Reflexos Distorcidos
Kira, Lira e Katsu atravessaram a porta para o Mundo dos Reflexos.
O lugar era deslumbrante e inquietante. O chão era feito de água perfeitamente parada, refletindo um céu que mudava de cor constantemente — violeta, âmbar, prata. Árvores de cristal cresciam ao longo do caminho, suas folhas sendo pequenos espelhos que giravam com o vento, emitindo um tilintar suave.
Eles estava se aproximando da entrada de uma caverna aos pés de uma montanha de cristal.
— Lembrem-se — sussurrou Kira, apertando o passo. — Takira avisou: não olhem nos olhos do seu reflexo.
Katsu manteve os olhos fixos no chão (ou melhor, na água que parecia chão), evitando encarar qualquer superfície polida.
Mas Lira, sempre curiosa, parou diante de uma flor gigante. Suas pétalas eram feitas de vidro espelhado, curvadas de forma hipnótica.
— Olha que linda... — sussurrou ela, inclinando-se para cheirar a flor.
Ao fazer isso, seu rosto ficou perfeitamente alinhado com o centro espelhado da flor.
— Lira, não! — gritou Katsu.
Tarde demais.
O reflexo de Lira na flor piscou, assumindo uma expressão triste que a Lira real não tinha.
Uma mão saiu de dentro do espelho, agarrando a borda da pétala, e uma Lira Reflexo se puxou para fora. Ela era idêntica à original, mas suas cores eram invertidas — o vestido rosa era cinza, o cabelo loiro era prateado — e seus olhos eram completamente negros, sem íris.
Lira recuou, tropeçando na água.
A Lira Reflexo não atacou. Em vez disso, começou a chorar.
— Desculpe... — soluçou a cópia, com uma voz que soava como vidro partindo. — Eu sinto muito.
Ela apontou para o céu, acima de Katsu.
— Ali... — sussurrou ela.
Katsu, confuso com a cena bizarra, olhou instintivamente para onde ela apontava.
Acima dele, flutuando no ar, havia um grande espelho oval. E nele, Katsu viu a si mesmo.
O reflexo dele não chorava. Ele sorria com arrogância, cruzando os braços.
— Olá, original — disse o Katsu Reflexo, saindo do espelho num movimento fluido e caindo em pé no chão. Ele usava roupas idênticas, mas impecáveis, sem a poeira e o desgaste da viagem. — Eu estava esperando por vocês.
Kira, que estava um pouco mais à frente, tentou correr para ajudar, mas Katsu Reflexo ergueu a mão.
Uma série de espelhos se levantou do chão, fazendo ela deslizar para dentro da caverna.
— Kira! — gritou Katsu, batendo na parede lisa.
— Eu vou atrás dela depois — disse o reflexo, com desdém. — Agora é a vez de vocês.
Ele estalou os dedos.
Katsu e Lira sentiram o chão desaparecer. Eles caíram para trás, mas em vez de atingirem a água, atravessaram a superfície e foram parar dentro do reflexo do chão.
Eles bateram no "vidro" do outro lado, presos em uma dimensão espelhada, vendo o mundo real de cabeça para baixo.
— Estamos presos! — gritou Lira, batendo na barreira invisível.
No mundo real, Katsu Reflexo limpou uma mancha imaginária no ombro.
— Venha, Lira — disse ele para a reflexo, que ainda chorava. — Vamos encontrar a Kira.
Mas a Lira Reflexo não se moveu. Ela olhou para Katsu e Lira presos no chão, com uma tristeza profunda.
— Isso está errado — sussurrou ela. — Não podemos fazer isso com eles. Eles são... nós.
Katsu Reflexo revirou os olhos negros.
— O que deu na sua cabeça oca? — Ele bufou, impaciente. — Se quiser ficar chorando, fique. Eu tenho trabalho a fazer.
Ele deu as costas para ela e começou a andar em direção ao labirinto onde prendeu Kira.
— Por favor, solte eles! — implorou a Lira Reflexo.
— Vai sonhando — respondeu ele, sem parar de andar.
Foi então que um som agudo e dissonante cortou o ar.
Katsu Reflexo parou, levando as mãos à cabeça.
— O que é isso?!
Ele se virou. Lira Reflexo segurava um violino feito de vidro quebrado. Ela tocava com fervor, lágrimas voando de seu rosto enquanto canalizava sua tristeza em música.
A nota era tão triste e distorcida que o próprio ar parecia rachar.
— Pare com isso! — gritou Katsu Reflexo, caindo de joelhos, tonto.
A barreira do chão espelhado trincou. Katsu e Lira (os originais) sentiram a prisão enfraquecer e, com um empurrão conjunto, quebraram o vidro e caíram de volta no mundo real, molhados e ofegantes.
— Corram! — gritou a Lira Reflexo, ainda tocando.
Mas Katsu Reflexo, recuperando-se da tontura, levantou a mão em direção a ela.
— Sua traidora inútil!
Ele fechou o punho.
