O Som da Memória
A transição da areia do Mundo do Tempo para o chão de mármore do ateliê foi abrupta. A porta se fechou atrás deles com um som oco e final.
Kira e Katsu ainda estavam de mãos dadas. Lira caminhava logo atrás, sacudindo a poeira dourada dos cabelos. Eles tinham o terceiro fragmento. Eles tinham esperança.
Mas a esperança durou exatamente dois segundos.
O ateliê estava em uma penumbra doentia. O silêncio era absoluto.
— Takira? — chamou Kira, soltando a mão de Katsu e dando um passo à frente — Nós voltamos!
Não houve resposta vocal, mas o som de pedra raspando contra pedra ecoou pelo salão.
Das sombras, as imensas estátuas guardiãs que outrora protegiam o ateliê avançaram. Mas seus olhos de âmbar estavam apagados; no lugar deles, chamas vermelhas ardiam com um ódio que não lhes pertencia.
As estátuas formaram um círculo apertado ao redor do grupo, erguendo suas lanças e escudos de mármore.
Katsu tomou a frente, empurrando Kira e Lira levemente para trás. Ele ergueu o braço, pronto para ativar a Pulseira de Energia.
— Fiquem perto — sussurrou ele, os olhos correndo de um gigante de pedra para outro.
— Não precisam lutar contra pedras... a não ser que queiram morrer cansados.
A voz aveludada e venenosa veio do centro do salão.
A fumaça negra se dissipou como uma cortina se abrindo. Lá estava Kirai, flutuando a poucos centímetros do chão. Em sua mão direita, ela segurava os outros dois fragmentos da Estrela dos Desejos. Eles brilhavam fracos, como se tentassem resistir ao toque dela.
Atrás de Kirai, estava Takira. A Artesã estava de joelhos, imobilizada por uma de suas próprias estátuas de bronze, que prendia seus braços para trás. Takira tinha um corte na testa e respirava com dificuldade.
— Takira! — gritou Kira.
— Você prometeu que não os atacaria aqui! — disse Takira, a voz fraca.
Kirai sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos negros.
— Bem-vindos de volta. Vocês sobreviveram ao Mundo do Tempo, meus parabens... Agora, onde está meu presente? — Ela estendeu a mão esquerda na direção de Kira. — Chega de brincadeiras. Entregue o último fragmento.
Kira apertou o cristal em seu bolso, o coração batendo forte.
— Não vou te dar nada. Você destruiu a Akira. Você quase matou o Katsu no futuro!
O sorriso de Kirai desapareceu.
— Você não sabe nada sobre o futuro. Você é apenas uma sombra fraca do que eu sou. — Ela fechou a mão, e uma aura de energia negra envolveu o corpo de Takira.
A Artesã gemeu de dor, seus músculos se retorcendo sob a pressão da magia sombria.
— Takira! — Kira deu um passo à frente.
— Eu pergunto de novo — disse Kirai, a voz fria. — O fragmento. Ou você não se importa com a vida da sua amiga?
Kira parou. A hesitação estava estampada em seu rosto. Ela não podia deixar Takira morrer. Mas entregar a Estrela seria o fim de todos os mundos.
— Pare com isso! — gritou Kira, a voz embargada. — Por que você faz isso? Ela era sua parceira! Por que você machuca a própria amiga?!
Kirai soltou uma risada seca e sem humor. Ela apertou ainda mais o controle sobre a energia negra.
— Eu não tenho amigas. Não mais. Amizade é uma fraqueza que eu abandonei junto com meu passado estúpido.
Atrás de Kira, Lira congelou.
Aquelas palavras. Aquele tom de voz.
Lira fechou os olhos. E começou a sentir a voz de Kirai. As emoções que o som de sua voz emitia. A raiva e o ódio de Kirai eram barulhentos, como pratos quebrando. Mas, por baixo daquela barulheira, havia uma nota de fundo. Uma frequência muito, muito baixa.
Era um som antigo, nostálgico e terrivelmente triste. Uma melodia que Lira só havia ouvido uma vez na vida.
Lira abriu os olhos, o choque roubando-lhe o fôlego.
— ...Pequena Kira?
A voz de Lira saiu num sussurro, mas no silêncio tenso do salão, soou como um trovão.
Kirai parou. A energia negra ao redor de Takira vacilou por um instante.
Ela virou a cabeça para olhar para a garota colorida. Havia uma confusão genuína em seu rosto.
— Do que você me chamou? — perguntou Kirai, a voz perdendo um pouco do eco ameaçador.
Lira deu um passo à frente.
