O Rio de Areia
A porta se abriu para um deserto dourado infinito.
Não havia sol, mas o céu brilhava com uma luz difusa e âmbar. O chão era coberto por uma areia fina que fluía como água, criando dunas que mudavam de forma a cada segundo, como ondas de um oceano sólido.
Takira parou na soleira da porta, recusando-se a pisar na areia.
— Lembrem-se, essa corda à qual estão amarrados, está ligada a essência de vocês, ela pode se esticar, mas nunca romperá, a não ser que...
Takira hesitou em terminar a frase.
— A não ser? — Perguntou Kira.
— Nada! O vínculo é inquebrável. — Respondeu Takira de forma categórica.
— A partir daqui, é com vocês — disse ela. — Lembrem-se: o tempo aqui é um predador. Ele vai tentar seduzi-los. Não escutem. Não respondam. Apenas andem e pensem no presente.
Kira respirou fundo, entregando o fragmento para Takira.
— Vamos. Foco no agora. Passo após passo.
Eles entraram. Assim que pisaram na areia, sentiram uma vertigem, como se estivessem em um barco balançando. O som do vento soava como vozes sussurrando em uma língua esquecida.
Eles caminharam em fila indiana. Katsu na frente, Kira no meio, Lira atrás.
Kira contava seus passos mentalmente. Um. Dois. A areia é morna. Três. Quatro. O ar tem cheiro de poeira. Ela mantinha a mente ocupada com sensações físicas.
Mas o Mundo do Tempo percebeu a presença deles.
Uma brisa suave passou pelo ouvido de Lira. Não era apenas vento. Era uma melodia. Uma canção antiga que ela não ouvia desde muito tempo. E, misturada a ela, a voz da Lira Reflexo chorando: "Por que você me deixou? Era tão bonito antes..."
Lira parou. A culpa apertou seu coração. Se minha magia não estivesse fraca... se eu pudesse voltar...
A areia ao redor dos pés dela começou a girar, criando um redemoinho silencioso.
— Lira? — chamou Kira, virando-se.
Mas Lira já estava afundando. Ela olhou para Kira com pavor, estendendo a mão, mas a areia a engoliu antes que pudesse alcançá-la.
— Lira! — gritou Katsu.
O grito dele ecoou pelo deserto. E o tempo respondeu.
Uma rajada de vento trouxe o som de chuva batendo no asfalto. O cheiro de café fresco. O barulho distante de um metrô. E a voz de sua mãe: "Katsu... você não vem para casa? Estamos te esperando há tanto tempo..."
Katsu tropeçou. A imagem de sua casa, quente e segura, brilhou em sua mente. A saudade bateu nele com a força de um trem. Eu estou tão perto... será que se eu correr, eu chego?
A areia ao redor dele começou a girar para frente, acelerando.
— Katsu! Não pense! — gritou Kira, virando-se tarde demais.
Katsu foi sugado para dentro de um túnel de areia que se formou à frente dele, desaparecendo em um piscar de olhos.
Kira ficou sozinha no deserto. O silêncio voltou, pesado e acusador.
Ela caiu de joelhos na areia. Eu os perdi. De novo.
Mas então, ela se lembrou das palavras de Takira. O presente é a âncora. Se ela se desesperasse, o tempo a levaria também. Ela precisava ser o ponto fixo. O farol para que eles voltassem.
Ela cravou os pés na areia e agarrou a corda brilhante amarrada à sua cintura, sentindo a tensão de dois mundos puxando-a.
Eu estou aqui. Eles vão voltar. Eu sou a âncora.
O Jardim da Criação
Lira abriu os olhos, sentindo o cheiro doce de flores silvestres e mel.
Ela estava deitada em uma grama macia e verdejante, tão vibrante que parecia brilhar com luz própria. O céu acima era de um azul límpido, sem nuvens, iluminado por dois sóis pequenos e dourados.
— Onde estou? — murmurou ela, sentando-se e limpando a areia do vestido colorido. — Katsu? Kira?
Não houve resposta. Apenas o canto de pássaros que ela nunca tinha ouvido antes.
Lira se levantou e olhou ao redor. Ela estava em um vale cercado por montanhas de cristal que refletiam a luz dos sóis. No centro do vale, uma árvore gigantesca com folhas de prata crescia, suas raízes mergulhando em um lago de águas calmas.
Era o lugar mais bonito que ela já tinha visto.
— Olá? — chamou ela, caminhando em direção à árvore.
— Quem está aí?
Uma voz suave e curiosa veio de trás do tronco prateado. Uma garota saiu de lá, espiando com cautela.
Ela aparentava ser apenas uma criança, talvez com seus oito ou nove anos. Vestia um camisolão simples de linho branco, manchado de terra e tinta. O que mais chamava a atenção, no entanto, eram seus cabelos longos e ondulados, de um loiro tão pálido e brilhante que pareciam fios de ouro puro sob os dois sóis. Estavam presos em tranças desajeitadas enfeitadas com flores que pareciam feitas de luz estelar. Seus olhos eram grandes e brilhavam com uma inocência transbordante.
Era uma Kira. Mas não a Kira que Lira conhecia. Havia uma leveza nela, uma ausência de peso nos ombros.
— Oi! — Lira sorriu, acenando. — Eu sou Lira. Desculpe invadir seu jardim. Eu meio que... caí aqui.
A garota saiu de trás da árvore, os olhos arregalados de fascínio.
— Você caiu do céu? — Ela se aproximou, tocando o tecido colorido do vestido de Lira. — Eu nunca vi cores assim. Você é uma criação minha que ganhou vida? Eu estava tentando fazer uma fada da música ontem à noite.
Lira riu, encantada com a imaginação dela.
