Ecos de Humanidade
Takira parou diante da grande porta dupla de seu ateliê. Ela respirou fundo, os ombros tensos, e segurou a maçaneta. Seu toque não fez a madeira brilhar com luz dourada, como nas outras viagens; em vez disso, a maçaneta ficou preta como carvão, irradiando um frio que congelou o ar ao redor.
Ela girou e abriu.
Uma névoa negra e espessa escorreu pelo batente como fumaça de gelo seco, cobrindo os pés de todos. Lira abraçou os próprios braços, arrepiando-se da cabeça aos pés.
— Este é o corredor para o Mundo das Sombras — sussurrou Takira. Ela olhou para trás. — As estátuas vão na frente. Fiquem atrás de mim e não se separem por nada.
As duas estátuas de bronze e as três de mármore marcharam portal adentro, com os escudos erguidos e as lanças em riste. O grupo as seguiu.
Ao atravessarem, sentiram um ambiente opressor. Eles estavam em um bosque sob uma noite eterna e sem estrelas. O chão era coberto por folhas pretas e secas que não faziam barulho ao serem pisadas. As árvores eram retorcidas, com galhos que pareciam dedos esqueléticos tentando agarrar o céu.
— Que lugar horrível... — sussurrou Lira, a voz soando abafada, como se a própria névoa engolisse o som.
Kira mantinha a Estrela dos Desejos no bolso, a mão repousando sobre ela. O calor do artefato era a única coisa que afastava o frio que tentava invadir seu peito.
Eles caminharam por alguns minutos até avistarem uma porta enorme de ferro negro encravada no tronco de uma árvore colossal morta.
— É a entrada para o mundo dela — apontou Takira.
Mas antes que pudessem se aproximar, um som grotesco de ossos estalando e carne se esticando quebrou o silêncio.
Das sombras acima deles, algo despencou, aterrissando com um estrondo que fez o chão tremer.
Era uma fera. Parecia o monstro canino que os perseguiu no primeiro dia, mas muito maior. Seus músculos eram estufados e cobertos por placas ósseas irregulares. Os olhos vermelhos se destacavam na névoa.
Uma das estátuas de mármore avançou para proteger o grupo.
Com um único golpe de sua pata monstruosa, ela estilhaçou o peito de mármore do gigante. A estátua tombou, desfazendo-se em cascalho sem vida.
— Minha vez! — gritou Lira, puxando a flauta de prata.
Ela tentou tocar uma melodia calmante, notas suaves que costumavam fazer os animais dormirem. Mas o som mágico pareceu irritar a criatura. O monstro rugiu, os olhos vermelhos fixando-se na fonte do barulho, e saltou diretamente para Lira.
— Cuidado! — Katsu se jogou na frente dela, erguendo o braço esquerdo.
A Pulseira de Energia ativou-se. O escudo azul hexagonal formou-se, mas a força bruta da criatura era absurda. A barreira absorveu o impacto, mas a força cinética empurrou Katsu para trás, fazendo ele e Lira rolarem pelo chão.
No pulso de Katsu, o display da pulseira piscou em vermelho. Faíscas saltaram do metal. Uma mensagem fixa no display: Falha Crítica. Escudo inoperante.
Takira ordenou que as duas estátuas de bronze atacassem. Elas cercaram o monstro, cravando as lanças em seus flancos. Mas as armas de metal pouco penetravam em sua pele grossa. O monstro girou, abocanhando o braço de uma estátua e arrancando-o, antes de esmagar a cabeça da outra com um coice.
O caminho até Katsu e Lira estava livre. A fera avançou.
Kira estava assustada, não tinha como ajudar, tentava se lembrar da espada, tentando invocar aquele momento em sua mente, mas sem sucesso.
Então uma luz laranja iluminou todo o bosque.
FWOOSH!
Uma bola de fogo gigantesca, quente como um pequeno sol, rasgou o ar e atingiu o peito do monstro.
A criatura guinchou, caindo para o lado e rolando na terra seca, as chamas devorando a névoa ao seu redor.
O grupo se virou para a origem do ataque.
Caminhando com passos firmes pela névoa, o cajado de madeira branca brilhando intensamente, estava Kirana. Ela usava um manto novo, mais robusto, com símbolos de folhas de outono brilhando nas bordas.
— Desculpem o atraso — disse Kirana, com um sorriso de canto e a respiração ligeiramente ofegante. — Demorou um pouco para eu reconstruir meu mundo depois daquela bagunça.
— Kirana! — Kira abriu um sorriso enorme, o alívio tomando conta de seu peito. — Você está viva!
— Foi mal te deixar preocupada, mas eu disse que ficaria bem — piscou a Maga.
Atrás deles, a fera em chamas tentava se levantar, grunhindo em agonia, mas as chamas mágicas de Kirana a mantinham no chão.
Katsu, ainda dolorido pela queda, viu uma das lanças de bronze quebradas das estátuas caída no chão a poucos metros. Ele a pegou. Os dedos cerrados com força no metal frio. O medo e a adrenalina exigiam um fim.