— Pequena Kira... é você? — As lágrimas começaram a se formar nos olhos de Lira. — A música não mente. Eu consigo ouvir.
Kirai recuou levemente no ar. A fumaça ao redor de seus pés girou de forma errática. Algo na voz de Lira puxou um fio solto em sua mente, uma irritante insistência que ela queria esmagar. Um sentimento quente e esquecido que ela havia enterrado sob anos de raiva.
— Cale a boca — rosnou Kirai, mas a confiança havia desaparecido de sua voz. — Eu não sei do que você está falando.
Lira fechou os olhos de novo, concentrando-se na conexão pura que fez naquele dia.
— Eu posso sentir. A promessa. — Lira abriu os olhos e olhou diretamente para o pescoço de Kirai. — Você ainda está com ele, não é? O colar.
— Pare de falar! — gritou Kirai.
A fumaça negra no peito da vilã começou a vibrar.
Por baixo das vestes sombrias de Kirai, algo começou a reagir à voz de Lira. Uma pequena pedra negra que Kirai usava em uma corrente enferrujada começou a tremer.
Crack.
Uma fissura apareceu na casca escura. E, pela rachadura, uma luz dourada incrivelmente forte escapou.
— Pare com isso! O que você está fazendo?! — Kirai caiu de joelhos no chão de mármore, largando os fragmentos da Estrela e agarrando a própria cabeça. A energia sombria que prendia Takira se desfez completamente.
— Pequena Kira, sou eu! Lira! A sua amiga! — gritou Lira, a voz embargada pelo choro.
CRACK.
A casca negra se rompeu por completo, desfazendo-se em pó. Pendurado no pescoço de Kirai, puro e brilhante como no dia em que foi entregue no jardim, estava o pingente de ouro em forma de lira.
Kirai gritou. Não um grito de raiva, mas de pura dor emocional.
O som do pingente tilintando desencadeou uma avalanche.
Flashbacks invadiram a mente corrompida dela como uma represa se rompendo:
O sorriso de Lira no campo verde.
A sensação da flauta fazendo as flores dançarem.
O primeiro dia que conheceu Takira e as horas criando juntas.
A construção da Estrela, a vontade de ver além dos mundos, a promessa de não esquecer quem ela era.
O choque foi tão violento que Kirai perdeu o controle. A fumaça negra que sempre a envolvia se desfez, revelando seus cabelos negros.
As estátuas ao redor do grupo abaixaram as lanças e ficaram imóveis. A ameaça havia evaporado.
Kirai ficou quieta, prostrada no chão, ofegante.
Ela não olhou para Kira, nem para Katsu. Com as mãos trêmulas, ela segurou o pingente de ouro. O calor do metal parecia queimar seus dedos frios.
Lágrimas — pesadas, escuras e antigas — começaram a escorrer pelo rosto pálido da vilã, pingando no chão de mármore.
Lira deu mais um passo, estendendo a mão.
— Kirari...
Mas Kirai não deixou que ela se aproximasse. Ela apertou o pingente contra o peito, fechou os olhos e, sem dizer uma única palavra, seu corpo inteiro se dissolveu em uma espessa névoa escura, e se desfazendo no ar.
O salão ficou em um silêncio estarrecedor.
Os dois fragmentos da Estrela ficaram esquecidos no chão.
Kira e Katsu olharam para o local onde Kirai estava, completamente confusos e paralisados. A tensão da batalha foi substituída por um vazio incompreensível.
— O que... o que foi tudo isso? — perguntou Katsu, pegando os fragmentos do chão, sem abaixar a guarda. — Ela foi embora?
Lira ainda chorava em silêncio, os ombros tremendo.
Takira levantou-se com dificuldade, com a ajuda da estátua que antes a prendia. A Artesã olhou para as lágrimas no chão, deixadas por sua antiga parceira.
— Sim, Katsu — respondeu Takira, a voz cansada, mas cheia de uma tristeza profunda. — Ela fugiu para a única fortaleza que lhe resta. Ela voltou para o seu próprio mundo.
A Forja e a Escolha
O silêncio do ateliê foi quebrado pelo som do fogo rugindo na forja de Takira.
A Artesã estava diante de uma bigorna de mármore branco, usando luvas grossas de couro. Os três fragmentos da Estrela dos Desejos flutuavam no centro da chama azulada, girando lentamente enquanto a magia e o calor os amoleciam.
Kira, Katsu e Lira assistiam a uma distância segura. A tensão no ar era palpável, misturada à expectativa.
