A mesa, antes no canto, agora ocupa o centro da sala, oferecendo uma visão clara de todo o perímetro. As prateleiras ao fundo estão quase vazias, restando apenas alguns frascos com resíduos turvos.
As criaturas, antes lotando os recintos, foram reduzidas em número, mas aprimoradas em letalidade. Permanecem quietas, obedientes, com olhares vazios e vidrados. Onde antes se empilhavam cadáveres apodrecidos, agora apenas manchas escuras de sangue seco no chão denunciam o que já estivera ali.
Os goblins foram realocados para o recinto original das larvas. Magros, com ossos visíveis sob a pele cinzenta que parece casca de árvore antiga, suas barrigas estão grotescamente inchadas, revelando movimentos estranhos e ondulantes sob a pele esticada.
Kain percorre a sala com o olhar, detendo-se nos detalhes mórbidos de sua obra: costuras expostas e peles com manchas verdes pulsantes. Ursos de Pedra de dois metros, sem cicatrizes aparentes, mas com fissuras que brilham em verde-ácido nas costas rochosas; Lobos Negros com inúmeras suturas emanando uma luz doentia; macacos esquálidos, sem pelos, com tumores instáveis de mana crescendo nos ombros.
— Acho que o velho não terá do que reclamar destes… — murmura, satisfeito com a eficiência, mas pensativo. — Mas que utilidade um Mago formal encontra em criaturas mortais modificadas para o suicídio?
Ele coça o queixo, sentindo a barba por fazer arranhar a pele, quando passos hesitantes soam na entrada. Um homem magro, frágil como se um vento pudesse quebrá-lo, adentra a sala. Seus passos vacilam; o olhar percorre o ambiente com terror, evitando cruzar com o de Kain.
— Frida, onde isso se encaixa no que eu pedi? — a voz fria de Kain ecoa pelo espaço, atingindo o homem como um chicote.
— Mestre, ele resistiu — responde a voz grossa de Frida, vinda da porta.
O homem treme, suor frio escorrendo pelas têmporas.
— Ka… não, Lorde Kain… eu sou John. Lembra de mim? Viemos no mesmo navio para este lugar.
Kain para de esfregar o queixo, os olhos estreitos analisando o homem trêmulo à sua frente. Algo não se encaixa: a calma e a força estoica que John possuía no passado contrastam violentamente com aquela fragilidade atual.
As memórias emergem.
...
Ondas batiam contra o casco de madeira do navio, fazendo o porão tremer. A luz oscilante de um inseto preso ao teto lançava sombras dançantes e macabras. Nas gaiolas, figuras encolhidas mostravam medo puro nos olhos.
Em uma cela, um jovem de cabelos pretos abraçava uma menina pequena, com traços que lembravam os seus.
"Três dias desde que cheguei aqui… Achei que era um mundo normal, que havia um irmão mais velho, uma irmã mais nova, uma casa estável… estava enganado."
Seus pensamentos retornaram à cena: a menina trêmula em seus braços, e no canto, um homem de costas com semelhanças com eles.
— Gael, irmão, para onde esses homens estão nos levando? — a voz infantil não escondia o pavor.
— Kain… não sei, mas vai dar tudo certo. Vou proteger vocês. — O homem falou com calma forçada, tentando mascarar o próprio medo.
Kain assentiu, mas por dentro sentiu a preocupação crescer: percebia o terror contido na voz de Gael. Seu olhar percorreu a cela e encontrou outro jovem da idade de Gael, parado, encostado na madeira, estranhamente calmo.
— John, alguma ideia? — ouviu Gael perguntar.
— Não acho que seremos vendidos, Gael. Usaram aquela esfera estranha que brilha ao toque e mataram os que não reagiram. Meu pai foi um deles — John respondeu, a calma dando lugar a uma raiva fria e contida. — Achei que a pequena Lerona não seria encontrada onde a escondemos.
O olhar de John cruzou com o de Kain. A menina ainda tremia nos braços do irmão.
— Somos mercadoria rara, Gael. Não escravos de trabalho braçal. — John suspirou, encostando a cabeça na madeira úmida do navio com uma resignação que parecia muito além de sua idade.
