Um Acordo de Sombras e Luz
O silêncio do Mundo das Sombras era diferente agora. Não era o silêncio opressor do terror, mas a quietude de uma tempestade que finalmente havia passado.
Kira ofegava, abaixando a mão. A Espada Cósmica já havia se dissipado, mas seus olhos azuis ainda guardavam um brilho residual das estrelas. Katsu correu até ela, segurando-a pelos ombros para garantir que ela não caísse. Lira e Kirana se aproximaram logo depois, exaustas, mas aliviadas.
A poucos metros dali, Kirai se levantou.
Ela espanou a poeira de suas roupas escuras. O cabelo loiro dela caía desgrenhado sobre os ombros, e seus olhos não eram mais rubis em chamas, mas de um violeta profundo e frio. O ódio esmagador havia sumido de sua aura, mas a arrogância cínica continuava ali, intocada.
— Impressionante — disse Kirai, cruzando os braços e analisando Kira de cima a baixo. — Você finalmente parou de choramingar e assumiu o controle. Quase demorou demais.
Katsu franziu a testa, dando um passo à frente.
— Você não mudou nada, não é?
Kirai sorriu, um sorriso afiado. Ela ergueu a mão, e uma chama de magia violeta — uma mistura perfeita da escuridão residual com a luz da criação que havia sido restaurada pelo pingente de Lira — dançou entre seus dedos.
— Acharam que eu voltaria a ser aquela garotinha ingênua pintando borboletas? O que foi feito não pode ser desfeito. O ódio se foi. Mas o orgulho fica. — Ela apagou a chama. — A Estrela dos Desejos me revelou a verdade anos atrás. Mostrou-me o que nós éramos: partes quebradas de um deus covarde.
Kirai olhou para Katsu com um certo desdém.
— Foi por isso que comecei a puxar humanos da Terra. Eu queria entender a obsessão do nosso "eu" original por aquela poeira azul. Eu fiz experimentos com eles. Tentei usá-los como catalisadores para forçar nossa fusão e retornar à mente cósmica. Mas a magia sombria e a dor deles me cegaram. O feitiço saiu do controle, e eles viraram monstros. E eu... perdi o foco.
Kira apertou os punhos, sentindo o peso daquela confissão.
— Você transformou vidas inocentes em pesadelos.
— E eu vou consertar isso — cortou Kirai, o tom de voz inegociável.
Ela estalou os dedos. Uma onda de magia violeta varreu o chão estéril e expandiu-se pelo multiverso.
Kirana, que estava se apoiando em seu cajado, sorriu ao sentir a mudança.
— Eu sinto... — murmurou a Maga. — A fera que eu havia adormecido no corredor... a corrupção sumiu. A forma física está voltando ao normal. Eles estão voltando a ser humanos.
Takira caminhou até sua antiga parceira, parando ao lado de Kirai.
— E agora? — perguntou a Artesã.
Kirai olhou para Kira com seriedade absoluta.
— Agora, a escolha é sua, "Centro". Você tem as memórias. Você tem a Espada. Pode desfazer os corredores, fundir todas nós e voltar a ser a Entidade Cósmica. Pode apagar seus erros e voltar à perfeição do vazio.
Katsu olhou para Kira, o coração apertado. Se ela fizesse isso, o apartamento, Lira, Kirana... tudo deixaria de existir. A própria Kira que ele amava se tornaria algo incompreensível.
Kira olhou para Kirai. Depois para Takira, para Kirana, para Lira, que a olhava com olhos marejados, e finalmente para Katsu, cujo toque a mantinha ancorada na realidade.
— Não — disse Kira, a voz suave, mas firme como pedra.
Kirai ergueu uma sobrancelha.
— Não?
— A perfeição do vazio é uma mentira — disse Kira, sorrindo levemente. — A Terra me ensinou que a beleza está na imperfeição. Nas escolhas. Cada uma de vocês... os Mundos que vocês criaram, as vidas que construíram... são reais. São legítimos. Eu não tenho o direito de apagar isso. As Kiras continuarão a existir. O multiverso continuará aberto.
Kirai suspirou, um som exagerado de quem ouve uma grande tolice, mas havia um leve brilho de aprovação em seus olhos violetas.
— Romantismo barato. Mas a escolha é sua.
Takira colocou a mão no ombro de Kirai. A vilã não a afastou desta vez.
— Eu vou ficar por aqui um tempo — disse a Artesã para o grupo. — O Mundo das Sombras precisa de uma reforma. E acho que minha antiga parceira vai precisar de ajuda para aprender a ser "humana" de novo.
— Eu não preciso de ajuda — retrucou Kirai, virando o rosto, embora não se afastasse de Takira.
— Vai ser um processo longo — riu Takira, acenando para eles.
