O conhecimento da história sobrevive há milhares de anos graças à criação da escrita. No entanto, a verdadeira compreensão da história só pode ser plenamente apreciada por aqueles que a viveram. A história escrita pode revelar o passado da humanidade em grandes detalhes, mas ela sempre nos mostrará o ponto de vista daqueles que a escreveram, que geralmente eram homens ricos e instruídos. O ponto de vista das pessoas comuns e suas experiências costuma ser esquecido, e apenas uma testemunha ocular viva pode explicar como realmente foi fazer parte da história.
Em uma noite comum e movimentada na cidade de São Paulo dos dias atuais, as luzes de uma típica cidade moderna iluminavam as nuvens acima e transformavam a noite em dia. Todos viviam suas vidas cotidianas: trabalhadores dirigiam de volta para casa por ruas congestionadas, adolescentes se reuniam em shoppings para passar o resto do dia juntos após a escola, e outros simplesmente estavam em casa preparando o jantar enquanto assistiam ao noticiário local. A tecnologia sempre mudou o estilo de vida humano, mas o comportamento humano permaneceu praticamente o mesmo desde o início. Havia, porém, uma exceção naquela noite comum. Entre os milhões de pessoas vivendo suas vidas normais, uma pessoa peculiar enfrentava um problema incomum.
Em uma delegacia de polícia, uma mulher esperava completamente sozinha em uma sala de interrogatório por um crime que ela de fato havia cometido. A mulher era muito atraente e aparentava ter 18 anos. A primeira coisa que qualquer pessoa notaria nela seriam as muitas tatuagens exóticas em seus braços, especialmente porque ela vestia uma regata vermelha. Ela também tinha algumas tatuagens no rosto. A segunda coisa que chamaria a atenção seria seu cabelo ruivo natural, na altura dos joelhos. Além da regata vermelha, ela usava uma calça larga preta de estilo skatista e botas pretas de plataforma. As tatuagens eram todas pretas e pareciam estar conectadas em um único desenho ao redor de seu corpo; a única exceção era uma rosa branca tatuada em seu ombro direito. Suas mãos descansavam sobre a mesa enquanto ela esperava, séria e pacientemente, que alguém viesse falar com ela.
Após alguns minutos, um detetive entrou na sala. Ele vestia um uma roupa social, típico de detetive, com as mangas da camisa dobradas até os cotovelos e uma arma no coldre. O detetive carregava uma pasta em uma das mãos, enquanto na outra segurava um gravador e um caderno. Sem dizer uma única palavra, lançou um breve olhar para a mulher, fechou a porta atrás de si e sentou-se do lado oposto da mesa, colocando a pasta, o caderno e o gravador sobre ela. Ele abriu a pasta e examinou rapidamente os arquivos, enquanto a mulher o observava em silêncio e com seriedade. Após alguns segundos, ele parou de folhear os documentos e ligou o gravador. Respirou fundo e olhou para a mulher, que o encarava sem medo.
— Bem, antes de tudo, boa noite — disse o detetive.
A mulher não respondeu, então ele continuou:
— Eu sou o detetive Costa e, como você está aqui por uso de documentos de identidade falsos, é seguro assumir que você não é a Srta. Angelines Fernández, como consta em seu passaporte. A única coisa em que confio nesse passaporte é que você é de Barcelona, já que notamos um sotaque espanhol e seu apartamento tinha muitos elementos que indicam que você é da Catalunha. Então, poderia nos dizer seu verdadeiro nome?
Ainda não houve resposta da mulher ruiva, então o detetive Costa abaixou o olhar para os arquivos e continuou:
— Você foi detida por falsificação de documentos de identidade, mas já vinha sendo investigada há algum tempo por um motivo completamente diferente.
Ele pegou um arquivo específico, ergueu-o até o rosto para analisá-lo e prosseguiu:
— Há cerca de dez meses, Camila Sousa, de dezoito anos, foi dada como desaparecida no bairro do Morumbi. Ela ainda não foi encontrada. O estranho é que, menos de quarenta e oito horas depois, nosso banco de dados biométrico encontrou impressões digitais idênticas às da jovem Camila.
Ele colocou o arquivo sobre a mesa e olhou diretamente nos olhos da mulher.
