MARCA DA ALMA
— Capítulo 3 —
O Sorriso do Tio
O quarto de Eiji estava tomado por baús meio abertos
quando o mordomo Kim entrou, batendo de leve na porta já
aberta antes de anunciar a própria presença, como sempre fazia.
— Jovem senhor, ainda não terminou de arrumar? A
carruagem parte ao amanhecer.
Eiji, sentado no chão em meio a uma pilha desorganizada de
roupas, ergueu os olhos com uma expressão que misturava
cansaço e um nervosismo que tentava, sem muito sucesso,
esconder. — Eu não sei o que levar, Kim. Não sei nem o que
esperar de lá.
Kim era, entre todos os empregados da propriedade, o único
que Eiji conseguia tratar com algo próximo de conforto genuíno.
Estava na Casa Mio havia mais de vinte anos, servira o pai de
Eiji quando ainda era jovem, e tinha aquele tipo raro de presença
que parecia deixar qualquer cômodo um pouco mais leve assim
que entrava.
— Ninguém sabe completamente o que esperar na primeira
vez, jovem senhor — disse Kim, ajoelhando-se para começar a
dobrar as roupas espalhadas com uma eficiência calma. — Eu
mesmo nunca pisei na Academia Arcana. Mas ouvi dizer que é
um lugar imenso. Torres que tocam as nuvens, bibliotecas com
mais livros do que qualquer pessoa conseguiria ler em cem vidas
inteiras.
— E se eu não passar no teste de aptidão?
Kim parou de dobrar por um instante, olhando para o garoto
com uma seriedade gentil. — Então o senhor vai voltar pra casa,
e vamos descobrir juntos o próximo passo. Não existe futuro
nenhum, jovem senhor, que valha a pena carregar como se fosse
a única estrada possível.
Eiji quase sorriu com aquilo — quase, porque uma parte
dele, a parte que carregava um segredo pesado demais para
compartilhar até mesmo com Kim, sabia que aquela frase gentil
não era completamente verdadeira. Para ele, havia sim uma
única estrada aceitável, e ela vinha diretamente das expectativas
de uma Casa que já tinha provado, uma vez, o que fazia com
quem considerava insuficiente.
• • •
— Kim — disse Eiji, depois de um momento de silêncio, a
voz mais baixa —, posso te perguntar uma coisa?
— Claro, jovem senhor.
— Você acha que eu sou forte o bastante? Pra Academia,
digo.
Kim parou completamente o que estava fazendo,
encarando-o com uma atenção que Eiji raramente recebia de
qualquer outra pessoa na propriedade. — Eu acho, jovem senhor,
que força não é só o que sua Marca consegue fazer. Eu vi o
senhor crescer. Vi como cuida do jovem Renzo, como carrega
coisas que nenhuma criança deveria precisar carregar sozinha —
Kim hesitou, sem saber exatamente do que falava, apenas
sentindo, com a intuição de quem observava a família havia
décadas, que havia algo mais fundo ali. — Isso também é força.
Talvez até mais rara do que qualquer centelha que sua Marca
seja capaz de soltar.
Eiji baixou os olhos, sentindo um nó incômodo na garganta.
— Obrigado, Kim.
— Agora — disse o mordomo, retomando o trabalho com as
roupas, a voz voltando ao tom prático de sempre —, vamos
terminar isso antes que o Ancião Doryen venha pessoalmente
conferir se o senhor já está pronto. Sabe como ele é com
pontualidade.
• • •
Como se o próprio nome tivesse o poder de invocá-lo, uma
batida seca soou na porta poucos minutos depois, e Doryen
entrou sem esperar resposta, como sempre fazia — o único na
propriedade, além dos próprios pais de Eiji quando ainda vivos,
que se permitia esse tipo de liberdade.
— Kim, pode nos deixar a sós — disse o ancião, o tom gentil
o suficiente para qualquer estranho confundir com verdadeira
bondade.
Kim curvou-se levemente e saiu, fechando a porta atrás de si,
deixando Eiji sozinho com o homem que, dois anos antes, tinha
orquestrado a morte da própria mãe diante de seus olhos — e
que, desde então, assumira publicamente o papel de tio protetor,
o guardião gentil que cuidava dele e do irmão mais novo na
ausência dos pais.
