A voz rouca de Vargos ressoa na mente de Kain, carregada de uma indiferença absoluta:
— Kain, como está a meta que solicitei? Aquelas aberrações que você entregou não duraram nada nos meus projetos. Foram destruídas antes mesmo de serem úteis.
Kain, com a expressão sombria, tenta projetar uma calma que não sente enquanto respira fundo.
— Mestre Vargos, eu... — Antes que possa formular a frase, uma dor lancinante golpeia sua mente, travando as palavras na garganta.
Vargos continua, sem alterar o tom:
— Kain, não quero justificativas. Quero resultados. Eu fecho os olhos para os seus pequenos truques apenas porque você é útil... mais útil do que os mortais que rastejam lá embaixo.
A dor intensifica-se, transformando-se em marretadas rítmicas contra o seu córtex. A visão de Kain turva e seus joelhos ameaçam ceder. Golias, percebendo o colapso iminente do mestre, move-se com uma agilidade silenciosa e o segura pelos braços, servindo como uma pilastra de carne e osso para mantê-lo de pé.
— Kain, quero as bestas que pedi. Antes eram trinta; agora quero sessenta. Todas com alta resistência a ácido.
Vargos faz uma pausa calculada.
— Se falhar... bem, eu ando precisando de uma cobaia de nível Pseudo-Mago para experimentar algumas novas variações de ácidos corrosivos.
Um frio gélido percorre a espinha de Kain. Ele sabe que Vargos não está blefando. Conhece bem demais o velho paranoico. Com um esforço hercúleo para não gritar de dor, ele responde com a voz embargada:
— Sim... Lorde Vargos.
...
No último andar da torre — um lugar onde nenhum aprendiz ousa colocar os pés, nem mesmo os mais influentes —, a atmosfera é radicalmente diferente.
Ao contrário dos andares inferiores, a sala é aberta e banhada por uma claridade fria, proveniente de cristais incrustados no teto que brilham suavemente.
O ambiente é de uma limpeza cirúrgica. Nas laterais, prateleiras organizadas abrigam frascos com líquidos de todos os tipos: verdes, azuis, pretos e até substâncias que parecem dotadas de vida própria, debatendo-se contra as paredes de vidro em um esforço mudo para escapar. A mobília é simples, mas o que realmente domina o espaço são as esferas de cristal flutuantes, cada uma projetando cenas externas e internas da torre em tempo real.
O velho caminha entre os frascos, observando cada um com uma mão apoiada na têmpora. Seus cabelos grisalhos são longos, alcançando a cintura, e contrastam com o rosto profundamente enrugado e as roupas impecavelmente limpas e claras.
— Kain... não aceito mais falhas — finaliza ele, a voz rouca causando um desconforto absoluto no ar.
Ao retirar a mão da têmpora e quebrar a conexão mental, ele solta uma risada curta e seca. Começa a cantarolar uma melodia que ecoa com seu tom rouco pelas paredes de pedra, enquanto se senta e observa as esferas.
Não vendo nada digno de atenção, para e esfrega o queixo grisalho onde poucos fios teimam em crescer.
— Aquele rapazinho esperto... — murmura ele, com diversão sádica. — Estou ansioso para ver como ele irá agir. Quem diria que um simples mortal teria a audácia de planejar contra um Mago?
O riso é interrompido por uma tosse violenta. Sangue rubro mancha sua mão.
— Droga... o tempo está curto. Preciso resolver esse problema e lidar com aquele homem com cara de morcego logo — diz, destilando desprezo venenoso ao final da frase.
...
Vargos limpa a mão em um lenço e o descarta. Com o canto do olho, repara em uma pequena garrafa desalinhada na prateleira; levanta-se apenas para arrumá-la milimetricamente, deixando tudo em ordem perfeita.
O tempo passa. Três dias se vão.
A atmosfera da torre sofreu uma mudança sutil. Os aprendizes mais fracos não percebem o perigo; os mais fortes fingem não entender, e os influentes tentam descobrir como se proteger.
As missões no salão de tarefas aumentaram drasticamente, focadas em recursos relacionados a ácido e criaturas resistentes. Estranhamente, as ordens vêm de todos os Cinco Pilares.
O fluxo de recursos é incessante; o quinto andar torna-se um formigueiro: a Sala de Criação de Bestas, o Jardim de Ervas, a Forja, a Área Mecânica e a Área das Runas operam no limite. Aprendizes sobem e descem o dia todo, entregando materiais, todos com cabeças baixas e passos apressados.
A sala de criação de bestas também mudou. A porta, antes sempre trancada, agora permanece aberta. Dois grandes ogros vestidos em armaduras completas guardam a entrada; eles recebem os recursos e os levam para dentro, sem sequer dirigir o olhar aos aprendizes.
Dentro da sala, Kain debruça-se sobre a mesa, escrevendo anotações em um novo livro. Ocasionalmente levanta a cabeça, revelando olheiras profundas no rosto exausto. Seu olhar percorre a sala e para na gigantesca quantidade de bestas nos recintos, que se encolhem com medo dele — desde Ursos Rochosos ao próprio Sapo Verrugoso, agora acompanhado de uma parceira menor.
Golias permanece parado no seu lugar de vigília.
Kain desvia os olhos para o canto da sala, onde uma pilha de cadáveres de experimentos falhos se acumula. O cheiro de podridão contamina o ar; nuvens de moscas zumbem e pousam sobre a carne morta.
Dois goblins cavernosos, vestindo trapos, arrastam os corpos mecanicamente para fora da sala e retornam para repetir o processo, trabalhando em silêncio absoluto. Sob a pele fina de seus abdômens inchados, é possível ver estranhas "veias" pulsando ritmicamente.
Após uma breve inspeção silenciosa, Kain volta a anotar, mergulhando novamente em seus cálculos e experimentos, até que escuta passos. Uma voz, cheia de ironia e desprezo, ecoa pelo ambiente:
— Olha só... nosso gênio da Biomancia está com insônia?
Kain levanta o rosto e responde friamente:
— Lerona.
À sua frente está uma jovem de idade próxima à dele. Seus traços guardam uma semelhança inegável com os de Kain, espelhando sua linhagem, e seus cabelos longos e escuros balançam ao ritmo de seus passos. Ela se porta como se o odor pútrido da sala ou a pressão assassina de Golias não existissem.
— Sua irmã não é bem-vinda em sua sala, Senhor Gênio? — Lerona destila sarcasmo, o desprezo estampado em seu rosto.
Kain observa sem emoção, focando seu olhar apenas no broche no uniforme dela: uma série de engrenagens.
— Traidores não. Golias, remova-a da sala. — Kain cospe no chão ao lado ao falar e acena com a mão, dispensando-a.
— Mesmo se essa traidora tivesse boas intenções? — A voz feminina e brincalhona chega aos ouvidos de Kain.
Com desprezo, ele apenas acena novamente com a mão, voltando a focar nas anotações e ignorando a presença dela.