MARCA DA ALMA
— Capítulo 2 —
Eiji
A propriedade da Casa Mio não tinha portões — tinha água.
Um sistema de canais antigos cercava toda a mansão principal,
alimentado por uma nascente que, segundo os anciãos da Casa,
jorrava havia mais tempo do que qualquer registro escrito em
Asterra. Dizia-se que aquela água nunca congelava, mesmo nos
invernos mais cruéis do território, e que ainda carregava, em
algum lugar fundo demais para ser medido, um resquício do
poder que moldara a própria Casa, séculos atrás.
Eiji Mio cresceu ouvindo o som daquela água como outras
crianças ouviam vozes de família — constante, presente, quase
parte de si mesmo. Era o segundo filho, e na Casa Mio isso vinha
acompanhado de um peso silencioso que ele sentia desde muito
antes de conseguir entendê-lo por completo: a sensação de que
sua posição dentro da família nunca fora tão garantida quanto a
de um primogênito.
Sua mãe, Serel, era quem tornava aquele peso suportável.
Não tinha nascido na Casa Mio — viera de uma família menor,
ligada por casamento — e talvez fosse exatamente por isso que
nunca parecera completamente confortável com as tradições
rígidas e frias que cercavam a propriedade. Era ela quem levava
Eiji para passear pelos jardins externos, longe dos corredores de
pedra escura, contando histórias inventadas sobre criaturas que
viviam nos canais.
— Não importa o que aconteça — dizia ela, sempre que
percebia o filho preocupado com o próprio lugar dentro da Casa
— você é meu filho antes de ser filho desta Casa. Nunca esqueça
disso.
Eiji nunca entendeu completamente o peso daquelas
palavras. Entenderia, de um jeito que gostaria de nunca ter
entendido, na noite anterior ao seu décimo aniversário.
• • •
À medida que a data se aproximava, algo mudou na
propriedade — sutil no começo, quase imperceptível, mas
crescente. Os empregados sussurravam mais baixo quando ele
passava perto. O Ancião Doryen, o mais velho entre os anciãos
vivos da Casa, guardião de tradições que ninguém mais ousava
questionar, passou a observá-lo com um olhar avaliador que
fazia a pele de Eiji se arrepiar sem que ele soubesse exatamente
o porquê.
— Toda criança desta Casa passa por avaliação antes do
despertar — foi tudo que Serel disse, uma noite, quando ele
perguntou. — É assim que sempre foi.
Ela não explicou mais do que isso. E foi só na véspera do
próprio aniversário que Eiji entendeu o motivo do silêncio.
• • •
O Ancião Doryen o acordou no meio da noite. — Vista-se.
Sua mãe já está esperando no pátio dos fundos. É hora da
avaliação.
O pátio ficava isolado do resto da propriedade, cercado por
canais estreitos, acessível apenas por uma ponte de pedra. Serel
já estava lá, e assim que viu Eiji, puxou-o para um abraço
apertado.
— É costume — explicou Doryen, a voz calma, repetindo
palavras que claramente já tinha dito dezenas de vezes ao longo
de décadas — que, na véspera do despertar, a Casa avalie a força
da alma da criança. Porque uma Marca poderosa habitando uma
alma fraca é um desperdício de recursos que esta Casa não pode
sustentar.
— Doryen — disse Serel, um passo à frente, colocando-se
entre o ancião e o filho —, ele é uma criança.
— Toda criança desta Casa passa pela mesma prova, Serel.
Você mesma passou.
Doryen ergueu a mão, e a água dos canais ao redor do pátio
começou a se mover — não com a suavidade de uma corrente
comum, mas com uma obediência mecânica, antinatural.
Lâminas finas de água se ergueram no ar, girando devagar sob a
luz fraca das lamparinas.
— O que você está fazendo? — perguntou Serel, a voz mais
alta desta vez.
— O que sempre fazemos. Medimos aquilo que a alma da
criança é capaz de suportar. E poucas coisas revelam isso com
tanta clareza quanto a perda repentina de algo insubstituível.
• • •
Tudo aconteceu rápido demais para qualquer grito sair
completo. Serel deu um passo à frente no instante em que a água
se moveu, tentando se colocar entre o filho e o que estava por
vir. Não foi suficiente. Uma única lâmina de água, precisa como
um bisturi, cortou o ar e a atingiu antes que ela completasse o
movimento.
Ela caiu sem produzir quase nenhum som. Eiji correu, caiu
de joelhos ao lado do corpo dela, as mãos tremendo demais para
tocá-la direito, incapaz de entender por que ela não se movia.
— MÃE!
O que veio a seguir, Eiji só reconstruiria depois, em
fragmentos soltos. O próprio grito continuando até a garganta
não aguentar mais. E uma dor que não era só na alma — uma dor
física, elétrica, subindo pelos braços e explodindo no rosto,
cortando a pele do canto superior esquerdo de sua boca como se
um raio tivesse decidido nascer ali, dentro dele.
Aquilo era sua Marca despertando — anos antes do previsto,
arrancada à força pelo tipo de sofrimento que nenhuma criança
deveria conhecer.
Quando finalmente conseguiu enxergar de novo através das
lágrimas, viu Doryen observando-o com uma expressão que só
podia ser descrita como satisfação.
— Excepcional — murmurou o velho, examinando as
centelhas fracas que ainda dançavam entre os dedos trêmulos do
garoto. — A alma dele é forte. Digna de investimento.
Eiji não entendeu completamente, naquele instante, o peso
daquelas palavras. Entenderia depois, com um horror frio que
nunca o abandonaria: que tinha passado no teste. Que sua mãe
tinha sido o preço da prova. E que, se sua alma tivesse se
revelado fraca demais diante daquela perda, ele — não só ela —
também teria sido considerado descartável.
• • •
A versão contada ao restante da propriedade foi simples e
ensaiada: uma besta havia rompido as defesas externas durante a
noite, e Serel havia morrido protegendo o filho.
— Você vai repetir essa história — disse Doryen, dias
depois. — Para todos. Para sempre. O que aconteceu naquele
pátio não sai destas paredes.
Eiji assentiu, porque não sabia fazer mais nada além disso.
Aprendeu, nas semanas seguintes, a sorrir quando perguntavam
sobre a cicatriz. Aprendeu a contar a mesma mentira ao irmão
mais novo, Renzo, ainda pequeno demais para entender o que
realmente significava perder alguém para sempre. Aprendeu a
repetir a versão oficial sem que a voz tremesse, mesmo quando
cada repetição parecia cravar mais fundo dentro dele.
Quando finalmente demonstrou oficialmente sua Marca
diante do restante da Casa, semanas depois — um desenho
anguloso, como um raio se partindo em três direções, gravado
em prateado sobre o antebraço —, os anciãos anunciaram
publicamente um despertar excepcional, digno da linhagem Mio.
Marca do Trovão.
Ninguém fora daquele pátio soube o verdadeiro preço por
trás dela. E Eiji, por mais que tentasse, nunca mais conseguiu
ouvir o som da água correndo pelos canais da propriedade sem
sentir, em algum lugar fundo demais para alcançar, o eco de um
grito que era seu e não era, ao mesmo tempo.