O corpo da Lira Reflexo começou a trincar. Ela olhou para a Lira original uma última vez, sorrindo tristemente, antes de se estilhaçar em milhões de pedaços de espelho que caíram na água com um tilintar suave.
— NÃO! — gritou Lira.
Katsu Reflexo se levantou, os olhos negros queimando de fúria.
— Agora vocês me irritaram.
Ele avançou contra Katsu original. Os dois se chocaram. O reflexo era mais forte, mais rápido e não se cansava.
Katsu ergueu o braço e o escudo da pulseira ativou, repelindo o primeiro ataque. Mas o reflexo voltou, socando o escudo que vibrou com o impacto. Ele era ágil; encontrou uma brecha na defesa e acertou um soco brutal no estômago de Katsu, jogando-o longe.
— Você é patético — zombou o reflexo, caminhando até ele. — Fraco. Indeciso. Eu sou a versão melhorada.
Katsu tentou se levantar, cuspindo sangue na água cristalina. Ele olhou para o lado e viu Lira ajoelhada onde sua cópia havia morrido, paralisada pelo choque.
Mas perto dela, brilhando na água, estava o violino de seu reflexo.
— Lira! — gritou Katsu, a voz rouca. — O violino!
Lira levantou os olhos, cheios de lágrimas.
— Eu não consigo... minha magia está fraca...
Katsu conseguiu dar um soco no reflexo, que sentiu
— Belo soco. Pena que não tem força. — Ele devolveu com um chute no estômago, jogando Katsu longe.
Katsu rolou no chão, caído ele gritou para Lira.
— Não use magia! Use o que você está sentindo! — berrou ele. — A raiva! A tristeza! Toque isso! Extravase!
Lira olhou para o instrumento. Ela sentiu a fúria borbulhar dentro dela. A injustiça. A perda.
Ela pegou o violino de cristal. Ele se moldou em suas mãos, tornando-se pontiagudo e agressivo.
Katsu Reflexo preparou o golpe final em Katsu.
— Adeus, original.
Lira puxou a primeira nota com toda a força de sua alma.
Não foi uma melodia. Foi um grito sonoro. Uma onda de choque de pura dissonância e fúria.
O som atingiu Katsu Reflexo em cheio.
Ele parou, com o punho a centímetros do rosto de Katsu.
O corpo dele começou a vibrar violentamente. A frequência da música de Lira estava em ressonância perfeita com a estrutura de vidro dele.
— O que... está... acontecendo...? — gaguejou o reflexo, sua voz falhando e pipocando como um rádio quebrado.
Uma rachadura apareceu em seu rosto perfeito. Depois outra no peito.
Lira tocou mais forte, gritando junto com a música.
CRAAAACK!
Katsu Reflexo explodiu.
Não houve sangue, apenas cacos de espelho voando para todos os lados, dissolvendo-se em luz antes de tocarem a água.
O silêncio voltou ao Mundo dos Reflexos.
Katsu caiu de costas na água, exausto e sangrando pelos pequenos cortes dos estilhaços. Lira soltou o violino, que desapareceu, e correu até ele.
— Conseguimos... — sussurrou ela, ajudando-o a se sentar.
Katsu sorriu, ainda com o corpo dolorido.
— Sim. Mas agora... precisamos achar a Kira.
O Caminho de Vidro
O silêncio voltou ao Mundo dos Reflexos, quebrado apenas pela respiração ofegante de Katsu e Lira.
Katsu se levantou com dificuldade, ajudando Lira a ficar de pé. O corpo dela ainda tremia pela exaustão mágica, mas seus olhos brilhavam com uma determinação nova.
— Você foi incrível, Lira — disse Katsu, apertando o ombro dela. — Agora, vamos achar a Kira.
Eles correram em direção à caverna onde a Kira havia desaparecido. A entrada era escura e fria, com estalactites de cristal penduradas no teto como dentes afiados.
O interior da caverna era um labirinto de espelhos naturais. Paredes de cristal refletiam suas imagens infinitamente, criando um corredor desorientador onde era impossível saber o que era real e o que era reflexo.
— Kira! — gritou Katsu.
— Kira... Kira... Kira... — sua voz ecoando mil vezes.
Eles avançaram com cautela. De repente, o chão tremeu. Um estrondo veio do fundo da caverna, seguido pelo som de vidro se partindo.
— É ela! — Katsu correu na direção do barulho.
Eles dobraram uma esquina e chegaram a um grande salão circular, iluminado por cristais luminescentes no teto.
No centro do salão, o caos reinava.
O Reflexo Perfeito
O tremor no Salão dos Espelhos tornou-se violento. Rachaduras subiam pelas paredes de cristal, e o teto ameaçava ceder, lançando poeira brilhante sobre tudo.
Katsu e Lira pararam na entrada, paralisados pela cena à frente.
Havia duas Kiras.
Ambas tinham os mesmos cortes na roupa, a mesma poeira no rosto e o mesmo pavor brilhando nos olhos marejados. Elas se encaravam como se olhassem para um abismo, cada uma vendo na outra o seu próprio fim.