— Não exatamente. Eu sou de outro mundo. Mas posso ser sua amiga fada, se quiser.
A garota bateu palmas, dando um pulinho de alegria.
— Amiga! Eu nunca tive uma amiga de verdade. Só tenho as árvores e os bichinhos que eu crio. — Ela estendeu a mão, suja de tinta. — Eu sou Kira. Prazer!
Lira apertou a mão dela. O nome soou familiar, é claro, mas a alegria da garota era contagiante.
— O prazer é meu, Kira. O que você está fazendo?
A Pequena Kira a puxou pela mão.
— Vem ver! Estou terminando de pintar as asas das borboletas. Elas precisam de mais azul!
Elas passaram o que pareceram horas brincando naquele jardim eterno. Lira tocou sua flauta (agora consertada) para fazer as flores dançarem ao ritmo da música, enquanto a Pequena Kira usava um pincel mágico para colorir o céu com novas tonalidades de pôr do sol.
Foi o momento mais feliz que Lira já teve. Sem medo. Sem monstros. Sem a pressão de ser útil ou forte. Apenas criação pura e alegria compartilhada.
— Você é muito boa nisso — disse Lira, deitada na grama ao lado da Pequena Kira, olhando para as nuvens que ela tinha acabado de esculpir em formas de animais.
A Pequena Kira sorriu, mas havia uma sombra de melancolia em seus olhos.
— Obrigada. Eu adoro criar. Mas... às vezes me sinto sozinha aqui. Eu queria poder sair, ver outros mundos. Me sinto presa.
Lira sentiu um aperto no coração. A tristeza na voz daquela Kira a atingiu.
— Pequena Kira — Lira segurou a mão dela. — Mas você vai conhecer outras Kiras, tenho certeza. E promete uma coisa pra mim?
A Pequena Kira olhou para ela, confusa.
— O quê?
— Nunca deixe que a vontade de "algo grande" apague quem você é agora. As coisas bonitas... elas são o seu verdadeiro poder. Não a força, ou o controle. Mas isso aqui. — Lira apontou para o jardim. — A alegria de criar.
A Pequena Kira sorriu, um sorriso que iluminou o vale.
— Eu prometo, Lira.
De repente, o céu começou a escurecer. Ventos fortes sopraram as folhas de prata da árvore. Um redemoinho de areia começou a se formar no meio do lago. A corda amarrada em Lira, que estava translúcida se iluminou com uma luz dourada.
A voz da Kira do Presente ecoou através do portal de areia, distante e urgente:
— Lira! Volte!
Lira se levantou.
— Eu tenho que ir.
A Pequena Kira agarrou a mão dela.
— Já? Mas... acabamos de nos conhecer! Você vai voltar?
Lira sabia que não podia prometer isso. O tempo era um rio imprevisível.
Ela levou a mão ao pescoço e desabotoou o colar que sempre usava. Era um pingente de ouro simples, no formato de uma lira.
— Tome — disse ela, colocando o colar na mão da Pequena Kira. — Para você nunca esquecer que tem uma amiga. Mesmo que eu esteja longe. E para lembrar da sua promessa.
A Pequena Kira segurou o pingente contra o peito, maravilhada.
— É lindo... Obrigada, Lira! Eu vou guardar para sempre.
A corda se esticou e o portal de areia começou a puxar Lira. Ela deu um passo para trás, sentindo as lágrimas subirem.
— Adeus, Pequena Kira.
— Até logo, Lira! — gritou a Pequena Kira, acenando enquanto Lira era sugada pelo vórtice.
O Farol na Tempestade
No deserto de areia, Kira estava puxando a corda amarrada em sua cintura, um feixe de luz dourada se estendia para dentro de um vórtice de areia que girava no sentido anti-horário. Era a corda que segurava Lira.
— Volta! — gritou Kira, puxando a corda com toda a força. O esforço fazia os músculos de seus braços queimarem.
O vórtice explodiu em luz.
Lira foi arremessada para fora, caindo na areia ao lado de Kira, tossindo e coberta de areia.
— Lira! — Kira largou a corda, que se dissolveu em partículas de luz, e agarrou os ombros da amiga. — Você está bem?
Lira piscou, ainda atordoada pela transição brutal entre o jardim idílico e o deserto hostil.
— Eu estava num lugar maravilhoso, e lá tinha uma pequena Kira, era tão linda e fofa, e...
Kira sentiu a corda de Katsu se esticando mais.
— Katsu! — gritou Kira, interrompendo a amiga. — Ele está sendo puxado rápido demais! Eu não consigo segurar sozinha!
Lira se levantou, limpando o rosto.
— Onde ele está? O que eu faço?
Kira apontou para a corda.
— Me ajuda! Segure comigo e foque no Katsu. Traga ele para o agora.
Lira agarrou a corda junto com Kira. Mas assim que tocou, sentiu a vertigem do tempo.
— Katsu... — sussurrou o vento no ouvido de Lira. — Ele está em casa. Feliz. Longe de você.
A areia ao redor dos pés de Lira começou a girar, querendo levá-la de novo.
— Não! — gritou Kira, apertando a mão dela com força. — Lira, foco! Não pense em nada que o tempo está lhe dizendo, é mentira. Pense no Katsu que está aqui! No Katsu que precisa de nós agora!
Lira fechou os olhos com força, tremendo.
— Presente... presente... presente... — repetiu ela como um mantra.
Ela visualizou o rosto de Katsu e o sorriso dele ao vê-la tocar.
A areia ao redor de seus pés parou de girar. A corda de luz que ligava Kira a Katsu brilhou com uma intensidade nova, alimentada pela vontade combinada das duas.
— Isso! — gritou Kira. — Agora puxa!