Ninguém além dos dois sabia da verdade por trás daquele
papel. E Eiji, apesar de tudo, tinha aprendido — porque não
tivera escolha — a representar, diante de Doryen, o papel
complementar: o do sobrinho grato.
• • •
— Sente-se comigo um momento, Eiji — disse Doryen,
ocupando a única cadeira do quarto, deixando a beirada da cama
para o garoto.
Eiji obedeceu, o corpo tenso apesar do esforço consciente
para manter a postura relaxada.
— Amanhã é um dia importante — continuou Doryen, a voz
carregando aquele mesmo tom calmo e medido que Eiji tinha
aprendido, ao longo de dois anos, a temer profundamente por
baixo da aparência gentil. — A Academia Arcana só aceita quem
realmente demonstra potencial. Você entende o que isso
significa para esta Casa?
— Que eu preciso passar — respondeu Eiji, a voz mais
neutra do que gostaria.
— Que você precisa ser digno do nome que carrega —
corrigiu Doryen, os olhos fixos nele com uma intensidade que
fazia a pele de Eiji se arrepiar, mesmo depois de tanto tempo. —
Lembra da noite do seu despertar, Eiji?
A pergunta cortou o ar do quarto como uma lâmina. Eiji
sentiu o próprio corpo travar por um instante, o eco distante
daquele pátio escuro ameaçando engolir tudo de novo.
— Lembro — respondeu, a voz mais baixa.
— Você provou, naquela noite, que sua alma é forte — disse
Doryen, sem qualquer traço de remorso na voz, como se falasse
de um exame comum, não da morte de uma mulher que ele
mesmo tinha causado. — Não desperdice essa prova amanhã.
Não me faça questionar o investimento que esta Casa fez em
você.
• • •
Eiji encarou o próprio tio por um longo momento, sentindo,
por baixo da superfície calma que tinha treinado tanto para
manter, uma raiva antiga queimando com uma intensidade que
quase o assustava.
Queria gritar a verdade. Queria contar a Kim, a Renzo, a
qualquer um que estivesse disposto a ouvir, exatamente o tipo de
monstro que se escondia atrás daquele sorriso calmo e daquelas
palavras cuidadosamente medidas. Mas sabia — porque Doryen
tinha deixado absolutamente claro, mais de uma vez — que
revelar a verdade colocaria em perigo não apenas a si mesmo,
mas o único irmão que lhe restava.
— Não vou desperdiçar — disse Eiji, finalmente, engolindo
a raiva junto com as próprias palavras.
Doryen sorriu — um sorriso que, para qualquer estranho,
pareceria genuinamente orgulhoso. — Sabia que podia contar
com você. — Ele se levantou, ajeitando as próprias vestes antes
de caminhar até a porta. — Descanse bem esta noite. Amanhã
você representa não só a si mesmo, mas toda a memória da sua
mãe. Tenho certeza de que ela ficaria orgulhosa.
A frase pousou no peito de Eiji como uma pedra afiada, e ele
esperou, com o rosto cuidadosamente neutro, até que a porta se
fechasse completamente atrás do ancião antes de finalmente
permitir que os próprios ombros desabassem, o corpo inteiro
tremendo com o peso de manter aquela mentira viva por mais
uma noite.
• • •
Kim voltou minutos depois, encontrando Eiji sentado imóvel
na beira da cama, os olhos fixos no vazio.
— Jovem senhor? Está tudo bem?
Eiji ergueu os olhos, forçando um pequeno sorriso que não
enganava completamente ninguém que prestasse atenção de
verdade — mas Kim, gentilmente, decidiu não insistir.
— Só nervoso com amanhã — disse Eiji, o que não era
mentira completa, apenas uma fração pequena demais da
verdade inteira.
— É natural — respondeu Kim, retomando o trabalho de
arrumar os baús. — Mas o senhor vai se sair bem, jovem senhor.
Eu tenho certeza absoluta disso.
Eiji assentiu, sem argumentar, e ajudou a terminar de
arrumar o próprio baú em silêncio, a cabeça ainda pesada demais
com as palavras de Doryen para conseguir pensar em qualquer
outra coisa naquela noite.