Ele caminhou em direção à criatura caída.
— Katsu, espera! — Lira tentou chamá-lo, mas ele não ouviu.
Ele parou diante do monstro ofegante. Ergueu a lança, apontando para o centro do peito exposto da criatura.
— Acabou — disse ele, com a voz dura.
Mas antes que ele pudesse descer o golpe, Kira se jogou na frente, colocando-se entre ele e o monstro.
— NÃO! — gritou ela, os braços abertos, os olhos cheios de lágrimas. — Pare, Katsu!
Katsu parou com a lança erguida.
— Kira, saia da frente! Essa coisa tentou nos matar! Eu vou dar um fim nisso!
Kira balançou a cabeça, as lágrimas escorrendo livres pelo rosto e pingando na terra preta.
— Você não entende... — ela soluçou, a voz falhando. Ela apontou para a criatura atrás dela. — Eles... eles não são monstros, Katsu. Eles... são como você.
Katsu congelou. Abaixando a lança.
— Como assim... como eu?
— Eles são humanos! — gritou ela, a confissão rasgando a garganta. — Foram pessoas. Viajantes que a Kirai puxou para cá. Como ela fez com você. A energia sombria dela distorce a mente, o corpo... transforma eles nessas coisas! Se matarmos ele... estaremos matando uma pessoa!
Katsu deu um passo para trás. O ar fugiu de seus pulmões.
— E aquele monstro aranha? — indagou Katsu.
— Não me lembre disso! — disse Kira desabando em lágrimas.
Ele olhou além do ombro de Kira. O monstro ainda estava no chão, ofegante, a magia de Kirana contendo as chamas.
Katsu olhou para os olhos vermelhos e terríveis da fera. Mas, agora, focado, ele viu além da vermelhidão doentia. Ele viu a pupila. E ele viu o medo. Um medo puro, desesperado e essencialmente humano.
A lança escorregou dos dedos dele e caiu no chão com um estalo seco.
Katsu olhou para Kira.
— Por que... por que você não me contou isso antes? Desde o primeiro dia?
Kira caiu de joelhos, cobrindo o rosto com as mãos.
— Porque eu tive medo! — chorou ela. — Tive medo de que, se você soubesse o que poderia acontecer com você... você me odiaria. Você fugiria. Você iria embora e eu não conseguiria te salvar como não consegui salvar os outros! É minha culpa... eles estão assim por minha causa!
Katsu não disse nada por um longo momento. O silêncio do bosque morto parecia amplificar os soluços dela.
Ele se ajoelhou na terra suja. Katsu passou os braços ao redor de Kira, puxando-a para um abraço apertado.
— Não diga isso — sussurrou ele no ouvido dela, a voz firme. — Não é sua culpa. A Kirai fez isso, não você. Você só tentou ajudar. E você me ajudou.
Kira agarrou a camisa dele, chorando contra o peito dele, libertando o peso daquele segredo horrível que carregou sozinha por tanto tempo.
Kirana se aproximou do monstro caído. O olhar da maga élfica era de profunda compaixão.
— Afastem-se um pouco — pediu Kirana, de forma suave.
Ela ergueu o cajado e tocou o centro da testa do monstro com a esfera brilhante. A luz branca fluiu, apagando o fogo e limpando as queimaduras negras. A criatura soltou um longo suspiro e fechou os olhos, a agonia sumindo de seu rosto. Em seguida, Kirana desenhou um círculo no chão. Uma cúpula de luz esverdeada se ergueu, prendendo e protegendo a criatura.
— Isso vai acalmar a mente dele e mantê-lo adormecido — explicou Kirana. — Ele não sentirá dor e estará seguro até resolvermos isso.
Takira pigarreou, aproximando-se com a única estátua de mármore que lhe restava.
— Se curarmos a fonte do mal, a corrupção vai se desfazer. Mas para isso...
A Artesã apontou para a imensa porta negra incrustada na árvore gigante.
Kira se soltou do abraço de Katsu e limpou o rosto, a determinação voltando aos seus olhos. Ela olhou para Kirana, para Takira, para Lira, e, finalmente, para Katsu.
— Vamos terminar o que começamos — disse Kira, caminhando até a porta.
O Desejo
Com um rangido agudo de metal enferrujado, Takira empurrou a pesada porta de ferro negro.
O grupo atravessou a soleira, preparados para uma emboscada, mas encontraram apenas um eco do corredor lá fora. O Mundo das Sombras era uma vasta planície de terra estéril e pedras rachadas, coberta por nuvens tempestuosas que giravam lentamente, sem nunca chover.
Kirana avançou alguns passos. Ela bateu a base do cajado no chão. Ondas de luz esverdeada se espalharam pela terra seca como ondulações em um lago, escaneando o ambiente.
— Limpo — anunciou a Maga, embora sua voz soasse tensa. — Não sinto emboscadas. Nenhuma fera, nenhum feitiço de contenção. Apenas...
— Apenas o quê? — perguntou Katsu, mantendo a guarda alta.
