O Retorno Amargo
O retorno ao mundo da Takira foi lento e silencioso.
Katsu mancava, apoiado no ombro de Lira, o rosto pálido de dor e choque. Kira caminhava um pouco atrás, segurando o fragmento da Estrela contra o peito como se fosse a única coisa sólida em um mundo que desmoronava.
A porta do ateliê se abriu com um rangido suave antes mesmo de baterem.
Takira estava lá, esperando. Ela não sorriu. Seus olhos varreram o grupo, notando o sangue na camisa de Katsu, a exaustão de Lira e o vazio nos olhos de Kira.
— Entrem — disse ela, a voz baixa e gentil, sem fazer perguntas desnecessárias.
Assim que Katsu deu o primeiro passo para dentro, suas pernas cederam.
— Katsu! — gritou Lira, tentando segurá-lo, mas ele era pesado demais para ela.
Antes que ele caísse no chão, uma mão de mármore frio e forte o amparou.
Uma das estátuas guardiãs, um gigante de pedra com rosto sereno, havia se movido silenciosamente a um comando de Takira. Com uma delicadeza surpreendente para sua massa, a estátua ergueu Katsu nos braços como se ele fosse feito de plumas.
— Leve-o para o divã, perto da lareira — ordenou Takira. — Com cuidado.
A estátua assentiu e carregou Katsu para o fundo do ateliê, onde o calor do fogo iluminava um canto mais confortável.
Kira observou a cena sem se mover. Ela parecia uma boneca quebrada, deixada na porta.
Takira se aproximou dela e colocou a mão em seu ombro. O toque foi leve, mas trouxe Kira de volta à realidade com um sobressalto.
— Você conseguiu — disse Takira, olhando para o fragmento na mão dela.
Kira olhou para o cristal. Ele pulsava com uma luz fraca, quase triste.
— A que custo? — sussurrou ela, a voz rouca. — Eu... eu vi uma versão minha morrer. Ela era corajosa. Ela sabia o que fazer. E eu... eu só fiquei parada.
Takira não ofereceu consolo vazio. Ela apenas apertou o ombro de Kira.
— A coragem tem muitas formas, menina. Às vezes, sobreviver é a coisa mais difícil de se fazer.
Ela se virou para Lira.
— Venha, Lira. Preciso de ajuda com as bandagens. E você, Kira... sente-se. Respire. O mundo não vai acabar nos próximos cinco minutos.
Enquanto Takira e Lira cuidavam dos ferimentos de Katsu, Kira se sentou em um banco de madeira, longe do calor do fogo. Ela observava as sombras dançarem nas paredes, sentindo-se mais fria do que no Reino de Gelo.
Lira olhava para a amiga de vez em quando, mordendo o lábio, querendo dizer algo, mas o silêncio de Kira era uma muralha impenetrável.
O ateliê, antes um lugar de maravilhas e criação, agora parecia um hospital de campanha para almas feridas. E a noite lá fora prometia ser longa.
Feridas Invisíveis
Enquanto Takira limpava os cortes no braço de Katsu com um pano úmido e quente, o silêncio no ateliê era quebrado apenas pelo estalar da lareira.
Katsu sibilou de dor quando o antisséptico tocou sua pele, mas seus olhos não estavam no ferimento. Eles estavam fixos em Kira, sentada no escuro.
— Ela... a outra... — começou ele, a voz rouca. — Ela disse algo antes de sumir.
Takira parou por um momento, mas continuou o trabalho sem olhar para ele.
— Reflexos dizem muitas coisas, rapaz. Eles são feitos de desejos e medos. Às vezes, mostram o que queremos ser. Outras vezes, o que temos medo de perder.
Katsu olhou para Takira.
— Mas parecia real. Ela parecia... mais real do que eu.
No banco afastado, Kira se encolheu, abraçando os joelhos. Cada palavra dele era uma facada. Ela era melhor. Ela merecia estar aqui.
Lira, que estava ajudando a segurar as bandagens, finalmente não aguentou mais o silêncio da amiga. Ela largou o rolo de gaze e caminhou até Kira.
— Ei... — Lira se ajoelhou na frente dela, colocando a mão no joelho da amiga. — Você não fez nada de errado, Kira. O espelho... era uma armadilha. Uma de vocês tinha que quebrar.
Kira levantou os olhos, marejados.
— Mas por que fui eu a ficar? — sussurrou ela, a voz trêmula. — Eu hesitei, Lira. Eu fiquei com medo. A outra... ela agiu. Ela salvou a gente. Se dependesse de mim...
— Se dependesse de você, a gente estaria vivo do mesmo jeito — interrompeu Katsu.
Kira olhou para ele, surpresa. Katsu se sentou no divã, ignorando o protesto de Takira, e olhou diretamente para ela.
— A "outra" agiu porque ela sabia que era um reflexo, Kira. No fundo, ela sabia. É fácil ser corajoso quando você não tem nada a perder de verdade. Mas você... você tinha tudo a perder. Sua vida. Nós. E mesmo assim, você está aqui, carregando esse peso. Isso é coragem real.
Kira sentiu uma lágrima escorrer. Ela limpou o rosto com raiva.
— Eu só... eu queria ter dito a ela que sentia muito.
— Ela sabia — disse Lira, suavemente. — Eu vi o sorriso dela no final. Ela sabia.
Takira terminou o curativo e limpou as mãos no avental.
— O Mundo dos Reflexos testou quem vocês são — disse ela, caminhando até uma mesa coberta de mapas estelares. — Mas o próximo destino testará quando vocês estão.
Kira se aproximou da mesa, a curiosidade superando momentaneamente a tristeza.
— O Mundo do Tempo? — perguntou ela. — Foi lá que vi o segundo fragmento na minha visão.
Takira assentiu gravemente.
— Sim. É um dos pilares do multiverso, assim como o dos Reflexos.
Katsu massageou o ombro enfaixado.
— Então não será somente entrar, pegar a pedra e sair, né?
Takira deu um leve sorriso de canto, concordando com a ironia de Katsu.
— O Mundo do Tempo é instável. Ele flui como um rio, mas é atraído pelos seus pensamentos, suas esperanças e arrependimentos.
Ela olhou para cada um deles com intensidade.
— Se você pensar no que perdeu, será arrastado para o passado. Se pensar no que deseja alcançar, será puxado para o futuro.
Lira estremeceu, abraçando os próprios braços.
— Então... como a gente anda lá sem ser puxado?
— Focando no Agora — respondeu Takira. — Em cada passo que estão dando. Na respiração. Na sensação do chão sob os pés. O presente é a única âncora segura naquele lugar. Qualquer desvio mental... e vocês se perdem.
Kira olhou para o fragmento da Estrela em sua mão. Ele pulsava em sincronia com seu coração.
Focar no presente, pensou ela. Não no que a réplica fez. Não no que eu poderia ter feito. Apenas no agora.
— Nós conseguimos — disse Kira, a voz firme. — Vamos trazer o último pedaço. Vamos salvar a Kirai e levar o Katsu para casa.
Takira sorriu, orgulhosa.
— Descansem hoje. Amanhã abrirei a porta.
Ela se retirou para seus aposentos, deixando o trio com o calor da lareira e o peso da nova missão.
Katsu se deitou, olhando para o teto alto do ateliê.
Casa..., pensou ele, antes de se corrigir rapidamente. Não. Agora não. Foco no presente. Foco na Kira. Foco na missão.
Mas a semente da dúvida já estava plantada. E o Mundo do Tempo saberia exatamente como fazê-la germinar.