KNIGHTS OF THE LORD 1 CAPITULO 1 VOLUME:O LIXO DE MUNDO A imensidão cinzenta do mundo de Herran maailma guardava lugares onde o lixo da nobreza ia para morrer. Um desses lugares era Roskisaari. Vista de cima, a ilha-lixão tinha o formato grotesco e deprimente de um peixe morto, com montanhas de sucata imitando escamas apodrecidas e fumaça tóxica saindo de suas entranhas.
No meio daquele ferro-velho flutuante, um par de olhos azul-vivos brilhava com pura empolgação infantil.
— Onde está... onde está... Cadê você, pedacinho de vidro mágico?! — cantarolava Shigjetë Amari Dej le Devleski.
Ela tinha cabelos marrons bagunçados cheio de nós, vestia apenas um trapo velho e rasgado amarrado ao corpo e, quando sorria, revelava uma fileira de dentes afiados e serrilhados, que pareciam os de um tubarãozinho hiperativo. Ela chutava latas, revirava montanhas de entulho com as mãos sujas de graxa, agindo com a energia de uma criança que acabou de encontrar um parque de diversões.
De repente, seus olhos focaram em algo brilhante sob uma chapa de aço. Ela puxou com força, revelando um pedaço perfeitamente redondo de vidro espesso.
— ACHEI! Hahaha! Chupa, montanha de lixo! — Shigjetë deu um salto, rindo alto e mostrando os dentes pontiagudos. — Agora sim o meu super ultra raio laser vai funcionar! Nenhum nobre safado vai passar perto de Roskisaari hoje!
Ela se sentou no chão de terra e puxou sua invenção do colo. O "raio laser" era uma bizarrice mecânica: vários pedaços de ferro fundido moldados no formato exato de um pacote quadrado de bolacha doce, do tamanho exato do seu antebraço. Na parte de trás, havia uma pequena lupa apontada para baixo. Logo abaixo dessa lupa, um pequeno alçapão de metal deixava uma fresta aberta, revelando uma rampa lisa e polida que brilhava ao refletir a luz solar.
— Só falta o toque final do gênio... — ela murmurou, concentrada, segurando o vidro redondo com a ponta dos dedos.
Com cuidado, ela encaixou o vidro um pouco à frente da entrada de luz. A física improvisada funcionou: a luz do sol bateu no vidro, ricocheteou na rampa lisa e subiu com o triplo de intensidade direto para a lupa superior. O metal do pacote de bolacha começou a vibrar, emitindo um zumbido agudo.
— Prontinho! Contemplem a arma de destruição em massa da Shigjetë! — ela comemorou, fazendo uma pose de heroína com o braço esticado.
Foi nesse momento que ela olhou para o horizonte de Herran maailma e viu a silhueta de um navio imponente cortando as águas escuras, aproximando-se da ilha.
— Olha só... — um sorriso travesso e infantil se abriu em seu rosto. — É só mirar... e confiar! Vai acertar um nobre bem no meio daquela cara engomada!
Shigjetë ergueu o braço. Com o polegar, ela puxou e colocou rapidamente a lupa para o lado onde o feixe de luz ia passar. O gatilho improvisado foi acionado. A habilidade natural de Shigjetë agiu sobre a arma: ela aumentou massivamente o tamanho do calor concentrado naquele ponto.
VUUUUUUUUUM!
Um feixe de luz branca e violenta rasgou o ar. O tiro foi tão devastador que acertou o navio em cheio, gerando uma explosão de vapor e partindo a embarcação de madeira exatamente ao meio.
— TOMAAAA! — Shigjetë pulou de alegria, mas o grito de vitória virou um gemido de dor. — Ai, ai, ai! Quente, quente, quente!
Ela largou a arma no chão. O vidro da lupa e a estrutura de ferro da bolacha simplesmente derreteram, virando uma poça de metal líquido fumegante. Shigjetë olhou para as próprias mãos e piscou, surpresa. A pele de suas palmas havia sumido, queimada viva pelo calor absurdo que o laser irradiou de volta. Mas, sendo a criança cabeça-dura que era, ela apenas deu de ombros e sorriu com os dentes serrilhados.
— Bem feito para eles! Pelo menos eu afundei o navio de um nobre otário! Valeu a pena!
Contemplando o estrago, Shigjetë percebeu algo estranho. No meio dos destroços que afundavam, um pequeno barco salva-vidas avançava em alta velocidade. Nele, estava apenas uma mulher. Ela tinha longos cabelos azul-claro, duas íris completamente vermelhas e usava um vestido branco imaculado, sem nenhuma joia.
— Ih... cadê meu laser agora que eu preciso terminar o serviço? — Shigjetë bateu na própria cabeça, olhando para o metal derretido no chão.
O barquinho da mulher de cabelos azuis vinha rápido, apontando exatamente para a praia onde Shigjetë estava. Sentindo o perigo pela primeira vez, a garota deu meia-volta e saiu correndo a toda velocidade pelas ruelas de lixo.
Ela correu até uma pequena cabana feita de placas de metal empilhadas. Entrou chutando a porta, esbaforida.
— MÃE! MÃE! DEU RUIM!
Lá dentro, o ambiente era surpreendentemente aconchegante. Sentada em uma cadeira de balanço improvisada, estava Nënë e Mirë, a mãe de Shigjetë. Ela era uma mulher de 1,60m de altura, com cabelos amarelos brilhantes e duas íris de um laranja caloroso. Ela costurava calmamente um par de luvas de couro.