Kain observou, percebendo que ambos os mais velhos evitavam demonstrar medo para proteger ele e Lerona. Acariciou a cabeça da menina com suavidade:
— Está tudo bem. Vamos apenas viajar.
Seus olhos se voltaram para a pequena fresta que mostrava o mar infinito, o peso de um futuro incerto esmagando seu peito.
...
De volta à realidade fria da sala, Kain fixa o olhar em John. O contraste é gritante.
— John… lembro que você foi separado de nós. O que aconteceu? Achei que já tivesse ido parar em alguma poça de ácido…
John, ainda trêmulo, fala com a voz amarga:
— Tive problemas com o supervisor dos aprendizes do meu grupo... o destino não foi gentil. — Ele levanta o rosto levemente, os olhos úmidos. — Achei que você tinha morrido, junto com seu irmão. Durante esses anos, cheguei a ver a pequena Lerona na torre algumas vezes... ela me olhou com nojo, como se nem me reconhecesse.
Kain volta a coçar o queixo, a expressão impenetrável.
— Passado é passado, John. Você precisa demonstrar que é útil agora.
— Kain, eu conheço as áreas do pântano. Sei onde encontrar as bestas que ninguém mais quer procurar — a voz de John soa um pouco mais firme, testando o terreno.
— Conhecimento? Tome, veja se reconhece alguma destas. — Kain pega um livro diferente dos demais, menos gasto, e o estende.
John tenta pegá-lo e quase o derruba, as mãos tremendo exageradamente. Ele folheia as páginas, os olhos correndo pelas ilustrações.
— Aí estão algumas bestas que eu preciso, mas aprendizes normais não conseguem capturar. — Kain cruza os braços.
John para em uma página. Ele olha brevemente para os goblins inchados no recinto e depois volta para Kain. Sua postura muda. O tremor nas mãos cessa por um segundo, e o olhar de "aprendiz assustado" desaparece, substituído por um brilho de inteligência afiada.
— Você quer Larvas Parasitas. Aqueles dois ali estão incubando duas, correto?
Kain inclina a cabeça, curioso.
— Poucos sabem — continua John, a voz agora controlada, baixa e confiante. — Talvez você não conheça o hábito social delas, mas essas larvas vivem em colônias antes de virarem Borboletas da Morte. A primeira a sair do casulo devora as outras para ganhar força. O que quero dizer é que, como seres em comunidade, elas sabem localizar umas às outras. A que está dentro do goblin vai nos levar ao ninho.
— Posso te emprestar um dos hospedeiros. Consegui criar uma forma rudimentar de controle neles, mas são cruciais para algumas ideias, então não quero dano algum à larva interna.
John endireita as costas, um sorriso quase imperceptível surgindo.
— Não se preocupe. Trarei o ninho inteiro para você.
Kain assente, satisfeito.
— Frida irá com você, por segurança e para garantir que você não cometa erros.
Ele lança um pequeno saco de couro para John.
John o pega no ar — com reflexos rápidos demais para um "fraco" — e vê pequenas estacas metálicas dentro.
— Estacas de supressão. Coloque-as nas criaturas. Irá imobilizar qualquer uma abaixo do nível básico. — Kain acena com a mão, impaciente. — Vá. Preciso verificar os outros. Não se esqueça de estar aqui amanhã cedo.
John guarda o saco, retoma sua postura curvada e sai rapidamente, mas seus passos agora têm um propósito.
Poucos minutos depois, outra figura entra.
Uma menina jovem, de cabelos dourados caindo até a cintura. Seus passos são lentos, quase flutuando. Ela mantém a cabeça baixa, mas Kain, com seu olhar treinado, percebe os olhares furtivos e analíticos que ela lança para as aberrações nos recintos. Não há medo nela, apenas curiosidade.
— John era um aprendiz intermediário quebrado; agora uma iniciante? Frida, você está me enganando ou eu peguei leve demais com o teste de pressão? — Kain fala alto, a voz ecoando.
A garota dá um pequeno pulo, surpresa.
— Não, mestre. Frida é leal. Golias é testemunha de Frida. — A resposta firme vem da porta.