A Última Batalha
A entidade de sombras soltou um rugido que não emitiu som, mas enviou uma onda de choque que rachou a terra estéril do Mundo das Sombras.
— Posição defensiva! — gritou Takira, enquanto a única estátua de mármore restante se colocava à frente do grupo, erguendo seu escudo.
A criatura desceu dos céus como uma avalanche negra. Ela golpeou o escudo de mármore com um braço disforme de trevas. A estátua resistiu por um segundo antes de explodir em pó e cascalho.
— Kirana girou o cajado de madeira branca.
Ela canalizou a luz pura da esfera em seu cajado e disparou raios de energia dourada contra o monstro. Os feixes rasgaram a escuridão do corpo da entidade, fazendo-a recuar com um chiado estridente. Mas as feridas de sombra se fechavam instantaneamente.
— Ela é muito densa! — Kirana ofegou, o brilho de seu cajado diminuindo visivelmente. — Eu não consigo puxar mana do ambiente... a natureza aqui está morta. Minhas reservas estão acabando.
— Eu cubro você! — Lira deu um passo à frente, os olhos brilhando com determinação.
Ela pegou sua flauta, se concentrou, emitindo as primeiras notas, que saíram e formavam novos instrumentos, em poucos segundos, havia dezenas de instrumentos musicais translúcidos flutuando ao redor do grupo. Era uma orquestra fantasma.
Lira liderava a melodia, sendo acompanhada pelos instrumentos que tocavam sozinhos.
Uma sinfonia de luz e som formou um domo protetor brilhante ao redor deles. Notas musicais solidificadas como lâminas de luz disparavam do domo, bombardeando a criatura sombria e afastando-a como tiros de artilharia.
Katsu, mantendo-se perto de Kira, olhou admirado.
— Isso vai segurá-la? — perguntou ele.
— Por enquanto — respondeu Takira.
De repente, um gemido veio do chão.
Kirai abriu os olhos. Sem a aura negra, ela parecia frágil, mas a expressão em seu rosto não havia mudado. Ela se sentou, massageando a testa e olhando para o caos ao redor.
— Que barulheira é essa? — Ela olhou para o monstro de névoa escura e depois para Kira. — O que vocês, idiotas, estão fazendo no meu mundo?
— O que parece? — rebateu Kira, estendendo a mão para ajudá-la, mas Kirai recusou com um tapa. — Estamos salvando a sua vida.
Kirai se levantou sozinha, espanando as roupas. Ela olhou para a criatura de sombras, que agora batia no escudo musical de Lira com violência.
— Salvar a minha vida criando aquele monstro? Belos heróis vocês são. — Ela ergueu a mão direita. Uma energia surgiu ali, mas não era negra e corrosiva. Era um fogo violeta, frio e controlado. O ódio cego havia sumido, substituído por um poder cru e contido.
Kirai disparou uma rajada violeta através do escudo de Lira. O fogo atingiu o "rosto" da entidade, arrancando um pedaço de sua forma física.
— Isso não vai bastar — disse Kirai. Ela virou-se para Kira. Havia relutância em seus olhos, mas também uma aceitação sombria. — Nós nunca vamos matá-la enquanto você for fraca, Kira.
— Fraca? — Katsu deu um passo à frente, irritado. — Ela fez mais por nós do que você jamais...
Kirai o ignorou completamente. Ela se aproximou de Kira.
— Você precisa saber o porquê de tudo isso. Por que a existência dos mundos. E por que você é a "Kira Comum".
Kirai ergueu dois dedos brilhando com luz violeta em direção à testa de Kira.
— Não toque nela! — Katsu avançou, desconfiado, mas Takira segurou seu braço.
— Espere, Katsu — ordenou a Artesã, os olhos fixos em sua antiga parceira. — A intenção dela não é ferir.
Kira não recuou. Ela olhou nos olhos de Kirai e assentiu.
Kirai tocou a testa de Kira.
A Verdade Fragmentada
O tempo para Kira parou. O campo de batalha desapareceu.
A mente de Kira foi inundada por imagens em uma velocidade estonteante. Ela não estava vendo as memórias de Kirai. Ela estava vendo as suas próprias.
Ela flutuava em um vazio sem fim, um lugar antigo e solitário. Ela não era humana. Ela era uma Entidade Cósmica. Um mecanismo do universo cujo único propósito era manter o equilíbrio: semear a criação em galáxias mortas e ceifar mundos que ameaçavam o tecido da realidade.
Milênios se passaram em um piscar de olhos. Ela cumpria seu dever sem emoção, sem falhas.
Até que ela encontrou um pequeno planeta azul.
A Terra.