A Despedida e o Recomeço
Kira virou-se para Katsu, segurando as duas mãos dele.
— Você abriu mão do seu desejo por mim — disse ela, os olhos azuis brilhando. — Mas agora eu sei como os corredores funcionam. Eu sei como abrir as portas principais. Eu posso fazer isso por nós.
— Para a Terra? — perguntou ele, a esperança reacendendo em seu peito.
— Sim. Nós dois. Eu quero conhecer esse mundo pelo qual eu sacrifiquei o universo. Eu quero conhecer a sua casa.
Katsu sorriu abertamente, puxando-a pela cintura.
— E como fazemos isso?
Kira ergueu o braço. Uma porta se materializou na frente deles.
Ela abriu, e do outro lado havia a visão de um beco escuro e chuvoso, com as luzes de neon de uma cidade grande refletindo no asfalto molhado. O som abafado de buzinas e pneus cruzou a fronteira dimensional.
A Terra.
Lira correu até eles, jogando-se em um abraço esmagador que envolveu tanto Kira quanto Katsu.
— Vocês vão me visitar, não vão? — perguntou Lira, fungando. — Se vocês sumirem, eu juro que crio um elefante musical na cozinha de vocês!
Kira riu, abraçando a amiga com força.
— Nós prometemos, Lira. Os corredores sempre estarão abertos para nós.
Kirana se aproximou, oferecendo um sorriso sábio.
— Vão com cuidado. A Terra não tem magia, mas pelo que vejo, é um lugar que dá muito trabalho.
Katsu olhou para a porta. A chuva parecia fria, a cidade parecia assustadora depois de tanto tempo, mas, ao mesmo tempo, era o lugar onde ele pertencia.
Ele olhou para Kira. Ela não segurava uma espada e não parecia uma entidade cósmica. Ela parecia apenas a garota de moletom que abriu uma porta para salvá-lo no primeiro dia.
— Pronta? — perguntou ele, estendendo a mão.
Kira olhou para trás, para as amigas que se despediam, para os mundos que ela havia criado e salvo. E então, olhou para frente, para o mundo desconhecido e caótico que ela havia escolhido viver.
Ela segurou a mão de Katsu.
— Pronta.
Juntos, eles deram um passo à frente, atravessando a dimensão e deixando a magia para trás, caminhando sob a chuva da Terra, rumo ao recomeço.
***
Epílogo: O Eco nas Estrelas
Muito além dos pequenos mundos de Kira. Muito além da Terra e da Via Láctea. No vasto e antigo vazio entre os universos, onde o tempo e o espaço perdem o sentido, algo despertou.
Em um palácio erguido sobre os restos de um universo, uma figura abriu os olhos.
Ele não era humano, embora sua forma pudesse se assemelhar. Vestia trajes que pareciam tecidos com o próprio vácuo do espaço, adornados com poeira estelar. Seu rosto era de uma beleza fria, pálida e imutável.
Ele ergueu a mão, sentindo ondas gravitacionais que ecoavam entre realidades.
Ele fechou os olhos, saboreando a energia. Um sorriso lento e perigoso curvou seus lábios.
— Então os boatos eram falsos... — A voz dele ressoou, profunda o suficiente para fazer o tecido da realidade estremecer. — Ela não foi destruída. Apenas estava adormecida. E agora... despertou.
Das sombras do salão, uma criatura de múltiplos olhos se curvou em reverência.
— Meu Soberano, — sussurrou a criatura, com uma voz de mil ecos. — Encontramos a origem da assinatura cósmica. Vem de um universo periférico. Mais precisamente, de um pequeno planeta azul. O Setor onde ele fica já não deveria existir. Devo enviar os ceifadores para obliterar o local?
O Soberano abriu os olhos, que brilharam com o nascimento de estrelas.
— Não seja tolo. Obliterar um tesouro que acabou de ser encontrado depois de milênios? — disse ele, levantando-se de seu trono. Ele olhou na direção da Via Láctea, seu olhar atravessando bilhões de anos-luz em um instante. — Escondeu-se entre os mortais... Que peculiar.
Ele ajustou sua postura, exalando uma autoridade absoluta e uma possessividade milenar.
— Está na hora de fazer uma visita a esse planeta azul...
O sorriso dele se ampliou.
— ...e buscar a minha noiva.
--- Nota do Autor ---
Demorou, deu trabalho, e houve momentos em que eu mesmo não sabia se chegaria até aqui. Mas cheguei, e fico feliz em ter terminado o que comecei.
O primeiro arco terminou — mas Kira ainda tem muito a enfrentar. A continuação já existe e está em elaboração. O que vem a seguir vai revelar de onde ela realmente veio e por que o universo não está disposto a deixá-la viver em paz com o marido e um apartamento bagunçado.
Quando o segundo livro estiver no ar, o link estará aqui.