Nënë olhou para a filha com um olhar doce, sem se abalar pelo escândalo.
— O que foi, minha querida? Por que tanta pressa? — a voz dela era pura calma.
Shigjetë correu e pulou direto no colo da mãe, tremendo um pouco, segurando as mãos sem pele contra o peito.
— Eu... eu achei que era o navio de um nobre! Eu montei o laser de bolacha, mudei o tamanho do calor e afundei o navio deles! Mas uma nobre de cabelo azul sobreviveu! Ela tá vindo atrás de mim querendo vingança, mãe! Ela vai me pegar!
Nënë e Mirë sorriu, passando a mão suavemente pelos cabelos marrons de Shigjetë, transmitindo uma paz profunda.
— Está tudo bem, minha pequena. Fique calma. Nenhuma nobre vai fazer nada com você enquanto eu estiver aqui. Nós estamos seguras...
BANG!
O som do disparo ecoou dentro da cabana, abafando as palavras de conforto.
Shigjetë arregalou os olhos azuis. O sorriso doce no rosto de sua mãe congelou. O sangue começou a brotar rapidamente, manchando o vestido de Nënë bem na altura do peito. Um projétil de pistola havia perfurado o pulmão dela de lado a lado.
— Mãe...? — a voz de Shigjetë sumiu.
Os olhos laranja de Nënë e Mirë perderam o foco. Seus músculos relaxaram e ela ficou completamente inconsciente, escorregando do colo da filha e caindo pesadamente no chão de madeira da cabana.
Lágrimas pesadas começaram a escorrer dos olhos de Shigjetë, misturando-se com a graxa de seu rosto. Mas a tristeza durou apenas um segundo. Uma fúria cega, violenta e animalesca tomou conta do seu corpo.
— NÃO! NÃO! NÃO! — Shigjetë gritava, dando socos brutais no chão, quebrando as tábuas de madeira com a força da sua raiva.
Ela ergueu os olhos em direção à porta aberta. Parada ali, segurando uma pistola de cano longo ainda fumegante, estava a nobre de cabelos azuis e olhos vermelhos. Ela limpava uma gota de poeira do seu vestido branco com a maior indiferença do mundo.
— POR QUE VOCÊ FEZ ISSO?! — Shigjetë rugiu, mostrando todos os dentes de tubarão, parecendo uma fera encurralada. — A CULPA FOI MINHA! POR QUE COMPROU BRIGA COM A MINHA MÃE?!
A nobre guardou a pistola na cintura e olhou para Shigjetë com tédio.
— Por que eu fiz isso? Bem, você estava correndo rápido demais. Como eu não podia matar você, resolvi atirar na sua mãe para fazer você parar de correr. Funcionou, não funcionou?
— Sua maldita... — os punhos de Shigjetë tremiam. — Eu vou fazer você ter o mesmo destino daqueles nobres que eu joguei no fundo do mar! Eu vou te esmagar!
A mulher de cabelos azuis soltou uma risada fria, genuinamente divertida.
— Nobres? Que nobres, sua criaturinha insolente? Eu vim para esta ilha completamente sozinha. Aquele navio que você destruiu... era apenas um bando de contrabandistas e pessoas com más intenções que vinham roubar escravos no lixo. Você não matou nenhum nobre. Só matou criminosos comuns.
Shigjetë travou, piscando as lágrimas, sem saber como reagir.
— Além disso — continuou a nobre, dando um passo à frente —, deixe-me te explicar como o mundo funciona. Se você ousar me tocar, ou se um dia matar qualquer nobre de verdade, você passará o resto da sua vida sendo caçada, torturada e executada pelos Cavaleiros do Senhor. Você não tem escapatória.
Shigjetë voltou a olhar para o chão, os dentes cravados no próprio lábio inferior de tanta raiva, os punhos sangrando. Ela queria matá-la, mas o corpo de sua mãe estava esfriando bem ali ao seu lado.
A nobre deu um sorriso de canto, sabendo que tinha o controle total da situação.
— Mas... eu gostei do que você fez com aquele laser. Você tem potencial, garota. Por isso, vim aqui te fazer uma oferta exclusiva. Você vai se tornar uma Cavaleira do Senhor. Vai trabalhar para nós, limpando os nossos problemas.
— E por que eu aceitaria servir monstros como vocês?! — Shigjetë cuspiu as palavras.
— Porque, em troca do seu serviço — a nobre se inclinou, os olhos vermelhos brilhando com malícia —, eu darei um jeito de salvar a sua mãe. Eu vou conceder a ela a Bênção da Imortalidade. O corpo dela nunca mais vai morrer por causa desse ferimento. O que me diz, Shigjetë? Você prefere ver ela apodrecer na terra agora, ou quer dar a ela a vida eterna?
O silêncio engoliu a cabana. Shigjetë olhou para o rosto pálido de Nënë e Mirë. Ela engoliu o próprio orgulho, a raiva e a infância naquele momento.
— ...Eu aceito — a garota sussurrou, a voz fria como o metal de Roskisaari.
— Ótimo — a nobre virou as costas, caminhando de volta para a praia. — Pegue o corpo e leve até o meu navio. Temos um longo caminho até a capital.
Shigjetë não disse mais nenhuma palavra. Ela se abaixou, pegou o corpo mole e inconsciente de sua mãe, jogou-o por cima do ombro com facilidade e saiu da cabana andando a passos firmes, deixando para trás o lixo de Roskisaari para entrar no verdadeiro inferno de Herran maailma.
FIM DO 1 CAPITULO DO 1 VOLUME