— Uma concentração massiva de energia sombria logo à frente — completou Kirana, apertando o cajado. — É a própria Kirai.
Eles avançaram pela estrada desolada. O ar era tão frio e parado que a respiração de todos formava nuvens de vapor.
Enquanto caminhavam, Lira olhava ao redor. Os troncos retorcidos, a terra cinzenta. Tudo estava morto e distorcido, mas ela se lembrava de como era antes.
Lira parou por um segundo, o coração apertando.
Uma grande árvore seca mais adiante outrora fora a árvore de folhas de prata. Aquele fosso seco e rachado era onde o lago de águas cristalinas ficava. Ela estava no Jardim da Criação.
Uma tristeza insuportável caiu sobre os ombros de Lira. Ela lembrou-se da Pequena Kira pintando as asas das borboletas. Olhar para aquele cemitério de maravilhas foi pior do que qualquer ataque físico. Lira abaixou a cabeça e continuou caminhando, chorando em silêncio. Katsu notou e colocou a mão no ombro dela, um gesto mudo de apoio.
Eles não precisaram andar muito mais.
No centro de uma cratera rasa, encontraram Kirai.
Ela estava suspensa no ar, flutuando a cerca de um metro do chão, completamente desacordada. Os braços pendiam ao lado do corpo e a cabeça estava caída para trás. No chão perto dela, estava o pingente de lira quebrado.
Uma névoa negra e densa envolvia o corpo de Kirai como um casulo, movendo-se e fluindo ao redor dela.
Takira parou, os olhos fixos na antiga parceira. A intuição de Artesã gritava em sua mente.
— Tem algo errado — murmurou Takira.
— É a Kirai. Claro que tem algo errado — disse Katsu, não querendo chegar mais perto.
Kira olhou para a Estrela dos Desejos em sua mão. O artefato brilhava com uma urgência silenciosa.
— Vamos corrigir o erro — disse Kira, a voz firme.
Ela deu um passo à frente, entrando na cratera. O frio intenso tentou empurrá-la para trás, mas ela ignorou, aproximando-se do casulo de névoa negra.
— Kira, cuidado! — alertou Kirana, sentindo a volatilidade da energia.
Kira parou a poucos passos de Kirai. Com as mãos trêmulas, ela ergueu a Estrela dos Desejos. A luz prateada da esfera iluminou o rosto pálido e inconsciente da vilã.
— Eu desejo... — Kira respirou fundo, escolhendo as palavras com precisão. — Desejo que Kirai seja liberta dessa escuridão.
A Estrela brilhou com a força de uma supernova.
Um feixe de luz pura e absoluta disparou da esfera, atingindo o peito de Kirai. O som que se seguiu foi como o de vidro grosso sendo estilhaçado sob o mar.
A névoa negra que envolvia Kirai estremeceu violentamente. Ela soltou um chiado de dor, como uma fera sendo arrancada de sua presa. A escuridão começou a girar, criando um vórtice furioso ao redor do corpo flutuante.
Takira arregalou os olhos, compreendendo subitamente o que estava acontecendo.
— Kira, saia de perto dela! — gritou Takira, o pânico puro rasgando sua compostura habitual.
O vórtice negro explodiu para fora. A força do deslocamento de ar jogou Kira para trás. Ela caiu ofegante.
No centro da cratera, o casulo havia sumido. Kirai caiu no chão, inerte, mas respirando.
A Estrela dos Desejos nas mãos de Kira apagou-se, transformando-se em uma esfera de pedra cinzenta e sem vida. O último desejo havia sido consumido.
Katsu correu até Kira, ajudando-a a se levantar. Ele olhou para o corpo desmaiado de Kirari. Ela parecia inofensiva. Apenas uma garota exausta.
— É isso? — perguntou Katsu, a respiração acelerada, os olhos buscando qualquer sinal de ameaça. — Acabou? Nós vencemos?
Takira, que estava alguns metros atrás deles, olhava para o céu.
— Não — disse a Artesã, a voz tremendo de horror. — Ainda não.
Todos se viraram e seguiram o olhar de Takira.
No alto, pairando sobre o grupo, a energia sombria que havia sido expulsa do corpo de Kirai não havia se dissipado. Em vez disso, ela se aglutinava, sugando a névoa das nuvens de tempestade para si mesma, crescendo em tamanho e densidade.
A escuridão tomou forma. Era uma silhueta feminina, imensa, colossal. Lembrava os contornos de Kirai, mas era desprovida de qualquer traço humano. Não havia rosto. Havia apenas uma escuridão ruidosa e dois olhos gigantescos, que ardiam em um vermelho profundo, como rubis em chamas.
Era a própria Corrupção. A essência concentrada de dor, poder, egoísmo e rancor que havia se alimentado da alma de Kirai por anos, agora livre e com vontade própria.
A entidade de sombras virou seus olhos de rubi para o grupo. Um som ensurdecedor emanou da criatura.
O verdadeiro monstro havia nascido. E, desta vez, não havia Estrela dos Desejos para salvá-los.