— Nós não temos tempo! — gritou uma delas, a voz embargada pelo choro, dando um passo à frente com uma pedra pesada nas mãos. — Se o espelho não for quebrado agora, todos nós vamos morrer soterrados!
— Não! Espera! — suplicou a outra, recuando até suas costas tocarem a superfície fria do grande espelho central. — Se quebrar isso, uma de nós vai desaparecer! A gente pode achar outra saída!
— Não tem outra saída! — A primeira Kira limpou as lágrimas com as costas da mão, uma expressão de determinação dolorosa endurecendo seu rosto.
Katsu deu um passo à frente, a mão estendida, o coração martelando na garganta. Ele tentou encontrar alguma diferença, algum detalhe que denunciasse a impostora.
— Kira! Qual de vocês... quem é...?
— Fica longe, Katsu! — gritou a que segurava a pedra, sem desviar os olhos de sua duplicata. — Não chega perto. Isso já é difícil demais.
Ela se virou para a outra, a que estava encolhida contra o vidro. A Kira com a pedra tremia, mas não pela fraqueza, e sim pelo peso do que estava prestes a fazer.
— Me perdoa... — sussurrou ela, a voz falhando. — Eu sinto muito. Eu sei que você acha que é real. Eu sei que você tem as minhas memórias.
— Eu sou real! — gritou a outra, as lágrimas escorrendo livremente. — Eu lembro de tudo! Lembro do cheiro da oficina, lembro do Katsu... por favor, não faz isso!
A Kira com a pedra fechou os olhos por um segundo, uma lágrima solitária escorrendo.
— Eu sei. Eu também lembro. E é por isso que eu preciso fazer isso. Eu preciso levar ele para casa.
Ela abriu os olhos. Havia uma certeza terrível neles. A certeza de quem se vê como a heroína da própria história, tomando a decisão impossível para salvar o grupo.
— Adeus — disse ela.
Com um grito de esforço e angústia, ela girou o corpo e golpeou o espelho com toda a sua força.
CRACK.
O som foi como um trovão estilhaçando o mundo. O vidro explodiu em milhões de fragmentos prateados que voaram pelo salão. O tremor parou instantaneamente.
A Kira que desferiu o golpe soltou a pedra, ofegante. O peito subia e descia rápido. Ela olhou para frente, através da poeira, esperando ver o espaço vazio onde a outra estava. Esperando carregar a culpa de ter matado uma parte de si mesma.
Mas a outra Kira ainda estava lá.
Encolhida no chão, cobrindo a cabeça com os braços, tremendo de pavor... mas sólida. Viva.
A Kira que estava de pé franziu a testa. Um sorriso confuso e aliviado começou a surgir em seus lábios.
— Você... você não sumiu? Então... o espelho não...
Ela tentou dar um passo em direção à amiga, mas não sentiu o chão sob seus pés.
Ela olhou para baixo.
Suas pernas não estavam lá. Onde deveriam estar suas botas, havia apenas partículas de luz prateada, subindo lentamente, dissolvendo seus joelhos, suas coxas.
O sorriso morreu em seus lábios. O choque em seu rosto foi absoluto. Não houve aceitação, apenas um horror puro e gelado.
— O quê...? — A voz dela saiu fraca, um eco distante. — Não... espera. Eu quebrei o espelho. Eu tomei a decisão...
Ela sentiu o frio do vazio subindo pelo peito. A lógica dizia que ela não era real, mas a dor em seu peito dizia o contrário. Ela olhou para frente. Não para a outra Kira, mas para ele.
Katsu estava paralisado, a mão estendida no ar, o rosto contorcido em negação.
Naquele último segundo, o medo da morte desapareceu dos olhos da Kira que sumia. O que restou foi apenas uma tristeza profunda, a tristeza de quem percebe que o tempo acabou cedo demais.
Ela sorriu para ele. Um sorriso triste, transparente e cheio de carinho.
— Katsu... — sussurrou ela, as lágrimas virando luz antes de tocarem o chão. — Eu te a...
O som foi cortado pelo silêncio.
Onde antes havia um rosto amado, agora havia apenas partículas de luz dançando no ar, subindo em direção ao teto escuro da caverna, até desaparecerem completamente.
A frase ficou incompleta. A palavra que nunca foi dita.
O fragmento da Estrela caiu no chão com um tinido metálico, o único som no silêncio sepulcral que se seguiu.
Katsu caiu de joelhos, olhando para o espaço vazio onde ela estava, o eco daquela última sílaba incompleta gritando em sua mente.
Ao lado dele, a Kira Original abaixou as mãos do rosto. Ela viu o espaço vazio. Ela viu a dor de Katsu. E, pior de tudo, ela ouviu o que a outra tentou dizer.
Ela engoliu em seco, sentindo o gosto amargo de estar viva quando a "melhor versão" dela tinha acabado de morrer amando.
Lira se aproximou devagar e pegou o fragmento do chão. Ela o entregou para Kira sem dizer uma palavra, mas seus olhos estavam cheios de perguntas que Kira não queria responder.
Kira segurou o cristal frio contra o peito. Ela havia sobrevivido. Mas, pela primeira vez, não sabia se merecia.