— As impressões digitais dela correspondiam perfeitamente às de uma senhora desconhecida, aparentemente na casa dos oitenta e três anos, que morreu de ataque cardíaco e foi encontrada na Zona Sul de São Paulo, onde avistamos você pela primeira vez. A análise de DNA confirmou que as duas eram a mesma pessoa. Você pode nos explicar como uma jovem de 18 anos envelheceu quase sete décadas em menos de quarenta e oito horas?
Ele aguardou uma resposta, mas a mulher permaneceu em silêncio, ainda encarando-o. Sem obter resposta, voltou a olhar para os arquivos na pasta e continuou:
— Embora os pais tenham achado a senhora idosa muito parecida, eles não confirmaram que o corpo era o mesmo. Amigos e parentes de Camila nos disseram que, antes de seu desaparecimento, ela havia sido vista duas vezes conversando com uma estranha senhora idosa. Essa mulher aparentava ter cerca de oitenta e cinco anos, tinha tatuagens em todas as partes visíveis do corpo, cabelo branco na altura dos joelhos e falava com sotaque espanhol.
Ele olhou para ela mais uma vez, mas a reação permaneceu a mesma.
— Essa senhora idosa cometeu um erro. Ela deixou para trás um fio de cabelo.
A expressão da mulher mudou quando seus olhos se arregalaram levemente, em surpresa. O detetive percebeu a mudança e soube o que aquilo significava, então continuou:
— Os resultados do teste de DNA saíram. A suspeita senhora idosa de sotaque espanhol é você.
A expressão do rosto da mulher voltou ao normal e ela falou pela primeira vez, calmamente e com sotaque espanhol:
— Você é ridículo.
— O cabelo branco dela e o seu cabelo ruivo também estavam no corpo encontrado — continuou o detetive.
— Então me diga, como isso é possível? — perguntou ela, muito confiante e desafiadora.
O detetive se inclinou sobre os arquivos, ainda encarando-a, e prosseguiu:
— Você esqueceu que revistamos seu apartamento? Nunca vi tanto material de bruxaria em toda a minha vida quanto vi sem eu apartamento.
Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos, pensativa, e então esboçou um leve sorriso irônico.
— Muito bem, tente me prender. Encontre um juiz que condene alguém por usar magia. Essa é a coisa mais absurda que já ouvi na minha vida.
— Ah, não podemos prendê-la por isso — disse ele, recostando-se na cadeira. — Mas podemos prendê-la por falsificação de documentos de identidade.
Ela franziu as sobrancelhas, confusa, e perguntou:
— Então por que você está falando toda essa bobagem de bruxaria?
— Porque eu vi seus livros, examinei alguns feitiços. Se você pode fazer tudo aquilo e mais, isso seria muito útil para o meu trabalho. Em troca da sua ajuda, posso alterar meu relatório e poupá-la da prisão.
— Então eu tenho que admitir que sou uma bruxa, ajudar você em seus casos, e você me livra da prisão?
— Exatamente.
— E então você vai me enganar e me prender pela minha confissão.
— Não, não, absolutamente não. Como você mesma disse, ser bruxa não é crime, e ninguém acreditaria em mim se eu dissesse que você é uma.
A mulher permaneceu em silêncio por alguns segundos, muito pensativa, considerando a estranha proposta do detetive e seus riscos. Nunca lhe haviam pedido algo assim antes; qualquer coisa poderia acontecer. O detetive esperou pacientemente pela resposta dela até que, finalmente, ela falou:
— Eu só preciso dizer que sou uma bruxa?
— Não. Eu já acredito que você seja. O que eu quero é que você me convença de que posso confiar em você.
Ela permaneceu confusa e em silêncio por um momento ao ouvir aquele pedido estranho, e então perguntou:
— Como eu farei isso?
— Você me conta quem você é e toda a sua história. E lembre-se de dizer apenas a verdade. Lembre-se de que estou gravando isso.
— Toda a minha história? Isso vai ser um pouco complicado.
— Apenas faça o melhor que puder.
— Como eu começo?
— Com o seu verdadeiro nome.
— Muito bem. Meu verdadeiro nome é Mireia, e eu nasci na Catalunha, mas não na Espanha. Naquela época, a Catalunha era um país livre.
— Espere… isso não foi há muito tempo atrás?
— Sim.
O detetive olhou para ela, confuso por um instante, e então perguntou:
— De que ano estamos falando?
— Eu nasci em 1122.