MARCA DA ALMA — Capítulo 1 — O Santo da Espada O céu sobre Rothen ainda estava cinzento quando Eiden acordou. Não havia sino de igreja, nem galo cantando — apenas o som da lenha estalando no fogão da cozinha, onde sua mãe já se movia em silêncio, como fazia todas as manhãs antes que o sol decidisse aparecer.
Rothen era um vilarejo pequeno, encravado entre colinas de trigo e uma floresta que ninguém atravessava sozinho depois do anoitecer. Ficava nas terras baixas do Reino Humano, longe o suficiente das grandes cidades para que ninguém ali tivesse visto de perto um membro de uma Grande Casa, e perto o suficiente da fronteira selvagem para que todos soubessem, no fundo, que a segurança era um favor emprestado.
Eiden tinha oito anos e mãos calejadas demais para a idade.
Ajudava o pai na forja pequena que a família mantinha — não uma forja de verdade, como as da Guilda, mas o suficiente para consertar foices, pregos e dobradiças de porta. Não havia glória nisso. Havia fuligem, calor e o som repetitivo do martelo, e era exatamente por isso que Eiden gostava de escapar sempre que podia até a colina do vigia, de onde se via a estrada principal e, em dias claros, os contrafortes distantes onde diziam que viviam os verdadeiros guerreiros de Asterra.
Foi lá, naquela colina, que tudo mudou.
• • • O grito começou longe, quase abafado pelo vento, mas se espalhou pelo vilarejo como fogo em palha seca. Eiden correu para a beira da colina bem a tempo de ver a fera irromper da linha de árvores — um Coruja-de-Ferro, diziam depois os mais velhos, embora ninguém tivesse certeza, porque poucos sobreviviam perto o bastante para descrever direito. Tinha o tamanho de uma carroça, penas escuras como metal oxidado, e garras que arrancavam pedaços de terra a cada passo pesado.
As pessoas gritavam. Alguém tocou o sino de emergência da capela, um som quebrado e desesperado que Eiden nunca tinha ouvido de verdade, só em histórias. Ele deveria ter corrido. Todo instinto dizia para correr. Mas seus pés grudaram na terra da colina, porque foi então que o viu.
Um homem, sozinho, caminhando na direção da fera como quem caminha até a própria casa.
Não usava armadura pesada, nem estandarte, nem nada que Eiden reconhecesse das histórias que os viajantes contavam nas noites de taverna. Apenas uma capa surrada pelo caminho e uma espada na cintura, comprida e simples, sem enfeites. Alguém no vilarejo sussurrou o nome como se fosse perigoso dizer alto demais: o Santo da Espada.
Eiden não sabia, então, o que aquele título significava de verdade — que era um dos poucos guerreiros de Asterra cuja Marca havia sido reconhecida pelo próprio Conselho das Cinco Coroas, um homem que tinha sobrevivido a batalhas que derrubariam exércitos inteiros. Ele só sabia o que via: um homem contra um monstro do tamanho de uma casa, e nenhum medo em seus passos.
A fera atacou primeiro. Suas garras cortaram o ar com um som que Eiden sentiu no peito antes mesmo de ouvir.
O Santo da Espada não recuou. Ele desapareceu.
Não literalmente — Eiden entenderia depois que fora apenas velocidade, uma velocidade que os olhos comuns não conseguiam acompanhar — mas naquele instante, para um menino de oito anos parado numa colina, pareceu que o homem tinha simplesmente deixado de existir num lugar e passado a existir em outro, exatamente atrás do pescoço da criatura.
Um único golpe.
A espada cortou o ar com um som limpo, quase silencioso, e a fera parou no meio do próprio rugido. Por um segundo comprido, nada aconteceu — nem o vento se movia. Depois o corpo enorme desabou, levantando uma nuvem de poeira que chegou até a colina onde Eiden estava, fazendo-o fechar os olhos.
Quando os abriu, o Santo da Espada já estava limpando a lâmina com um pano, como se tivesse acabado de cortar lenha, não de matar um monstro capaz de destruir metade do vilarejo.
• • • Ninguém se aproximou dele. Ninguém ousou. Ele guardou a espada, olhou uma última vez para o céu — como se procurasse algo que não estava ali — e seguiu adiante pela estrada, sem dizer palavra, sem esperar agradecimentos.
Eiden ficou ali muito depois de todos terem descido correndo para cuidar dos feridos, para gritar de alívio, para chorar. Ficou olhando o ponto onde o homem tinha desaparecido na curva da estrada, sentindo algo dentro do peito que não sabia nomear — não era só medo, nem só admiração. Era a sensação exata de ver a distância entre o que ele era e o que era possível ser.
Aquela noite, sentado perto do fogo enquanto sua mãe costurava e seu pai afiava ferramentas em silêncio, Eiden repetiu para si mesmo, baixinho, quase como um segredo que não queria contar a ninguém — nem a si mesmo, ainda:
— Um dia, eu também quero chegar lá.
Não sabia, naquele momento, o que aquilo custaria. Não sabia sobre Marcas, sobre Casas, sobre a Queda dos Céus ou sobre a guerra que moldara o mundo em que vivia. Sabia apenas de uma coisa, com uma certeza que só existe na infância, antes que o mundo ensine a duvidar: que aquele instante na colina — o brilho da lâmina, o silêncio depois do golpe — era o começo de algo que ele ainda não tinha nome para chamar.