MASMORRA DOS OSSOS
Capítulo 1 – O Presságio das Maldições
Uma ave de penas negras rasgou o céu cinzento.
Planava em silêncio sobre uma floresta antiga, onde árvores colossais se entrelaçavam
como ossos de um gigante adormecido. O vento fazia as copas rangerem, sussurrando
segredos esquecidos pelo tempo — avisos que ninguém mais parecia ouvir.
Algo profano despertava naquele lugar.
A ave inclinou as asas e desapareceu entre as nuvens.
***
No chão da floresta, três figuras avançavam entre raízes retorcidas e uma névoa espessa
que se agarrava aos tornozelos como mãos invisíveis.
Ton caminhava à frente.
Sob a roupa simples, marcas ancestrais estavam gravadas em sua pele. Símbolos vivos,
pulsando com um poder instável, como se respirassem junto a ele. Eram o selo de sua
maldição — e, ao mesmo tempo, sua única salvação.
Amaldiçoado pela Deusa das Ninfas, Ton deveria vagar pelo mundo como uma besta
sanguinária, guiada apenas pelo instinto de destruição. Muitos antes dele haviam
enlouquecido. Outros simplesmente desapareceram.
Ele, porém, resistiu.
As marcas não apenas reprimiam sua forma bestial, como também lhe concediam
habilidades que Ton ainda não compreendia por completo. Cada uso era um risco. Cada
batalha, uma tentação.
Ao seu lado caminhava Karl.
A aparência era humana, mas o olhar denunciava a mentira. Havia algo antigo e cruel
escondido ali. Karl era um demônio condenado a viver como homem, privado de sua
verdadeira forma e da maior parte de seus poderes. A eternidade pesava em seus ombros,
e o mundo mortal jamais lhe pareceu mais que uma prisão mal iluminada.
Flutuando próxima aos dois estava Gremi.
Uma fada.
Ou o que restava de uma.
Amaldiçoada a jamais reencontrar seu mundo de origem, suas asas outrora radiantes agora
emitiam um brilho fraco e instável, como uma chama prestes a se apagar. Ainda assim, uma
magia antiga e inquietante emanava de sua presença, fazendo a própria floresta reagir à
sua passagem.
Apesar de origens tão distintas, os três compartilhavam o mesmo objetivo.
A lendária Masmorra dos Ossos de Dragão.
Reza a lenda que, em seu núcleo, repousa um artefato proibido: o Orb Primordial. Um
objeto de poder absoluto, capaz de criar ou remover maldições — ou conceder habilidades
que desafiam as leis do mundo.
Para Ton, Karl e Gremi, o Orb não era apenas um tesouro.
Era redenção.
E, talvez, a ruína definitiva.
***
O sol desaparecia quando a floresta mergulhou em um silêncio opressor.
A névoa, antes dispersa, começou a se concentrar entre as árvores, trazendo um frio úmido
que parecia penetrar até os ossos. Foi então que o som surgiu.
Risos.
Vozes humanas.
Ton ergueu a mão, sinalizando para os outros pararem.
À frente, três homens estavam reunidos em torno de uma fogueira improvisada. Riam alto
demais. Falavam demais. Viviam demais — algo raro para quem ousava permanecer
naquela floresta após o cair da noite.
As marcas sob a pele de Ton pulsaram.
Sempre pulsavam quando o sangue estava prestes a ser derramado.
Ainda não, disse a si mesmo.
— A carruagem passa por aqui ao amanhecer — disse um dos homens, jogando um
pedaço de madeira na fogueira. — O velho guarda sempre cochila. Vai ser fácil.
— E a garota? — perguntou outro, com um sorriso torto.
— Precisa estar viva — respondeu o primeiro. — É a garantia da recompensa. Nosso lorde
prometeu ouro… e poder.
O estômago de Ton se contraiu.
Gremi pairava próxima, as asas tremeluzindo em um brilho quase invisível.
— Eles não pertencem a este lugar — sussurrou. — A floresta está inquieta.
Karl cruzou os braços.
— Humanos sempre acreditam que a noite está do lado deles — murmurou. —
Normalmente é quando erram… e decoram o chão com as próprias entranhas.
Ton respirou fundo. As marcas queimavam, exigindo liberdade. Carne. Sangue.
Mas ele não era mais um escravo.
— Vamos agir quando se separarem — disse em voz baixa. — Sem alarde.
O tempo passou lento. A fogueira estalava. Os homens bebiam, riam, relaxavam.
Até que um deles se levantou.
— Vou mijar.
Ele se afastou, desaparecendo entre os arbustos.
Ton abriu os olhos.
— Agora.
Seu corpo deslizou pelas sombras com uma naturalidade inquietante. Quando o homem
percebeu algo errado, já era tarde demais. Uma mão fechou sua boca. A lâmina fez o resto.
Nenhum grito.
Apenas um breve estremecer.
O corpo foi acomodado no chão, como se dormisse.
As marcas brilharam um segundo a mais do que deveriam.
Controle.
Karl surgiu atrás do segundo homem como um espectro. Um único golpe preciso. O corpo
caiu pesado.
O último bandido percebeu tarde demais.
— Ei… cadê o—
Gremi ergueu a mão.
O ar se distorceu. Um peso invisível o esmagou contra o chão, arrancando-lhe o fôlego. Ele
tentou gritar, mas a voz morreu antes de nascer.
Ton se aproximou, a lâmina ainda pingando.
— Fale — disse calmamente. — E talvez veja o amanhecer.
Entre lágrimas e soluços, o homem contou tudo: o mercador de capuz preto, a ordem, a
garota na carruagem vinda de Nido. Havia outros à frente, seguindo o veículo à distância.
Quando terminou, restava apenas o crepitar da fogueira.
— Amarre-o — disse Ton a Karl. — Vamos avisar a carruagem.
— E depois? — perguntou o demônio.
Ton olhou para o céu encoberto, onde a lua lutava para aparecer.
— Depois seguimos nosso caminho.
Gremi franziu o cenho.
— A Masmorra dos Ossos de Dragão fica na mesma direção de Nido.
Um sorriso sem humor surgiu nos lábios de Ton.
— Parece que o destino não gosta de linhas retas.
No alto, distante e silenciosa, uma ave de penas negras observava.
O presságio havia sido lançado