A estrada que levava ao reino de Nido era estreita e antiga, marcada por sulcos profundos deixados por incontáveis carruagens ao longo dos séculos. Àquela hora da noite, envolta pela névoa e pelo canto distante de insetos noturnos, ela parecia mais um caminho esquecido do que uma rota real.
A carruagem surgiu pouco antes da meia-noite.
Era simples demais para algo importante. Madeira escura, rodas gastas, nenhum brasão visível. Apenas dois guardas cavalgavam à frente, ambos atentos, mãos próximas às armas.
— Disfarce — murmurou Karl. — Um dos bons.
Ton observava em silêncio, escondido entre as árvores. As marcas em sua pele reagiram de forma diferente desta vez. Não com fúria… mas com um incômodo estranho, quase um alerta.
Por quê?
Gremi inclinou a cabeça, sentindo algo que os outros não podiam ver.
— Há uma aura protegida ali — sussurrou. — Antiga. Selada.
Antes que pudessem comentar, a noite foi rasgada por um grito.
Os bandidos restantes — aqueles que não estavam no acampamento — surgiram da mata, atacando com brutalidade. Um dos guardas caiu antes mesmo de sacar a espada. O outro tentou reagir, mas foi derrubado do cavalo.
A carruagem parou bruscamente.
— Agora — disse Ton.
Ele avançou.
O combate foi rápido e violento. Ton se movia como uma sombra viva, desviando de golpes por centímetros. Karl lutava com precisão fria, cada movimento calculado. Gremi mantinha os inimigos desorientados, distorcendo o ar ao redor deles.
Em poucos instantes, restaram apenas corpos e o cheiro metálico de sangue fresco.
O silêncio voltou.
Da carruagem, uma voz feminina ecoou:
— Já acabou…?
Ton se aproximou lentamente.
A porta se abriu com cuidado.
A jovem que desceu não parecia uma nobre. Vestia roupas simples de viajante, capa grossa, botas gastas. Os cabelos escuros estavam presos de forma prática, e o rosto, embora bonito, carregava poeira e cansaço.
Mas seus olhos…
Seus olhos não pertenciam a uma camponesa.
Eram firmes. Atentos. Treinados.
— Quem são vocês? — perguntou ela, avaliando cada um deles.
Ton hesitou por um segundo antes de responder.
— Pessoas que impediram um crime.
Ela observou os corpos, depois voltou o olhar para ele.
— Então chegaram na hora certa.
Havia algo errado naquela resposta.
Karl cruzou os braços.
— Você não gritou. Não se desesperou. Nem perguntou pelos guardas.
Um leve sorriso surgiu nos lábios da garota.
— Porque eu já sabia que eles morreriam.
O ar ficou pesado.
Gremi se aproximou, flutuando diante da jovem.
— Você carrega um selo real — disse a fada, em voz baixa. — E uma magia que tenta se esconder… mas falha.
A garota fechou os olhos por um instante.
Quando os abriu, havia decisão neles.
— Meu nome… por enquanto… é Lys — disse. — E eu não deveria estar viva esta noite.
Ton sentiu as marcas queimarem de novo.
Não por sangue.
Mas por destino.
— Você é de Nido — disse ele.
Ela assentiu.
— Mais do que imagina.
O vento soprou mais forte, balançando as árvores. Ao longe, algo respondeu — um eco antigo, profundo.
Karl suspirou.
— Parece que acabamos de nos envolver em algo maior do que queríamos.
Lys olhou para Ton, fixando-se nas marcas em sua pele.
— Essas marcas… — murmurou. — Eu já vi algo parecido… nos arquivos proibidos do castelo.
Silêncio.
A princesa de Nido sorriu, sem revelar mais nada.
— Se estão indo em direção à Masmorra dos Ossos de Dragão — disse ela — então nossos caminhos acabaram de se tornar um só.
E, naquela noite, sem saber, Ton compreendeu:
Salvar aquela garota talvez fosse o primeiro passo…
Para destruir tudo o que ele acreditava saber sobre sua própria maldição…
A ave de penas negras cortava o céu noturno em silêncio absoluto.
Suas asas não agitavam o vento. Apenas deslizavam, como se o próprio ar cedesse à sua passagem. Lá de cima, a floresta ancestral parecia um organismo vivo — respirando, observando… esperando.
Os olhos da ave brilharam.
E, em um lugar onde o tempo não tinha significado, alguém enxergava através deles.
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O homem do capuz permanecia imóvel diante do espelho negro. A superfície ondulava lentamente, refletindo cenas da floresta: sombras em movimento, sangue recém-derramado, três figuras avançando com cautela.
Ele viu tudo.
Viu o plano de Ton se formar.
Viu a hesitação antes do ataque.
Viu a escolha pelo controle, e não pela carnificina.
E não fez nada para impedir.
Não por desinteresse.
Mas por curiosidade.
— Interessante… — murmurou.
Seus dedos tocaram o cristal ao lado do espelho. Símbolos antigos reagiram, pulsando como um coração adormecido.
— Um amaldiçoado que resiste ao próprio instinto — disse, a voz carregada de genuína atenção. — Um demônio que aceita a fraqueza da carne. E uma fada que se recusa a desaparecer.
O espelho focou em Ton.
As marcas em sua pele ardiam sob a imagem refletida. Não eram comuns. Não pertenciam a nenhuma escola conhecida de magia ou divindade reconhecida.
— Você deveria ter se perdido — sussurrou o homem do capuz. — Mas escolheu permanecer.
Ele sorriu sob o tecido escuro.
— Quero ver até onde isso vai.
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A imagem mudou.
A jovem de Nido surgiu no reflexo, envolta pela luz trêmula da fogueira. O selo oculto em seu corpo reagiu à observação, emitindo um brilho quase imperceptível.
— E você… — disse ele, com um tom diferente. — Você é a chave que não sabe que é uma chave.
A ave no céu girou lentamente, acompanhando o grupo à distância.
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Ton parou de repente.
Um peso invisível pressionou seu peito.
— Estamos sendo observados — disse, em voz baixa.
Gremi levou a mão ao coração, as asas tremendo.
— Não é hostilidade… — murmurou. — É… análise.
Karl estreitou os olhos.
— Alguém decidindo se valemos o esforço.
A ave bateu as asas uma única vez.
Longe dali, o homem do capuz se afastou do espelho.
— Não agora — disse. — Ainda não.
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Das sombras da sala, algo se moveu.
Uma figura emergiu lentamente da escuridão, como se fosse costurada a ela. Sua presença era pesada, distorcendo o ar ao redor. O rosto permanecia oculto, mas seus olhos brilhavam com um brilho faminto.
— Mestre — disse a criatura, ajoelhando-se. — Permite que eu vá até eles?
O homem do capuz não se virou.
— E por quê faria isso agora? — perguntou, com calma.
— Quero testar — respondeu o servo. — Ver se são dignos da atenção que recebem.
Houve silêncio.
Então, um leve gesto da mão.
— Não os mate — disse o homem do capuz. — Quero observá-los… quebrados, se possível.
O servo sorriu na escuridão.
— Como desejar.
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A ave negra descreveu um último círculo no céu…
E então desapareceu entre as nuvens.
O homem do capuz fechou os olhos.
— Vamos ver, Ton — murmurou. — Se sua força vem da maldição… ou da escolha.
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CAIXA DE NARRAÇÃO FINAL:
Alguns testes não buscam vitória.
Buscam confirmação