Admirada, ela passou a acompanhar a evolução, seus habitantes, suas breves vidas. Ela viu guerras, desastres, dor e sofrimento. Mas também viu paz, harmonia, vida e esperança.
Pelas regras cósmicas, aquele mundo e o universo onde se encontrava deveriam ser apagados. Ela deveria cumprir seu dever, materializou a Espada dos Mundos.
Mas ela parou.
Pela primeira vez em eras, a Entidade hesitou. Ela não conseguiu levantar a lâmina para destruir.
O conflito entre o seu "Dever Absoluto" e o seu novo "Desejo de Preservar" foi violento demais para sua mente divina. Sua consciência não suportou o paradoxo.
Ela estilhaçou.
A mente cósmica se partiu em pedaços, criando pequenos universos de si mesma, criando os corredores e os mundos. A Magia, a Arte, a Lógica, a Emoção, o Isolamento e até a Ambição. Cada mundo contendo um único ser, com parte de sua psique, misturado com conceitos que ela observou na Terra.
E, no centro de tudo, ancorando os pedaços para que o universo não colapsasse com a sua morte, ficou a "Kira Comum". Aquela que não tinha poderes porque havia doado todos eles para criar as outras.
A visão terminou abruptamente.
Kira abriu os olhos, ofegante. Os sons e estrondos dos ataques voltando aos seus ouvidos.
Kira olhou para suas mãos. Tudo se encaixando em sua mente.
— Você se lembra? — perguntou Kirai, os braços cruzados, observando-a atentamente.
Kira olhou para Katsu. Ele a olhava com preocupação. A humanidade, a Terra... ele era o motivo de ela existir em forma humana. Ele era o que ela havia escolhido salvar.
— Eu me lembro de tudo — disse Kira, a voz calma e profunda, ecoando não apenas do peito, mas do espaço ao redor.
CRACK!
A orquestra fantasma de Lira estilhaçou. A garota colorida caiu de joelhos, exausta. Kirana estava no chão, o cajado apagado. Takira e Katsu se prepararam para o impacto da besta sombria que avançava para o golpe final.
Kira deu um passo à frente, passando por eles.
Ela ergueu a mão direita.
O céu sem estrelas do Mundo das Sombras gritou.
Não houve hesitação desta vez. A Espada Cósmica rasgou o tecido da realidade e materializou-se em sua mão. Não era apenas uma lâmina com estrelas; o vácuo ao redor da arma distorcia o espaço, puxando a própria luz para si.
O monstro sombrio virou-se para ela. Ele urrou e atacou com toda a sua fúria, descendo dois braços massivos de escuridão para esmagar Kira.
Kira posicionou a lâmina para se defender.
O ataque sombrio colidiu com a Espada Cósmica. O impacto gerou uma onda de choque que varreu a planície. A espada absorveu a energia do impacto, mas a massa bruta da entidade era formidável.
Kira foi forçada a colocar um joelho no chão, os dentes cerrados, o chão rachando sob seus pés enquanto ela segurava o peso de todo o ódio reprimido de sua variante.
— Kira! — gritou Katsu, tentando correr para ajudá-la.
— Não! — Lira estendeu a mão, segurando-o. — Katsu, concentre-se no quanto você a ama e no quanto você quer ajuda-la.
Lira então ergueu sua flauta de prata aos lábios.
Lira estava exausta, mas ela soprou. Uma melodia que ressoava com o pensamento de Katsu, lembrava campos dourados, ventos quentes e coragem pura.
A música envolveu Kira. A exaustão física foi afastada. O calor da amizade de Lira e o amor de Katsu fundiram-se à vontade cósmica dela.
Kira abriu os olhos. Eles não eram mais azuis. Eles brilhavam como duas pequenas galáxias em espiral, repletas de estrelas e poeira cósmica.
Ela empurrou a lâmina para cima, rechaçando os braços do monstro. Kira se levantou em toda a sua altura.
— BASTA! — A voz de Kira soou dupla, humana e divina ao mesmo tempo.
Ela apontou a ponta da Espada Cósmica diretamente para a entidade de sombras.
O controle gravitacional da arma foi invertido. Em vez de emitir força, ela sugou. A lâmina tornou-se o epicentro de um buraco negro direcionado.
O monstro rugiu em pânico, tentando recuar, mas a gravidade era absoluta. A fumaça, a sombra, o ódio... tudo começou a ser sugado em espiral para dentro da lâmina negra. A entidade se contorceu, perdendo a forma, esticando-se como um fio de tinta escura entrando em um ralo, até desaparecer por completo dentro da espada.
Kira girou a espada uma última vez e a dissipou no ar.
O silêncio reinou no Mundo das Sombras. O ar, antes pesado, agora estava apenas frio. A tempestade nas nuvens acima deles parou.
A batalha havia terminado.