o céu dourado do mundo de Takira.
— Agora... eu só preciso esperar. Eles farão o trabalho difícil por mim. Vão buscar os fragmentos, enfrentar os perigos... e trazê-los direto para as minhas mãos.
Takira levantou o rosto, a expressão misturando dor e desafio.
— Você prometeu que não os atacaria aqui. Que este ateliê seria neutro.
Kirai sorriu, um sorriso frio e calculista.
— Ah... sim. Eu prometi. — Ela se virou para encarar a antiga parceira. — E eu sempre cumpro minhas promessas, Takira. Enquanto estiverem sob o seu teto, eles estão seguros.
Ela começou a se dissolver em fumaça negra, pronta para partir.
— Desde que me entreguem os fragmentos por vontade própria, talvez eu não precise matá-los. Talvez.
Com essa última ameaça pairando no ar, a fumaça se dissipou completamente, deixando Takira sozinha com suas criações e o peso de suas escolhas.
A Artesã olhou para a porta por onde Kira e Katsu haviam saído.
— Que a sorte esteja com vocês — sussurrou ela para o vazio.