Takira ergueu um martelo feito de cristal puro. Ela não golpeava com força bruta, mas com batidas rítmicas e precisas que soavam como sinos. A cada golpe, os fragmentos se aproximavam, fundindo-se em uma única esfera perfeita de luz prateada.
Com uma última batida, a forja se apagou.
Takira pegou a Estrela dos Desejos com as mãos nuas. Ela não queimava, apenas irradiava um calor reconfortante. Ela caminhou até Kira e depositou a esfera nas mãos da garota.
— Está feito — disse Takira, suspirando. O esforço a havia envelhecido visivelmente; linhas de cansaço marcavam seu rosto. — Mas escutem bem: a Estrela está fragilizada. Ela só suportará mais um único desejo antes de se apagar para sempre. Escolham com sabedoria.
Kira olhou para a esfera brilhante em suas mãos. O poder de mudar o universo estava ali, condensado.
Ela sentiu um nó na garganta. O que ela mais queria era egoísta: ficar com Katsu, ter as amigas seguras, voltar para um apartamento tranquilo. Mas ela sabia o que precisava ser feito.
Kira virou-se para Katsu e estendeu as mãos, oferecendo a Estrela a ele.
— Pegue — disse ela, a voz embargada, evitando olhar diretamente nos olhos dele. — Deseje voltar para casa. Sua vida. A Estrela atenderá.
Katsu olhou para a Estrela. A luz refletia em seus olhos. Ele podia quase ver e sentir seu mundo.
Mas então, ele olhou para Kira. Ele viu o tremor nas mãos dela. Viu a tristeza que ela tentava esconder sob a máscara de bravura.
Ele ergueu a mão, mas não tocou na Estrela. Ele fechou as mãos de Kira sobre o artefato, empurrando-o gentilmente de volta para o peito dela.
— Não — disse ele, a voz firme.
Kira arregalou os olhos, confusa.
— Como assim, "não"? É a sua chance, Katsu! É o que viemos buscar desde o início!
Katsu balançou a cabeça. Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, o polegar acariciando a bochecha onde uma lágrima ameaçava cair.
— Meu coração está dividido. Eu sinto saudade de casa. Mas se eu for embora... nunca mais verei o seu sorriso. Eu fiz uma promessa a você. E eu não vou quebrar.
Kira soltou um soluço, incapaz de segurar as lágrimas. O vazio em seu peito foi preenchido por uma onda de felicidade. Ela encostou a testa no peito dele, chorando de alívio e de um amor que finalmente podia transbordar.
Katsu a abraçou, beijando o topo de sua cabeça.
Lira, que assistia à cena de longe, fungou alto, limpando os olhos com a manga do vestido.
— Vocês são tão lindos — disse Lira, com a voz embargada.
Takira deu um sorriso de canto, observando a cena com a sabedoria de quem já viveu muitas vidas.
— Muito bem — disse a Artesã, cruzando os braços. — Se o viajante abdica do desejo, a Estrela é sua, Kira. O que você fará com ela?
Kira se afastou de Katsu, secando o rosto e assumindo uma postura determinada. Ela olhou para a Estrela em suas mãos.
— Nós vamos salvar Kirai.
A declaração caiu pesada no ateliê.
— Salvar a Kirai? — Takira franziu a testa. — Kira, o desejo precisaria ser feito na presença dela, e ela retornou para o Mundo das Sombras.
— Então nós vamos até ela — disse Kira, sem hesitar.
Takira balançou a cabeça veementemente.
— Eu posso senti-la, ela retornou ao seu mundo, e está sofrendo. Mas o Mundo das Sombras é um lugar muito perigoso, e lá ela é muito mais poderosa.
— Nós já enfrentamos os mundos fundamentais dos reflexos e do tempo — acrescentou Katsu, ficando ao lado de Kira. — Nós vamos. Quer você aprove ou não.
— E ela ainda tem o pingente, Takira. Você viu a reação dela, ainda há esperança. — Completou Lira.
Takira olhou para os três rostos determinados. Ela suspirou longamente, passando a mão pelos cabelos bagunçados.
— É loucura... — Takira hesitou um instante. — Mas eu a ajudei a se tornar o monstro que é, quando criei a estrela.
Takira respirou fundo.
— Eu vou ajudar.
— Mas como vamos entrar? — perguntou Kira.
— No passado, eu havia deixado o acesso ao meu mundo liberado para ela. Mas o vinculo é recíproco, o mundo dela também está acessível para mim.
Ela bateu palmas duas vezes, duas estátuas de bronze e três de mármore caminharam até ela.
As estátuas formaram uma fileira atrás de Takira, empunhando suas armas, prontas para a guerra.